domingo, 7 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 19

- MARINA -
CONTO
Eram quase 7 horas da noite e Otávio preparava um ramalhete de rosas no depósito especial que fizera para levar no dia seguinte ao cemitério da Saudade, onde sua mulher estava sepultada há dez anos no túmulo da família. A mulher era Marina que morrera em um acidente de trânsito ao voltar para casa, colidindo com caminhão que atravessara a faixa em uma das tres faixas existentes na avenida, forçando Marina a bater de frente e tendo morte instântanea. O motorista do caminhão, nada sofreu. Carros que vinham atrás do de Marina ainda colidiram com o seu automovel, forçando ao veiculo da colisão ir mais para baixo do caminhão. No acidente, três carros, além o de Marina, entraram no choque frontal, causando traumtismo em seus ocupantes. Isso se deu há dez anos e por todo esse tempo, Otávio, professor universitário, costumava levar rosas para por no túmulo da esposa aos domingos, logo cedo da manhã. A esposa do professor tinha 40 anos de idade quando houve o acidente e eles se casaram quando Marina estava com 19 anos de idade e Otávio com 20 anos. Casaram-se ainda moços e tiveram dois filhos: um homem, Otto, e uma mulher, Olinda que, com a ausencia de sua mãe, mesmo assim estudaram, com o rapaz em área de comércio exterior e a moça como advogada. Desde a morte de Marina, nunca mais Otávio pensou em casar. Ele era um homem esbelto, alto, forte, cabelos brancos e já estava com seus 50 anos de idade, levando a vida da Universidade para a casa. Aos domingos, ir ao cemiterio conversar um pouco com a sua mulher, dizendo das novidades, dos filhos, netos e dos seus pais e procurando saber com estava passando Marina que de há muito morrera. Era uma conversa simples, de um viúvo para com a esposa amada, cujo retrato, ele afixou no túmulo há muitos anos. Era um retrato singelo de Marina, vestida de preto com uns pingentes nas orelhas, cabelos curtos, olhos castanhos, sombrancelhas arqueadas, nariz afilado, boca cheia de carmin. Aquela era uma lembrança do tempo que ainda a mulher era jovem e o homem podia entabular conversa com a foto como se fosse com ela mesma. Coisas triviais do acontecer com os netos, os filhos entre outras mais simples ainda. Marina, quando morrera, vinha da Universidade onde dava aulas no curso de filosofia. E, então, Otávio achou até graça com as suas aulas. Não por maldade, mas por pura alusão ao tema que ela lecionava. Coisas assim, como:
--- Prá você ver. Quando você dava aulas de filosofia era um sufoco aqueles alunos malcriados. - dizia o homem e caia na risada.
Deixava um buquê de rosas que ela mais apreciava, colocando ao lado de sua foto, sempre se desculpando por não entender dessas coisas todas, muito banais, pois a mulher era sempre quem mais entendia.
--- Tá aquí as rosas que eu trouxe. Espero que gostes. São rosas de verdade. - dizia ele.
Na foto, a mulher a sorrir compadecida do sofrimento do seu marido.
Certa vez, ao depositar as rosas no túmulo, uma jovem se acercou dele e o cumprimentou, ao dizer:
--- Que belas rosas! E´para alguém da família? - perguntou a jovem mulher.
--- Ô. Desculpe-me. Estava tão entretido que não a observei. - disse Otávio.
--- Não me leve a mal. Não fiz para incomodar. Mas pergunto: é a tua esposa? - perguntou a jovem.
--- Ah, sim. Minha queria mulher. Faz dez anos que eu costumo vir ao seu túmulo. - disse o homem querendo sorrir e ficar quieto.
--- Eu sei. Meu marido está logo alí. Foi um acidente. E eu costumo vir sempre que posso. - disse a jovem.
--- Eu sei. Eu sempre venho todos os domingos. - disse-lhe Otávio.
--- A vida é curta, né? - disse a jovem.
--- É sim. Curta mesmo. - respondeu Otávio.
Desse dia em diante, Otávio sempre contrito com a sua esposa, teve a intenção de perguntar a jovem qual era o seu nome.
--- Amanda. E o do senhor? - perguntou a jovem.
--- Otávio, é como me chamo. - respondeu o homem.
A jovem tinha 39 anos, uma difereça de 10 anos em relação à Marina que estaria com 49 anos. Desse dia em diante, eles se conheceram melhor, e procuraram marcar encontro em um restaurante da cidade onde procuraram tecer comentários sobre tudo que a vida trás e leva. As conversas se tornaram mais íntimas e, quando menos esperava, os dois já estavam em colóquios cada vez mais fulgazes.
Naquele dia, em que Otávio preparava as rosas no jarro em sua casa, de imédiato entrou no apartamento a jovem mulher Amanda que vinha trazendo um outro buquê de rosas, antúrios e margaridas para levar ao túmulo do seu marido. Os dois se cumprimentaram e não faltara sequer um beijo de paixão entre os dois enamorados. Afinal, eles dedicavam aquele amor aos que estavam dormindo no seu eterno descanso. Logo em seguida, os dois saíram do apartamento, ela de braços dados com o seu amor de pouco tempo, a caminhar entre gente que caminhava para ir à Missa de logo cedo. Um ébriu fez aprovação ao casal, com as mesmisses de sempre, descendo e subindo no seu marchar com o seu terno esfarrapados de todos os dias. Nesse ponto, Amanda sorriu com as alegorias do bêbado.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 18

- ANNE -
CONTO
Augusto Menezes estava, naquela hora, pensativo, lembrando um velho amor que não seria tão velho assim quando os dois enamorados se encontraram pela primeira vez em Nápoles, quando a guerra tinha chegado ao fim. A Itália estava um monte de escombros com a destruição provocada pelas armas e tanques que dizimaram o país. Menezes voltava para casa, no Brasil, e encontrara por acaso, aquela jovem, de roupas poídas e quase nua, vagando pelas ruas da cidade, buscando alguma coisa para matar a fome entre o lixo que sobrara da guera. Ele estava só, quando viu a jovem a catar com vagar o lixo. De certo modo, era grande o número de italianos que perambulavam por ruas e becos de cidades destruídas, a procura de algo para saciar a fome. E aquela moça era uma das muitas que estavam nesse mesmo sacrifício de tantos italianos quase mortos pela guerra. Em tal momendo, Menezes viu a jovem a catar lixo e quase nem se deu conta da miséria estampada naquele rosto franzino de mulher. Quando a moça tropeçou e caiu sobre os escombros foi que Menezes se deu conta que alí estava um ser humano a procura de alguma proteção. Então, Menezes acudiu a jovem, dando-lhe a mão para que se levantasse dos escombros da cidade. A jovem aceitou e agradeceu, com certeza, com um obrigado que Menezes só entendia ser um agradecimento:
--- Grazie - voz da jovem.
--- Levante. Tome a mão. - disse Menezes.
--- Grazie - voltou a jovem a falar.
Em tal momento, Menezes notou no semblante da jovem algo de puro e belo com se estivesse segurando um filho ou filha naqueles tempos de desventuras. Nada sabia o que lhe dizer, pois por mais que se parecessem os idiomas, algo de estranho ofuscava-lhe a mente e tão somente o que podia fazer era dizer algo em português um tanto arrastado de um nordestino brasileiro que foi mandado para a luta em terras da Itália. De seu modo, a jovem olhou para o homem com suas vestes de militar, um tanto rotas, com a pele do rosto toda alquebrada, mas traduzindo através do seu olhar um gesto de ternura. As mãos de Menezes era firmes como feitas para segurar uma arma pesada, e ele trazia às costa um fuzil-metralhadora, o saco cheio de alguma coisa, talvez alimento, chocolate ou alguma fruta. Então Menezes se compadeceu cada vez mais da jovem italiana e sem que ela pedisse ele lhe deu uns pacotes de chocolate e uma caneca com água.
--- Tome. Coma. É bom. - dizia Menezes.
E a moça somente sabia dizer a palavra que conhecera para agradecer.
--- Grazie. Grazie. - dizia a moça.
--- Não há por que. Coma! - dizia Menezes.
--- Grazie per avermi regalato. - disse a jovem.
Para Menezes, aquela confusão de palavras não lhe fizera maior sentido, pois sabia que não entendia de coisa alguma do que a jovem acabara de dizer. Por fim, ao ver a jovem desembrulhar as barras de chocolates, ele lhe disse seu nome e quis saber o nome da jovem.
--- Meu nome. Menezes. Menezes. Eu. Menezes. -Entendeu? - disse-lhe o rapaz.
--- Ma si. Menesses! - fez a moça de forma que entendera.
--- Menezes. Ouviu? - disse o rapaz.
--- Ma si. Si. - repetiu a jovem.
--- Seu nome? - apontou o jovem em direção da moça.
--- Anne. Io sono Anne. - respondeu a moça, inquieta, procurando se compor.
Daí por diante, todo suado, cansado, nem sabendo para onde ir, Menezes começou a conversar no seu idioma com a jovem Anne e procurar o caminho, entre muitas pessoas que andavam a perambular entre os escombros que a guerra deixara, até o certo porto onde ele embarcaria no navio que o trouxera para o Brasil. No meio do caminho, a moça conversou um bocado de tempo dizendo que ela era italiana e estava alí, vinda do norte da Itália para escapar da guerra. Seus pais, ela já nem sabia ao certo que lhes acontecera. Disse ter visto soldados brasileiros a caminhar pelo lugar. Certas palavras ela ouvira falar. Algumas, ela aprendera. Mas, ao certo, não sabia o significado.
Com olhos negros, cabelos curtos, pele macia apesar da poeira da guerra, Anne olhou bem o rapaz e esse lhe disse que teria de voltar para o Brasil. Se um dia pudesse lhe chamar para ir morar com ele na sua terra, Menezes ficaria muito feliz. Alí, no porto, os dois se acertaram em trocar correspondencia, apesar de a moça não ter dinheiro qualquer. O jovem se inquietou por isso, e disse que um jeito seria dado para que ela não ficasse da forma que a encontrou. E puxou do seu saco uma mochila de notas e a fez presente, dizendo que ela precisaria trocar em um Banco por moeda italiana. Anne agradeceu de vera o que o rapaz estava fazendo por ela e, ternamente, chorou como igual a uma jovem menina.
Por um resto de dia, depois de almoçarem em um restaurante, se era possivel chamar aquele quiosque de restaurante, os dois ficaram a conversar e acertar a vinda de Anne para o Brasil, pois Menezes combinou com a moça lhe mandar dinheiro em quantia razoável até quando ela precisasse de se arranjar e ter a possibilidade de vir morar com rapaz no seu pais. O dia era quente, e Menezes tinha que embarcar no navio, pois a saída já estava com hora marcada. Ele viu na beira do cais, uma porção de barracos com gente morando, couros de cachorros espichados ao sol, homens e mulheres, crianças de braço e outras mais a perambular pelos cantos. Na hora da partida, Menezes estava no parapeito do navio a acenar, chorando, para Anne que estava no cais e sacudir destemida com o seu comovente pranto ao cair das lágrimas o lenço branco a desfraudar para o seu eterno namorado.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 17

- SOPHIA -
CONTO
Naquele início de noite, Sophia estava em sua casa, folheando revistas de atores, atrizes e de assuntos gerais, até chegar o horário do café da noite. No seu apartamento, não tinha mais ninguém. O sofá estava a um canto como todo o mobiliário da sala. Estantes, radióla, escriavinha e todo o utencílio que cabia na sala. As cortina que dava para a janela de fora estava fechada para evitar que olhares maledicentes pudessem ver o que se estava a fazer no interior do apartamento. Na mesinha de cabeceira que Sophia colocava na sala, dormia, silencioso, o telefone fixo que a moça não ligava muito para ele. Eram 7 horas da noite quando, de sopetão, assustando até, o telefone tocou. A jovem, que estava absorta, lendo as revistas da semana, se levantou e foi até à mesinha atender ao chamado, que poderia ser de sua mãe ou de uma irmã. Logo que pegou o telefone, uma voz de homem, misteriosa, lhe disse, então:
--- Safada! Você não presta! Abra a cortina! - disse a voz.
Sobressaltada, a jovem perguntou quem estava na ligação, pois a voz era de um estranho, pelo menos, de alguém que Sophia não identificava. Ela queria dar mais tempo ao homem e, mesmo assustada, temendo o pior, tentava manter a calma. Quem estivesse fazendo a ligação, deveria ser alguém de um apartamento próximo ao seu, do outro prédio, com certeza, pois estava falando de que a moça deveria abrir a cortina. Mesmo com as palavras chulas do homem, ela procurou manter a calma, dando margem ao interlocutor falar por mais um pouco. De início, tão logo atendeu a ligação, pensou no homem do apartamento do prédio ao lado. Quem seria ele? Ela apenas o conhecera de longe. Homem gordo, cinquentão, andava só, com sobretudo, uma pasta, roupas escuras, sapatos pretos, meias pretas. Era tudo o que se lembrava a moça naquele instante. Então, perguntou, sem dar margem a outro desaforo.
--- Quem fala? Pode-me dizer? - falou Sophia.
--- Você não presta e nunca prestou!. Sinha rameira! - falou o homem.
Então, Sophia foi tomada de susto. Algo tenebroso lhe passou pela mente, procurando decifrar de quem podia ser, além do homem, aquela voz sinistra. Devagar, a moça foi até a cortina, abrindo parcamente um dos seus lados, olhando por uma fresta, verificando alguma coisa que pudesse identificar o homem do terno escuro. Sophia, nervosa, temendo o pior, sem saber quem estava a falar, olhou bem para o outro edificio, procurando enxergar algo de estranho que estivesse acontecendo nos apartamentos não tão distantes. Apesar de ter verificado, nada encontrou que pudesse identificar a voz do homem.
Nesse instante, o homem desligou o telefone, deixando a conversa parada no ar. Quase que desesperada, Sophia tentou chamar mais de uma vez, porém não houve resposta. O telefone, com certeza, estava desligado de vez. Um suor frio lhe desceu à espinha e um assombro fez a moça estremecer de pânico. Era aquela a primeira vez que alguém telefonava para Sophia, com certas acusações desaforadas. Ela, então, pensou nos namorados que tivera, porém nenhum deles chegava a ter a voz do homem do terno escuro. Sophia pensou até mesmo em ser um trote de algum desocupado e então não era mais inquietante levar em conta. Nesse momento, então, o telefone voltou a tocar novamente. Ela correu para atender, já presumindo de quem seria a voz.
Porém ,no outro extremo da ligação, quem falava era a sua irmã procurando saber como estava de saude, o trabalho, o namorado e outras coisas vãs. A tudo Sophia procurou responder sem maiores detalhes. Com relação ao recente namorado, esse tinha embarcado em um navio e devia demorar uns três meses para voltar, dizia ela à irmã. Na verdade, o namorado embarcara, mas o namoro havia sido desfeito há algumas semanas. Isso, ela não disse à irmã. Houve mais algumas palavras ditas entre ambas e logo a irmã se despediu. E o telefone voltou ao repouso. Ainda, um tanto inquieta, Sophia voltou a ficar próximo ao telefone e, por algum tempo, cansou e saiu para cuidar da janta que devia estar por fazer. A moça entrou no banheiro, para se refazer so susto que lhe acudira, procurando tomar um banho enquanto a janta se preparava no forno elétrico. O apito da chaleira haveria de identificar que a água do café estava quente e, com certeza, quase pronta a janta no forno elétrico.
Tão logo saiu do banho, ela se lembrou em trancar a porta do apartamento com mais segurança, coisa que a moça esquecera, afinal, de fazer. Enrolada na toalha, ela correu para fora e trancou a porta com duas chaves. Ao voltar para a cosinha, deligou a lampada, deixando a sala às escuras, com o ambiente apenas iluminado por uma restia de luz vinda da cozinha. A jovem estremeceu ao passar próximo ao telefone. De repente, sua atenção se voltou para o lado da cortina, vez que alguma coisa se mexera no lugar. Temendo o pior, a moça tomou de garra uma estatueta feita de bronze que estava em cima da estante onde outras estatuetas pequenas estavam e rumou, passo a passo, para a cortina. Ela queria saber o que estava de movendo atrás da cortina e, de sopetão, puxou o pano, descobrindo todo o ambiente. Mesmo assim, não era nada. Tudo estava trancado. Apenas devia ter visto algum movimento de algo que não era temível. Ao voltar para a cozinha, um homem robusto, de terno escuro, agarrou a moça pela garganta, enrolou uma toalha e torceu com força a garganta da moça que se locomovia com ímpeto, para todos os lados, tentando se desagarrar a todo custo daquelas mãos tão fortes que lhe acoitavam de forma assassina. A luta durou poucos minutos até que a moça desfaleceu. Nesse dado momento, ouviu-se um baque na porta do apartamento. Era a polícia que entrava de sopetão, gritando:
--- Mãos para cima! É a polícia! Você está preso! - disse um policial enquanto que outros procuravam reanimar a jovem desfalecida.
O homem de terno escuro procurou fugir e de imediato um policial disparou a arma alvejando-o na perna, fazendo o homem cair. Outros agentes se ocuparam do homem, enquanto outros reanimavam a jovem que, aos poucos, voltava a si. A polícia procurava algemar o homem de terno escuro e dizer as palavras de praxe. Com o decorrer dos minutos, um policial disse a Sophia que policia já estava sabendo da existencia do homem e que seu telefone havia sido grampeado para ouvir suas ameaças de morte. Ele foi pego quando a polícia descobriu o telefone para onde o homem chamara. Tão logo a polícia descobriu aquele alvo, se deslocou para o apartamento de Sophia onde quase chegara tarde demais.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 16

- ALVA -
CONTO
Passava das 6 horas da manhã e Alva tinha um compromisso às 8 horas em ponto. Ninguém, ou pelo menos, apenas sabiam do tal compromisso o pessoal do movimento. Eram uns 5 ou 6, com ela, respectivamente. Para uma manhã bem cedo, Alva se ajeitou completamente, pondo voltas de ouro, óculos de aparentes graus, armação de ouro, brincos também de ouro, apenas sem maiores detalhes, vestido marrom, pois dava mais desenvoltura na sua elegante forma. Com os seus olhos verdes, cabelos curtos, boca de carmin, ela era uma mulher fatal e ninguem notaria o que estava a fazer. Consultou o relógio e viu que não dera as 7 horas. Tinha tempo de sobra mas o compromisso não poderia atrazar, uma vez que os outros companheiros estavas largados em seus postos. Um suor frio lhe arrebatava o corpo, pois Alva tinha medo que tudo falhasse. O negócio havia sido ensaiado por diversas vezes com alguém que se mostrava o passageiro. Tudo tinha sido perfeito. Dessa vez, nada podia falhar. O carro do Diplomata sairia às 8 horas da manhã, em ponto e gastaria 20 minutos para sair da mansão do Diplomata até o escritorio do homem. Tudo isso foi cronometrado com decisiva precisão. Ela olhou a sua bolsa de mão, pois era tudo o que precisaria levar. Dentro da polchete, um revólver cano curto, pequeno, por sinal. Isso era tudo o que levava. Conferiu a trava da arma e logo em seguida colocou na polchete. Quando já eram 7,30 horas, ela abriu o apartamento onde estava, saiu e trancou conforme o combinado para a intempestiva ação. Nos blocos vizinhos, tudo estava calmo, sem movimento algum. De repente, um barulho: eram as crianças de um apartamento superior que desciam as escadas a correr com sua doméstica a seguir, dizendo:
--- Espera! Espera!. - voz da doméstica.
E a algazarra continuou escada abaixo, com as crianças morrendo de rir. Ao passar por Alva, os meninos olharam e acharam graça. A espavorida domésstica veio logo a seguir, e olhou para Alva, se desculpando do alvoroço das criancinhas. A moça aceitou as desculpas, afinal eram somente crianças. Com o seu relógio de pulso, feito em ouro, ela caminhou para o elevador, onde não havia ninguém naquele instante. Sem mais nem menos, Alva desceu no elevador e ao chegar na entrada do edificio, cumprimentou o rapaz que tomava conta das cartas que haviam chegado no dia anterior, arrumando todas com outras correspondências. Um homem vinha entrando no edificio e a cumprimentou, sem alardes. Quando faltavam 15 minutos para as 8 horas, Alva se aproximou da banca de jornais que era armada proxima ao prédio e passou a olhar, disfarçada os anúncios dos temas do dia. O temor por que Alva passava lhe inquietou ainda mais. O que havia lido, ela nem prestara atenção. Outras pessoas passavam por ela, alguns procuravam o jornal do dia e outros mais se ocupavam em ler as manchetes. De repente, a moça saiu do local e se aproximou da mansão do Diplomata, quando o seu relógio marcava 5 para as 8 horas. Onibus passavam velozes, carros iam e vinham com a severidade que lhes facultavam o motorista, moças, rapazes, homens, mulheres, todos estavam atravessando o sinal. Alguns, correndo, temendo o semáforo mudar de cor. O tempo demorava a passar. O suor descia pela espinha da jovem, deixando temer algo de errado pudesse a acontecer.
Um jovem rapaz passou a lhe cortejar, e ela não deu ouvidos. Umas mocinhas vinham correndo apressadas para embarcar no ônibus que estava parado há pouca distancia do local onde elas corriam. Temendo qualquer incidente, Alva olhou outra vez o relógio. Faltavam 2 minutos para às 8. Ela caminhou mais para a frente da mansão, fazendo de conta que se ajeitava no meio da calçada com um pouco de gente a passar. Do outro lado da rua, um rapaz se aproximou para o lado oposto. Ela o reconheceu. Estava tudo certo. Não havia como retroceder. Era agora ou nunca. Quando o relógio da Matriz tocou às oito horas, o portão se abriu e o carro começou a sair da mansão. No seu interior, estavam o motorista e, no banco de trás, o Diplomada. A moça puxou a arva e disse:
--- Mãos ao alto.! Vai.! Depressa.! E um assalto.! - disse Alva.
O motorista ficou sem ação. Do outro lado da limousine, o rapaz entrou no carro. E apontando o reolver para o motorista, esperou apenas um segundo para a moça entrar e render o Dipolamata. Tão logo isso se deu, os dois ordenaram que o motorista do Dipolmata largasse do local e pegasse o caminho que fazia sempre. Com uns instantes de corrida, um outro rapaz acenou para os sequestradores e eles fizeram o motorista sair do carro e, abrindo a porta para o terceiro sequestrador entrar, seguiram em frente , tomando rumo desconhecido.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 15

- AMANDA -
CONTO
Eudes concluíra os estudos daquela noite e, vendo as horas, se espreguiçou todo, como alguém que acordara de um sono profundo, fechando a gaveta da escrivaninha com todos seus materiais de estudo, resolveu a sair um pouco para cumprir outras obrigações. Depois de passar na geladeira de onde retirou uma fruta, foi até a cozinha do apartamento onde morava, para ver se o café ainda estava quente. Na verdade, estava frio para o seu paladar. De imediato, se lembrou de Amanda, jovem com quem Eudes tecia um amor convencional e verdadeiro. Para Eudes, aquela jovem tinha os seus encantos e, por que não dizer, era a mulher dos seus sonhos. A jovem exuberante e bela, também fazia a Faculdade de Letras. Por isso mesmo, os dois se combinavam até nos estudos. Naquele sábado, Eudes articulara um encontro entre os dois. Talvez eles fossem ao cinema, talvez ao teatro ou mesmo conversar assuntos triviais no barzinho de Cândido, onde o movimento era sobremodo intenso, dia e noite, qualquer hora da semana. O tempo passava e o rapaz procurou tomar banho para tirar a terrivel ressaca dos estudos que até então estava comprometido. E assim foi ao banheiro quando Amanda chegou ao apartamento do rapaz, abriu a porta com a chave mestra e, de imediato, procurou Eudes com um simples olá.
--- Cheguei. Vai ao cinema? - perguntou a jovem no meio de tantos livros soltos da escrivaninha.
Ela olhava os apontamentos no rascunho que o rapaz fizera para ver se combinavam as respostas com as perguntas. Olhou mais uma vez e deixou de mão.
--- Olá, amor! Estás aí? - perguntou a jovem.
A água que descia do chuveiro empatava a Eudes ouvir qualquer movimento que se fazia lá fora. Por isso, nada respondeu. Ele cantava ligeiramente alto uma canção que tinha guardado em seu arquivo de discos. Algo como "João da Silva, cidadão sem compromisso". O rapaz pertencia a um movimento de esquerda e tinha vasta literatura chamada de subversiva pelos homens do poder de chumbo, governantes do país, e que comprava às escondidas de outros "companheiros". Por seu lado, Amanda seguia o mesmo esquema, frequentando os "aparelhos" que a juventude de esquerda fazia, ora num canto, ora em outro, sempre variando de local. Cada jovem tinha o seu informante para, com isso, não dar para perceber a ninguém.
Com as cantarolas de Eudes e a chuva que fazia surdo no banheiro, assim Amanda resolveu calar. Procurou ler um trabalho recente de um autor de esquerda que Eudes tinha adquirido de algum companheiro. E estava absorta, lendo o livro que nem se deu por Eudes que acabara de sair do banho.
--- Faz tempo? - perguntou Eudes, por trás da jovem.
--- Ai! Que susto! - respondeu a jovem.
Nesse ponto, Eudes notou que a jovem trajava um lindo vestido de chiffon de aparencia luxuosa com drapeados para noite de festa. Em volta do pescoço, um colar de pérolas em duas voltas, caindo até o busto. No encosto do sofá, uma bolsa pequena a enfeitar o mais da feminina dama. Ele ficou a admirar a jovem, com seu penteado abrindo ao meio o cabelo e descendo até ao ponto da cintura. O jovem não quis comentar algo a mais. Porém, perguntou como se a moça pretendia ir ao teatro.
--- Não sei! Você é quem sabe. Cinema, teatro. Pode ser. No teatro está sendo exibida, inclusive "A MORTE". Ouvi dizer ser uma peça muito boa. Mas não tem nada a ver com o título. - disse a moça, meio pensativa.
--- A MORTE, então. Chega a dar sustudo. Morte. Bem podia ser outro nome. - comentou querendo aliviar um pouco o rapaz.
--- Você vai? - perguntou a moça.
--- A MOOOOORTE!!! - fez Eudes de forma horripilante ao dizer que sim.
--- Você come algo? - perguntou a jovem.
--- Talvez uma pizza. É rápida e salutar. - respondeu o jovem
--- Vou preparar. - disse a moça.
--- E eu me enxugar e mudar de roupa. Fazendo frio danada. - teceu Eudes.
Eles estava a saborear a pizza quando, de repente, a porta abriu com um baque e vários homens que pareciam ser policiais, entraram de repente, alarmando aos dois namorados, mandando a que os dois se levantasse e pusessem as mãos nas costas pois naquele momento eram presos de justiça. Eu rapaz e a moça não esboçaram qualquer palavra enquanto os "gorilas" buscavam por todo o canto as publicações subversivas que eles assim chamavam. Inclusive o livro que estava solto no sofá.
--- Deita! Deita! Deita! Vagabundos! Põe as mãos para tras. Agora, LEVANTA!!! - diziam os "gorilas" ordenado a todo custo armados até os dentes, procurando armas e munições por tudo o que era canto, sem nada encontar. Apenas livros. Muitos livros que os "gorilas" teimavam em chamar de "subversivos".
Na rua, não havia ninguem que presenciasse o fato. Apenas um bêbado que fazia piruetas tentando se equilibrar da cachaça que bebera. O casal foi empurado para dentro de um jipão, seguindo de outro com mais "gorilas" e desencadearam uma célere viagem aos desconhecido. Quando os veículos sumiram na rua, o bêbado procurou correr, a todo custo para avisar aos membros do partido o que então acabara de ver. De bêbado, ele não tinha nada. Era apenas um companheiro de agremiação partidária.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 14

- ELIZABETE -
Naquela noite, pouco depois das 7 horas, Eurípedes estava a olhar os cartazes de filmes no Cine Rivoli, dos lançamentos que o cinema faria e dos que diziam - BREVE -pois tais filmes talvez nunca viessem a passar. Dos lançamentos do dia, um estava em um gigante cartaz, apoiado na parede externa do cinema e uns poucos cartazes em um vitral exposto na outra parede externa, na frente do cine, mostrando as peripécias de amor estampadas nos cartazes. Nas noites de sábados aquele panorama era o melhor que havia para se ver na cidade, por cinéfilos apaixonados pela a Sétima Arte. E alí estava Eurípedes a olhar cismado o que lhes mostravam as cenas mudas de um filme. Na noite límpida de verão, um sopro suave do vento açoitava as árvores próximas de um bar muito bem frequentado pelos notívagos senhores do luar. Vento cálido e sereno que acudia aos que passavam pela calçada da casa de espetáculos. Nesse instante, se aproximou da cena dos cartazes uma linda mulher, talvez moça pelo aspécto que denotava, também a perscrutar os cartazes do cinema bem ao lado do rapaz, distanciando-se um pouco. Igual a um cavalheiro, o jovem rapaz se afastou um pouco para dar lugar a esbelta jovem, toda de negro, trajes sensuais, anel de brilantes bem salientes, colares de pérola, madeixas curtas, olhos negros, sombrancelhas arqueadas, nariz afilado, boca suave e doces e brincos pendentes nas orelhas encobertas pelos cabelos. A jovem parecia uma deusa do eterno Olimpo por seu porte de desejos maledicentes e estranhos.Um suave aroma de perfume afogou os sentidos do jovem ao sufocar por entre a suavidade de ser da mulher presente. De sua tez alva de extasiante ardor, emprestava à senhora ou senhorita um certo grau de vivacidade a casual avidez e cobiça. Ao falar, a mulher deixou escapar um delírio de som em que o rapaz se imaginou em plena cordilheira do eterno.
--- Esse é um filme de amor! - disse-lhe a jovem mulher.
--- Certamente. Vê-se os artistas com são os melhores do gênero. - respondeu o rapaz.
--- Deve ser bom. - gesticulou a jovem mulher.
--- Com certeza. Ele mereceu os melhores elogios da imprensa especializada. - argumentou o rapaz ao se fazer compreendido.
--- O senhor vai assistí-lo? - perguntou a jovem.
--- Com certeza. - respondeu o rapaz.
--- Pena que eu não possa. - resentiu-se a jovem mulher.
--- Mas o filme fica em cartaz por vários dias. - salientou Eurípedes.
--- É. Mas eu tenho que viajar amanhã logo cedo. - relutou a jovem.
--- Pois assista hoje. - disse o rapaz.
--- Não posso, também. Tenho uns deveres a fazer. - respondeu a moça, tristonha.
--- É uma pena. Tudo que posso dizer. - lamentou Eurípedes.
De relance, Eurípedes observou se a dama tinha alguma aliança nos dedos o que lhe levou a crer que a mulher não era noiva ou casada, pois de aliança nada havia a mostrar. E lhe perguntou a seguir, com desenvoltura.
--- A senhora é de fora? - perguntou o jovem.
--- Senhorita. - disse a jovem ao esboçar um sorriso.
--- Ah, bom. Desculpe-me, senhorita. - relutou Eurípedes.
--- Não foi nada. - disse a jovem, ligeiramente a sorrir.
--- Elizabete. - disse ela a seguir.
--- Eurípedes. - disse-lhe o rapaz.
--- Estranho! - respondeu a jovem ao olhar mais próximo o rapaz.
--- O nome? Creio que sim. - respondeu o jovem.
A moça sorriu levemente. Nesse tempo, eram eles como velhos companheiros a conversar sobre assuntos banais.
--- Vai assistir? - perguntou a jovem.
Ele, de imediato, pensou que a jovem não estaria indo ao cinema. E logo respondeu, com cuidado.
--- Talvez amanhã. Um outro dia. Para a senhoria ver, eu também tenho algo a cumprir. - relatou Eurípedes.
--- Ah bom. Estamos empatados. - sorriu Elizabete.
Um outro casal se aproximou do cartaz do cinema e passou a olhar e as fotos tinham a mostrar. A jovem que acompanhava o rapaz que alí chegara, era bela e olhou por alto a figura de Elizabete e o porte do seu homem e fez de conta de que não lhe fazia inveja. Agarrou-se ao braço do seu enamorado e confabulou com ele coisas atinentes ao filme.
--- E a senhorita tem companhia? - perguntou Eurípedes.
--- Eu? Não! Estou só. - e sorriu francamente.
--- Perguntaria se não queres ir a um local decente tomar um cálice de Chateau Duvalier? - perguntou suavemente o jovem.
--- Humm. O jovem parece conhecer o bom paladar da vida! - disse Elizabete, a sorrir.
--- Então? - voltou a perguntar o rapaz.
--- Se tu queres, não faço questão. A noite é longa e a lua vem saíndo! - ressaltou a jovem a sorrir de forma sorrateira.
Os dois, de braços dados, seguiram, atravessando a rua em direção à outra avenida, a procura de um recanto feliz onde os dois pudessem se aconchegar e contar coisas trivias à luz do luar sob o toque de suaves orquetras onde tudo não passava de um mero desejo de amor. As aves noturnas faziam seus ninhos nas alcovas dos ramalhates de lindos roseirais ao soar dos sinos augustos da ilusão passageira. Os sonhos de quimeras se abriram nos olhares tontos de amoções da doce jovem de canduras mil, alheios aos acordes da sedução cheios de esplendor.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

LUZ DO SOL - 13

- LENA -
CONTO
Êxtase! Era como aquela dama da noite deixava os seus apaixonados e paupérrimos mortais. Lena era seu nome. Nas noites de sexta-feira e início de sábado, o lupanar estava repleto dos enigmáticos rapazes e homens para ver de perto a divina e sensual Lena, deslumbrante e meiga contagiando a todos que estavam onde a mulher eternizava na inigualável pista de dança do lugar. Impregnada de total ternura, ao som de violínos mágicos saídos do templo da maviosa e cativa radiola, ela bailava para todos os letárgicos pobres humanos que, ostensivamente, a aplaudiam com severa altivez. A tenacidade e elegancia da diva faziam dos desprovidos homens os deslumbrados seres embriagados em busca de um beijo sutil e divinal que Lena lhes deixava ao passar próximo às alcochoadas mesas onde os desatentos pares mortais estavam, com seu meigo jeito de adornar a sua bem torneada cálida mão. No passar das horas as afeições distantes da mulher tornavam-se cada vez mais fulgazes aos seus apaixonados seres. Aquela suprema dama era a glória de todos que estavam no antro do lupanar. Apenas o perfume de uma saudade imortal chegava até aos loucos amantes das ilusões extremas. Os ébrios duendes choravam de dor deixando o pranto a escorrer pela face diante da beleza imortal daquela pura senhora das ilusões perdidas. Ao toque telúrico de um Tango apaixonado, a embriaguez do êxito trazia para frente a nostálgica dor de uma saudade amarga. O clamor embriagante sacudia para cima no seu ponto alucinante aquele êxtase da mulher amada. Aos gritos de todos, buscando aplausos, a dama de escarlate não obedecia aos reclamos de sua platéia delirante. Acomodada em seu ser, Lena dançava como se estivesse nos lírios da primeira forma de expressão da arte nos seus acordes deslumbrantes. Nada além de uma ilusão perdida. Aos duendes presentes ficava apenas a presença de um amor em forma de verdade. O seu mistério não se podia decifrar, porém sentir enquanto a dama ocilava ao som de um bandolim saudoso distante. Sonhos de paixão na sombra vaporosa que a diva deixava ao passar por perto de alguém que extasiado estava. A um só tempo, a mulher discipava o sonho do algoz amante. Já bem distante, ela brilhava em louca cadência do imortal e aveludado Tango. Um beijo sentido a naufragar no espaço do salão, Lena deixava-se cair cheia de ansia e de calor. Era o prazer de uma dama a sacudir de encantos nos doces acordes de um suave e encantador violino. Era o final da dança que deixava a todos extasiados de ardor contido. Era o fim, pois neste ponto, a dama corria em volta do salão e desaparecia no espaço.