sábado, 2 de agosto de 2008

RIBEIRA - 44


Aviões da Panair

A Panair do Brasil viveu seus mais de 30 anos cruzando o céu desse país. Sua agência, em Natal (Rn) ficava no prédio do Grande Hotel, no bairro da Ribeira, ponto do comércio da cidade. Para muitos, a Panair servia de elo de ligação com o imenso Brasil, levando e trazendo gentes e mercadorias dentre muitas outras coisas. Ninguém esperava que o Governo Brasileiro extinguisse a companhia, como o fez. Mesmo assim, desmembrando os seus aparelhos para outras empresas que se formavam, o fim da Panair de longe foi o seu fim. Ela sobreviveu, mesmo com outros nomes em seus "Constellation" que cruzaram esse pais ao longo dos ano 1930 a 1960.

Quando meu tio, José Leandro, teve que ir ao Rio Grande do Sul, ele preferiu seguir viagem pelo um aparelho da Panair. Ele mesmo foi comprar um bilhete de vou, na sede da empresa, no Grande Hotel e seguir no outro dia em veículo da própria empresa que foi lhe pegar em casa e levá-lo ao Aeroporto de Parnamirim. Do mesmo jeito a empresa procedeu durante o seu retorno a Natal, nos ídos dos anos de 1938. A Panair era uma verdadeira "fortaleza voadora" pela segurança que oferecia aos seus passageiros e tripulantes ao longo dos anos em que esteve no ar. Ela, sem dúvidas, foi a primeira companhia aérea do Brasil, apesar de ter sua origem nos Estados Unidos.

Quando em terra, em Natal, toda a tripulação ficava alojada nos apartamentos do Grande Hotel, salvo no período da IIª Guerra Mundial quando para proteção dos ases do céu, havia o critério deles ficarem alojados nas dependências dos modestos hotéis do campo de aviação, em Parnamirim. Ainda assim, durante o dia, as moças que cumpriam o papel de aeromoças, sempre que sentiam a necessidade de vir a cidade, tinham toda a permissão. Com os Escritórios em Natal, a Panair mantinha um elo entre a vila de Parnamirim que naquela época (1942-1945) quando o Brasil entrou na Guerra, era uma historia de estreita dependência, afinal, Parnamirim era só um campo de pouso cercado de casinhas de gente humilde e por isso, ele somente chegava a condição de vila.

No tempo da Guerra havia festa nos tradicionais salões do Grande Hotel e, também, nos ricos belos salões de baile do Aero-Club, bem como do Brasil Clube. Eram esse três locais que eram frequentados quase que de forma obrigatório pelos praças norte-americanos e em contra-partida, pelas aeromoças que faziam o vou nos aparelhos da companhia Panair do Brasil. Em tais ocasiões, sempre nos finais de semana, sábados e domingos, José Leandro sempre se fazia presente para alegrar um espírito de um bom vivant. As belas e encantadoras aeromoças se faziam presentes, porém, mantendo uma larga distancia da população interessada da terra nativa. Mesmo assim, a sua candura resplandecia nos salões de baile do clubes aristocraticos das tradicionais familias riograndenses do norte.

Quando um "Constellation" da Panair fazia um vou sobre a cidade, com sua monumental fuzelagem brilhando ao sol, era de se ver as crianças, nas ruas olhando aquele cruzeiro passando tão rápido, zoando como se fosse para anunciar que ali voava um avião da primeira companhia brasileira de aviação. Na verdade, a extenção do pais fez com que a aviação comercial tivesse um impulso vertiginoso nos anos de 1930 a 1960. Na década de 1950, operavam cerca de 16 empresas brasileiras. Porém, com a crise que se abateu o pais, em 1965, obrigou o governo a reduzir o número a 4 empresas, findando desse modo a Panair que foi fundida à VARIG e Cruzeiro do Sul. Então, já não havia mais uma razao para se dizer que somente a "Constellation" fazia o vou através do Brasil. Tinha entao os modernos modelos Boeing para fazer frente. Acabou-se a era de ouro dos aparelhos da Pan.

RIBEIRA - 43

Lagosta apanhada por pescadores em alto mar.

Nos idos de 1950, quando a pesca da lagosta era permitida em qualquer tempo, certa vez, ancorou um barco de pescado no Cais da Avenida Tavares de Lyra com um carregamento de várias espécies de peixes e também trazia uma bela e maravilhosa lagosta ainda viva que os pescadores pegaram em mar alto, talvez uns quatro dias de viagem da costa. A lagosta, de antenas gigantérrimas, assombraram os mais afoitos banhistas do rio que ali frequentavam costumeiramente, todos os dias para dar o seu mergulho habitual da manhã ou da tarde. A garotada era costumeira em tomar banho de rio, pulando dos degraus o da mureta do Cais. Porém, nesse dia, as atenções estavam voltadas para o que havia pegado o barco, em alto mar, mais perto de Angola, do outro lado do oceano, no território africano.

A lagosta era de um tamanho longo, pesando quase dois quilos e para os que admiravam a espécie, dava muito bem para uma lauta refeição, quando vendida e a quem a comprasse. O crustáceo, para aqueles que admiravam, era de uma rara espécie, talvez com uns bons anos de vida. É costume de uma lagosta, que vive em bando, habitar todos os mares inter-tropicais, desde rochas costeiras até a grandes profundidades. Lagosta era apanhada de há muito, para exportação com destino à França onde os franceses admiram a sua refeição. Isso, desde a época da descoberta do Brasil. E por todos esses tempos se importava lagosta para vários países, como Portugal, Espanha, e mesmo Estados Unidos.

Para a pescaria de lagosta, um crustáceo bem mais saboroso que um pitu, um camarão ou mesmo caranguejo demora sempre, pois é à noite onde elas se mais depreende e os pescadores costumavam usar redes, vez que naquele tempo não havia equipamentos mais modernos, para poder pegar o crustáceo. As tocas das lagostas, quando não andam em bando pelo fundo do mar, eram buracos nas formações rochosas e foi em um desse que o pescador conseguiu retirar a enorme e talvez saborosa lagosta. O barco pertencia a Luís Romão, dono de uma frota de barco de pesca e de lanchas que, de imediato foi alertado por um tripulante da embarcação que aquela pesca tinha algo mais.

Foi então que, saindo de suas obrigações em sua Agência de Jornais, o homem seguiu quase apressado, para ver a sua enorme e bela lagosta. Então, ele mesmo tomou a decisão de que aquele crustáceo seria doado ao Major Thedorico Bezerra desde que ele fizesse um almoço para os convidados especiais, dentre esses, Jossé Freire, Luís de Barros,Aluizio Alves, José Leandro e o próprio Luís Romão. E foi assim que o Major acertou e o almoço foi uma grande festa, regado a vinhos e uisque para todos os gostos, entre uma baforada e outra de um charuto Swerdick, ponto maior daquele sacrifício da indefesa lagosta, já morta, mostrando a sua cor vermelha de um casco cozido por um exímio cozinheiro do famoso Grande Hotel.

As lagostas espinhosas, na sua maioria, são originárias do Brasil, porém encontradas também nos mares de Cuba, Africa e Nova Zelandia. O seu cultivo, com o decorrer do tempo, feito em tanques de fibra, dá a espécie uma aimentação oferecida duas vezes por dia de acordo com o peso da lagosta. O método de engorda é relativamente simples quando comparado ao utilizado para a maioria dos crustáceos.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

RIBEIRA - 42

Charutos de boa marca

A avenida Duque de Caxias, no bairro da Ribeira, em Natal (Rn) era, na época de 50 (ano de 1950 e mais para trás) uma das que maiores movimentos fazia, pois as importantes casas de comércio e repartições estavam ali. Repartições como a Caixa Econômica Federal, dona de um grande movimento de gente fazendo o penhor de suas jóias, ou retirando dinheiro e mesmo fazendo depósitos em suas contas-correntes e até mesmo comprando os bilhetes da Loteria Federal. A rua era um verdadeiro escoadouro de pessoas ou procurando emprego ou mesmo fazendo mandados. Havia na avenida uma casa que era especializada no comércio da venda de charuto. A casa ficava em um edificio de dois andares e ela ficava no andar térreo. Uma espécie de uma enorme garagem com um balcão a cerca de dois ou tres metros na vertical depois da entrada e dali, rodeada de imensas estantes que abrigavam caixas e pacotes enormes de charutos. Seu dono era o velho Maux e o seu filho, Paulo, faziam a vez de despachar quem procurasse ali charuto Swerdick ou mesmo de outra marca para comprar.

A casa, se tinha nome, eu não sabia. O que eu sabia de verdade era que ali se vendia charutos. E, vez por outra eu entrava na loja onde era recebido por Paulo Maux, um jovem ainda talvez dos seus 25 anos de idade. Ele, sempre atencioso - como toda gente que despachava - com certeza por intuição, já bem que sabia o que eu estava a procurar: um bom e insuperável charuto swerdick, anel de ouro, marca registrada de um bom fumante, como assim era o meu tio. Sempre solícito, com um amplo sorriso na face, gordo por demais, Paulo já trazia nas mãos uma caixa de seus 20 centímetros de comprimento por outros 15 de largura com uma tranca parecendo de ouro fechando a caixa que era envelopada por um papel salofane, muito liso e transparente, deixando à mostra toda a caixa feita em madeira de puro cedro para conservar o melhor gosto do seu charuto. Costumeiramente eu sempre estava alí, na Loja do Senhor Maux para adquirir uma caixa dos exuberantes charutos feitos no Rio de Janeiro que emanavam um perfumoso aroma impregnando todo o ambiente.

Quem fuma um bom charuto sempre procura ter em seu bolso um delicioso tabaco de qualidade para logo após um bom café. Nos anos 50, a moça deleitava-se com o seu namorado ao vê-lo com o seu charuto a soltar as gostosas fumaças em seu derredor.Para um bom fumante, o charuto faz a vez com uma bebida ou um café. Eles não brigam até porque já estão íntimos e a amizade vai durar por toda uma vida. Os charutos cubanos são os mais procurados e, por isso mesmo, os mais caros do mundo. No entanto, tem o Brasil, República Dominicana, Panamá e Costa Rica um vetusto arsenal de tabaco oriundos para todos os gostos e tipos. Em Cuba, se tem o melhor charuto ou cigarrilha onde rende ao País a terceira maior renda de mercado, ficando atrás de cana-de-açúcar e do café. Na ilha, já em tempos mais remotos, as próprias mulheres eram exímias fumantes, iguais com os homens.
Há, hoje em dia, publicações sobre a origem do charuto e estes informes adiantam que o tabaco surgiu no México, há dois mil anos . Tempos depois, os Maias descobriram a folha e disseminaram por toda a região. Na Europa, o tabaco só veio a ser conhecido após a viagem de Cristóvão Colombo. Porém, em nada de literatura meu tio estaria preocupado. Na verdade, ele queria apenas degustar um excelente charuto brasileiro. Nas minhas andanças pela a Avenida Duque de Caxias, ao passar na Casa de Maux, do lado esquerdo de quem vem das Rocas, nesse prédio de dois andares, onde havia outras lojas de coisas diversas até a Rua 15 de Novembro, eu tinha a minha atenção voltada para o que estava guardado num salão imenso cheio de charutos ou cigarrilhas, como também eram chamados os tabacos. Paulo Maux , certa vez, foi eleito Rei Momo do Carnaval de Natal e assim ficou por muitos outros carnavais, sendo considerado o Rei Momo Eterno do Carnavais que eram feitos em Natal.


quarta-feira, 30 de julho de 2008

RIBEIRA - 41

O Bonde que passava na esquina da rua Dr. Barata.




Viver a Ribeira de 60 anos passados ou de mais tempo, era ter o sabor da vida como um doce encanto. Ali havia de tudo um pouco. Da tapióca e manguzá - alguém diz munguzá - aos perfumes delicados e inebriantes das moças saideiras que entravam para comprar um corte de fazenda nas Casas Pernambucanas ou no Armazem Potiguar, um disco de vinil na Loja de Carlos Lamas ou mesmo somente para passear recordando os eternos namorados norte-americanos que um dia estiveram por estas paragens e partiram para um destino quiçá sem volta. O Teatro "Carlos Gomes" era o túmulo de velhos romances das mocinhas casadeiras que passavam pelos seus flamejantes jardins perfumadas como pétalas de acassia.

Nas ruas do bairro estavam os homens de negócio com seus charutos havaianos, como costumeiramente faziam, soberbos e galantes, adejavam a cada passo olhando para as lindas pernas da mulher fatal, de sombrinhas e leques com um ar de que não queria nada para os olhos voluptuosos que arrematam em espiar. Nas tardes quentes de verão, as damas da noite saíam mais cedo para fazer a ronda onde as senhoras distintas não se aventuravam em passar. Um passeio de bonde até que não fazia mal, ela e mais duas amigas sorrindo a todo instante entre uma coisa e outra que nem graça fazia, para bem dizer. Porém, andar de bonde era chique, por que não dizer. Bem melhor do que fazer tricô na casa de uma velha senhora e ouvir as suas conversas fiadas.
Assim era a Ribeira do tempo antigo, do tempo de nossos avós e até mesmo dos nossos bisavós. Para as crianças pouco tinha a se oferecer, pois, afinal, o coreto que era armado na Praça Augusto Severo era apenas cheio de dejetos humanos dos ébrios que dormitavam por alí. O Cine Polyteama há muito tempo fechara as suas portas. No seu tempo, lá para os idos de 20, era chique se ir até lá, pois tinha uma sorveteira sempre bastante frequentada antes de começar a projeção do filme do dia. No Polyteama era frequente se ouvir histórias vãs que se contava baixinho para que ninguém ouvisse. No final de tudo, os segredos passavam de boca em boca e todos ficavam sabendo das fruticas que se estava praticando na cidade. Assim, era a Ribeira dos velhos carnavais, e que carnavais. Quem diria, heim?
Ao final da tarde, antes da preguiça chegar e o sono vir de mansinho, a Confeitaria Delícia, de um português - Ovidio - que puxava por uma das pernas, era o ponto de encontro dos doces "bárbaros" que passaram o dia fazendo negócio e, então, era a vez de botar conversa fora em meio da risadagem que lá de fora se ouvia. Quando a Confeitaria já estava cheia de ébrios ou quase isso, Ovidio arranjava um jeito de colocar mesas do lado de fora da calçada onde os homens de negócio perdiam o senso da responsabilidade e tocavam a falar da vida alheia. Um bonde passava ao largo, fazendo a curva, rumando para a Cidade Alta, o bairro chique onde morava a burguesia. O delém-dem-dem, que o motorneiro fazia chamava a atenção dos que viajavam em pé ou sentados no seu orgulhoso bonde colorido.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

RIBEIRA - 40

Cais do Porto de Natal. Nota-se ao fundo um navio atracado.

O Cais do Porto, de Natal (Rn) é e foi o principal meio de atracagem de navios de cabotagem e de transatlânticos. No período de 1955, quando se passou essa história, era o porto de Natal aquilo de maior progresso da cidade, para embarque e desembarque de produtos que os mercadores importavam ou exportavam. Pelo Porto saíam algodão, cera de carnauba e, principalmente couro de gado e caprinos mandados para outros centros, inclusive a Europa e Estados Unidos. Porém, a história do porto vem desde que a cidade foi descoberta, em 1535, quando os primeiros portugueses estiveram por esses lados. De sua história é de se falar depois, pois agora o que importa era os produtos trazidos de navios de Estados do norte e do sul do Brasil, adquiridos pelos empresários e, de modo especial, por José Leandro, Marcos de Souza, Tinoco Fernandes e tantos mais que negociavam com o ramo de madeira.

Foi em 1956 que José Leandro começou a negociar no ramo de madeira e, para isso, alugou a casa de número 241 da Avenida Rio Branco, bem por trás do Teatro Alberto Maranhão, então chamado de Teatro Carlos Gomes. Naquele local, ele instalou não só o armazém, bem como uma carpintaria locada pelo Mestre António dos Santos. Foi logo ali que começa essa parte da história que o garoto contou para os ouvidos de quem ouvia. De inicio, José Leandro contratou o mestre Antonio para fazer um galpão onde poria seu maquinário de trabalho, pois o mestre trazia equipamentos que usavam eletricidade e, por isso, era importante se fazer um galpão bem protegido da chuva e do sol. E foi esse o primeiro serviço feito no final do prédio, ao lado esquerdo, próximo a porta de saída do armazém que dava directo para o quintal. Todo o material usado na construção do galpão, bem como instalação eletrica foi fornecido por José Leandro. Nessa parte de energia eléctrica, que o Mestre Antonio não sabia fazer, lhe foi dada por um electricista que fez o caminho todo por fora da casa, pois José Leandro não confiava no prédio, que era por demais velho, com mais de 50 anos.

O trabalho foi árduo com toda a fiação pregada na parede do casarão pelo lado externo e quando terminava o expediente, as cinco horas da tarde, a chave de luz era desligada. No entanto, condicionou-se em fazer uma ligação antes do medidor de luz para que o mestre Antonio pudesse trabalhar de noite ou mesmo nas tardes dos sabados, quando não havia expediente no Comercio da Ribeira. Esta era a faina do carpinteiro que tinha como auxiliar um seu irmão, Temístocles e, não raro, um outro carpinteiro que por certo tempo trabalhou com ele na montagem de peças de portas, portais, esquadrias e coisas do ramo que chegavam aos montes atendendo a pedidos dos consumidores. Eram ali feitas portas de imbuía, cedro, canela, entre os mais variados modelos que ainda hoje se pode ver nas casas construídas naquele tempo. A quantidade era tamanha que José Leandro passou a fazer pedidos de portas prensadas vindas do Paraná e Rio Grande do Sul. No armazém se entulhavam peças de tacos para assoalho, ripas, peças de cobertura, forros, lambris pranchas, tábuas dos mais variados tipos, desde o pinho ao feijó, canela além de compensados de pinho, imbuía, cedro. e tudo que o comprador precisasse. Não havia nada que se precisasse adquirir e que faltasse no Armazém Santa Teresa.

O tempo passava e os estoques seguiam aumentando no pátio do armazém, especialmente pranchas de peroba, ypê, marfim, massaranduba, cupiuba, andiroba, gonçalo alves, sucupira e de tantas outras madeiras vindas do Norte do Brasil, como o Amazonas. Quando alguem procurava por uma madeira que no Amazem não tinha, logo José Leandro anotava o nome para fazer o pedido. E, assim, foi fazendo um maior estoque de mercadorias que em um armazém podia ter. Certa vez, chegou ao Porto de Natal um carregamento de madeiras de massaranduba, algumas peças medindo 17 metros de comprimento. Era incrível o tamanho de uma peça de massaranduba. Além do tamanho descomunal, tinha a resistência do madeiro que, não raro, quebrava uma serra de fita de uma serraria de Joaquim Victor de Holanda ou da Cotilda, para onde José Leandro mandava a peça para serrar conforme o pedido era feito.

O nome de José Leandro que ja era bastante conhecido por fazer construções de casas e venda terrenos, em Natal, ganhou espaço como sendo o maior fornecedor de madeiras e fabricante de carpintaria no Estado do Rio Grande do Norte. De um simples vendedor de casas e terreno passou a ser um rico Senhor importador de madeiras que Natal um dia chegou a ter. Sua figura era de um homem simples. Gostava de beber cerveja, conhaque e vinhos importados da firma gaucha "Luis Antunes", da qual, um dia foi o seu representante em todo o Brasil. Certa vez, em uma viagem pelo centro do Brasil, o avião no qual viajava, veio a cair, amparando-se numa cerca de madeira. Nenhum dos passageiros veio a sofrer ferimentos. O avião ficou imprestável. Talvez esse foi o mais grave acidente por ele sofrido quando ainda era representante da firma de vinhos "Luis Antunes", pelo que se tem noticia. Homem de risadas francas, era a seu modo, um Senhor de cara fechada quando estava trabalhando. Sua norma de trabalho era a de fechar o caixa as 16,30 horas do dia e quem precisasse de dinheiro, ele atendia até aquela hora, pois do contrario ele respondia que o caixa estava fechado, se o empregado ou outra pessoa viesse receber o pedir um adiantamento após aquele tempo. Nas festa de sua casa, como nos aniversários da filhas e do filho, ou mesmo nas festas do Natal, na casa de José Leandro tinha de tudo de se comer de beber para toda a gente que sempre era convidada. Assim foi um dos filhos de Miguel Santino Leandro e de Dona Estefânia Leandro.


RIBEIRA - 39

A RIBEIRA antiga era bem diferente da atual (2008). Em carros, transportes de massa e gente mesmo O garoto, já quase rapaz, certa vez disse que a Ribeira Antiga era cheia de vida. Vibrava, por assim dizer. Tudo o que se fazia começava pela Ribeira. Salvo o mercado público da Cidade Alta, os demais negócios eram na Ribeira que as pessoas tinham que procurar. Certa vez, o garoto falando ainda sobre a casa 241 da Av. Rio Branco que o seu tio havia alugado para instalar o seu Armazém de Madeira, disse que a casa ficava um pouco recuada do muro que existia na frente do prédio, cerca de 8 metros. O garoto lembrou de que no muro da frente havia três portões. Um, largo, que dava entrada a um caminhão carregado de madeiras: outro, no meio, que dava acesso aos moradores que naquela época eram fregueses, indo por um caminho feito de tijolos com cerca de dois metros e meio de largura e por fim, um portão estreito feito para uma pessoa, de cerca de 70 centímetros que dava acesso ao beco da casa, por seu lado esquerdo. Quem estivesse na casa, era do lado esquerdo olhando para a rua.
Esse terceiro (ou segundo) portão nunca se abria, pois o ferrugem já havia danificado a sua capacidade de abrir e fechar. Então, o portão só vivia fechado. Como era todo de grade, podia-se ver através dele, sem sombras de duvida. Na calçada que dava acesso ao prédio tinha uma parte que findava em outra, circulando pela frente do prédio, da direita para a esquerda. Essa calçada, talvez de um metro de largura, entrava pelo beco do lado esquerdo da casa. No lado direito não tinha calçada. Era um beco de cerca de três metros de largura onde se plantou três pés de sapotis e um de abil.. Do lado esquerdo, como já foi dito pelo garoto, tinha outros dois pés, mas de sapotas. Era disso que o rapaz se lembrava muito bem.
Quando o Armazém começou a funcionar, em janeiro de 1956, ainda não tinha nada para vender. O tio do garoto se ocupava em fazer contas, adquirir no Recife mercadorias de madeiras e compensados, arrumar a casa, contratar um carpinteiro que, certa vez, ainda no escritório da Rua Dr. Barata foi levar um recado para o mestre (António dos Santos que nasceu no dia 1º de Novembro, dia de Todos os Santos e, mesmo assim era protestante) para ele ocupar o posto de Mestre em Carpintaria, no Armazém, quando abrisse em janeiro de 1956. Nesse tempo. o Mestre António trabalhava na fundação do prédio do Ipase, no bairro da Ribeira. No dia que ele foi chamado ao escritório, por certo aceitou o convite, pois o garoto disse ter visto, quando o Armazém começou a funcionar, uma carroça puxada a burro carregando um imenso banco feito de uma madeira rústica que, com o tempo o garoto ficou sabendo ser sucupira. Além do banco desmontado que chegou ao armazém, uma outra carroça entrava conduzindo um caixão enorme que o Mestre António guardava seu material de trabalho.
Nesse transporte o garoto se lembrava de uma peça por nome de "sargento" que servia para unir duas peças quando se estava colando - como placas de cola feitas de tripas de boi -. Não raro, uma peça desse tipo levava um dia prensada para poder colar, de vez. Com relação ao emprego, o garoto ficou sabendo que, daquele mês em diante, ía trabalhar dois expedientes, ganharia um pouco mais e teria pela primeira vez sua Carteira de Trabalho assinada pelo seu tio. A Carteira de Trabalho era um documento que serviria para todo o sempre como forma de apresentar em qualquer lugar em que o portador fosse trabalhar ou não. Essa carteira foi criada do Governo Getúlio Vargas, em 1938 quando foi instituída a Consolidação da Lei do Trabalho. Com isso, o trabalhador tinha uma esperança de um dia se aposentar condignamente. A Lei do Trabalho facultava ao operário receber um salário capaz de se sustentar e à sua família, com filhos e tudo. Essa Lei, depois do Governo de Getúlio Vargas, jamais foi respeitada. Hoje, o operário não ganha o suficiente para sobreviver, quanto mais se tiver uma mulher. Em 1956, o operário recebia uma salário mínimo, férias, salário-família, salário-maternidade, salário-doença em caso de adoecer em trabalho ou a caminho do trabalho entre outros benefícios.
Com o passar dos meses, o armazém se encheu de madeiras de todos os tipos sendo obrigado José Leandro fazer um galpão enorme, de mais de 15 metros de comprimento por 6 de largura, todo feito de madeira maciça, com separações entre uma e outra tábua de 3 polegadas por 1 polegada de grossura. Nesse galpão tinham duas portas de 70 centímetros cada uma, todas feitas em madeira de pinho comum vindos do Paraná, onde era comprada e trazida para Natal em navios mercantes que desembarcavam no Cais do Porto da rua Chile, no seu começo. Então, era nesse casarão que o garoto começava a aprender a trabalhar. No escritório, estava José Leandro com o seu inseparável cofre de ferro de porta grossa dois birôs, três cadeiras para os fregueses e amigos, uma cadeira e um birô para o garoto que respondia por tirar as notas de compra e venda além de serviços de Banco e atendimento a quem aparecesse para comprar alguma peça em madeira ou compensado. No segundo quarto eram guardadas peças de ferro que José Leandro usava em suas construções, galões de tinta também usadas com o mesmo fim, um balcão onde se guardava talões de notas usadas ou novas,papéis de carta, carbono e para cumprir uma necessidade, havia também um filtro de água que era enchido todos os dias pelo garoto direto da torneira da rua que ficava no beco a esquerda da casa.Foi assim que tudo começou.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

RIBEIRA - XXXVIII - (38)


Era o fim de 1955 quando Zé Leandro chamou o seu sobrinho e entregou-lhe umas chaves de um chalé situado a av. Rio Branco, 241, para o rapaz abrir o prédio e conferir o tinha para ser feito no velho casarão. O chalé fora construído nos idos de 1890 para servir de casa residencial. Há tempos estava fechado. Quando o rapaz, acompanhado de Antônio Patricio (Rapa-Coco) chegou ao prédio, abriu a porta e empurrou com força para poder escancarar de modo a que ele pudesse entrar, acompanhado do fiel Rapa-Coco.
Lixo muito foi o que se deparou o jovem. Nos lados esquerdo e direito havia um plantio de enormes pés de Sapoti e um pé de Abil, fruta doce, de miolo mole e que se escondia por entre a folhagem do pé de pau. Isso, o rapaz foi descobrir com o passar do tempo. Ao lado esquerdo do chalé, na rua Sachet, havia umas oficinas de conserto de carros que o rapaz já conhecia, pois por várias vezes ele teve que ir ali ver como estava o trabalho de conserto de um automóvel de seu tio. Havia também uma casa que fazia cachaça, pois, no seu interior, tinha uns alambiques enormes feitos de madeira de carvalho.
O jovem rapaz inspeccionou todo o prédio, ajuntando as folhas que se esparramavam no chão, caídas dos pés de sapotí e de sapota, também. Há uma diferença muito forte entre sapotas e sapotís. As sapotas são maiores que os sapotis apesar de terem o mesmo gosto que os frutos menores. O prédio tinha na frente seis janelões e uma porta. Janelões encobertos por umas outras janelas feitas em madeira nobre de pinho Riga. As que davam para fora, eram feitas em esquadrais muito bem acabadas. Pelo que demonstravam, eram um serviço de mestre em obras de carpintaria. Nas partes laterais do prédio, outras janelas se abriam. Era um total de seis janelões iguais aos da frente. Além disso, tinha uma parte menor que, com certeza, um dia fora a cosinha da casa. Alí, na cosinha, tinha duas janelas um tanto pobres e uma porta de saída para o quintal. No prédio, ali existia uma porta de madeira fornida que também dava para o quintal. No fim da casa, três banheiros e aparelhos sanitários um tanto sujos. Os aparelhos eram imundos, se não falta a palavra. Do lado esquerdo da casa - direito de quem olha - existia um quarto um tanto pequeno com seus banheiros e sanitários. Pelo que deixava notar, um encanamento fora feito anos depois da casa ser construída, pois em 1890 ou 1895 não passava saneamento naquela rua. Na verdade, nem rua era ali. Um começo de rua que, mais tarde se chamou de avenida Rio Branco, quando a Prefeitura desapropriou parte de um terreno do Colégio Salesiano para dar comprimento à Rua Nova que se passou chamar Rio Branco.
No beco do lado esquerdo da casa havia uma calçada estreita que rodeava a frente do prédio. Também desse lado, no começo do chalé, tinha uma porta imensa, de madeira nobre, igual a que existia do lado direito. No chalé, eram três salas enormes e seis quartos, sendo três de um lado e três do outro. Todos os cómodos tinham ligações através de uma porta que, no alto, havia uma esquadria muito bem ornamentada. O rapaz anotou tudo que pode observar, da porta dos fundo para além, até chegar a um barreiro onde o terreno findava. Por alí, tudo era mato, sem fruteiras. Pelo que o rapaz notou, há muito tempo não pisava viva alma naquele chalé.
Coberto de telhas coloniais, o casarão tinha forrada a sua sala que se podia chamar de visitas. Para dentro, uma outra sala de jantar e, por fim, uma sala para a criadagem fazer seus quitutes. Almoço, janta, bolo e muitas outras coisas mais. O rapaz ficou intrigado como foi que o seu tio foi descobrir um chalé daqueles. Com o tempo, ele ficou sabendo que naquela data o chalé pertencia a Escola Domestica. Antes, porém, o chalé foi construído por Afonso Riqque. onde residiu algum tempo. Depois que o homem morreu, os herdeiros venderam o casarão ao domínio da Escola Domestica que, ao que parece, nada fez por lá. E foi ali que José Leandro instalou o seu armazém: Armazém de Madeiras Santa Teresa, que marcou história na vida da velha Ribeira.