quarta-feira, 7 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 78

- OUTRORA -
- CONTO -
--- Atende!! Atende!!.Bosta!.Atende!. – e o celular parou de chamar enviando para a caixa postal.
Adélia não queria deixar recados. Por isso, desligou o seu também. Onde estaria ele àquela hora da manhã que não atendia o celular, ela não sabia. Na noite anterior eles brigaram por um negócio fútil. Brigas de namorados, apenas. E Euclides saiu sem mais conversa, amargurado de dor. Adélia bem sabia que o romance estava por um fio. Euclides era do tipo esquivo e não fora a primeira vez que ambos brigaram. Naquela hora da manhã, ele desejava fazer reconciliação e deixar de lado o que acontecera na noite passada. Mesmo assim, não sabia se Euclides estaria na mesma condição de conversar. Outrora, houvera a mesma contestação entre Adélia e Euclides quando o rapaz saiu do apartamento da namorada com ares de quem não voltaria jamais. Porém, ele voltou. E era assim toda vez que os dois brigavam.
Dessa vez, o rapaz estava um tanto inquieto e irritado que não pensava mais em voltar. Não haveria algum motivo para a reconciliação entre ambos. Algumas palavras ele deixara de dizer. Euclides sabia que era doloroso em dizer o que pensava. Embora necessitasse ver mais uma vez Adélia, ele não suportaria viver para adiante com brigas e desesperança. O seu amor foi sempre sincero mesmo assim, por mais que relutasse, preferia não voltar. Lembrava–se dos momentos felizes que viveram no Campus da Universidade onde era freqüente ouvir dos amigos.
--- Esse casal vai longe! – diziam os amigos.
Era uma alegria demais ouvir comentários iguais a esse. Quando a noite era de lua, passara na quietude do céu a ouvir o marejo do oceano, ele e ela sentados na areia da praia acalentando-se por todo um momento de amor. No vagar das horas, o tempo se esvaia como ninguém poderia dizer. Eles não se importavam com o tempo, pois esse não seria um amanha e nem fora um depois. Mesmo assim, naquela hora do presente não havia amor de idílio e divino prazer. A sinceridade que ele plantara se curvou no ocaso da vida. Aquele amor de ontem, não mais repercutia no presente. O fitar de um momento de prazer se acabara, portanto e enfim, o romance nada poderia ser. Mesmo sendo um agora esse afeto, pois não haveria solução para o seu caso.
Adélia não tinha levado estas conjecturas ao pensamento. Ela queria apenas dizer que para ambos o amor não tinha fim. A separação era um caso sem juízo. Sempre no seu coração ela levaria aquele apego, pois sempre haveria o juramento que ambos fizeram de dedicação eterna. Adélia acima de tudo era sentimental. Uma pura jovem que sentia na ternura o seu sossego. Ao contrario de Euclides, homem de tão somente racional. Lembrava-se Adélia de momentos felizes que eles passaram em uma praia distante onde tudo era placidez sob o sol quente da manhã primaveril. Lembrava-se também das urtigas que queimaram suas pernas ao voltar por um caminho tortuoso em direção à vila de pescadores do lugar.
--- Passe álcool! Passe álcool! – dizia uma velha senhora que morava em um mocambo de palha fincado na areia.
E Adélia apenas chorara de dor por conta das urtigas brabas. Ao pleno choro da moça, Euclides passara tudo o que lhe indicavam, vendo o roxo se espalhando por amplos lugares das pernas da sua namorada. Coisas de viajantes por locais estranhos. No seu caminho de ida não teve ninguém que lhe orientasse com respeito das urtigas brabas. Adélia não esquecera aquele momento inglorioso. Quando pegaram eles o automóvel de Euclides, sem medo de chorar, a moça veio por todo o caminhar com o seu pranto cruel a lhe aplacar a face.
Dois ou três dias se passaram com a vermelhidão para se desfazer. Na Faculdade, os amigos de classe a todo instante perguntavam por Adélia. E, de momento, Euclides apenas dizia que ela se acidentara no caminho, porém tudo estava bem. Quando Adélia retornou as aulas, ninguém podia ver o inchaço das suas penas. De veste comprida modelo jeans, ela amarrara com gases o local do inchaço para que as manchas não se esfregassem de muito nas pernas da calça. Por muitos dias, as pernas da jovem ainda eram uma vermelhidão. Com o tempo, passou. Com mais alegria estampada em sua face, Adélia comentava o fato com as amigas de classe dizendo que tudo estava normal, pois a moça, de urtiga, não tinha medo. Conversa para boi dormir.
De outra ocasião, ela viveu momentos de extrema doçura. Foi à vez que os dois namorados combinaram em ir ao Teatro assistir a um concerto de musicas onde o predominante era a antiguidade do repertório. Doce momento de encanto aqueles em que ambos viveram ouvindo valsas e canções num verdadeiro deslumbramento. As vozes que se interpunham eram das mais sublimes ao executar verdadeiros hinos de amor plangente. No seu lugar, em um camarote, Adélia se emudeceu sublime quando um nostálgico cantor interpretou uma antiga canção que a fez lembrar-se dos discos de vinil que seu pai guardava em sua casa de campo. Em instantes de temor, Adélia se pôs de veras a chorar. Naquela ocasião, o seu namorado guardou a sua face em seu ombro terno dentro a imensa serenidade que o ambiente imprimia.
Velhos momentos de amor foram aqueles em que os dois namorados vislumbravam o futuro com a melhor desventura. Em um tempo, Euclides perguntou a Adélia:
--- Vamos casar? – indagou Euclides.
--- Quando? – inquiriu Adélia.
--- Agora. – disse Euclides a sorrir
--- Já? – perguntou Adélia.
--- E por que não? – respondeu Euclides.
--- Doido. – sorriu Adélia.
--- Você não quer? – inquiriu o rapaz.
--- Tá muito cedo para casar. – respondeu à jovem se aquietando no colo do rapaz.
Isso foi no passado. Naquele instante, a história era bem diferente. Euclides, já diplomado igual à Adélia, vislumbrava o futuro. Ela, por seu modo, carecia de afeto e implorar um pouco de dedicação. Brigas eram coisas passageiras. Porém, Euclides não respondera ao seu chamado.



terça-feira, 6 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 77

- LUAR -
- CONTO -
Extremamente bela, a mocinha como todos na fazenda a conheciam como apenas Luar saiu naquela manhã de primavera por entre os deleitosos pés de cafezais onde ninguém a veria, e ali se masturbou na ânsia do desespero clamando por alguém que não vira nunca mais. Era o seu prazer incontido o de se seduzir ao amanhecer na fazenda de seu avô, rico proprietário de terras e de cafezais. Sua cor morena era como o sangue que lhe untava as veias. Filha de uma bela mucama ainda jovem quando a concebeu, a ninfa foi criada na própria casa dos pais e avós como uma jovem rica e doce igual às açucenas. Manhã de sol, Luar andou a esmo pelos quintais de plantio de cafés onde tudo era cheiro de amor eterno. O aroma que os cafezais faziam era como um tépido sentido de puras rosas primaveris. O seu amor fugidio fora embora para a grande metrópole em busca de estudos e ela ficara ao relento, apenas ficando a lembrança do seu terno amado. Nos leirões dos cafezais, Luar se completou em êxtase ao sentir a lembrança do voluptuoso amado com quem ela fizera inúmeras vezes amor em seu brando chão arroxeado onde os demais empregados jamais teriam que vir a colher café naquela época do ano. Luar lembrava o perfume aromatizante dos cafezais no gosto de sua paixão que lhe incendiara.
O vestido que estava a usar, ela arrancara e agitara ao leu ficando nua inteiramente despida apenas com o fogo do seu corpo. Nos estertores da ânsia, a noiva do tempo apenas ansiava por seu divino e ardente amor, longe dos olhos da sensual mulher. Foi um tempo de melancolia aquele pelo qual a meiga morena passava nos arrabaldes da fazenda. Ao final de tudo Luar copiosamente chorava por ter feito na ânsia do amor eterno o desprazer de se mitigar por tanto atento desamor.
--- Ô meu lindo amor. Onde você está? – narrava ela consigo.
Na náusea do desespero, Luar voltava a colher as suas vestes espalhadas por entre os cafezais recheados de pomos de frutos. Extenuada por tanta amargura sentida, ela enxugava as lágrimas do seu rosto ao tempo em que juntava vagarosamente o parco agasalho que até então sacudira para o alto. A se ver tão nua, ela sentiu remorso.
--- Por que, amor? Por quê? – perguntava Luar à aragem.
De forma lenta, Luar voltou para a fazenda ao tentar se recompuser do que acabara de cometer em seu próprio corpo. Os homens da lida procuravam fazer o seu lavor em outras partes dos cafezais. De onde vinha à jovem, não se avistara mais ninguém, pois não havia por lá café pronto para colher. Alguém perguntou a jovem por onde ela andara, e a jovem respondeu simplesmente:
--- Por ai. Na fazenda. Nos cafezais. – disse isso e saiu ao banheiro.
Quem perguntou ficou a olhar a jovem um pouco desconfiado. Esse alguém nem saberia dizer o porquê de tal desconfiança. Talvez a moça estivesse de outro namoro com algum empregado da fazenda. Talvez sim. Talvez não. E ficava com certeza a duvida da cabeça desse alguém. A linda jovem Luar era apresentada como uma púbere da própria casa e ninguém ousava dizer que ela era filha de uma mucama. Por isso, o seu pai nem se importava com o que a filha fazia nas horas vagas. O avô, já velho, em nada se metia e tinha a jovem como sua própria neta, filha de um filho dele. Não raras vezes, o velho avô pedia à neta que lesse algum artigo que lhe dizia interesse. E ela, obediente, fazia a vontade do avô. Sua mãe morrera fazia alguns anos de uma “tal doença braba”. Na verdade, a mãe de Luar morrera de câncer, fato que não se falava por aqueles tempos.
Quando a mãe de Luar estava a beira da morte, lhe segredou o que de fato acontecera na casa da fazenda. E pediu pelo amor de Deus que ela não dissesse a ninguém o que lhe confessara. A jovem ficara por demais assustada com aquela revelação feita a hora da morte pela mucama. Fato que nunca pensara na verdade. Nesse dia Luar chorou. E a moça ficou por vários dias de plena e absoluta melancolia ao se lembrar do que dissera a mulher no fim dos seus dias de vida na fazenda. Apesar de que ela soubesse da sua origem materna, outra pessoa não caberia dizer desse acontecimento. Luar era tido como neta do velho e ponto final.
No sepultamento de sua mãe legitima, o seu pai esteve presente como também o seu avô, avó e mesmo a mãe adotiva e algumas irmãs. Nem todas estavam presentes ao velório e sepultamento da mucama pelo fato que outros mais estavam residindo na Capital. A mãe de Luar foi sepultada no tumulo da própria família dos Hortênsios. Dias de prantos e muitas lágrimas. A mãe adotiva de Luar fazia a vez de uma mãe legitima. À Luar, ela jamais comentou a respeito da origem filha amada. Para todos os efeitos, ela era a verdadeira mãe da jovem. Suas duas outras irmãs que talvez soubesse de algo, nunca teceram explicação alusivas. Apenas a mãe biológica quando estava a morrer, confessou a filha a sua vida e a razão de todos não falarem coisa alguma a respeito do assunto. Por isso, Luar também calou.
O seu jovem amado era um filho de fazendeiro que morava na mesma região. Eles se amavam desde criança. Brincaram de esconde-esconde e de outras brincadeiras de meninos e com o tempo os dois se viram apaixonados. Certa vez, Luar e seu namorado foram até ao cafezal onde ambos fizeram sexo à luz da lua. Era noite de pleno verão. Lua cheia. Amor intenso e eterno. Desde esse tempo, os dois sempre estavam agarrados no meio do cafezal até o dia em que o rapaz disse que teria que viajar para a Capital. Luar chorou. Chorou demais. Eterna melancolia. Após tantos anos de infância e de namoro, ele teria que partir. E ela ficaria só. E foi assim que se deu. Em momentos de desespero Luar voltava sempre ao cafezal e ali matava a sua vontade e a recordação do jovem eterno namorado. Naquele dia, também.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 76

- REJANE -
- CONTO -
No calor da manhã da segunda feira quando Rejane estava acordada, sentada no chão, pois a cama já não fazia mais efeito algum, ela se lembrou do seu verdadeiro amor que ela abandonara sem ter motivos. O violão emudeceu em um canto solitário do quarto de dormir como se ele fosse o culpado de tudo o que sucedeu. Havia apenas a janela por onde entrava o sol. A cortina da janela no seu jeito dormia preguiçosa e calada como se estivesse somente a espera de chorar. Com o seu meigo e lindo corpo, Rejane desistia de tudo o que lhe fazia feliz. Sempre aconteciam coisas dessa natureza. Brigas por tudo e por nada. Aquele era mais um dia. Lençol caído ao redor do seu corpo nu era tudo o que restava. Pensativa no que fizera, Rejane pouco imaginava de quem era a culpa, se houvesse culpa nas brigas de namorados. Ao acordar naquele dia ela somente lembrava o jeito em cuja forma seguiu o seu belo namorado na noite do dia anterior.
Na noite de domingo Rejane rompeu o laço que prendia ao jovem por causa alguma. Apenas uma brincadeira que ela se ressentia, foi tudo o praticara o jovem. Quando era o final do mês, a moça sentia dores cruéis por causa de sua menstruação. Aquele era o tempo que o melhor a ser feito era de não ver ninguém. Ela preferia ficar em seu quarto onde não podia nem assistir os programas de TV e ao menos ouvir o rádio. O barulho de carros na rua vindo subindo pelas paredes do edifício e entrando no seu quarto, era um temor a mais. Naqueles momentos de dor inquietante, Rejane apenas se lembrava do tempo do sitio onde não havia nada para incomodar. O sitio do seu avô era um local sossegado onde borboletas apareciam volitando ao sabor da brisa de todas as manhãs, meio-dia e tardes.
Nos dias de inverno, as borboletas não mais apareciam. E ela não sabia o porquê desse desaparecimento. Nesse tempo a menina não sabia de tudo o que mais tarde passaria a conhecer. Apenas as coisas triviais da fazenda onde brincava em comum com as suas duas irmãs mais velhas que ela. Vez por outra aparecia na fazenda do seu avô outra menina, sua prima, que vinha com seus pais. Os adultos ficavam entre os adultos. As meninas entre as meninas. Naquele tempo não havia dores atrozes. Certo dia, ela amanheceu coberta por sarampo. Então, foi obrigada a se deitar na cama existente no quarto de dormir da fazenda onde não tinha o direito sequer à luz do sol. Naquele quarto, ela tirou uma semana de solidão onde apenas a mucama aparecia para levar o seu leite, café, chá, torradas e, na hora do almoço, uma sopa feita com todo o cuidado.
Para Rejane, foi um sacrifício tremendo aqueles dias de sarampo. Quando não havia ninguém por perto, a menina olhava por uma fresta da janela as borboletas esvoaçando pelos roseirais. Quando alguém aparecia, ela voltava a deitar e ouvir a recomendação dada pela mucama.
--- Cuidado, viu? Se não vai virar sarapampão! HUM! – falava a mulher gorda e negra.
A menina olhava com o seu olhar apenas de menina e se cobria toda com um lençol por conta do tal “sarapampão” que ameaçava vir. Porém ninguém sabia dizer com precisão o que era a tal moléstia. Com a doença do sarampo Rejane já sofria demais, com as chagas por todo o corpo, até mesmo no céu da boca o que a impedia de comer qualquer coisa. Apenas soube como estava “feia” depois do oitavo dia quando pos a cabeça no lado de fora do seu quarto. Nesse dias as feridas estavam murchas e ela podia sair do quarto. Mas, nesse dia foi um verdadeiro horror. A sua irmão encostada, logo que viu a cara de Rejane, saiu aos gritos tremendo de medo dizendo que a menina estava toda ferida.
--- Mããããeeee! A cara dela estava toda feia! Mãããeee! – gritava a sua irmã encostada.
Por isso, Rejane não saiu do quarto, pois era uma menina feia. A mucama entrou nos aposentos e lhe fez carinho dizendo que tudo aquilo era normal. A menina precisava de um banho quente para despertar do mal que lhe acometera. Era o que dizia a mucama.
--- Vamos lá pra dentro que eu ponho uma bacia com água. – dizia a mulher gorda.
--- Vai doer? – perguntou Rejane.
--- Não. Eu paço bucha por onde não tem sarampo. – respondeu a mulher gorda.
E a menina chorou de medo. Como a mucama teria que acertar o local onde não houvesse chagas? Era isso que imaginava Rejane. Pois todo o corpo havia se enchido de sarampo, muito embora já estivesse secando. A menina seguiu a mucama, tremendo de medo e entrou no banheiro. Por lá já estava uma bacia cheia de água com umas folhas de eucalipto. A menina foi obrigada a se despir por completo, pois a mucama queria passar sabão em seu corpo inteiro, com muito cuidado para não chagar os sarampos que ainda mostravam vida. As suas irmãs estavam escondidas no quarto bem mais longe do que o de Rejane. Elas se abrigavam por completo temendo ver a sua irmã sair do banheiro.
--- Estou com medo, Nina! – dizia a encostada.
--- E eu. Não quero nem olhar. Dizem que cega!!! – falou a mais velha de todas.
Nesse desalinho todo, apenas a mucama e a mãe da menina podiam ver o estrago que fizera no corpo de Rejane o surto de sarampo. Eram muitas outras meninas e meninos da cercania da fazenda que estavam tendo a mesma doença.
--- Cuidado para não atacar as outras! – dizia a mucama a mãe de Rejane.
--- E o que se faz para evitar? – perguntava a mulher.
--- Não sei! É perguntar a seu Justino. Ele é enfermeiro. – respondeu a mucama.
No dia seguinte Justino apareceu na Fazenda, trazendo consigo uma maleta de injeção, agulhas, seringas, álcool e umas ampolas de vacina contra sarampo. Ao chegar, foi recebido pelo avô de Rejane que logo foi perguntando:
--- E esse negócio presta? – perguntou o avô de Rejane.
--- É o melhor que tem. Todo mundo está se vacinando por esses lados. – respondeu Justino acreditando na vacina.
--- Por que você não veio antes, homem? – inquiriu o velho.
--- Trabalho. Eu sou sozinho para atender a toda essa gente. – disse Justino.
--- Trabalho! Rum! – fez o velho com voz antipática e o cachimbo na boca sentado na cadeira de balanço e com um pé suspenso posto na cadeira.
As duas garotas foram logo vacinadas e, por precaução, a mãe de Rejane e também a mucama por ter estado cuidando da filha menor. O velho avô nem quis ver a vacina.
--- Homem! Já estou velho! E se morrer é de morte morrida! – comentou o velho avô
Aquele foi um tempo de velhas e diluídas histórias. Depois, chegou à menstruação na moça Rejane. E então, o namoro. Naquela segunda-feira, ela acordara em seu apartamento, na cidade, e se lembrara de todo aquele incidente. E do seu namorado também que no domingo Rejane mandou embora.

domingo, 4 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 75

- NORA -
- CONTO -
Quando a luz do sol penetrou quarto adentro Nora foi acordada pela mucama que, naquele momento fazia a limpeza dos cômodos que havia postos ali diante da vista de quem entrasse. Preguiçosa como ninguém, a dama apenas queria mais um momento de sono. E foi assim que passou a reclamar com seu rosto na fronha se encolhendo cada vez mais na cama de casal:
--- Tire essa luz de minha cara. - - soluços de choro que ela fazia.
--- Ora! Já faz tarde do dia, moça! – respondia a mucama com sua voz grave.
--- Mas tire! Feche a janela. – voltou a reclamar baixinho de forma chorosa a dama.
--- Levanta. Que é o melhor que faz. – disse a mucama a dama da noite em sua forma azeda e cheia de ranço.
E Nora voltou a chorar mais ainda por não ver os seus clamores atendidos. A mucama varrendo o chão com uma vassoura de pelo e enxugando as partes molhadas com a sua balde de água, fazia aquilo com toda pressa, se agachando para poder alcançar em baixo da cama ou arrumar as toaletes onde a dama deixava os seus favoritos perfumes a guardar.
Com o tempo passado, Nora saiu preguiçosa, fazendo jeito de que chorava e se encaminhou para até o lavabo social onde se pode ver por um espelho a cara triste de quem passara a noite acordada. Um lustre de cristal dos anos trinta era o que restava naquele canto da suíte de Nora. Mas ao canto, um bidê e um sanitário. Havia também um quadrado lavador onde a moça podia se lavar as partes do rosto e escovar os dentes como era comum de se fazer. De qualquer forma, Nora não precisava de tal expediente. Foi ao bidê e depois ao chuveiro, onde cantava musica melancólica sob a ducha totalmente aberta onde podia se molhar perfeitamente bem melhor e tirar o ranço da noite anterior.
---A carteira!! – lembrou a ninfa nesse instante onde desaguava sobre si a ducha forte.
De imediato, completamente nua, correu para o toalete e procurou a carteira de cédulas que o homem havia deixado em seu quarto. Abriu a gaveta e encontrou uma carteira de couro de jacaré, abarrotada de dinheiro. Ela abriu a carteira e procurou contar às notas que ali estavam. Tinham notas em espécie estrangeira da qual Nora não tinha nem idéia de quanto valia. Sabia apenas que era de um valor enorme.
O frio lhe correu por todo o corpo e ela apenas disse:
--- Nossa! É muita grana! – e engavetou a carteira procurando trancar bem fechada e depois voltar à suíte onde deixara a ducha aberta a chover constante.
A dama pensou na mucama procurando ver se a mulher ainda estava em seu quarto. Abriu a porta do banheiro e notou que a mulher já havia saído.
--- Nossa! Quanto dinheiro!!! – falou a dama de forma baixinha.
E em seguida, após poucos minutos, Nora teve a idéia de ir embora daquela pocilga, pois com o dinheiro que o homem esquecera, era tudo que ela queria ter para fazer a vida de mulher que não fosse dama-da-noite.
De imediato se arrumou, tremendo de medo, rezando para todos os santos e vestiu uma roupa já surrada, abrindo a gaveta, retirando por mais uma vez a carteira de couro e saindo devagar, pelo corredor, até alcançar a janela de vidro e dali pular para a liberdade.
Apenas vestindo a roupa surrada, pegou Nora o bonde da linha e saiu às pressas para algum lugar da cidade. A sua cabeça girava a todo instante para onde ir. Ela pensava em mil coisas e nada dizia o certo. O homem da carteira devia ser um magnata que esteve naquele bordel que era o melhor da cidade, assim ouvia dizer por suas colegas de ofício. Num instante de lucidez, Nora se lembrou dos ônibus:
--- É ali mesmo. Vou partir depressa. – argumentou Nora tentando advinha o que fazer.
No primeiro ônibus que encontrou, a dama seguiu viagem. Ali, Nora estava segura. Viu o campo florido na viagem e se lembrou de sua cidade natal. Com cuidado, procurou apalpar a bolsa no seu colo para ver se não tinha caído.
--- Tudo em paz. – disse a dama.
Nas suas carnes vinha o tremor de alguém lhe perguntar algo. Disso, Nora se preveniu. Talvez fosse apenas impressão que tanto lhe assustava. O carro corria e o dia estava chegando ao seu final. Nora, então resolveu ficar em uma parada onde o carro estacionou. Ali, ela procurou saber se tinha carro para a sua cidade. O rapaz apenas disse que o próximo sairia às sete horas da manha do dia seguinte.
--- E qual o próximo carro a sair? – perguntou Nora de forma inquieta.
--- Tem para outros locais. – respondeu o rapaz.
--- Meu pai esta morrendo. Eu tenho que chegar ao sitio. – falou Nora.
--- Tem um que passa perto do lugar. Reservo? – perguntou o rapaz.
--- Reserve logo. Eu dou um jeito em pegar outro. – falou Nora.
Com isso, Nora embarcou no carro que sairia dali e assim, de roupa surrada, continuou sua viagem para Serra do Mato, onde a dama teria paz e sossego ao chegar. E assim, pela manhã do dia seguinte, Nora chegara ao seu sito ou ao sitio do seu velho pai. Qual não foi sua surpresa, o seu pai havia morrido na noite anterior. Ela caiu em prantos. Nora foi socorrida por um dos seus irmãos que lhe perguntou então.
--- Como você soube? – perguntou seu irmão.
Ela não podia dizer a verdade então disse algo como se alguém lhe disse que o velho estava passando mal.
--- Eu soube de uma amiga. – respondeu Nora.
--- Maria, minha filha! Você chegou? – perguntou aos prantos a sua mãe.



sábado, 3 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 74

- LUANA -
- CONTO -
Era quase noite, dia de sábado, Luana acordada, pois não havia nada a fazer. E mesmo que houvesse, ela não estaria disposta para se enfrentar com tarefas que podiam muito bem esperar. Do seu apartamento, no bordel, Luana parecia não estar ou dormindo ou acordada. À noite passada fora de intenso labor e naquele instante ela preferia ficar no leito, a despeito da criada que fazia limpeza do quarto dizer a Luana que já era hora de se levantar do leito. Por alguns momentos Luana olhou para a criada e sorriu. No mesmo instante voltou a tecer sua rosa o que era bem melhor e atrativo para aquele instante. A criada saiu do quarto dizendo claro:
--- Levanta mulher. É hora de trabalho. Tem gente esperando. – disse a criada.
Porém Luana em nada se importou. A garrafa de champanhe estava vazia no depósito de ágata e buscar outra era um sacrifício para a jovem moça. Então, a ninfa voltou a dormir ou cochilar pensado em tudo que tinha o que fazer naquela noite. A mesma coisa de todos os dias. Abraçar quem ela não sabia, dizer palavras e sussurros a um delirante homem velho, beber ou fazer que estivesse bebendo em uma mesa de bar onde dois ou três homens já estavam para lá de bêbados.
--- Uma chateação. Eu não vou hoje. Estou doente. E pronto. – falou baixinho Luana.
O dia já estava noite e a governanta entrou no ambiente onde Luana estava. Sem meias foi logo dizendo com uma voz de quem mandava mesmo:
--- Levanta vadia. Tem gente a te esperar. Vamos! – disse a governanta.
A jovem dama-da-noite apenas respondeu:
--- Hoje estou doente. – com sua voz chorosa.
--- Doente de que? Deixe-me ver! – falou a governanta de forma ríspida.
A dama se encolheu de forma que a mulher não resolveria ver se ela estava ou não menstruada. Luana ficou comprimida como uma concha. Dessas conchas do mar. Com sua voz chorosa exclamou:
--- Deixa-me aqui por um instante. – pediu Luana.
--- Doente que nada! Levanta!! – e a mulher agarrou um balde de água e sacudiu no corpo da ninfa.
Nesse momento, Luana, como se estivesse se afogando na água, levantou da cama e esbravejou incontida.
--- Bruta! Covarde! Não acredita? – contestou Luana.
--- Não! Não acredito!. Cinco minutos para estar no salão!. E pronto!!! – rechaçou a governanta de forma austera.
A jovem dama se levantou de vez, calçando a sandália de felpo como couro de coelho e saiu direto para o banheiro onde abriu o chuveiro e deixou a água cair enquanto a moça ficou sentada no sanitário, com as mãos prendendo os queixos. De forma desaforada e abrupta, a jovem apenas dizia:
--- Droga. Droga. Droga. Puta! – exclamou a moça.
Com tamanhos desaforos ela procurava ter a sua frente à imagem da governanta a quem a detestava fielmente.
--- Mulher vulgar! Pensa que eu não sei o seu passado? – falava Luana de forma impecável e afrontosa.
O passado da governanta era igual ao de todas as damas do bordel. Quando Luana assumisse tal idade, se tornaria governanta também.
Após algum tempo, a dama deu descarga no aparelho sanitário e foi tomar o seu banho onde poderia tirar todas as suas mazelas do corpo sofrido pelos amores de primavera dos senhores de alcova. Algo lhe chamou a atenção naquele instante. A porta do quarto se abriu e a voz da governanta disse ao provavelmente homem que este podia entrar.
--- Ela já vem. Está no banho. Espere um pouco, doutor. – disse a governanta.
Em seguida, a governanta chamou por Luana com voz altiva dizendo que tinha um freguês para ela contemplar.
--- Depressa. Ele não pode estar. Está ouvindo? – perguntou com sua voz altiva a governanta.
Luana não deu resposta. Calou, simplesmente. A governanta bateu na porta do banheiro e voltou a dizer.
--- Depressa!!! – voz da governanta para chamar Luana.
Demorou-se um pouco e Luana saiu do banheiro olhando o seu freguês quase que completamente despido. Era um senhor de longa idade. Talvez tivesse os seus sessenta anos ou mais. Ele estava sentado da cama, olhando o seu pênis que já não erguia mais com tanta facilidade. Naquele momento, era tudo que o homem temia. Passava-se por sua cabeça os instantes de mocidade, as doenças venéreas que tivera o cuidado para não contrair alguma outra. Talvez um HIV ou algo semelhante. E o velho homem começou a chorar baixinho enquanto da porta do banheiro Luana percebia o que lhe estava esperando para fazer.
--- Boa noite. Como está você? – perguntou Luana ao se aproximar do velho homem.
--- Boa noite. Eu estou mais ou menos. Vejo que você é jovem. – disse o homem.
--- É, Tenho 20 anos. O que você quer? – perguntou Luana.
--- Eu? Creio que nada. Vim para cá para não ficar só. – respondeu o homem meio choroso.
--- Está bem. Conforte-se. Toma alguma bebida? - indagou Luana.
--- Só se for refrigerante. – replicou o homem.
Após alguns minutos Luana estava ao lado do homem velho ao dizer-lhe.
--- Um refrigerante para o nobre senhor! – e sorriu ao dizer tal linguagem.
--- Você não bebe? – perguntou o velho.
--- Com mais um pouco. – respondeu Luana.
--- Você não se incomoda? – indagou o velho.
--- De que você fala? – averiguou Luana.
--- De ficar apenas comigo? Assim? Sem nada fazer? – respondeu o velho.
--- De forma alguma. É o seu desejo! – sorriu Luana.
--- Sabe por quê? É porque eu tenho medo de pegar AIDS! – chorou o velho senhor.
--- Que nada. Você é um homem sadio. – reparou Luana sorrindo.
--- Mas a gente pode pegar assim mesmo. – contestou o velho senhor.
Então a dama sorriu.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 73

- SENSUAL -
- CONTO -
O seu nome era Odete. Pelos menos era como as deusas da noite a chamavam. Sensual, eternamente lasciva ela era o universo carnal entre todas as damas que por ali passaram ou estavam onde qualquer homem lhe daria o reino por um instante de amor. Odete chegara aquele bordel fazia alguns meses. Talvez dois talvez mais. Quando apareceu pelo lupanar, ninguém notou a sua verdadeira sensualidade. Afinal, todas que estava ali eram mulheres também. Alguns homossexuais. E dois ou três homens de verdade. Tais homens já estavam com as suas meretrizes. O surgimento de mais uma mulher não lhes fazia diferença. Com roupas sem brilhos e vaidade, vestindo uns meros trapos qualquer a dama queria apenas um lugar para poder dormir. Em contrapartida, ela faria o que o dono da casa mandasse. Essa era a regra, esse era o ritual de todas as damas que ingressavam na vida de meretriz. O seu passado, ela preferia não falar. Quando alguém lhe perguntava de onde era, era respondia:
--- De muito longe. Lá nos confins. Longe mesmo. Não vale a pena dizer. – falava Odete
Longe ou não, ela era naquele momento uma mulher vestida de trapos. Ouvindo bem o que lhes diziam os homens da casa, ela apenas obedecia ao dizer:
--- Som senhor. – voz de Odete.
O lupanar era de um sujeito bastante rico que nunca aparecia no local. Todo o apurado do dia lhe era fielmente depositado em um Banco por outro homem que se fazia de dono do randevu. As damas não conheciam o verdadeiro dono do salão. Alguns nem perguntavam quem era ele. Todos viviam do prazer de encantamento provocante das belas damas e, isso, era tudo afinal.
Com o passar dos dias apareceu por lá um jovem rapaz que todos os presentes, até mesmo a gerente que tomava conta das damas, o chamavam de “Padre”. Ele chegou como sem querer chegar e se bancou em uma mesa um pouco afastada do salão. As mulheres acorriam para ter com o “Padre” e este não dava a maior importância ao que elas ofereciam.
O “Padre” cujo nome era Elias, coisa que pouca gente sabia, tinha sido seminarista de um Convento e, depois deixou tudo de lado invocando que não tinha prazer para ser padre de verdade. Mesmo assim, na rua por onde seguia, sempre com livros debaixo do braço. Os jovens que por ali estava haviam de lhe chamar de “Padre”. E por “Padre” ficou a sua fama de alguém que era de parcos recursos, pois todo o dinheiro que recebia da repartição pública onde trabalhava, ele gastava boa parte na aquisição de livros acadêmicos ou não. No bordel, o Padre estava por lá todas as semanas, sempre na sexta-feira ou no sábado. Ali o Padre preferia ler o que estava em seu braço e assim, se defendia do assédio das mulheres e até mesmo dos homossexuais, porção que ele chamava de “marica” ou homens “fracos” e “medíocres”.
Certa vez, onde ele estava só, bebericado seu copo de uísque, se acercou dele a jovem Odete, já com uns trapos novos, porém modestos. E ali a jovem perguntou ao “Padre” se podia sentar apenas para olhá-lo.
--- Sente. Faz favor. Não se importe comigo. - disse o “padre” com a sua voz branda.
Então a jovem se acomodou, sentada em frente ao “Padre”, com as mãos apoiadas ao queixo, olhos atentos, cabelos loiros e finos, boca de uma sensualidade sem par, temendo ser repreendia por alguém. Mesmo assim, Odete estava ali. Sorridente e cheia de encanto, a qual o “Padre” em nada se deslumbrou, a dama somente estava fazendo “salão” enquanto o moço se deleitava na leitura e não raro sorria. Foi num desses momentos que, a dama querendo despertar a curiosidade do “Padre”, então lhe foi à prova.
--- Que livro é esse? – perguntou Odete de forma sensual.
--- Um livro. Olhe. – e lhe pôs o livro a sua vista.
Ela apanhou o livro e folheou com certo cuidado e o entregou de volta, dizendo.
--- Um livro. De certo que o nome não chama lá muita atenção. – responde Odete.
--- O MORTO. – proferiu o Padre.
--- É. Interessante. Mas não vale a pena sorrir por causa de um morto. – disse Odete
--- Engana-se. É neste contesto que está o que me fez sorrir. – contestou o ”Padre”.
--- Eu bem podia ser a “Freira”. – respondeu Odete a sorrir.
--- Como? Por que “freira”? – perguntou o “Padre”
--- Por nada. Besteira minha. Você é o Padre e eu seria a Freira. – respondeu Odete.
--- Ah sim Entendi. Mas me chamam de “padre” por outros motivos. – relatou Elias.
--- Eu sei. Ouvi falar. Interessante. Mas vale a pena. – falou a mulher.
O homem ainda estava distraído no texto do seu livro que nem prestou atenção ao que a jovem moça ou mulher da vida dissera. E continuou a ler um seu novo livro, “O Morto” que ele adquirira naquele dia.
--- O que foi que você disse? – perguntou Elias.
--- Nada não. Tolice minha. – sorriu a dama.
--- Ah bom. Faz tempo que você está aqui? – perguntou o “Padre”.
--- Aqui ou no bordel? – inquiriu Odete.
--- No bordel. Desculpe. Fui mau na expressão. – disse o “Padre”.
--- Dois meses, mais ou menos. – respondeu Odete um tanto seria.
--- Por que não sai dessa vida? – perguntou Elias, que acabara de fechar o livro e se voltar para moça de vez.
--- Não paga a pena. Sair só se for com você. – replicou sorrindo a dama da noite.
--- É de se pensar. – concluiu o “Padre, olhando as vestes da jovem carente de algo mais.
E os dois entraram em conversa mais amena, Odete falando de sua vida de meretriz e o “Padre” apenas a escutar com toda a atenção os sermões da mulher. Passaram-se horas naquele mesmo ambiente onde a conversar às vezes esfriava e o “Padre” procurava fazer arder mais ainda o fogo das intenções da dama. Pelo meio da noite, eles foram a alcova onde Odete tinha o seu incomodo “lar” para ali aconselharem-se com maior carinho. O “Padre” era um homem simples, porem garboso. Fizeram amor como se fazia a qualquer dia ou hora. Ela não teve a menor emoção em fazer aquele ato com o “Padre”. Porém, foi ai que a historia mudou de rumo. Elias, então, ao saciar a sua extrema vontade pediu a jovem:
--- Case comigo! – falou Elias.
--- Como? – falou Odete alarmada com o pedido feito àquela hora da madrugada.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

LUZ DO SOL - 72

- THELMA -
- CONTO -
Na manhã de quinta-feira, céu intenso, calor mortal, Thelma já havia saído para os estúdios da TV onde trabalhava. Para ela, era um trabalho comum o de ser atriz. Não raro alguém lhe pedia um autógrafo e Thelma não fazia questão. Com um lápis ou caneta esferográfica ela rabiscava o seu nome com todo o prazer. De outras, ela nem dava por ouvir e seguia caminho. Igual eram as fotos que tirava ao lado de alguém. Se fosse de sua vontade, ela tirava. Se não fosse, passava a frente. E assim caminhava à sombra do sucesso. Certa vez, um jornalista cuja entrevista tinha marcado dias antes, lhe perguntou:
--- E o sucesso? – perguntou o repórter.
--- É efêmero. – respondeu Thelma.
O repórter então calou. Casos de tal preço são efêmero, passageiro, provisório.
Deslumbrante e bela, Thelma tinha o pendor das mais ardentes estrelas da televisão nos seus tempos de anseios populares. Pele clara, cabelos cacheados e longos, rosto quadrado, olhar desejoso, boca de quem pede mais, Thelma era a diva do encanto mavioso onde todos os fãs depunham o olhar cheio de ânsias e deslumbramento. Em seu veículo particular dirigido por um motorista especial, de fraque e chapéu preto, camisa branca, colarinho e gravata além de sapatos e meias pretas, ela era a vampe do mistério onde o glamour parou ali. Otto era o nome do seu motorista. Ele era um exímio condutor de carros particulares. Para a satisfação de Thelma, o homem não lhe dizia coisa alguma a não ser perguntar o destino a tomar, quando Thelma se dirigia a outro local. Não fora isso, era tido de uma forma única.
Naquela manhã de quinta-feira, Thelma, sempre bela e insinuante, tomou o seu carro tendo o motorista lhe aberto a porta e depois seguir para os estúdios da TV e viu de repente um jovem em outro veiculo lhe acenar. Ela não se fez de rogada. Ordenou ao motorista:
--- Siga! – ordenou Thelma.
O motorista, fazendo que não notara o outro rapaz, tomou a direção do estúdio. Com certeza, Thelma nada queria com o seu novo amor, se fosse o caso. Alguns minutos depois, o rapaz estava emparelhado com o auto de Thelma. Ela, no banco traseiro e ele, no dianteiro do seu veiculo. O rapaz fez menção novamente para a moça que, afinal, ela pediu ao motorista que suspense o vidro da porta.
--- Suspenda o vidro e ligue o ar. – proferiu Thelma.
O motorista obedeceu. Em seguida, a moça ordenou que o seu motorista entrasse à esquerda na primeira rua que houvesse e assim despistaria o rapaz que havia seguido o seu veículo.
--- Sim senhora. – respondeu o motorista.
Ele então fez uma curva excepcional livrando-se de vez do seu perseguidor. Mas a frente tinha outra rua a direita onde o motorista sugeriu entrar para livrar de vez do rapaz que estava a perseguir a dama, apesar de seu sorriso franco mostrar que o jovem queria apenas ser gentil.
--- Podemos entrar aqui. – disse Otto.
--- Faça isso. – respondeu a moça.
--- Ele está lá à frente. Podemos seguir em caminho contrario o dele. – falou Otto.
--- Sujeito chato. Desvie dele. – replicou Thelma.
O motorista então fez o caminho inverso deixando o rapaz sem saber o que fazer. O carro de Thelma seguia veloz percorrendo por diversas ruas, obedecendo ao desejo de Otto em caminhar por onde fosse de maior tranqüilidade. Então, tudo ficou normal até a entrada do estúdio. Ao chegar à frente do estúdio da TV, Otto viu o seu rival em direção, parado bem na frente do seu carro causando embaraço para Otto fazer a manobra e seguir em frente ao estúdio.
--- Faça algo. – disse Thelma.
--- Sim senhora. – respondeu Otto.
Então, o motorista de Thelma deixou o seu carro e se dirigiu ao do rapaz. De posse de um estilete, Otto secou dos pneus do veiculo do rapaz e voltou para o seu carro enquanto ouvia o rapaz gritar.
--- Hei! Safado! Energúmeno! – bradou o rapaz com tudo o arrojo.
Então, Otto seguiu o seu carro em direção ao estúdio onde Thelma teria trabalho deixando o rapaz para traz enfurecido, bradando, escachando, falando os maiores impropérios, rasgando a roupa, pulado em cima dos pés, sacudindo algo em direção ao chão e propriamente berrando como se estivesse louco.
--- Que você fez? – perguntou Thelma, sorrindo entre os dentes com o seu rosto de menina.
--- Sequei os dois pneus do carro dele. – respondeu Otto.
A moça caiu na gargalhada com se o fato não tivesse ocorrido com o rapaz.
--- Você é louco. – replicou Thelma.
--- Era o jeito que tinha de parar o carro dele. – respondeu Otto a seu bel prazer.
--- Louco. – disse Thelma a sorrir desbravadamente ao descer do carro e se dirigir aos estúdios.
Nesse instante, ela beijou o motorista com suavidade deixando o homem sem saber o que fazer. Otto disse apenas isso.
--- Obrigado senhora. – falou de forma tímida o motorista.