terça-feira, 7 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 13 -

- Lucille Ball -
-- 13 --
Quando Honório chegou ao seu escritório, o dono, Dumaresk já estava no seu local de trabalho passando as vistas em documentos importantes para ele. O sobrinho disse apena ter chegado atrasado por motivos particulares. O homem ouviu sem tirar a vista dos papeis. Pigarreou e cuspiu para dentro de um cesto e não disse coisa alguma. O homem Miguel que tomava conta de todo o conjunto, pois ele era também o porteiro, foi quem falou a Honório.

--- Uma moça telefonou para o senhor. – relatou Miguel a meia voz.

---Disse o nome? – indagou surpreso, o rapaz.

--- Disse. Mas não me lembro bem. Está anotado o telefone dela. – respondeu Miguel.

--- Ah. Deixa-me ver. Hum. Não seria da minha casa? – perguntou Honório.

--- Não. Parece que a moça falou em uma repartição. – falou Miguel.

--- Repartição? Não temos nenhum pedido para atender em repartição! – observou Honório

--- O senhor liga para a repartição. E logo informam. – respondeu o homem.

--- É. Pode ser. Deixa-me fazer a chamada. – desconversou Honório.

Então Honório ligou para o numero anotado e quem atendeu a chamada telefônica foi uma voz masculina dizendo apenas o tradicional “alô”. Honório se identificou e perguntou se alguém dessa empresa tinha telefonado para ele. O homem respondeu que se estava falando de uma Procuradoria. Porém ele verificaria que poderia ter ligado para Honório. Passou-se um bom tempo e uma voz feminina atendeu ao telefone.

--- Sim? Pode falar! Com quem o senhor quer falar? – perguntou a voz de mulher.

--- Escute. Ligaram para mim desse número. Eu não estava. Mas o rapaz anotou o numero. Eu queria saber de quem partiu a ligação. Aqui é um escritório de Despachantes. Quem fala é Honório. – resumiu Honório.

--- Não sei informar. Aqui tem vários funcionários. Qualquer um pode fazer ligação. O senhor não tem o nome de que ligou para o senhor? – respondeu a voz de mulher.

--- Claro que não. Ela informou, mas o rapaz que recebeu o recado não se lembra quem foi. – disse em troca Honório.

--- Lamento. Não sei informar. Desculpe esse mal entendido. – respondeu a voz de mulher.

--- Tudo bem. Não tem importância. Espero que a pessoa volte a ligar. – concluiu o rapaz e desligou o fone.

E de volta ao seu oficio Honório não se lembrava quem podia ter chamado ao telefone. O caso correu através da sua mente e logo ele se esquecera de tudo. Com um pouco de tempo entrou um rapaz no escritório procurando por Honório. E o rapaz respondeu ser ele a pessoa. O visitante da manhã veio direto ao assunto. Ele era Aloísio e estava ali para lhe oferecer uma oportunidade genial.

--- De que se trata? Se for abacaxi pode ir embora! – respondeu Honório um pouco áspero.

O homem sorriu e disse não se tratar de frutas. Ele apenas estava a oferecer um automóvel por preço módico e queria saber se o rapaz gostaria de ter um veiculo quase novo.

--- Quase novo! De quem é o calhambeque?. – perguntou Honório sem pressa em comprar.

O homem voltou a sorrir e explicar o carro não era um calhambeque. E mesmo que fosse, era um veículo novo, ou quase novo. Ele oferecia ao rapaz, pois tivera as melhores informações a seu respeito. Honório não se importou com os elogios, pois, com suma e imperdoável certeza, era aquela linguagem de um vendedor de carros velhos.

--- Não. Não quero. Algum dia eu compro talvez ao senhor mesmo. – replicou Honório.

No entanto a conversa continuou, o preço caiu quase pela metade, o vendedor negociava das melhores opções possíveis; Honório podia rodar no carro de qualquer jeito; mandasse um mecânico examinar o veículo e com certeza ninguém colocaria defeito em peça nenhuma. Uma conversa de mais de uma hora e sempre a recusa do comprador ao lhe dizer, pois não tinha o numerário previsto para adquirir o automóvel.

--- Não tem importância. Nós nem falamos nisso. O senhor paga a quantia que dispuser. O senhor é quem sabe onde o sapato aperta. Fique com esse maravilhoso veículo, por favor! – resultou a conversa do vendedor de carros.

--- Mas me diga uma coisa; por que somente eu tenho que comprar? – perguntou Honório já um tanto desconfiado.

--- Não é o senhor ter que comprar. É por causa da sua necessidade. Mora longe, pega o bonde, gasta uma hora. Tem todos esses incômodos. Compre o carro, por favor! – resultou a conversa de Aloísio, vendedor de carros usados.

--- E o senhor por que não fica com o carro? – perguntou Honório.

--- Eu já tenho o meu. Afinal estou trazendo para o amigo o melhor dos carros já postos no comércio. – sorriu o vendedor de carros usados.

Nesse instante o telefone tocou. Miguel atendeu. E disse:

--- Para o senhor. – e tapando o fone, explicou – (É a moça do telefone). – esclareceu Miguel.

--- Ah. Bom. Quem fala, por favor? – perguntou Honório ao telefone.

Alguém respondeu no ponto da linha.

--- Ah Sim. Adélia! Como estas? – perguntou Honório cm certo fulgor em sua voz.

--- Aqui, tudo normal. E você? Não apareceu mais? Por quê? – respondeu a moça.

--- Hoje tive visitas para fazer e demorei a chegar. –sorriu o rapaz ao responder.

E piscou o olho para Miguel. Este o compreendeu.

--- Ah bom. Julguei que fora outro assunto. – sorriu a moça do outro lado do fio.

--- E foi outro assunto mesmo. Eu trabalho no Porto. Entendes? – perguntou Honório.

--- Ah sim. Mas ai é de um escritório. – sorriu a moça.

--- É. Mas eu trabalho fora. Aqui venho só para prestar contas! – sorriu o rapaz.

--- Eu sei. Eu sei. Quando apareces lá em casa? – perguntou a moça.

--- Hoje. Está bem. Hoje. Mas de onde você fala? – perguntou Honório.

--- Procuradoria. Do meu trabalho. Entendes? – respondeu Adélia.

--- Ah sei. Para onde eu ligo quando quiser falar com você. – perguntou Honório.

--- Para esse telefone. Sabe? – respondeu Adélia sorrindo.

--- Ah sei. Mas eu telefonei assim que cheguei e ninguém soube dizer dessa repartição quem telefonou para mim! – sorriu Honório.

--- Eu estava ao lado da telefonista e ela não disse não sei por quê. Eu fiquei até cismada. – respondeu a moça.

--- Ah sei. Eu estou agora com uma pessoa. Depois eu ligo para você. Ou à noite com mais vagar a gente conversa. Certo? – perguntou Honório.

--- Está bem. Então até à noite. –sorriu Adélia.

E então se desfez a ligação ao tempo em que o vendedor já estava impaciente para obter uma resposta definitiva do seu comprador com relação ao veículo. Quando Honório retornou, esse já estava com outro aspecto. Foi nesse ponto quando Honório disse de uma vez por todas.

--- Eu fico com o carro. Deixa-me ver como está. – disse Honório esfregando as mãos uma na outra e dizendo para com ele. –

--- “Essa está no papo” – e seguiu para verificar o calhambeque.

Foi uma vistoria rápida com o auxilio de Milton, o mecânico. Correndo de cima a baixo pelo Bairro Alto, entrando pelos becos mais tumultuosos e afinal chegando ao ponto de partida. Os papeis foram assinados e o rapaz entregou a chave do veículo a Honório se comprometendo em vir passar os pais durante o período da tarde. Nesse ponto, Honório deixou o carro nas mãos de Milton para verificar o resto do automóvel e saber se tudo estava nos conformes. Na parte da tarde, Honório foi com Aloísio até ao Departamento de Transito para sacramentar o pedido de transferência do veículo para o seu nome. Ao cair da tarde, Honório já estava feliz e satisfeito pelo seu novo calhambeque.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 12 -

Donna Reed
- 12 -
Ao voltar para a sua casa ou mansão naquela noite, Honório viu as duas mulheres – Do Carmo e Damiana – lendo certo livro cujo autor era desconhecido por ele. Ele cumprimento a sua mãe e deu uma piscadela para a garota. Damiana de imediato entendeu o seu significado. Durante o dia a moça esquadrinhou a casa de cima a baixo procurando um local de maior segurança para que os dois pudessem amar. De tanto procurar, sempre de olho na moça Catarina, para ela uma feroz rival, com mais idade e filha de dona Rosa a mulher da cozinha, encontrou um local mais sossegado dentre tantos existentes. Encontrou o local, mas não tinha sua chave. Então ele deixou o caso para ser resolvido por Honório. A questão era ela ter o quarto, mas não ter a chave. Na verdade, o castelo era com certeza um prédio assombrado. À noite, ninguém andava no sótão e tudo ali era escuro, certamente. A questão é haver iluminação. Porem, com o tempo, aquele recanto ficou desprezado pelos seus moradores e pouca importância se dava em ter ou não ter iluminação elétrica. Nesse caso, da falta de luz elétrica, a jovem menina acabara de pensar.

--- Escuro, ali! Deve morar o Diabo! Nossa! – ela comentou sozinha durante o tempo de espera pela chegada de Honório.

Mesmo assim, aquele era um local ideal para se amar, com ou sem iluminação. E Damiana ainda atentou sobre a participação de Honório e, com certeza, o mistério se acabaria. De modo foi que por volta da meia-noite, à moça esteve no quarto de dormir de Honório e percebeu que ele estava dormindo a sono solto. Devagar e muito cautelosa Damiana chamou o rapaz para poderem ir para o quarto escuro de cima do casarão. O rapaz não acordou, mesmo com a força empregada por Damiana a sacolejar o rapaz a todo custo. Ao desespero, a moça puxou o rapaz para fora da cama como a dizer:

--- Acorda homem!!! – clamou Damiana com voz baixa.

Com o tombo no chão o rapaz acordou assustado. Entre o pavor e o medo, ele quis gritar não fora Damiana tapar-lhe a boca. Em um instante, Honório estirado no chão, Damiana apoiada em cima do rapaz com um joelho e o outro, de um lado e do outro, ela sentada em cima do rapaz, então a sorrir, e fazendo Honório calar e então lhe dizer:

--- Tenho um quarto. Não tenho a chave. Arranje! – recitou Damiana para o atônito rapaz que não podia nem mesmo respirar.

--- Você é maluca? Há essa hora? Saia de cima de mim. Estou morrendo sem fôlego. – respondeu o rapaz querendo tossir e deixando a tosse correr para dentro de seu organismo.

--- Bosta! Você é um bosta! Fiquei acordada até agora e você me vem com essa! – reclamou a moça horrorizada com a decaída de Honório.

--- Espera! Está vendo que não consigo achar a chave de porta nenhuma há essa hora? – falou baixinho o rapaz.

--- Procure. Eu quero. Você sabe. Não estamos em casa? Pois pronto. Se arrume e vá buscar a chave. Se não eu grito. – respondeu a moça.

--- Espere. Tenha calma. Primeiro saia de cima de mim. Depois deixe eu me levantar. Em seguida vamos ver como fazemos. Pode ser aqui mesmo. Amanhã procuro a chave. Me diga qual é o quarto. – reclamou Honório.

A moça se levantou e liberou Honório que desse modo pode se soerguer do chão frio. O que ele disse até que fazia sentido. Dormir com ele em sua cama não era coisa ruim. De um pulo a moça ficou de pé. Sorriu para o rapaz e o deixou se soerguer ainda sonolento. Do seu lado, Honório soergueu de imediato e se limpou da poeira do chão pregada em sua cueca fazendo um aceno para a mocinha falar baixo, pois podia acordar a casa toda. A moça sorriu contente de ver o rapaz apenas de cueca. Bolinou nas partes intimas de Honório e quis fazer sexo ali mesmo levantando seu vestido ornado de organdi que a mãe de Honório lhe dera como mais um presente entre outros tantos.

--- Espera menina! Assim não! Vamos pra cama! – reclamou o rapaz inquieto.

--- Aqui mesmo! Não tens coragem? – indagou a moça com seu ar excessivo.

E ali mesmo eles começaram a se amar.

Na manhã seguinte, já por mais de sete horas, Honório ainda dormia com Damiana ao seu lado com o seu quieto sono. A filha da empregada foi quem notou a ausência a moça e perguntou a sua mãe por onde ela andava.

--- Por aí. – respondeu a mulher meio desconversando.

--- Estranho! Não vi a moça ainda hoje! – conjecturou Catarina com a cara meio inquieta.

--- Eu não gosto de você com esse agarra-agarra com a menina. Você sabe quem sou eu! – reclamou dona Rosa que ainda lavava os pretos para deixá-los bem limpos.

--- E eu estou com agarra-agarra com ninguém! – respondeu de forma antipática a moça.

--- Eu te meto uma panela dessas no teu focinho se você me responder outra vez! – brigou a mulher com a sua filha.

Certo tempo foi passado quando, de repente, Honório abriu os olhos procurando o relógio de pulso e topou com Damiana. Ele ficou alarmado. A hora marcava quase oito da manhã e ele ainda estava a dormir. Damiana roncava, dormindo no sexto sono. Ele nem acordou a mocinha e se levantou sorrateiro, despontou do quarto com escova de dente, sabonete e toalha de banho trancando com chave a porta do seu quarto. O rapaz estava patético com o horário de chegada no escritório. Já era muito tarde para quem costumava a chegar antes das sete horas e dessa feita não chegaria antes das nove. Ele não teve tempo de tomar banho e apenas escovou os dentes, passou água no corpo, urinou e voltou correndo para o seu quarto, arranjando tudo como se tivesse passado à hora. Felizmente a sua mãe não se levantara. Com certeza estaria rezando ou dormindo. Honório olhou para a cama e notou por mais a presença de Damiana. Nesse instante foi ele que sacolejou a moça até acordá-la.

--- Levanta! Levanta! Veja se sai às pressas. Corre! Não faça barulho! Levanta! – chamou Honório com muita pressa a moça.

Então Damiana se espreguiçou toda olhando para o rapaz e voltando a dormir coisa que era mais para fazer dada à hora avançada da manhã. O rapaz estava se ajeitando quando percebeu a moça a dormir novamente. Ele açoitou com o lençol feito uma corda e puxou para fora da cama como Damiana fizera com ele pela madrugada.

--- Levanta moça. Vou trancar a porta! Ouviu! – falou baixo, mas um pouco severo Honório

--- Ah. Não se pode nem dormir nessa casa! – levantou a moça com a cara meio atravessada, soltando gases fedorentos como ninguém e abriu a porta do quarto. Ela olhou de mansinho para ver se tinha alguém na sala. E fez um sinal para o rapaz dizendo:

--- Tudo limpo! – e saiu para o seu quarto pegado com o de Honório.

Ninguém vira dessa vez as arteirices de Damiana passando de um quarto a outro. De imediato, ela ouviu alguém gargarejar longe do quarto e pensou na senhora Do Carmo. Ela então se acomodou na cama, deixando a porta trancada a chave. E pegou no sono novamente até dez horas da manhã. Quando acordou de verdade, ele ouviu a Catarina dizer que o quarto de Damiana estava fechado a chave. Outra voz perguntou:

--- A menina está dormindo a esta hora? – voz de Do Carmo inquieta.

Damiana sorriu baixinho fazendo uma careta de tanto achar graça. Quando alguém bateu na sua porta, Damiana então abriu e sem cerimônia declarou:

--- Que horas? – disse isso com a cara pregada do sono.

Era Catarina quem veio chamar a moça que àquela hora ainda dormia. A doméstica voltou-se como uma bomba e não disse coisa alguma. Mais uma vez demonstrava que as duas não cabiam no mesmo balaio. E saiu enfezada de mundo afora torcendo o rosto. A chegar à sala de jantar foi que ela resolveu falar. E falou com Dona Do Carmo.

---Vem aí. – falou Catarina saindo da casa ampla com amplo puder de moça.

A mulher viu a sua “neta”, como chamara desde a primeira vez e soube de sua existência, Do Carmo acercou-se a “menina” e a acolheu eu um abraço dizendo que a menina tinha acordado àquela hora tardia da manhã. Porem a deixara ir tomar um belo banho para largar e cumprir suas outras necessidades de costume. A garota demorou um bom tempo para fazer o que tinha que ser feito. Então, ao terminar suas obrigações, voltou para o lado de sua protetora dizendo-lhe palavras de afeto e carinho. A mulher, encantada com tanta preciosidade de palavras, a guardou em seu seio como um querido ou querida neta que tanto precisara. A menina encostou a sua cabeça de forma a sentir afagos da velha senhora. Porém, Damiana tinha que tomar café. A empregada Catarina veio trazer a sua refeição com um tremendo mal humor, pois aquela novata estava tirando o lugar que ela sempre desejara ter.

--- Tai a refeição. Beba se quiser. – disse a moça mal humorada.

--- Que é isso, moça? Estais com ciúmes da minha menina? – perguntou Do Carmo.



domingo, 5 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 11 -

Drew Barrymore
- 11 -

O bonde trafegava vagaroso com o seu brando sinal para alertar o cobrador que estava de partida ou alguém para estar no ponto de parada. Nessa hora da manhã a sua lotação já seguia quase a metade. Honório estava sentado em um dos bancos de meio lendo um jornal do dia passado, com certeza notas esportivas. Fazia calor na plena manhã de sol, ainda nem sinal de tempo frio. Em uma parada ele viu subir a moça que fizera um pic-nic com ela e a sua irmã para uma praia do litoral do Estado. Quando Adélia subiu logo avistou Honório e se fez de sorriso. Ele, em troca revidou sorrisos. Fazia pouco tempo que os dois companheiros de Bonde não se avistavam. O rapaz não se esquecera do pedido feito da última vez. Naquele domingo ele havia pedido para Adélia se casar com ele. Porém, a moça foi meio reticente e pediu que aguardasse um pouco. Desse modo, ele resolveu não tocar mais no delicado assunto. Casos aconteceram e Honório não pensaria no tal tempo em casar. E Adélia parecia recordar pouco do que houve ou não fizera ele o gosto a moça. Enfim, o negocio nem foi nem veio. Ademais, ele passou alguns dias ausentes da casa de Adélia por motivos próprios. Por isso mesmo Honório não procurou conversar mais no assunto. E, com o tempo, ela talvez até esquecesse-se do caso. Porém, naquela manhã Honório sentiu nova vibração por Adélia e, apesar de constrangido por não poder dizer o que acontecera resolveu o assunto por outro lado.

--- Você hoje aqui, não é? – disse Adélia sorridente.

--- É. E estou atrasado para chegar ao serviço. Como tem passado você? E Ângela? – perguntou Honório um tanto desconfiado por não ido mais a casa de Adélia.

--- Ela vai, obrigada. E eu já retomei meu expediente e hoje estou seguindo para o trabalho. E que trabalho! – sorriu a moça feliz da vida.

--- Verdade. Você parece muito querida de todos no seu trabalho, não? – perguntou Honório deixando o jornal de lado.

--- Não. Não. É que as meninas fazem fofocas demais. – gargalhou Adélia com sua voz macia.

--- Fofoca é? – sorriu Honório para Adélia.

--- É. O pessoal é bom demais. Diga aí? E você não apareceu mais? Estava encantado? Viajando ou fazendo o que? – indagou Adélia bastante alegre.

--- Eu? Nada. Dormindo. Recuperando-me da luta diária da semana que passou. – explicou Honório o seu tão ausente falado.

--- É mesmo. Pois eu “pensei que você não estivesse mais disposto para ir lá a minha casa”! – sorriu Adélia com todo o ímpeto e fulgor.

--- Eu me lembro de você dia e noite. Parece uma obsessão. Eu mesmo não acredito. Por isso eu resolvi me acautelar. Quero enxergar se, de fato, é realidade. E se não for suma verdade, eu prefiro ver o que tenho a fazer. Na verdade, na pura verdade, em suma, tu és, para mim, uma deusa do Olimpo. Tu enfim nem pode mesmo existir para alguma pessoa. Nem para mim, talvez. Tu és para mim a imagem que nenhum ser pode ter. “És bela, és pura, és meiga, és tudo enfim que tem de belo em todo resplendor da santa natureza. Perdão se ousa confessar-te que eu hei de sempre amar-te” querida minha. – delirou Honório no passeio daquele simples e barulhento Bonde onde outras pessoas tomavam assento em bancos anteriores e posteriores do qual os dois se sentavam.

--- Nossa! Que delírio. Nunca eu tinha suposto ouvir tanta devoção de um cavalheiro em uma manhã de pleno labor. – respondeu Adélia a gargalhar.

Os versos que ele recitava eram de uma canção popular a qual era divulgada no rádio algumas vezes. Mas, sempre havia de surtir bem o efeito quando dita a uma mulher em plena profusão e candura e enlevo. E com Adélia até que surtiu. Ao que parecia, a moça não era ligada em musicas remanescente e que contavam historias de amores delirantes. E mesmo assim, a seu ver, Adélia parecia uma jovem doce e suave, mas não de graça divina onde a canção exprime enlevo da essência perene do permanecer. Naquele instante de suave encantamento, Adélia deixou-se enlevar pela expressão máxima do momento e Honório a beijou suavemente como em contos de fadas. A moça se alucinou por tanta comoção de momento.

Ao trafegar pela avenida já então em calçamento, o Bonde viajava célere, buscando seus eternos e iguais passageiros de todos os dias e de todas as manhãs. Para as pessoas, aquela cena de amor não era algo de anormal se bem uma senhora um tanto idosa cuspira para fora do carro do Bonde ao dizer, ao ver os dois amantes agarradinhos e descuidados:

--- Nojento! – falou a mulher torcendo o rosto para o lado oposto.

Enquanto alguém delirava ao ver tão perene amor a desabrochar.

--- Meu Deus! Como eles se amam! – declarou surpresa outra mulher bem mais jovem.

Com meia hora depois, os dois enamorados estavam a descer do Bonde, sempre juntos, tão pertos onde nada alguma oferecia qualquer espaço. Então estava a resposta onde por longos dias Honório perguntou à meiga e angelical donzela. Ele haveria de sentir amor por longos e eternos momentos de eterna lucidez. A se despedir de sua jovem namorada, Honório lhe deu um beijo na face. E entre tantas gentes passantes para os seus ofícios do dia, Adélia, enlevada com sentimental e carinhoso encanto se despediu. Aquele era o fim de um começo. Um eterno e fugaz início. O rapaz se conteve de momento e não mais pediu afeto.

Com o passar das horas, Luíza já estava de volta ao serviço. Em nada a moça falou ou quis dizer por momentos. Até que Honório, chegando atrasado, lhe deu os cumprimentos amplos normais. Perguntou-lhe Honório como estava a situação pela qual passara.

--- Normal. – respondeu a moça agüentando o choro o qual fazia questão em vir.

--- Esteve no enterro? – perguntou o rapaz de forma humilde.

--- Não. Fiquei em minha casa! – foi à resposta que Luíza pronunciou.

--- Eu pensava que você pudesse ter ido ao velório ou ao enterro. – relutou Honório.

--- É. – comentou Luíza.

--- É? É o que? Você não diz nada? – perguntou Honório com certa pressa.

--- Não! – respondeu a moça pondo-se a trabalhar na máquina de escrever.

--- Está bem! Se não quer dizer, não fale! Agora ficando aqui você só no “é”, “não”. Isso é pouca coisa para se falar. “É”. “Não”! Bosta. Por que eu fui falar? – saiu Honório para o seu local de trabalho enfezado da vida.

A moça se levantou de onde estava e foi para o sanitário ou o banheiro, atrás da casa onde passou um bom tempo. Talvez tivesse ido para chorar e lamentar a perda do namorado de forma tão brutal. Por isso, Luíza não quis saber nem saber de ler jornais cujas edições estavam espalhadas por cima do birô de trabalho. Em súbito momento, o dono do estabelecimento entrou no seu escritório. Ele perguntou por Luíza e teve a resposta do rapaz:

--- Entrou. Está no sanitário. – relatou Honório.

--- Ela falou algo do enterro? – indagou seu Dumaresq meio preocupado.

--- Não. Eu perguntei e ela disse apenas que tinha ficado em casa. – disse o rapaz assustado.

--- Eu sei. Eu sei. Ela não suportaria em ver o rapaz morto. – resmungou Dumaresq.

--- É. Talvez. Pode ser! – relutou em dizer o rapaz.

Em instantes, a moça Luíza retornou do sanitário onde fora chorar por mais uma vez. Esse caso se podia ver diante de sua fisionomia alquebrada pelas tantas lágrimas derramadas. Ele cumprimentou o chefe e em seguida lhe disse algo escrito em um memorando:

--- Estou demitida. Eu agradeço a sua compreensão, mas me demito! – respondeu a moça com a voz de quem chorava.

O homem leu o pedido de demissão e calou. Após breve instante Dumaresq chamou a moça a um reservado e lhe disse com voz amena de quem não aceitava o pedido de Luíza.

--- Minha filha. Vá para casa. Passe quantos dias quiser. Não te cobro nada e nem vou colocar alguém no seu lugar. Descanse bem. Vá para outro local. E deixe o tempo passar. Amanhã, depois, ou seja, lá o que for você volte, pois seu lugar estará a sua espera. Mas, se cuide. Não faça besteira. Cuide-se. Está bem? – perguntou Dumaresq.

--- Está bem. Eu me cuido. Mas, por enquanto, o meu pedido é esse. Se o senhor me der algum dinheiro, eu agradeço. Se não, paciência. Estou demitida. – resumiu Luíza o seu pensar.

--- De modo algum. Eu vou te dar os recursos de que precisas, mas eu quero você de novo entrando por aquela porta para vir trabalhar comigo. – respondeu o homem.

A moça caiu em um choro compulsivo como se o mundo estivesse para acabar. Agarrou-se ao ombro do senhor Dumaresq, lamentando-se de dor e comoção. Era mais o profundo gemido de uma alma ao desalinho. Lacrimejava-se por demais temendo o passado que tivera em certo tempo, onde nada lhe podia compelir para tão desaguado momento de desalento. Já era passado o tempo de sofrer por tanto amor. Enfim, a jovem moça retornou ao seu sentido procurando desfazer daquele sofrer amargurado. Nada além para o seu coração. O homem o qual Luíza amara não mais existia para ela e para os demais amigos e parentes.

sábado, 4 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 10 -

Susan Sarandon

-- 10 --

A mulher bem trajada era Dona Rosa, cozinheira responsável pelas refeições servidas durante o dia e a noite também, para os alegres patrões. Rosa já estava naquela residência desde o tempo do senhor Dumaresq. Esse homem, feitor do casarão, morreu a alguns anos de problema cardíaco, deixando a mulher, dona do Carmo, duas filhas e um filho. Das filhas, essas tinham casado e viajado para outros Estados com os seus respectivos maridos. Um deles era médico e o outro era da Marinha. Todos estavam passando bem. Em casa, ficou o menor dos três, Honório Dumaresq. Além de Rosa, mulher gorda por demais, tinha uma empregada, filha de Rosa, de nome Catarina. A moça era dos seus vinte anos de idade. Para sossego de sua mãe, não tinha namorado. O pai de Catarina trabalhava no sítio fazendo e todo o sérvio que precisasse da iluminação da casa ao encanamento de água era ele o feitor. O rapaz, Honório, tinha o costume de brincar com seu Raimundo dizendo:


--- Ele é do tempo do “ronca”! – caia na gargalhada fazendo o mesmo o seu Raimundo.
--- É. Sou do “ronca” mesmo! – sorria seu Raimundo, homem de sessenta anos.

Na ajuda de algum serviço eventual, Dona do Carmo costumava chamar um pedreiro daquela região de nome Denilson, homem casado e pai de três filhos todos ainda pequenos, sendo uma menina e dois meninos. Esse homem aparecia às vezes, apenas quando havia o que fazer.
Damiana não teve oportunidade de ver, quando chegou, a moça Catarina, filha de dona Rosa. Isso era mais um caso a lhe chamar a atenção. Se Damiana foi morar na casa de Honório, com certeza ele queria fazer com ela o que precisava fazer. Disso, Damiana tinha total certeza, apesar de Honório não lhe ter falado. Outra coisa: em que compartimento do solar eles teriam encontros, ela não podia saber. Apenas notava que o local era um casarão. Com certeza devia ter vários cômodos vazios. Em algum dos cômodos era o mais propício para se encontrar. De inúmeros acontecimentos como esses, ela mantinha a sua mente ocupada como se quisesse decifrar tudo em cima da hora.

--- No próximo domingo eu e você vamos a Missa. – relatou a mulher do Carmo com bastante afago para Damiana.
--- Missa? – perguntou a jovem que acabara de chegar a sua nova moradia.
--- É. Missa. Você não vai à Missa? – perguntou dona do Carmo à mocinha.
--- Fui algumas vezes. Na minha terra o padre vai apenas aos dias de Festa da Padroeira do lugar. Nossa Senhora do Amparo. Quando havia festa eu costumava ir. Mas faz tempo que não vou a Missa. Eu morava no sítio. Longe da cidade. Por sinal, cidade muito pequena. – relatou Damiana a sua nova dona dos seus passos.
--- Aqui tem Missa aos domingos e dias Santos de Guarda. E da Padroeira também. Você vai ver o que eu tenho de roupa para que possa mudar. Vestido lindo, feito da mais pura seda existente aqui. Calcinhas. ... Vai pra lá rapaz! Não te interessa isso! – reclamou a senhora ao ver que o filho estava presente ao local. Honório saiu da sala achando graça.
--- Está bem. Está bem. Estou indo! – saiu Honório achando graça.
--- Ele é um bom rapaz. Falou do Carmo a mocinha Damiana. - a moça achando graça também.
--- Ele é engraçado. – sorriu Damiana e calou prestando atenção á mulher.
--- Mas enxerido, que só ele. – disse Do Carmo sem cerimônia.
--- É coisa de rapaz. – relatou a moça.
--- É. Mas vamos nós. – explicou Do Carmo.
E a mulher fez experimentar a combinação, o vestido, as calcinhas, os sapatos e tudo mais. Ela ficou alegre com tudo aquilo que fez, pois daria certo, parecia ter sido feito sob medida. Após esses experimentos, a sopa, café e pão com bolos e bolachas tudo feito em casa – menos os pães – a mulher convidou Damiana para ir ouvir umas histórias do tempo antigo quando o seu avô morava num local distante daquele que ela vivia. E a moça ainda com sono da bebida que entornara no almoço chegava começar a cochilar. Honório, que lia um livro de História, de quando em vez, sacudia seu pé para despertar a mocinha. Eram dez horas da noite quando dona do Carmo chamou Damiana para dormir dizendo que o quarto por ela reservado era um dos vinte e um quartos que tinha a mansão. Com isso, a moça estremeceu de medo, pois teria de cuidar de tudo com o mais esmerado capricho.
No dia seguinte, todos estavam de pé, inclusiva Catarina cuja ocupação era a de por a mesa enquanto a sua mãe cuidava dos afazeres domésticos na cozinha. O seu pai, Raimundo, já estava no fim do quintal bem amplo. As duas moças se olharam e Catarina fez um leve riso para Damiana e perguntou, de repente:

--- Você é de onde? – perguntou Catarina enquanto punha a mesa.
--- Do interior. – respondeu Damiana procurando ser dona da situação.
--- Qual interior? – perguntou de novo Catarina.
--- De um sítio. Riacho. É o nome do município. – respondeu Damiana.
--- Riacho? Não conheço essa terra. Não tem outro nome? – voltou, a saber, Catarina.
--- Não. É Riacho puro e seco. – rebateu Damiana.
--- Que nome. Riacho! Nunca nem ouvi falar. – rechaçou Catarina meio assombrada.
--- Antigamente o povo dizia que se chamava “Panelas”. – sorriu Damiana.
--- Esse é que é ruim. Panelas? Piorou! – sorriu Catarina.
--- Eu moro num sitio lá pras brenhas! – respondeu Damiana.
--- Brenhas? – recusou em aceitar Catarina.
--- É. Longe da cidade. Brenhas. Longe. – respondeu Damiana sorrindo.

E a moça caiu na gargalhada quase sem parar assombrando até dona do Carmo.

--- Que é isso, menina? Ela é do interior. – respondeu com olhar severo a mulher.

Catarina parou de gargalhar e Damiana ficou séria como se aquela fosse uma advertência para todos os que estavam à mesa. Honório já havia saído, logo cedo da manhã e não presenciara a repreensão dita por Do Carmo à sua empregada. Com o terminar do café da manhã, Do Carmo chamou Damiana para aprender a ler, pois ela observara, com efeito, que a moça não sabia ler aos contentos. E então procurou a cartilha para orientar do que a mocinha podia saber ler. E perguntou se ela sabia algo como o alfabeto:

--- Sei. Na minha infância eu aprendi a ler, escrever, contar e até historia e outros assuntos que se ensina nos Grupos. Não sei ler, como a senhora, mas o que sei dá para o gasto. – respondeu Damiana sorrindo.
--- História! Esse é um assunto muito profundo. Vamos ver: você acredita em Deus? – perguntou Do Carmo.
--- Creio, sim. O Soberano entre todas as coisas. Eu creio nele. E em Jesus Cristo, seu filho. – respondeu a moça com orgulho.
--- Ah bom. Já é alguma coisa. Mas história não se resume apenas a esse aspecto. Envolve muito mais assunto. Se eu for falar, nem adianta. Por exemplo: o Brasil, você sabe de algo? – perguntou Do Carmo experimentado o saber da moça.
--- De algumas coisas, eu sei. Não sei os nomes das pessoas. Mas, isso eu posso aprender. – relatou a moça com certo temor.
--- Isso é bom. Nomes, datas. E os negros. Esse é um caso importante. Você sabe com relação aos negros, mulatos, índios? –perguntou a viúva com olhos bem abertos.
--- Na minha terra tinha um grupo de negros que se reunia toda a semana para contar sua história. Porem eu nunca soube do que eles contavam. – falou Damiana.
--- Tem os grupos de negros, como tem as famílias de braços, mulatos e índios. Você parece ser branca. Porém bom por trás você tem um pouco de sangue negro. Você já é uma mistura de raças. Entende agora? – indagou a mulher.
--- Entendo sim. A minha mãe era branca, branca. Mas o meu pai era moreno. Tinha cabelos bons assim como o meu. Mas era moreno. – sorriu a moça.
--- Isso é miscigenação. – sorriu do Carmo ao explicar tal assunto.
--- É o que? – estranhou a moça com tal palavreado.
--- Não se espante. É normal isso. Eu, por exemplo, tenho um sangue branco. Não é o sangue ser branco. Mas a minha origem. E então, eu me caso aqui com alguém de outra espécie, cujo sangue é de uma pessoa de cor, pessoa quase negra, um moreno, por assim dizer. Então, a minha prole herda o sangue mestiço, ou seja, misturado. Um branco e outro negro. É como uma bebida que se faz. Você pega a uva, que é cor de sangue, e mistura com água. No fim você não vê a água. Só o vinho. Porém, se misturar uma quantidade maior de água, você já verá o vinho quase branco. É isso que faz a mistura do sangue. Entendeu? – perguntou a mulher.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 9 -

Julianne Moore
-- 9 --
Logo após as onze horas da manhã daquele dia, quando o movimento de gente aumentava para ir até o Restaurante Popular, Honório chegou ao ponto de encontro demarcado na noite anterior, a espera de Damiana para ter conversa sobre a vida da prostituição. O rapaz ficou sensibilizado com a idade da mocinha e a prática de sexo em troca de nada conforme disse Damiana. Ao chegar à esquina da Rua do Guerreiro ele topou com a mocinha. Deu-lhe um beijo e perguntou como tinha passado a noite e se havia algo de novo para relatar. A mocinha disse apenas que dormira mais no bar. Foi à casa de uma conhecida e pediu abrigo, o que lhe foi fornecido com presteza. Então Damiana, com um só vestido e uma calcinha teve que ficar por toda a noite e a manha daquele novo dia. Estava esperando por Honório há várias horas. Matou o tempo passeando pela praça. Quando a fábrica apitou onze horas ela então veio para a esquina e tudo estava resolvido.

--- Mas você não tem nem calcinhas? – indagou alarmado Honório.

--- Estou vestida com ela. A dona do bar não deixou nem uma roupinha para que eu usasse. Ela desconfiou de tudo logo que você foi embora. Com o dinheiro que você me deu eu tomei café em um boteco. É isso! – sorriu a mocinha.

--- Porras! Que mulher sacana! Vou dar parte dela a polícia! – disse o rapaz.

--- Ela compra os soldados. Nem fale em dar parte! – sorriu com medo a moça.

E os dois saíram para um restaurante onde o preço era mais alto, porem servia-se o melhor possível. O garçom olhou de mau jeito para a moça franzindo a testa e torcendo a boca. Ele era homossexual, desses que não gostam de damas da noite a freqüentar restaurantes iguais ao seu. Porém serviu o bom preto de costelas de carneiro, arroz, um pouco de feijão, legumes, verduras e frutas. Para completar, o garçom veio com uma garrafa de vinho e ainda perguntou ao rapaz que notara ir custear a despesa:

--- Tinto ou seco? – perguntou o garçom de modo direto para o rapaz.

--- Qualquer um. Descendo é a conta. – sorriu Honório para a sua acompanhante.

A moça estava inibida e a certo ponto nem sabia escolher garfos e facas. Honório teve de explicar a moça como fazer. Mas, logo depois ele disse:

--- Como mesmo é com as mãos. – sorriu de forma depravada.

O garçom ao lado deu uma rabissaca e se voltou para dentro do restaurando com os seus quadris rebolando como que. Isso fez Honório sorrir mais. A moça, inocente, queria perguntar porem então soltou uma bela gargalhada. Foi um almoço verdadeiramente delirante aquele de ambas as criaturas com o passar do garçom. No fim da festa, com uma garrafa de vinho tinto, a moça já estava para lá e para cá. E o rapaz pediu a conta e deu mais do que era necessário para o agrado do garçom que a todo tempo dizia:

--- Obrigado. Obrigado. Voltem sempre. – relatou o garçom com seus trejeitos.

Honório saiu do restaurante acompanhado de sua dama para deixá-la na casa de Osmarina, mulher que fazia refeições para os mecânicos que perdiam a hora do almoço no Restaurante Popular ou aqueles que gostavam mais de uma comida de casa. Ele chegou muito breve a casa de Osmarina e pediu que a mulher arranjasse uma rede para por a moça que estava meio embriagada e precisava dormir ate a hora dele sair do seu escritório e poder ir para a sua casa. A mulher olhou para a moça e ainda disse:

--- Ela é novinha! Vai fazer o que? – perguntou Osmarina.

--- Não sei. Minha mãe é quem sabe. – sorriu Honório piscando o olho para Osmarina.

--- Ah. Já sei. E ela sabe fazer? – perguntou a mulher.

--- Se não sabe, aprende! – sorriu Honório meio encharcado de bebida.

--- É. Aprende mesmo. Quem não aprende? – caiu na gargalhada a mulher.

Durante o almoço Honório explicou a Damiana o que havia conversado com a sua mãe a respeito da garota. Ele pediu apenas que Damiana confirmasse o que ele havia dito: o pai morreu, a mãe era aleijada, as irmãs tinham seus filhos e a moça estava desamparada, sem ninguém na cidade Tinha ela uma prima, porém não conseguia achar o bairro onde a senhora morava. Coisas desse tipo. Perguntou Honório Damiana tinha entendido a farsa e a moça disse que sim. Afinal, dessas farsas ela já estava acostumada a fazer. E, com respeito aos trajes, a sua mãe já tomara as providencias cabível. E de tudo o que precisava dizer, a moça sabia. Ela estava contente e feliz por ter que largar a vida do meretrício, coisa de pouca renda.

O dia passou rápido e a noite chegara. Honório foi à casa de Osmarina, porém a moça ainda estava a dormir. O rapaz acordou Damiana que acordou meio aturdida e a boca cheia de cuspe, obrigando a lavar o rosto, tomar banho, se ajeitar, como era de costume, e logo depois sair do banheiro e chegar a sala dizendo com um sorriso na face:

--- Estou pronta. Que tal a diferença? – mostrou a moça ao rapaz.

--- Ela me contou que não tinha roupa. Eu arrumei essas que eu guardava, e dei para ela vestir como uma moça. Agora ela está uma mocinha bem afeiçoada. – contou Osmarina a sorrir.

--- Menina! Está uma jóia! – relatou Honório a sua princesa com mero entusiasmo.

--- Agora, na vá fazer besteira. A mulher eu conheço. Ela não se deixa enganar, não! Ouviu menina? Pois sim! – repreendeu Osmarina a moça, cujo temor era maior.

--- Não faço nada que ela não goste! – respondeu Damiana à Osmarina.

--- Pois sim. Só quero ver. – retrucou a mulher de modo temeroso.

Em instantes, Honório tendo agradecido a Osmarina, seguiu caminho em carro de aluguel em direção a sua residência, um pouco longe. A noite era de lua cheia e a moça verificou por onde rumava tecendo comentário que aquele caminho se parecia com o sertão, lugar de onde ela um dia caminhou para a cidade. A lua azul era de pleno encanto. O motorista seguiu por caminho diverso e o rapaz agarrou no sono em meio ao tráfego do veículo. A moça teve medo e sacudiu Honório para um lado e para outro pedindo que ele acordasse, pois a moça não sabia onde estava e nem onde ele morava:

--- Acorda! Acorda! Tu estás dormindo! Eu não conheço nada aqui, homem! – sacudia a moça o braço de Honório para ver se ele acordava de pronto. De tantas sacudidelas, por fim o rapaz retornou e acanhado disse ainda:

--- Eu não estava dormindo, não! – sorriu Honório se ajeitando na cadeira do carro.

--- Tava não. Tava não. Roncava que nem um porco. – reclamou a moça fazendo beiço.

--- Tá bom. Tá bom. Motorista, é logo ali. – falou Honório.

--- Taí. E não estava dormindo. Parecia até um bode de serra. – relatou a moça de uma só vez acabrunhada encruzando os braços.

O carro fez a curva como se o motorista estivesse acostumado a fazer corrida para o local. A casa era grande e ficava mais para dentro do cercado protegido por um muro imenso. Na frente e dos lados tinham cajueiros, mangueiras, pitombeiras, abacateiros, sapotizeiros e outras árvores frutíferas. A mocinha encabulada desceu do carro e o rapaz pagou a corrida e desceu também. Logo após uma luz foi acesa na entrada da casa. Uma mulher surgiu com um sorriso na face. Era dona do Carmo, irmã de Jorge Dumaresq e mãe de Honório. A mulher desceu o batente e se aproximou da moça para dar-lhe um abraço forte, com todo o carinho pedindo perdão a Deus por tudo que fizeram de mal contra a moça e rezando para nunca mais voltasse a acontecer com a mocinha. Damiana se encostou ao seio da mulher e caminhou juntinho com dona do Carmo, calada como para não dizer uma palavra sequer. O rapaz ao lado de sua mãe abraçou-a pelo pescoço com suave preocupação de nada poder acontecer de maldade dali para frente.

--- Venha minha filhinha. Venha comigo. Já tenho tudo pronto para você. O Jorge era quem devia fazer isso tão logo soube. Deixa ele vir aqui. Deixa! – falou a mulher caminhando com a mocinha caminhando para o interior da casa de varanda, arejada por todos os recantos.

--- Ela tomou uma sopa que uma mulher serviu. – relatou Honório preocupado.

--- Não tem importância. Eu fiz uma sopinha para ela. Vou dar a sopa também. – falou Do Carmo beijando aquela parecida menina.

Após entrar na mansão, Damiana perguntou onde era o banheiro, pois sentia vontade de urinar por quanto durante toda a viagem vinha se espremendo. Alertada pela mulher, Damiana foi até ao banheiro onde pode fazer as suas necessidades urgentes. Aproveitando a oportunidade, ela voltou a lavar a boca para ver se tirava o ranço azedo da bebida que a moça consumira na hora do almoço. Aquela era uma casa nobre, verdadeira mansão ocupada por dezenas de retratos pendurados nas paredes. E mais os móveis acabados e os estofados, lustres, penteadeiras, petisqueiro, guarda-louças, tudo feito em madeira de imbuia, traçadas por todos os lados. Uma mesa enorme guardava uma fruteira e os copos, xícaras, pratos dispostos ao seu redor. A luminária caída do alto dava um tom de requinte e bom gosto aos seus moradores. Para um lado, havia a cozinha. E na cozinha uma mulher bem trajada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 8 -

Ida Lupino
-- 8 --
Após o ato conjugal o rapaz Honório perguntou qual era a idade da bela moça Damiana. Ela respondeu ter quinze anos. Faria dezesseis muito em breve. O rapaz olhou profundamente para a moça e não teve perguntas a fazer. Com efeito, ele estaria encrencado por causa a moça até parecendo virgem. A casa onde Damiana vivia era uma espécie de estábulo. A frente da casa, com um bar funcionando, era perfeitamente norma. À noite, quando o movimento era maior, o bar funcionava e as mulheres eram um numero bem maior. Para trás do bar existiam uns cubículos onde as mulheres levavam seus homens e por lá ficavam por uma hora. Se pretendessem ficar mais tempo, o pagamento era então por hora. Damiana disse ter ficado com um homem pela noite inteira. Mas, depois de certo ponto, esse homem adormecera. Ela havia consumido boa quantidade de álcool – uísque e gim – então o sono era imprescindível. E o homem adormeceu por conta de toda a bebida servida. Casos e mais casos a menina podia contar sem mágoa. A sua vida de meretriz começou aos treze anos de idade. Seus pais a puseram para fora de casa mandando que ela fosse “ganhar a vida como mulher” em outro canto. A jovem mocinha disse ter chorado muito e correu o mundo para viver como quisera. Depois de dois anos passados e ela era então uma mulher calejada pela inquietação da vida.

--- Terrível! O que faz hoje em dia? – pergunta o rapaz.

--- Vivo de programa. Se bem que a dona do bar fica com todo o dinheiro depositado para mim no caixa. Ela não me dá um níquel. Diz que é para a minha refeição. E eu fico só na merda. – chorou de forma incontrolável a moça.

--- Essa não? E você pensa em deixar essa vida? – indagou Honório um tanto cismado.

--- Eu já fiz uma vez. Mas o sujeito com quem eu vivi tomava todo o dinheiro de cachaça. Então eu voltei para a vida que conheço. – respondeu a menina com os olhos cheios de lágrimas.

--- Assim é fogo. Eu vou te dar um dinheiro para você. Bico calado! Não é pra dizer a ninguém. Depois eu vejo o que faço. Você não quer trabalhar em uma casa de família? – perguntou Honório como não quer e querendo levar a moça daquele antro de prostituição.

--- E quem vai me querer? – indagou a moça ao rapaz.

--- Não sei. Mas tenho uma idéia. Amanhã, depois das onze eu vou me encontrar com você no cruzamento da Rua do Guerreiro. Logo ali à frente. Sabe onde fica? – perguntou Honório.

--- Sei. Eu espero. Não falhe se não vai dar bomba! – sorriu a mocinha com cautela.

--- Não falho. Pode ser que até eu faça refeição em outro restaurante. ...Com você! – sorriu Honório ao beijar a face da menina.

Desse ponto em diante, Honório saiu do cubículo onde o bar deixava para as mulheres de programa, passou no caixa, pagou a conta e deu adeus a jovem Damiana dizendo para que ela se cuidasse. A mocinha sorriu e beijou de volta o seu futuro amante, pois assim ela pensava.

Quando chegou a sua moradia falou com a sua mãe de que uma menina estava ao relento e procurou ajuda pelo Santo Amor de Deus – a mulher era católica demais e isso já a convenceu do que poderia vir - . Ele se compadeceu e deixou abrigada no quarto da casa onde mantinha o escritório. Ele disse ter dado dinheiro à moça e queria então ela vivendo uma existência mais tranqüila, mesmo sendo uma empregada doméstica como já havia dito a menina de quinze anos. A sua mãe fitou o rapaz com lágrimas nos olhos e logo após disse que ele podia trazer. Nem precisava ser doméstica. Ela – a mulher – acolheria de bom grado.

--- Muito bem. Eu vou dizer a meu tio que a senhora irá receber a pequena órfã. – respondeu despreocupado enfim o rapaz Honório.

--- E é órfã? Por que não me disse logo? – comentou espantada a mãe de Honório.

--- É. De pai. A mãe é deficiente. Então ela não tem com quem ficar. – respondeu o rapaz com a sua grosa mentira.

--- Mas Jorge podia ter mandado a menina com você! Que abusado! – destratou a mulher.

--- É. Mas ele não sabe disso. Só eu. Perguntei a moça, delicadamente. – respondeu o rapaz.

--- Ah, bom. Ainda bem. Assim é melhor. E ela tem roupa? – perguntou a mãe de Honório.

--- Não sei. Acho que não. Isso eu não perguntei. A senhora sabe, não é? Uma menina de apenas quinze anos. – falou Honório com o rosto sombrio para agradar mais a mulher.

--- Você é inteligente, filho. Fez bem. Fez bem. – afirmou a mãe de Honório.

A noite e madrugada passaram rápidos. Na manhã seguinte, Honório já estava no escritório passando à vista nos jornais do dia. Uma nota o deixou impressionado. A morte de um rapaz por enforcamento. Seu corpo foi encontrado no seu quarto, pendurado por uma corda. O nome do rapaz ou da vítima era Luciano Couto. Honório ficou surpreso com a nota e ficou a imaginar:

--- Luciano! Luciano! O rapaz de Luiza era com certeza Luciano. E agora? – indagou para si o rapaz Honório.

Ele também leu em outro jornal e trazia uma foto do morto. Foto de estudante. Honório olhou bem para a imagem para ver se descrevia o rapaz que esteve no escritório na manhã passada. Com leves modificações, era o mesmo rapaz.

--- Puta Merda! – É ele mesmo. Não disse! Deixa Luiza chegar. Vamos ver se já sabe da desgraça do rapaz. Puta que pariu! – disse com muita raiva o rapaz Honório.

Não tardou o tempo e Luiza chegou ao escritório, alegre, brincando com um e com outro, dando adeus para a moça da casa ao lado e nem se deu conta dos jornais abertos no seu birô, principalmente o que trazia a foto do rapaz estudante. Então Honório a cumprimentou.

--- Bom dia Senhorita. Como vai você? Algo de novo? – perguntou Honório de forma irônica na frente da mesa de Luiza.

--- Tudo. Nada de novo. Que estás fazendo aqui de mãos cruzadas para trás? – perguntou Luiza de forma surpresa ao seu gerente.

--- Nada não. Só o tempo. Já viu os jornais? – perguntou Honório de forma sutil coisa que não costumava fazer ao longo de tempo.

--- Não. Chegue agora. O que tem de novidade? – perguntou Luiza olhando então os jornais.

--- Olhe e veja se reconhece! - falou Honório para orientar a moça apontando a foto.

Com o passar dos minutos a moça deu um grito estarrecedor como nunca se tinha ouvido.

--- É ele. Minha Nossa Senhora. Ele está morto!!! – e então desfaleceu a moça escorando o seu corpo no encosto da cadeira.

De imediato Honório sentiu que a sua pilheria serviu como advertência e a moça veio em conseqüência ao desmaio. O rapaz correu rápido para socorrer a moça enquanto chamava alto pelo porteiro para lhe prestar ajuda de forma incontinente.

--- Miguel! Ajuda aqui! – gritou Honório pelo porteiro.

O porteiro Miguel veio mais que depressa atendendo o apelo o qual fizera o filho do patrão Jorge Dumaresq para lhe prestar algo. Ao chegar à sala de Honório viu mais que depressa o rapaz abanando o rosto da moça com uma caixa de papelão e dizendo para Miguel.

--- Socorra aqui! Socorra aqui! Ela desmaiou! Ave de puta merda. - dizia Honório apreçado.

Miguel socorreu a vítima com um lenço molhado com água retirada de um filtro, e levemente a moça retomou a consciência um tanto desequilibrada a perguntar o que havia acontecido com ela. Todo o presente se havia apagado. Manoel lhe trouxe um copo de água. Ela ingeriu e retomou a sua vida normal mergulhando nos acontecimentos cuja lembrança ela sentira. Vida e morte de Luciano, caso de não suporta para uma moça. E ela se lembrou de tudo e começou a chorar. Perguntava por que ele teria posto fim a sua própria existência. Choro e mais choro como ninguém podia imaginar. Nesse momento, chegara ao escritório o seu proprietário, Jorge Dumaresq e se assombrou com a moça de tanto chorar. Então, Dumaresq perguntou ao seu sobrinho o que estava a acontecer. O rapaz respondeu:

--- Suicídio. O rapaz noivo de Luiza, se enforcou no quarto da casa em que morava. – falou Honório com certo temor pela moça.

--- Como é que pode uma coisa dessas? – perguntou abismado e cheio de dor o Dumaresq.

--- Ninguém sabe a razão. – respondeu o rapaz não querendo pronunciar que era por questão de ciúmes ou de não aceitar o rompimento do laço com a namorada.

--- E ela não vai para a casa do rapaz? – perguntou Dumaresq assustado.

--- Não sei. Não perguntei. Talvez tenha de ir para o enterro. – respondeu o rapaz tristonho.

--- Libere a moça. Deus tenha piedade da alma do rapaz. – fomentou Dumaresq se afastando.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 7 -

Susan Strasberg
Segunda feira, manhã, Honório já estava no escritório revendo tudo para fazer. Porém, nesse ponto ele parou. Algo veio a sua memória: Adélia. Por muito tempo, Honório jamais pedira a mão de uma moça em casamento. Aquela fora a vez primeira. Ele pensou muito no que fizera. Mas, não fora em vão essa proposta. Honório se lembrou de parentes seus que viveram muito antes, na Tchecoslováquia, fugiram com virgem para locais incertos e não sabidos. Isso deu muita reclamação naquele tempo. A propósito, havia guerras constantes antes de haver a II Guerra Mundial, por causa das querelas entre vizinhos. Dumaresq era uma colônia vinda da Tchecoslováquia e da Alemanha. Eles viveram por muitos séculos do emprego de obras artesanais. Obras de requintes fabricados a mão, cristais com toque de sofisticação próprio para as Casas dos Nobres. Com freqüência eram presentes de casamento. E Honório nem pensava mais em poder casar com uma nobre como também nem raciocinavam seus ancestrais. Era um povo simples, como se dizer, do mato. Apesar de tudo, ele era no seu tempo de outra nação. E seu pai, seu avô, talvez bisavô. Apesar de o costume enraizado permanecer, Honório teria novos conceitos da vida.

Luiza chegou atrasada meia hora na segunda feira. Ele não falou nada com a moça. Ela apenas cumprimentou Honório com o tradicional “bom dia”. Ele ouviu, mas não respondeu. Tinha coisa mais importante para pensar. Luiza sentou-se à mesa, passou o espanador na maquina e de repente deu um longo bom dia ao rapaz.

--- Você está surdo, é? – esbravejou Luzia com ódio.

O rapaz estava sentado à frente de Luiza e olhou para trás respondendo com muito vagar o seu cumprimento ao dizer que tinha ouvido o seu bom dia. Então voltou ao seu trabalho.

--- Você é um chato, sabe! Chato! – falou Luiza com certo rancor.

O rapaz se voltou e respondeu:

--- E você é uma linda mulher! – sorriu Honório sem preocupação.

--- Por que você não respondeu seu chato? – perguntou Luiza se ajeitando toda.

--- Você é bela com esse vestido. Sabe? – voltou-se Honório.

--- Nem tem graça. Eu acabei o noivado ontem! – replicou a moça.

--- Você está de calcinhas? – perguntou Honório sorrindo.

--- Interessa saber? Interessa? – perguntou com atrevimento Luiza.

--- Interessa! Deixe-me ver suas calcinhas! – pediu Honório com sedução.

--- Cheira aqui, ó! Estou incomodada! Hoje não estou a fim! – respondeu Luiza com mágoa.

--- Virgem! Nem quero mais ver! – clamou Honório com precaução.

A moça se levantou da cadeira onde estava sentada e entrou para o banheiro, com certeza para cumprir certas obrigações. Por isso demorou um pouco mais que o costume. E quando retornou veio ainda mal humorada. Reclamava horrores. Dores terríveis então lhe ameaçavam. Ela devia ter ficado em casa. Era o mais comentado por Luiza. Depois de tanta reclamação Honório avisou que havia um recado para ela em cima de sua mesa. Ela ficou receosa e com bastante temor perguntando de onde viera.

--- Sei lá. Do seu ex-amante, provavelmente. – comentou o rapaz.

--- Ah. Já sei. Ele pedindo para voltar. – comentou Luiza sem dar importância ao recado.

--- É melhor você ler primeiro. – disse um pouco sério o rapaz.

--- Deixa eu ver esta merda de uma vez. Já sei o que ele diz! – argumentou Luiza brutalmente.

Ela agarrou o envelope, rasgou por cima e retirou o papel de dentro amassando o envelope o qual jogou fora. O que havia dentro era uma carta endereçada a ela, Luzia e que dizia quando ela estivesse lendo aquela “missiva” ele estaria morto em algum lugar. Sem mais, assinava a carta “Luciano”. Luiza leu toda a correspondência e disse em seguida:

--- Já morre tarde e atrasado dez minutos. Bosta. – dito isso Luiza jogou o papel no cesto.

Ás onze horas abria-se o Restaurante Popular onde era servidas bandejas a preços módicos para os operários das oficinas de carros, comerciários, empregados de repartições públicas e muitos outros cuja procura era imensa pela refeição servida naquele espaço. O restaurante tinha bem um nome que se popularizou por todos os cantos da cidade. Ele competia, e até por menos preços, com os restaurantes de beira de estrada o de feiras livres onde o serviço era também diário. Um, porém era de que o Restaurante Popular não abria aos domingos e dias feriados. De resto, era todo o dia indo fechar às duas horas da tarde. Uma questão: não servia jantar. O pessoal que fazia refeição no restaurante já não podia mais se sustentar para a janta o que faria em suas próprias habitações. De qualquer modo o restaurante era, por assim dizer, um luxo com serviços até mesmo aos donos de empresas. Mas, a sua maioria era de operários e empregados do comercio.

Na fila de gente para comprar a senha de quase nada estavam os dois amigos funcionários do estabelecimento de despachos de mercadorias: Luiza e Honório. Eles também eram servidos por aquele restaurante, uma casa enorme com muito boa comida. Depois da refeição, a moça perguntou a Honório se ele guardava a chave do estabelecimento de trabalho. Ela desejava ir para tirar uma soneca. E o rapaz disse em troca:

---A chave fica com o porteiro. Ou então com o próprio dono do escritório. – falou Honório.

--- Está bem. Eu vou para a casa de Osmarina até chegar a hora de pegar no serviço. – raciocinou a moça um tanto preocupada com sua menstruação que chegara para ela, antes do tempo. E então, a moça aproveitaria para fazer um banho quente como se dizia na época.

Por seu turno, passada a hora do almoço, Honório resolveu ir até o restante do comercio, àquela hora fechado por conta do almoço dos funcionários. Mesmo assim, ele não mais se importava, pois de qualquer jeito ele encontraria pelo menos ainda algo a funcionar, como bilhar, confeitaria, barbearia e até mesmo cafés. O certo é que o rapaz saiu a perambular pelas ruas do bairro, vistoriando uma coisa e outra até parar numa Livraria onde estavam expostos os mais requintados lançamentos da época. Livros em profusão. Honório parou para olhar os lançamentos do momento. Livros de histórias antigas, romances modernos, cinema, artes e tantas outras coisas a mais. A loja estava fechada mais o rapaz pode ver através da vidraça os requintados lançamentos. Livros volumosos, uma coleção de três volumes era o máximo da época: “Ascensão e Queda do Terceiro Reich”. Era aquela uma primorosa coleção. Então, Honório ficou encantado com tal lançamento e assumiu o compromisso de vir buscar a coleção tão logo a Livraria voltasse ao expediente da tarde. Após verificar outros lançamentos, o rapaz saiu à procura do nada. Quando ele passava por um bar de terceira categoria, uma moça lhe falou com suavidade e ternura:

--- Vamos fazer agora? – perguntou a meretriz de seus dezessete anos.

--- Agora? Estou de barriga cheia! Assim não posso! – recusou Honório a oferta.

Então a mocinha lhe fez outro pedido, com certo temor.

--- Então me ajude para comprar comida. Pois ainda não comi hoje! – se lamentou a mocinha.

Um calafrio desceu a espinha do rapaz. Uma menina, quase moça, pedindo esmola para almoçar, pois não havia o que comer naquele dia. O rapaz olhou atento o cara da mocinha e puxou a carteira do bolso dando-lhe uma quantia nem tão pouco. E lhe disse:

--- Tome esse dinheiro e corra para o Restaurante Popular. Ali você encontra o seu repasto. – enfatizou o rapaz sorrindo para a mocinha.

--- Obrigada. Mas não fica assim. Eu espero você mais tarde. Rua Sacramento. Nesse bar eu faço minha sorte. – sorriu a mocinha e quis correr.

--- Espere. Como é seu nome? – perguntou Honório com atenção.

--- Damiana. Eu espero você. Seis horas. Estou aqui. – respondeu a garota e saiu.

--- Porras! Uma menina? Como é que pode? Eu daria tudo para casar com ela. Alva, de boa estatura, delicada, amorosa. E já não é mais nada? – indagou o rapaz consigo mesmo e pleno de inquietação.

Aquilo era um sonho para Honório. Depois de tudo o acontecido ele ficou a meditar. Uma menina ainda. Talvez tivesse dezesseis anos. Talvez um pouco mais. Sem família. Ou se tinha família, essa não lhe daria sustento. Sem homem. Sem nada. E com isso, o rapaz ficou a meditar o restante da tarde. Quando deu seis horas Honório estava em frente ao bar da Rua Sacramento a espera de sua companheira daquela noite. Passou-se o tempo e ele disse para si:

--- Ela não vem. Levei um cano dos grossos. – proferiu Honório já com um pouco de raiva.

Nesse instante uma voz ecoou suavemente ao pé do seu ouvido:

--- Oi. Faz tempo que você está aqui? – perguntou Damiana sorridente.

--- Oi. Mas você? – respondeu o rapaz com bastante surpresa.