terça-feira, 14 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 20 -

- SANDRA DEE -

- 20 -
Nessa semana, ainda, Honório foi a casa de Adélia para ver como estava a moça, se bem que ela não despertara nenhuma desconfiança no caso de Ângela. Quando Honório bateu à porta quem veio atender foi a sua mãe, dona Almira. Tudo aí, tudo bem. Porém a mulher veio lhe dizer que a filha estava em casa de uma tia. Essa mulher estaria doente, e de doença grave. O rapaz ficou abatido com a informação. Ele soube na mesmo oportunidade que a tia de Adélia era irmã de dona Almira. E perguntou se a mulher não teria também ido à casa da irmã. E ela respondeu que sim. Mesmo assim, dessa vez, Adélia ficaria para dormir em casa da sua tia, pois dormir dona Almira não podia por causa do seu esposo e de outras obrigações tidas para serem feitas. Então o rapaz desejou breve recuperação para a Irma de dona Almira e, quando já começara a deixar a casa, uma voz o chamou. Era Ângela, mulher nova e carinhosa capaz de fazer o rapaz enlouquecer de puro êxtase. Com o chamado, ele se voltou e viu Ângela dizer:

--- Espere! – falou a moça de vinte anos.

Então o rapaz sorriu de leve e esperou pela moça. Em instantes ela já estava encostada no carro de Honório a lhe perguntar pelo assunto que ele mesmo foi saber. Honório disse o sabido por dona Almira, à mãe de Adélia, e a jovem moça com isso sorriu. Ele estranhou e perguntou se havia outro caso não revelado então Ângela sorriu de novo.

--- Por que tu achas graça? – quis saber o rapaz.

--- Vamos sair daqui. Tem gente abelhuda gostando de escutar conversa. – respondeu Ângela.

--- No carro? – estranhou Honório ao ver a moça tentar abrir a porta do automóvel.

--- Sim. No carro. Agente sai e vai até um local melhor. – falou a jovem.

Então, já prevenido para qualquer surpresa, ele entrou e saiu devagar procurando um local onde eles pudessem conversar. De repente, a jovem moça colocou a mão no seu sexo e retirou dizendo:

--- Mole! – sorriu devagar.

--- É. Mole mesmo. Você é um perigo. Tenho que ter cuidado com você. – advertiu Honório.

--- Nada. Sou mansinha. - respondeu a moça sorrindo devagar.

--- Vai. O que tu queres? – perguntou o rapaz.

--- Nada. Só estar com você. – sorriu a moça e se deitou sobre as pernas do rapaz o olhando de baixo para cima.

--- E era só para isso? – perguntou Honório inquieto.

--- Só. Você não gosta? Olha meus cabelos. Cheire! – falou Ângela de forma sutil.

O rapaz pegou um chumaço de cabelos endurecido e ele não sabia qual a razão. Voltou-lhe a pergunta a causa de tão duro ficar.

--- Não lavei. Nem vou lavar. Vai ficar assim por longo tempo que quiser. – sorriu a moça encolhendo-se nas pernas do homem.

--- Você é biruta mesmo. Quem já viu se ficar sem tratar dos cabelos? Só se for cangaceiro! - disse o rapaz com um sorriso no rosto.

--- Só vou lavar daqui a um mês. – respondeu Ângela com muita calma.

--- Tá doida!!! Você vai lavar hoje! Se não eu não venho mais aqui. – disse-lhe Honório.

--- Lavo nada! E de você não voltar eu não ligo. Já sei o seu telefone. Até de onde você mora e mesmo onde fica a mansão. Uma mansão enorme. Desse tamanho. Maior ainda! – caiu na risada a moça de vinte anos.

--- Quem te disse onde eu moro? – perguntou o rapaz querendo averiguar a informação.

--- Ninguém. Eu vi. Eu vi seu carro. Ele estava fora da garagem. Diga se é mentira? – fez ver a moça sorrindo.

--- Eu não fui nem almoçar em casa, no dia de hoje! – sorriu o rapaz querendo tirar a prova da certeza de Ângela.

--- Então não foi? Quem é aquela menina? – perguntou sorrindo a moça.

--- Onde eu moro não tem menina! – respondeu o homem se vexando com a informação.

--- Menina ou mulher. Não sei. É uma baixinha. Estava de cabelos soltos agarrada com um rapaz, debaixo de uma mangueira, ao maio dia. Diga que é invenção minha, diga? – sorriu demais como nunca tinha achado graça à mulher.

--- Você viu mesmo essa meninota? Viu ou está inventando? – perguntou Honório surpreso.

--- Vestido no meio da perna. Em instante ela levantou a saia para fazer sem-vergonhice. – respondeu a moça achando graça demais e acochando o pênis de Honório fazendo no final um acocho terrível e fazendo um gesto com a boca de quem diz – Hum! -.

--- É. Devia ter uma mocinha mesmo. É a filha da lavadeira ou arrumadeira! Não sei bem! – respondeu o rapaz cheio de duvidas.

--- Está vendo como eu não minto? Tem umas pedras na frente da Mansão. Parece que é o calçamento de vai ser feito. Em toda a extensão do bairro: Quer mais? – perguntou a moça.

--- Não. Você está confirmando as minhas dúvidas. Mas ali é a casa de um amigo meu! – respondeu o homem querendo por dúvida na cabeça a mulher.

--- Cheira aqui, ó! Quando você saiu vinha todo arrumado e tinha tomado banho. – falou forte a moça para depois sorrir. Nesse ponto ela estirou o dedo e depois encolheu.

--- Eu confirmo o que você disse. Mas o negocio da mocinha fazendo amor com o rapaz tenho dúvida! – questionou Honório.

--- Pergunte a ela se ele gozou só nas coxas! – falou baixo, mas com firmeza a moça.

--- Eu tinha dito em casa: “Aquela moça não presta”. Agora vem você com essa história. O homem tem uns vinte anos? – perguntou o rapaz muito cismado.

--- Sei lá. Não vi a cara dele! Deve ter isso. Velho é que ele não é. Até pensei: se ela faz aquilo com qualquer um por que não com o patrão? – indagou Ângela experimentando o rapaz.

--- Que patrão? – procurou saber Honório.

--- Você! – e Ângela voltou a dar-lhe o acocho no pênis.

--- Arra maluca! Você é doida? Isso dói! Meu bigulinho! – rosnou o rapaz.

A moça caiu na gargalhada como uma gazela e perguntou depois de Honório se acalmar.

--- Vamos? – perseguiu a moça.

--- Vamos pra onde? – quis saber o rapaz.

--- Aqui mesmo. Eu me escancho em você! – sorriu a moça.

--- Vou nada! Depois você me mata! – respondeu o rapaz já um tanto endurecido.

--- Vamos queridinho da mamãe. Uma vez só. Eu juro. – respondeu a moça com voz de quem chora e agradando Honório de forma tão suave que ele findou cedendo.

Era noite de pouca iluminação no canto onde eles estavam e nada havia para perturbar. Um home deitado no chão era o símbolo dos que adormecem após longa temporada de cachaça. Não havia meninos e um casal de namorados se amava debaixo de uma mangueira, ao longe, onde nenhuma alma estava a lhe atormentar. Era o furtivo amor de que nem gritar podia. As folhas das arvores açoitavam por vezes naquele anoitecer suave onde os lindos pássaros adormecidos só espalhavam sua candura ao amanhecer de um novo dia.

No instante primoroso do desenlace final, de supetão, dois marginais bateram à porta do veiculo e anunciaram:

--- Isso é um assalto. Passa a grana ou leva chumbo! – gritou firme um bandido.

--- A moça! A moça! Depressa! Passa pra fora! – gritou o outro com raiva.

Honório e Ângela foram tomados de susto. A moça saiu de cima de Honório e caminho se arrastando para a porta contraria do motorista.

--- Passa a grana. Depressa! – gritava o primeiro de modo apavorado para o homem.

Ângela saiu devagar e com medo extremo até chegar a porta sendo mirada por um revolver e o bandido gritar.

--- Pra fora! Depressa! Pra fora! – comandava o segundo bandido com o revolver apontado para Ângela.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 19 -

- GRACE KELLY -
- 19 -
Antes da eleição de Ernani e antes mesmo dele ter sido convidado, na segunda feira ao meio dia, quando Honório já estava na cidade, ele teve de ir a sua casa para, pelo menos, pedir a bênção de sua mãe, ver a garota Damiana, enfim contar de sua viagem sem falar que foi de barco para passear com suas duas outras convidadas, uma delas, sua namorada. Apenas ele falou a sua mãe ter sido uma viagem proveitosa e nada mais. Não disse ele para onde tinha ido por três dias. A mocinha estava calada e calada ficou. Quando Honório entrou na mansão foi até tomado de surpresa. Ele pode ver descendo escada abaixo um rapaz de cerca de vinte anos que fora fazer algum conserto na instalação elétrica, com certeza. Mesmo assim, Honório nem pensou em que estava a fazer o rapaz. Apenas notou o sorriso de leve da moça Damiana para o homem. Nesse ponto o rapaz ficou serio olhando para Honório sem dizer coisa alguma. Falou apenas para dona Do Carmo ao falar que já havia terminado o conserto. Por tal motivo é que pensou Honório ter sido um reparo na instalação elétrica. Por cortesia, Honório cumprimentou o rapaz e esse agradeceu apenas balançando a cabeça. Isso foi na chegada de Honório a sua mansão. Com o passar das horas Honório teve a dizer a sua mãe que a noite chegaria um pouco tarde, pois veria um amigo de velhos tempos. Nesse ponto, já na mesa de almoço, Damiana olhou de repente para Honório com a cabeça descida, pois estava a sorver uma sopa. Mesmo assim, não disse nada. Apenas o rapaz cruzou a sala em direção a cozinha no momento em que Catarina vinha com uma tigela na mão. A moça desviou no caminho para evitar um encontro de frente com o rapaz. Foi então que Honório falou para a sua mãe a perguntar;

--- Domingos! – respondeu Do Carmo.

Honório olhou para Damiana e lhe deu um sorriso. Essa calada estava e calada ficou. Nesse momento uma tampa de panela caiu ao chão. Todos tiveram um susto. Catarina lamentou o ocorrido e disse que voltaria para limpar o chão. Do Carmo comentou;

--- Que susto!!! – comentário de Do Carmo quase se engasgando com a sopa.

A moça Catarina foi e voltou para limpar o chão. Quando a moça Catarina se baixou para fazer a limpeza deixou mostrar as calcinhas por um lapso de momento. Mesmo assim foi o suficiente para Honório olhar. Contudo nada falou. Catarina, abaixada ficou a limpar o chão e Honório, com a ponta do olhou, observou a brancura das calcinhas de Catarina e suas mimosas pernas entreabertas com a moça a limpar o chão. Uma ereção se deu na ocasião em Honório. Porém o moço de conteve. Após limpar o chão a moça se soergueu e saiu depressa para a cozinha onde estava a sua mão que a reprovou pelo desastre que fez. Catarina estava lavando o pano e nada respondeu.

Ao terminar a refeição, Honório foi até a pia lavar a boca e escovar os dentes. Após esse instante, passou depressa para o seu quarto onde procurou mudar de traje. Quando estava apenas de cueca, notou entrar em seu quarto de dormir, a mocinha Damiana, toda faceira e sorrindo com vagar. O rapaz disse então para Damiana.

--- Feixe a porta! – falou Honório com modéstia.

A moça obedeceu e lhe fez a costumeira pergunta como se não tivesse almoçado.

--- Agora? – perguntou Damiana.

--- Agora que nada. Estou atrasado. Tenho de ir ao Porto. – falou Honório apressado.

--- Por que você voltou agora? – indagou Damiana.

--- Eu cheguei pela manhã. Porém só agora eu tive hora para vir. – respondei o rapaz.

--- De carro? – voltou à moça a pergunta.

--- É. Mas eu devo entregar hoje ou amanhã. – redargüiu o rapaz.

--- É do escritório? – tornou, a saber, a moça.

--- Não. De um amigo. Você não o conhece. – replicou Honório vestindo as calças com pressa para depois vestir a camisa, calçar as meias e os outros sapatos.

--- Tinha mangue onde você foi? – perguntou de repente a Honório

--- Que? . ... – indagou o rapaz surpreso com a pergunta.

Ele pensou rápido e respondeu:

--- Mangue, praia, sargaços e o diabo a sete. Fui pra todo o canto. Nos outros tinha seca. – respondeu Honório fazendo por dentro um: - (ufa. Por pouco!) –

--- Ah. Bom. Você está queimado do sol, parece até que a praia tava forte. – disse Damiana sorrindo.

--- Eu achei que muita exposição ao sol. O homem era um feitor de embarcação. – se saiu pelo meio Honório.

--- Muita mulher? – indagou Damiana.

Mais perguntas descabidas que ele tinha de mentir com pressa, enquanto calçava as meias.

--- Mulher as pencas. Mas todas com donos. Não tive tempo pra nada. E só você me importa e nada mais. Senti falta de você. – sorriu Honório ao se calçar depressa.

--- Você está mentindo com a cara mais deslavada do mundo. – respondeu a moça a sorrir.

--- Verdade! – relatou o rapaz.

--- Vou embora. Fique com as suas mentiras. Eu também não importo. – respondeu a moça.

E saiu deixando a porta do quarto toda aberta. Honório ficou a tremer. Pensava só no que havia a dizer quando voltasse.

--- “Essa piranha é de lascar. Sabe logo decifrar tudo. Ora merda!” – falou irado o rapaz.

Ao sair de casa viu novamente o Domingos a subir os degraus para o alto onde estava o andar superior. No local ficavam jóias e pendores da família, retratos, biografias, brinquedos e mimos de crianças, utensílios domésticos já em desuso todos bem aquartelados nos cômodos.

A Mansão dos Dumaresq era deveras ampla. Podias-se encontrar no velho sobrado um hall de entrada, cozinha, despensa, sala de jantar, duas outras salas, biblioteca, salão com varanda, sete quartos, armários, sótão, portaria, garagem e lavanderia. Era uma Mansão enorme, em amplo terreno murado. No andar de cima e no sótão tinham-se guardadas as peças de esmero cuja família herdara de parentes quase todos falecidos. Apesar de ser imensa, a Mansão era menor de aspecto para as demais mansões existentes no lugar. A falta de calçamento das ruas próximas era o ponto fraco da mansão dos Dumaresq. Quem passasse no local dos Dumaresq sempre temia a olhar o casarão ao pensar em assombros à luz da lua.

Honório era o único homem daquela parte da família, apesar de haver mais outras famílias Dumaresq todas vindas da Europa nos anos de 1800. Quando Honório tomou o seu destino, a mocinha Damiana subiu ao andar de cima, onde aguardava o rapaz Domingos, cujo apelido era tão somente “Peru Falante”, caso que o irritava por demais. Filho de descendente de escravos, contudo “Peru Falante” tinha a pele clara, pois seu pai era um europeu de pele igualmente clara. Como pai era um europeu, o homem considerava o tal chamado “Peru Falante” como um filho bastardo. Domingos também não dizia ser seu pai um europeu. A quem perguntava sempre ele respondia que o homem morreu na durante a Guerra de Cuba. Embora tal fato não fosse verdadeiro, morrer em Cuba já era de certo uma façanha. Por conta do caso da morte do pai de Domingos, ele passou a ser chamado de “Peru Falante”, por falar demais e ser alvo como os europeus do passado.

No primeiro andar da Mansão os dois tiveram uma sessão de amor. Domingos, vinte anos mal vividos, pois vivia de bicos de serviços, atracou a moça pela cintura e fez o sexo do prazer. Logo após aquele momento o rapaz lhe disse com voz severa somente amar e queria casar ou viver juntos com Damiana. Esse caso assustou a mocinha, pois estava na Mansão dos Dumaresq há pouco tempo e sair da casa era uma afronta ao seu grande amor Honório. A mocinha não disse sim e nem disse não. Fez de conta que estava tudo certo. Deixaria tudo para resolver depois. Talvez aquilo fosse apenas um ímpeto de “Peru Falante” e nada mais. Eles passaram um longo período na sala de hospedes do primeiro andar e “Peru” a acariciava os cabelos da menina sem falar mais no assunto pelo período que no quarto esteve.

Quando a noite veio, Do Carmo já estava acordada da cesta que fizera. A mulher perguntou a Catarina pela garota a quem tanto bem queria. Catarina disse que não a vira desde à hora do almoço. Com certeza a garota deveria estar em seu quarto. Foi tudo quanto respondeu. Nesse instante, Damiana vinha descendo do sobrado e simplesmente falou:

--- Estou aqui, madrinha. Estava vendo os retratos armados no andar de cima. – comentou Damiana bem tranqüila.

--- Ah bom. Na galeria. São os retratos da família. Alguns muito antigos. – respondeu Do Carmo

Catarina nem quis ouvir o relato de Damiana, uma vez sabia qual mentira era a mocinha capaz de levantar. Talvez até dissesse que já estava gostando de ler os livros da biblioteca. Por isso mesmo, Catarina fez um bico e se ausentou de cabeça erguida de corredor adentro.

-- Run! Retratos! Eu sei o que ela estava vendo! – relatou Catarina em cima da bucha.

domingo, 12 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 18 -

- Lana Turner -
- 18 -
Às dez horas da manhã daquela segunda feira, Honório Dumaresq já estava agarrado no trabalho apesar de ter chegado um pouco mais atrasado. Ele esteve no Porto a examinar os volumes chegados para emitir a ordem de entrega. Ao sair do Porto, ele se deparou com um velho amigo e conhecido de muitas datas, desde o tempo em que jogava “pelada” na rua. Honório era de um tempo que se jogar “pelada” era um bom motivo de se fazer amizades, ou então, de se fazer intrigas, daquela de ficar de mal a ferro e a fogo. Era assim o destino dos bons amigos (e inimigos) de sempre. O “velho” amigo era sem mais nem menos que Sandoval Marinho, nome sempre visitado pelas colunas dos jornais. Sandoval tinha quase a mesma idade de Honório, a se observar o homem de próximo. A surpresa foi total para ambos, pois apesar de ver artigos nos jornais assinados com o nome de “Maneco”, Honório, de antemão, sabia que se chamava o jovem rapaz desse apelido, apesar da diferença do nome original. Foi um abraço imenso dos dois amigos de colégio e de infância. Um deles quase chorou de tanta alegria ao dizer:

--- Você me faz recordar os velhos tempos. – declarou Maneco cheio de lágrimas.

--- Pois é seu cabra. Nunca mais o tinha visto. Sei que andas na cidade. Vejo os teus artigos no jornal. Porém, você é sumamente desconhecido. Só ouço dizer: Maneco pra cá Maneco pra lá. E quem é Maneco? – sorriu Honório ao abraçar o velho amigo de longas datas.

--- Pois é Honório. O velho Honoré de Balzac casado com Eveline Hanska, rica dama polonesa. Como estás? – falou o bom Maneco dos encartes de jornais.

--- Levando a vida enquanto não encontro a minha dama polonesa. – sorriu Honório ao responder o trocadilho do amigo.

--- Não acredito que não tenhas uma dama! – sorriu Maneco com a cara sínica.

--- Para te dizer a verdade: damas têm muitas. Mas estão todas no tabuleiro. – sorriu Honório ao se referir as damas dos tabuleiros de xadrez.

--- Pois é. Tu sem dama e eu? Nenhuma! – sorriu Maneco ao dizer de sua vida íntima.

--- O que me contas do esporte? – indagou Honório desviando o assunto.

--- Ah. O esporte. Ele vai bem. Quem vai mal é o time do azul. Eita coisa danada de ruim. O Veludão esta caindo aos pedaços. Agora puseram pra fora o seu presidente e toda a diretoria do clube. E vão fazer nova eleição. Agora, não tem um nome para ser presidente. Eita pau. – falou desgostoso o comentarista Maneco.

--- Eu vi o que você escreveu certo dia. – respondeu Honório abismado.

--- Não! Mas isso foi agora. Os “homens” estiveram reunidos no sábado e depuseram o presidente. AGORA!!! – descreveu Maneco ainda mais com raiva.

--- Agora? Essa eu não sabia. Desde sábado que eu estava viajando. Não vi jornal nesse fim de semana. Você escreveu sobre o assunto. – indagou Honório.

--- Para o jornal só sai amanhã. Agora no rádio eu meti a boca no mundo. Sacanagem. Agora tem time e não tem presidente. Veja só! – alertou Maneco com os olhos esbugalhados.

--- Quem está mais cotado para ser presidente? – indagou Honório surpreso com a notícia.

--- Não sei. Ninguém quer ser o presidente. E a decisão esta em cima. O Azulão está na primeira posição. Mas ninguém quer ser presidente! - relatou Maneco entristecido.

--- Por que você não se candidata? – perguntou Honório a Maneco.

--- Eu? Tá doido! Quero o que! Agora, pensando bem. Um nome que podia ser apontado era o seu! – declarou Maneco de supetão.

--- Eu? Te manca. Faz tempo que não bato bola e ser presidente, nem pensar. – respondeu Honório ao amigo.

--- E por que não? Olha o status que tu vai ter! – declarou Maneco.

--- Status? Pra me cortarem depois? Nem morto! Agora, eu acho bem pensada uma coisa. Por que você não convida Ernani Ganso Frito para ser o presidente? – disse Honório pensativo.

--- Ernani? Achou que ele não aceita. – declarou Maneco taciturno.

--- Tente. Não custa nada. Junta mais dois e vai até ele. Conversa. Leva um papo decente e veja se ele cai. Se cair. ... – declarou Honório com brilhantismo.

--- É certo. Mas tem um “porém”. – falou Maneco.

--- Qual? – indagou Honório surpreso.

--- Você vai comigo e Pé de Lã! – respondeu Maneco a sorrir.

--- Quem diabo é Pé de Lã? – interrogou Honório.

--- Não é Orlando. Os que o conhecem chamam Pé de Lã! Sabe quem é? Ele jogava pela ponta, mas só escolhia o meio para acertar no gol. Pé de Lã! É Pé de Lã mesmo! – contestou Maneco com a cara seria.

--- Tá bom. Eu vou. À noite. Você me liga ainda hoje? – perguntou Honório.

--- Me dê o teu telefone para anotar. – pediu Maneco.

Os dois amigos se despediram e um foi para um lado e outro saiu com a cabeça tecendo fumaça. Era Maneco, o comentarista de esportes. Dessa vez o rapaz havia emprestado um chute decisivo para compor o Azulão, time pelo qual torcera a vida toda. Então era entrar em contato com Orlando Pé de Lã e, por fim chegar à casa de Ernani Ganso Frito para formular o convite de modo que ele aceitasse, pois não valeria resposta negativa. A qualquer custo, Maneco tinha um nome guardado na sua manga: Honório. Esse era o nome de saída. O mais significativo que Maneco detinha para explorar. Ernani era um “nome”. Homem inteligente, de visão ampla, não aceitava desaforo, era capaz de tudo, porém se afastara do esporte a longo tempo.

Quando chegou a noite, por volta de oito horas, os três desportistas estava a bater na casa de Ernani Salgado, homem decido, voltado para o cultivo de macieiras e nas horas vagas, gostava de assistir luta de boxe. Ou pelo rádio, ou pela televisão e se pudesse, assistir ao vivo quando se deparava com uma luta de competidores de estilo. O “Lagunas”, time o qual sempre admirava com brio, Ernani não mais se importava. “Lagunas” era mais conhecido por Azulão pela cor do seu fardamento: camisa azul e calção branco com meiões azul e branco. Ao soar da campanhia, Ernani logo se prestou em atender, pois de antemão sabia que à noite estaria em sua casa uma comitiva para lhe falar. Com certeza que o instante foi dos melhores. Ernani Salgado recebeu os três rapazes para conversa. Com o avançar da noite, Maneco, Orlando e Honório começaram a fomentar o principal assunto da visita:

--- Presidente? Quero o que! Eu prefiro as minhas macieiras. –descartou Ernani.

---Mas, veja bem. O clube está sem presidente. Não se chega a um denominador comum. Eu vejo em você, - posso até estar enganado -, mas o homem de puro aspecto para não deixar um time que chegou ao primeiro lugar no rank e não deixar cair. Veja bem. Do jeito que estamos, somos o primeiro entre todos. E se você não aceitar a Presidência do Clube vai haver um desastre total. Vamos cair na vala comum dos outros times suplantado por nós. Eu peço, por favor, que aceite a Presidência do clube.

A conversa continuou por altas horas entre um sim e um não, sem se chegar a qualquer acordo decisório. A imprensa tinha falado mal dos magnatas do clube ao dizer que os “grandes” só pensavam em dinheiro e não em um clube do nível do “Lagunas”, pois tais herdeiros de um patrimônio de luxo queriam ter para eles somente a herança do alto patrimônio produzido pelo clube. Chegou-se a falar nos primeiros anos do “Lagunas”, dos seus padrinhos cujo poder era o de tirar a camisa para ver o clube não cair de prestigio. Os anos passaram e o clube gerou rendas até o ponto de uma decisão intempestiva de acabar como todo o amplo patrimônio. Os que estavam torcendo por fora nada sabiam dos esquemas armados pelos ditadores da fama. Havia até quem pretendesse chamar esse clube de dirigentes anônimos do time do “fuhrer” em alusão a Adolf Hitler, designado “líder” da Alemanha.

--- Vou pensar. Amanhã darei a resposta. – respondeu Ernani Salgado.

Com o passar dos dias foi lançada a candidatura de Ernani, cujo apelido era “Ganso Frito” e com isso foi uma campanha mais concorrida da história do “Lagunas”, o “Azulão”. Nas ruas e praças da cidade imperava a fórmula da propaganda dos que defendiam o clube ao dizer:

--- “Vamos meter Ganso Frito na goela”; “Lagunas quer Ganso”; “Ninguém tira esse Ganso”.; “Avante com o Ganso”. Uma modinha foi improvisada para aclamar a vitória de Ernani Salgado onde se dizia “Vamos Salgar o Ganso”. Enfim, foi festa delirante a do Presidente do clube “Lagunas”, com gente de todo o canto presente ao festival da vitória. Inquietos e delirantes os artífices da augusta promoção não cabiam em contentamento. Alguns peraltas não se contentavam e chegaram a falar um termo bem popular: “Com esse Ganso eu Vou”. Foi vitória esmagadora do candidato Ernani Salgado. Para compensar, reservou-se um lugar para Honório que passou a ser Diretor de Esporte do clube Azulão.

sábado, 11 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 17 -

- Marlo Thomas -
- 17 -

Três horas da manhã o barco ainda navegava com destino ao Porto não tardando a chegar. Todos dormiam a bordo, com exceção dos tripulantes de serviço. No cômodo de Honório, ele dormia a sono solto. O cansaço do dia anterior e o vexame por que passaram todos a bordo faziam com que o sono fosse acolhedor. As lâmpadas da suíte do barco onde Honório dormia estavam apagadas, salvo por uma tênue lâmpada em um abajur lilás no final do quarto. Não havia pássaros noturnos e mesmo assim as janelas com vidraças estavam trancadas. Ouvia-se o ressoar das ondas a bater no casco da embarcação marejando de leve o Catamarã. Um tenaz e virtuoso silencio fazia o embalo dos necessitados de letargo. Nesse momento, quando todos dormiam a bordo do barco, uma figura furtiva se esgueirou por entre as sombras e pulou na cama de Honório, recolhendo-se em baixo do edredom e, silencioso nada fez com homem que dormia. Apenas se encolheu como pode, passando a perna por cima de Honório, de forma delicada e soprando leve no seu ouvido para o caso do rapaz ter de acordar. Era Ângela, a sombra furtiva. Ela bolinou o membro sexual, bastante adormecido como estava o homem. Este procurou se virar um pouco para o lado e de repente, acordou de supetão.

--- Que. ...- e ele teve a boca fechada pela mãozinha da Ângela tão delicada.

--- Psiu! – fez a moça. – Não fale. Deixa eu aqui. Ela está a dormir. Sono ferrado. – sorriu baixinho Ângela para o homem plenamente assustado.

---Vá para a sua cama! – disse baixo o rapaz quase a sussurrar.

--- Fico aqui um pedacinho. Só deitada. Não te perturbo. –falou em frases miúdas e baixas a voz da moça aquietando-se sobre o colo do rapaz.

O rapaz se inquietou com aquele acordar no meio da madrugada e pediu que a moça saísse daquele local, pois Adélia podia acordar a qualquer momento. A moça, muito tranqüila, disse ao rapaz que ela não acordaria nunca, até de manhã, pois tomara um sonífero para repousar mais tranqüila após os acontecimentos da tarde. E desceu sua mão até o sexo do homem e fez com que o moço tivesse tal agitação como estava febrilmente a desejar. Ângela apenas de calcinha e sem nada para cobrir os seus lindos e pecaminosos seios fez como Honório fosse terno, carinhoso e de modo sensual para uma fêmea em plena volúpia do cio. Sentia-se no instante de fugaz alucinante tremor o genital do másculo a assumir proporções por demais estonteantes. Alienado com a intenção da jovem moça de 20 anos, Honório quis dispensá-la como fazia sempre quando a jovem se aproximava do seu colo, dessa vez ele não teve mais qualquer ação. Louco com tais manifestações de uma jovem rebelde o homem se acercou da moça como um instrumento cortante. E ali mesmo, ele fez o que não poderia ter feito. Entre beijos soturnos e amados, Ângela disse apenas a Honório:

--- Eu te amo. Mais do que tu podes imaginar. Eu te amo. Te amo. Te amo – e saiu da cama onde estava como uma gazela após o coito. E dizia para Honório apenas palavras amorosas de que era ele seu grande e imensurável amor. E poderia ir até ao limite de seu ser com tudo para ofertar. Ele era a moda mais linda que se podia ter. O rapaz disse apenas em troca:

--- Você está doidinha. – sorriu do seu inigualável modo de ser.

Honório se levantou de sua cama e foi ao banheiro tomar uma ducha quente para tirar todos os efeitos daquele sublime amor. Ele não podia imaginar onde aquela meiga e delicada jovem tirou tanto esplendor para amar. Em um instante ele viu a moça se aproximando para mais um aconchego, de modo como disse não, pois estaria total esgotado àquele momento, de pernas vacilantes, quase a cair. Aquele febril e tão misterioso amor ele jamais poderia entender. Eram perpétuas e maliciosas caricias ao longo do eterno tempo. Mesmo diante da insistência da ninfa, ele já não podia ter mais o orgasmo desejado por aquela voluptuosa fêmea. Então a moça saiu do banho e ficou a espiar o homem quando ele saísse, toda coberta pelo edredom menos sua enigmática face. Após a ducha Honório saiu do banheiro, onde a meia luz não deixava ver de tudo, porém pode observar aquela lebre toda enrolada e só a ponta de sua face de fora, olhando sem vergonha de tudo o que fez. Ao se deitar e enrolar ouviu a moça dizer:

--- Não vou me lavar para não tirar seu cheiro de mim. – e sorriu.

O rapaz não falou nada. Apenas disse adeus com dois dedos da mão direita e se enrolou da cabeça aos pés temendo não conciliar o sono por ter de ver a jovem moça novamente em seus braços tenros e sem forças.

Quando chegou às sete horas da manhã o Catamarã atracou no Porto. Decididamente, todos os passageiros já estavam prontos para o desembarque, inclusive Ângela e a sua irmã, Adélia que nem suspeitava do que acontecera entre a sua irmã e o rapaz Honório. A moça estava ainda sonolenta, pois tivera que tomar o sonífero tarde da noite. Ângela nem se importava com o tal sonífero, enfim foi o medicamento que lhe deu toda a ventura de incontido prazer. Com isso, conduzindo o seu saco de roupas, olhando para todos os conseqüentes passageiros, deu de ombro e desceu a curta escada por onde subira na madrugada do domingo. Nada fazia crer em poder a moçar ter feito as agruras da madrugada. Ângela volteou o Porto e olhou para trás vendo se avistava Honório para poder pegar o seu novo e velho automóvel.

Com toda a multidão a passar, Honório chegou até seu carro, abriu os vidros das portas, e permitiu entrar as duas moças. Do lado de fora, no pátio do Porto, ainda havia a conversa do homem morto no acidente da tarde de domingo. Ninguém sabia dizer ao certo se o defunto foi no embarque do Catamarã e se ficou em terra para ser trazido a bordo de um avião regular. Por isso, a moça Adélia ainda perguntou a Honório por querer saber:

--- E o morto? –foi a pergunta da moça.

--- Não sei, - foi a resposta do rapaz sem grandes pretensões em saber de fato.

--- Você já vem de novo com essa história de defunto! – replicou Ângela.

A moça calou e deixou o carro partir, buzinando para que os passageiros desse lugar ao veículo transitar no meio da frenética agitação daqueles viageiros de arribada. Muita gente mesmo à saída do Porto e Honório teve de ser paciente com o pessoal, muitos dos quais igualmente tinham conduções para se locomover para casa, com certeza. Segunda feira era mais um dia perdido para Honório não fora um rapaz avisar do material por ele esperado ter chegado no dia anterior ao Cais. Honório agradeceu a informação e deixou dito que mais tarde viria buscar a encomenda feita pela Representação. Desse modo, ele já vira que nem tudo estava perdido, pois já havia noticia nova para dar ao seu tio.

Com o passar do tempo, o rapaz chegou até a casa das moças e as deixou. A menor estava completamente cheirando a sal e a maior tinha tomado seu banho de água morna ou ducha tal como se dizia a bordo do Catamarã. Ângela se voltou para Honório e procurou beijá-lo com insistência ao passo que o rapaz recusou tal demonstração em público. Ela relutou e deu-lhe um beijo no rosto de qualquer forma. A irmã não notara, pois estava o seu enorme saco de viagem a carregar para sua casa. A irmã menor ainda teve tempo de dizer para Honório:

--- Não esqueça. Eu te amo. Quero ter você nem que chova canivete. - relatou Ângela com plena afeição e ternura de olhos bem abertos.

Honório sorriu e ainda teve tempo em dizer.

--- Tenha cuidado! – falou Honório querendo despistar o exagero da moça.

--- O “cuidado” está aqui dentro. Eu não sossego enquanto ele não chegar. – respondeu a jovem cheia de entusiasmo apertando o seu ventre.

--- Nem diga uma coisa dessas! – manifestou o homem já alarmado.

--- Verás! Verás! – falou a moça com certeza e entro em casa levando o seu saco de roupas.

O homem sorriu e entrou no carro, esperando por Adélia para se despedir da moça. Com um pedaço, Adélia retornou e lhe agradeceu, dando-lhe um beijo suave na face. O rapaz então olhou para saber se Ângela estava por perto, mas não a notou de modo algum. E agradeceu a Adélia pela companhia que lhe fizera lamentando apenas a tragédia do domingo.

--- É pena mesmo. Como é que pode uma tragédia dessas? Estou morta! – relatou Adélia.

--- Morta de raiva ou de pena! – perguntou Honório com um sorriso no rosto.

Adélia olhou com franqueza o rapaz e resolveu não relatar mais coisa alguma. Ela estava, a saber, qual seria a sua contra resposta. Preferiu sorrir e dar-lhe novo beijo enquanto sua mãe aparecia no portão cumprimentado Honório. Ele mesmo de dentro do carro fez um aceno para a mulher. Nesse ponto, dona Almira ficou a olhar melhor o automóvel do homem, mostrando-se admirada com aquele automóvel, para a mulher, uma coisa de gente rica. Do portão onde estava Dona Almira custou a acreditar no que estava a ver.

--- Um carrão! – disse Almira para a surpresa de todos. Muito embora só estivessem nas portas das casas próximas outras mulheres a conversar asneiras.

De um momento, Honório deu partida no seu automóvel e largou por rua afora olhando pelo retrovisor a presença de Adélia e fez aceno com o braço para o lado de fora da porta do carro. Adélia também fez sinal de adeus com a mão e logo entro mais a sua mãe. Dentro de casa, a moça contou da alegria sentida e do acidente que se dera com um passageiro. Ele mergulhou para a morte, com certeza.

--- Você já está conversando isso? – perguntou Ângela bem atrevida.

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 16 -

- Ava Gardner -
- 16 -
Na hora do almoço servido às treze horas, vários dos passageiros estavam pra lá e pra cá. Havia os que choravam os que cantavam melodias dolentes, e aqueles que vomitavam tudo o que ingeriram para depois beber novamente. As duas irmãs eram as mais desatinadas a sorrir dos pobres otários da vida. Os equilibristas do mundo soavam melodias irreconhecíveis, pois suas vozes estavam todas ofuscadas pelo álcool os quais estavam a entornar a cada instante. O bar do Catamarã estava aberto. E para o pessoal adulto vendia todo tipo de licores, uísques, cervejas, até mesmo preta, gim, rum entre outros. Para os menores só atendiam algo que não contivesse álcool, como guaraná e outras tão leves assim. O almoço era servido à mesa com um cardápio bem variado regado a frutos do mar iguais a crustáceos. No almoço, Adélia já estava pronta para outra, pois o enjôo passara de vez e a moça estava feliz e contente sorrindo a valer com histórias contadas por Honório. Por seu lado, Ângela junto ao rapaz comia a valer os frutos do mar e a despeito de ser um alimento “carregado”, a ostra ela comia ao Deus dará. Foi um lauto almoço o que foi servido. O pessoal que tomara banho de mar era o mais guloso, pois essa gente argumentava que o seu apetite aumentara substancialmente.

Quando chegou às duas horas da tarde, o barco já estava no arquipélago do Cachimbo Torto onde passaria cerca de uma hora e depois seguiria para o arquipélago de Odessa, ponto final da viagem. No arquipélago de Odessa, o barco pretendia ancorar no cais do porto se não fora um acidente cometido por um dos passageiros. Ao se avistar o arquipélago, um rapaz de vinte anos completamente embriagado, saltou de cima do Catamarã para o mar. O rapaz não conhecia nada de profundeza de mar. E ao saltar, um tripulante ainda gritou:

--- Cuidado! – gritou o tripulante quando o rapaz pulara.

No baque com as águas ele desconhecia onde tinha uma mancha escura. Foi ali que o rapaz bateu com a cabeça em uma pedra tendo morte instantânea. Quando o jovem pulou, três outros tripulantes pularam a seguir tentando acudir o rapaz. Os tripulantes resgataram o corpo da vítima. Mesmo assim, a pancada na cabeça tirou a vida desse passageiro. O Catamarã ficou parado longe do porto esperando a chegada de oficiais da Marinha e além do especialista em acidente ao mar para identificar a vítima e poder liberar a embarcação. Horas se passaram com a embarcação parada longe do porto de Odessa. O corpo do rapaz foi posto em um corredor do lado esquerdo do barco e assim ficou até a perícia investigativa averiguar as causas do acidente. Os três amigos – Adélia. Ângela e Honório – ficaram apavorados com aquele acidente cruel e inimaginável onde um rapaz de vinte anos perdera a própria vida sem explicação. O corredor teve que ser interrompido para passagem de passageiros. Os hóspedes do Catamarã que estavam em uma sala próxima ao local em que foi posto o cadáver pelo lado de fora, foram transferidos para outro apartamento ou beliche. No barco era um alvoroço total de pessoas querendo saber que era a vitima:

--- Quem era ele? – perguntava alguém.

--- Não sei. Só o vi quando ele estava bebendo com outros. – respondia outro.

--- Não era da cidade? – era a pergunta de uma terceira pessoa.

--- Eu sei que ele entrou só. – respondeu alguém.

--- Ave Maria. Meu do Céu! Que coisa incrível! – era o comum.

--- Por que a gente não pode ir lá para ver? – perguntou uma mocinha a alguém.

--- Eu vi tudo! – disse um garoto se vangloriando do feito.

--- Tinha um rapaz batendo fotos! – respondeu outro homem.

--- Vai sair no jornal? – perguntou a mulher desesperada.

--- Amanhã deve sair, não resta duvidas! – sorriu outro homem sorrindo da desgraça alheia.

--- E por que não sair? Aconteceu? Virou manchete! – foi o que afirmou aquele loiro repetindo uma frase da televisão.

E o alarme durou tudo o resto da tarde sem se saber quanto o barco deveria sair. A ordem era para ninguém pular no mar durante aquele momento. A noite veio com o mar bravio e as moças que acompanhavam Honório não quiseram comer coisa alguma. Para elas todos os momentos não passavam de uma angustia total. E as duas moças – Adélia e Ângela – preferiram voltar para o camarim onde se acomodaram. Ângela foi espremida, com as pernas encolhidas sobre seu corpo em cima da cama enquanto a irmã a todo instante rezava pela alma do rapaz que morrera e dizia quase sempre:

--- Ave Maria! Como é que pode uma coisa dessas? Acabou com a viagem! – dizia Adélia chorando lento.

O corpo ficou estirado no saguão do barco até ao anoitecer quando a pericia o levou para a terra onde faria a autópsia cadavérica do morto. O local onde estava a vítima, no barco, ficou impedido da passagem para quem visse a olhar. Mesmo assim, apenas havia no local a marca de giz de como o cadáver fora deixado e nada mais. Alguns abelhudos olharam para o local através da vidraça de seus apartamentos. Um menino chegava a dizer:

--- Olha ali! Olha ali! – comentava o garoto.

--- Cala tua boca! – respondia uma mulher, com certeza a sua mãe.

No restante do barco somente ouvia-se as conversas dos passageiros com relação ao acidente fatal. Um deles sempre comentava algo que acontecera pouco antes do rapaz pular para as ondas tranqüilas do mar.

--- Ele dizia sempre que a qualquer hora pularia para o mar. Não falava em suicídio. – comentou um homem ainda encharcado de bebida. –

--- Foi morte certa. – relatou um dos que faziam par da conversa.

Houve o jantar e Adélia, Ângela e Honório se puseram à mesa para degustar algo. Porém, naquele instante a impressão do acidente acometido à véspera da noite, ainda era forte. Adélia não deixava de perguntar insistente a Honório se o corpo do rapaz morto seria trazido para o Catamarã e esse respondia um:

--- Talvez! – respondia Honório com a cara enferrujada.

--- Mas ele tem que vir! – argumentava a moça impaciente.

--- É. Pode ser. Mas tem avião para a terra. Então pode ser que não! – respondeu o homem.

--- Vá perguntar aquele rapaz! – falou baixinho com o queixo rende à mesa e apontando para o moço do convés.

--- Ele não sabe de nada. O comandante foi para terra com a ajuda do outro tripulante que procurou impedir o rapaz pular. – comentou Honório.

--- Só esse? – perguntou Adélia muito nervosa.

--- E mais dois tripulantes. O técnico levou o corpo para terra onde se faz a autópsia. – proclamou o rapaz.

--- Para com isso, gente! Ora! Vocês só falam nisso! – reclamou Ângela com muita raiva e nem querendo mais ouvir qualquer coisa.

--- É o assunto da noite. – sorriu Honório.

--- Pois fique ai. Eu vou para o beliche. – reclamou Ângela se levantando e saindo.

Honório sorriu baixinho para Adélia e não comentou mais nada.

Quando chegou às dez horas da noite o comandante do Cataramã anunciou pelo fone que o barco teria de largar. Ele pediu desculpas por não ter se encostado ao porto para os passageiros se deleitarem dos recantos paradisíacos onde o arquipélago de Odessa oferecia a que não o conhecia. Ele ficaria devendo essa oportunidade a todos os seus passageiros. O comandante não falou no corpo do morto. Já em seu beliche, a moça Adélia o que o comandante falou e ficou desencantada com a visita cortada pelo meio e a morte do rapaz, pois fora a causa de todo o dissabor. Com certeza, a moça procuraria ver nos jornais da terça feira alguma nota a respeito da morte do rapaz em Odessa.

A lua ainda em fase cheia lutava para não se encobrir por entre as nuvens. O Cataramã navegava solitário e não fora à vista de luzes ao largo identificado um navio, nada de mais sucedera. No barco ainda se ouvia de pessoas comentando o acidente da tarde. Outro passageiro, porém, indagava sobre o placar do jogo do dia em terra. Ela não acompanhava nem pelo rádio o certame dos times. Um tripulante surgiu solene com bandeja e copos. Ele trazia de um apartamento qualquer. A moça Ângela se acomodou em sua cama onde procurou dormir dado o cansaço do dia, pois não dormira a noite toda com os afazeres de arrumação dos seus costumes e viagem. Adélia, ainda acordada, perguntou de forma simples a Honório:

--- O que significa Odessa? – quis saber Adélia do rapaz.

--- Odisséia. Vem do grego. – respondeu Honório pensando em outras coisas.

--- Interessante. – disse Adélia se acomodando na cama em companhia de sua irmã uma vez a dormir, pois o barco chegaria pela manhã ao Porto.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 15 -

- Mary Anderson -
- 15 -
No sábado, Honório não voltou para a sua casa. Fazia parte do seu plano. Dormira mesmo em um Hotel de segunda categoria. No balcão deixou um recado para lhe acordar à uma hora da manhã, pois teria de viajar logo cedo. O Catamarã tinha uma rota prevista: saída às cinco horas da manhã; viajar até a Ilha de São Simão; seguir depois para o arquipélago das Três Irmãs; logo após, viajar para a Ilha do Cachimbo Torto e, por fim, chegar ao arquipélago de Odessa. Esse seria o ponto final da turnê. Depois a viagem de volta. Por certo, o Catamarã chegaria ao Porto na manhã da segunda feira. Da viagem que o barco faria, o ponto de maior destaque seria do Porto do Cachimbo Torto, pois o local era cheio de lagos, rios e cachoeiras. Podia-se tomar banho de mar em diversos pontos onde o barco parava. A ilha de São Simão e o arquipélago das Três Irmãs eram portos bem menores e sem grande atrativo. A não ser as lagoas existentes do arquipélago das Três Irmãs onde os passageiros poderiam gozar das delícias paradisíacas da viagem ao sabor natural.

Às duas horas da manhã, Honório já estava em frente à casa de Adélia a espera. As duas irmãs terminavam de se aprontar para poder seguir viagem. A noite era calma, sem frio ou calor. Um andarilho passou ao largo. Parecia ébrio, foi o que Honório pensou. O Bêbado deu boa noite ao carro. Enigma. Cambaleando, saiu a caminhar, mais para lá e mais para cá. As calças rotas não permitiam o bêbado puxar para que elas ficassem em seu ponto. O rapaz sorriu calado como quem dizia;

--- “Ora já se viu!” – comentava em seu pensar Honório completo e calado.

Com pouco tempo as duas irmãs saíram de casa, prontas para a viagem. Ângela a sorrir como criança era a alegria sem fim. E veio correndo, com sua bagagem, para abraçar Honório em um imenso abraço. Beijo também deu como não poderia deixar de fazer com seus olhos brilhantes em plena luz da madrugada. Em seguida surge Adélia, puxando sua enorme bolsa com tudo o que precisava. Com certeza ali estavam calcinhas, toalhas, roupa de banho, vestidos e toda a sorte de bronzeadores, xampus, sabonetes, eventos para passar na pele e não ficar muito ardente e bronzeada, batons. Enfim: de tudo tinha um pouco. Era, afinal, uma viagem onde outras pessoas e até meninos também haveria de estar. O matulão da moça pesava mais do que o carro:

--- Olá. Como vai. Chegou cedo? Coisa pesada! – e ela fazia força para soerguer do chão.

--- Olá. Cheguei quando vocês estavam se arrumando. Eu vi pela luz da sala. Deixe para que eu ponha a sacola. – respondeu o rapaz com sorrisos módicos.

--- Pesada não é? – perguntou Adélia.

--- Viagem é assim. E você menina? Tem mais coisas? – perguntou Honório a moça.

--- Menina, não! Eu sou mulher. Ora. – falou abusada Ângela torcendo os lábios.

--- É o modo de falar, MENINA! – respondeu o rapaz a sorrir.

--- Não quero ouvir esse nome nunca mais dito por você. E fique sabendo: eu vou ao banco da frente. Quem quiser que vá atrás. – voltou-se Ângela para pedir a bênção a mãe.

O Porto já estava com bastante gente para seguir no barco Catamarã cuja previsão era largar às cinco horas da manhã. Honório e suas duas amigas chegaram bem cedo e se prepararam para embarcar, escolhendo os melhores locais de hospedagem para por o que trouxeram para a longa viagem. O comandante do barco um senhor alegre, gordo e alto, era todo feliz ao ver tanta gente correndo para embarque. Na verdade, aquela cena o comandante já presenciara por inúmeras vezes. Porém, sempre uma largada era como se fosse a primeira. Por tal motivo o comandante se mostrava feliz da vida apresentando os seus cumprimentos a todos que embarcavam. Pensava ele o sucesso da viagem era o esmero de seu desempenho. Em meio a tanta presa dos embarcado, cada um procurando o seu lugar, pois a chave era numerada, Honório estava com sorte vez que a sua chave era a do primeiro andar, como pedira ao homem que transacionou esse local.

Com o fim de colocar seus petrechos nos gabinetes de guardar, os três ficaram, por fim, sorridentes com a alegria de poder viajar no barco cujo nome Adélia não atinava dizer:

--- Catamarã, sinhá burra. Aprenda! – disse-lhe Ângela com arrogância.

O barco tinha cabines com cama para casal, sala, cozinha, banheiro, cozinha, água doce, banho frio e quente, local para se armar redes de repouso, vários compartimentos para guardar material de mergulho e serviço de bar e quarto para garantir a melhor hospedagem. Quando as duas moças foram visitar o restante do barco, era tamanho o movimento de passageiro que não para fazer coisa alguma e elas tiveram que voltar aos seus aposentos. Nessa ocasião, Ângela errou a porta e entrou numa cabine onde estava um homem completamente nu. A moça tomou um susto e deu um gritinho saindo em seguida sorrido como besta.

--- Vamos repousar. – falou Honório dentando-se na rede armada e dessa vez as moças perguntaram a uma só voz.

--- E onde a gente troca a roupa? – perguntaram as moças entre sorrisos e gritinhos.

--- É para eu cair fora? – quis saber Honório com aquele repente das moças.

Essa foi uma hora de intensa gargalhada. As moças nem podiam mais parar de sorrir. Na hora que a embarcação se preparava para zarpar, foi outro temor das moças. Quando a buzina ecoou, foi um desespero total e cada uma não sabia onde se meter.

--- Socorro. O barco vai afundar!! – gritou alarmada a irmã menor e se acudindo na rede onde Honório estava. Nesse instante, o rapaz caiu ao chão pelo desespero de Ângela e também ficou apavorado com o ímpeto da mocinha.

Ao se soerguer do chão, com moça e tudo, o rapaz teve que explicar que era hora de largar e aquelas buzinas era só de advertência para os que não tinham bilhetes de passagem. Era a hora de descer os que não podiam ir. Passado aquele susto inicial e se acostumando com a barulheira que fazia a criançada correndo pelos corredores, atropelando uns aos outros, as duas moças se acomodaram com o que fazer.

--- Agora é esperar a xepa! – falou Honório amplo de alegria. Aquele era um verdadeiro momento de jubilo e entusiasmo para o decente rapaz.

Eram cinco horas em ponto quando o barco começou a navegar rio a fora procurando a saída da barra até atingir o alto mar. A dança das ondas fazia Adélia querer vomitar enquanto Ângela sorria abertamente a galhofar da irmã. A cada balanço do Catamarã, Adélia fazia a vez de vomitar. E a cada gesto da irmã, Ângela caia na gargalhada. Quem estava serio era Honório procurando dar algo para a moça cheirar. Uma laranja fazia bem para a jovem. Agoniado, Honório procurou o moço de bordo e pediu um remédio ou qualquer outra coisa para dar a Adélia cuja paciência já esgotara a cada balanço do barco. Enfim, o moço de bordo apareceu com menos de cinco minutos trazendo uma substância para dar a Adélia e pediu para ela repousar um pouco até passar a agonia que a moça sentia. O certo é que, com o passar do tempo, por volta das sete horas, a tranqüilidade voltou a reinar no céu de Adélia dessa feita, uma moça de forma estonteante e meiga. Com o tempo já quente, apesar da brisa soprando em mar aberto, o café foi servido para os que não tomaram nada até àquela hora. Frutas em quantidade eram servidas. Além disso, leite, café e sucos. As frutas pareciam frescas pelo seu sabor e aroma. Sem querer comer muito, Adélia tomou um poço de chá. Quando se animou, tomou suco de frutas. Logo em seguida, ingeriu pedacinhos de bolo.

O Cataramã divisava o primeiro ponto da viagem turística: o Forte de São Simão com o seu farol. Os passageiros vieram todos para a proa para a alegria geral. O Comandante avisou que faria uma ligeira parada no porto antes de seguir viagem aos demais locais. Quem mais estava entusiasmada, na viagem, era Ângela. A todo instante a moça queria saltar do barco para o mar tranqüilo daquele remanso. No entanto, Honório advertiu que Ângela devia ter cuidado com ostras no fundo do lado.

--- Ostras? – estranhou Ângela a ouvir Honório prevenir.

--- Sim. Ostras. As conchas cortam a pele da pessoa. É preciso ter cuidado! – advertiu Honório.

--- Mas ostras a gente não come? – perguntou a mocinha encostando-se em Honório.

--- Sim. A gente como sim. Até mesmo as ostras cruas. Mas você pode reparar no casco que elas estão como são afiados e perigosos. Cortam como navalha! – advertiu o rapaz.

--- Nossa! Que “monstras!!!” – respondeu em contrapartida a moça.

--- Vai pular, vai! – gozou a irmã mais velha de Ângela, sorrindo a valer.

--- Eu pulo, se quiser! Não tem ostra que me empate, ora! – respondeu Ângela aborrecida.

Nesse ponto quem gargalhou demais foi Honório por não poder suportar tamanho desatino da mocinha querendo desafiar as ostras. Ele sorria como uma besta tola. E até demais. Adélia acompanhou o rapaz no sorriso, pois era a vez em suma, de descontar o mau que passara ao barco começar a navegar por mar aberto e a moça fazer a vez de vomitar. Ângela voltou-se para a irmã e fez um gesto delinqüente e saltou na água fria do mar. Outros componentes da viagem de turismo também haviam saltado e mergulhado como se fossem peixinhos do mar sem temer qualquer coisa e nem casquinhos de ostras. A turma que ficara à bordo apenas passavam o tempo a observar, pois estavam se guardando para aventuras bem mais além, talvez nos rios da Ilha do Cachimbo Torto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 14 -

Deborah Kerr
-- 14 -
Na tarde daquele dia, após passar pelo Departamento de Transito, Honório foi cumprir suas obrigações, chegando ao porto onde soube, entre outros assuntos de um barco de passageiro vindo de outros portos para o da cidade. Era um Catamarã, barco soberbo, feito nesse caso exclusivo para cem passageiros permitindo flutuar até mesmo em maré baixa. Esse barco estaria para fazer viagens pelos rios e mar. Na cidade, o Catamarã estaria à disposição dos passageiros. Era um dos capazes de transportar trinta passageiros ou mais. O destino do cataramã era o de visitar ilhas, praias desertas, cachoeiras onde os passageiros poderiam tomar banho de mar, fazer caminhadas interagindo direto com a natureza. Falava-se do conforto e bem estar a bordo de um seguro, forte e atraente Catamarã. Tal conversa foi ao ponto de impressionar sobremaneira Honório. Aquela era uma novidade e surpresa para Adélia saber logo à noite quando ele ficou de aparecer em sua casa. E agora tinha mais uma novidade a qual não queria falar: o carro.

Com novidade ou não, ele nem passou em sua casa. Para a janta fez mesmo num restaurante de finíssima classe do Bairro Alto. Naquele dia Honório estava contente por tudo o que havia feito. O carro, principalmente. E depois a notícia do Catamarã, algo de qualidade e maravilha para alguém que poderia ser a sua noiva, pois o pedido já fora feito. Faltava apenas a palavra de Adélia: dizer o “sim”. Com relação à Damiana, ele pouco se importava. Se Damiana quisesse era assim, se não quisesse era assim da mesma forma. Por cautela, ele não fora para a sua casa naquela noite. Pelo menos, não fora para jantar.

Quando eram oito horas (da noite), Honório chegou à casa de Adélia com carro e tudo. Nem ao menos buzinou. Ele fez de conta que o carro não tinha importância. O negócio era o Catamarã, cujo passeio era no domingo bem cedinho da manha, algo em torno de cinco horas, pois o barco aproveitaria a maré alta, apesar disso no muita importância, pois o batel navegava em maré baixa. Ao bater palmas quem veio atender foi Ângela, irmã de Adélia. E veio em uma gritaria terrível que Honório mesmo se assustou. A moça atracou o rapaz com força e bem apertadinho, dando-lhe um beijo intenso, se não fora a rapidez do rapaz teria sido nos lábios. A moça não se conteve e deitou sua cabeça no peito de Honório. E ficou assim até dar por conta haver um carro em frente a sua casa. E então a moça perguntou:

--- Esse carro é o teu? – perguntou a moça com alegria e surpresa. Olhos bem abertos.

--- Sim. Eu comprei hoje! – sorriu Honório para a moça.

--- Ah. Vou ver o carro. – e saiu à moça direto em direção ao automóvel enquanto Adélia se aproximava lenta, sorrido e olhando o carro por sua vez.

--- Eu prometi e vim. – respondeu Honório à Adélia.

--- É teu esse automóvel? – perguntou Adélia ao rapaz.

--- Sim. Comprei na hora em que você telefonou. – respondeu o homem.

--- Espero não ter atrapalhado o seu negócio. – sorriu Adélia com muito cuidado.

--- Não atrapalhou. Eu estava concluindo o negócio. – respondeu o garbo.

Então, os dois caminharam para fora onde Adélia se aproximou do auto, olhando com todo o temor como se fosse estragar alguma coisa que não estava às suas posses. O veículo era um Ford/Lincoln, um lançamento pouco antigo modelo Coupê. A moça ficou abismada com aquela invenção. A cada olhada era mais um suspiro que emitia. Apesar de ser, assim, não tão antigo para o seu ano de lançamento, o veículo era para a moça, cuja idéia não seria a de entender muita coisa, olhou bem o carro repreendendo a irmã de não por as mãos na pintura, pois assim pedia estragar. O rapaz somente fazia sorrir pela maneira como agia Adélia. Para ela, aquele era um carro muito chique e apenas somente os ricos podiam comprar. Com certeza Adélia pensaria no poder de riqueza do rapaz.

Os três ficaram junto ao carro por vários minutos com Honório tentando explicar o custo do veículo não ser imenso, pois muita gente já naquele tempo tinha o seu carro, com fabricação nacional. A Ford começou a fabricar automóveis no País em 1959 e desde então se fabricava os modelos diferentes, como Lincoln, Mercury ou Galaxie entre muitos outros modelos bem conceituados. Por isso não era de se preocupar com custos, pois todo ele tinha seu preço. A moça ouviu a explanação do rapaz e mesmo assim ficou ainda mais surpreendida. Ela então voltaria a pedir novo prazo para dizer o sim, com certeza. Porém, o rapaz teria outra novidade para Adélia e, conseqüentemente, para Ângela que parou mesmo em frente ao rapaz, com as mãos para trás o olhando fixo.

--- Você tem algo a fazer domingo? - indagou Honório.

--- Lá vem bomba! – repreendeu Ângela sorrindo.

--- De interessante, não! – respondeu Adélia preocupada com a pergunta. E nem teve tempo de indagar o por quê.

--- Bem. Domingo, de manhã, coisa de cinco horas, vai sair do Porto um Catamarã. Um barco. Ele está aqui no Porto. Depois de amanhã, domingo, ele sai a passeio pelas redondezas. – explicou o rapaz.

--- Cata o que? – estranhou Adélia para o sorriso de Ângela que estava atenta ao assunto. E de barco ela não entendia patavinas.

--- Catamarã. É um barco. Leva cem pessoas fora a tripulação. – respondeu o rapaz.

--- Você está querendo dizer que nós vamos? – perguntou Adélia com espanto.

--- É. Se vocês quiserem. – respondeu o rapaz.

--- Diga que sim, sinhá besta. Porque eu já digo sim. – falou Ângela com vaidade intrometendo-se no assunto.

--- E esse negócio de nome feio não afunda? – perguntou Adélia cismada.

--- Ah. Afunda. Afunda. Garanto que afunda! Quer ir? – perguntou o homem a sorrir.

--- Nossa! A gente morrer afogada. Nunca! – respondeu a moça sorrindo.

--- As senhas estão comigo. Vocês levem roupa de banho, se quiserem tomar banho. No

Catamarã tem banho quente e frio. E se pode tomar banho de mar, rio, ilha, cachoeira e o que mais tiver por onde ele for. Vamos? – perguntou solene o rapaz.

--- Eu vou. Se ela quiser ir, que vá. Eu vou. – respondeu a moça Ângela abraçando mais uma vez o rapaz.

--- Está bem. Eu. ... Nós iremos! – concluiu a moça Adélia.

Os três amigos como se fossem namorados, conversaram por longo período de tempo. De quando em vez a mãe das duas moças aproxima-se até o portão para cumprimentar Honório, servir-lhe um café, chamá-lo a entrar entre outras mesmices. De uma vez a moça mais nova que Adélia chamou a sua mãe e lhe contou a novidade.

--- Ele convidou a gente para passear de barco, mãe. –falou Ângela.

--- Foi? Quando? – perguntou a mulher, dona Almira.

--- Domingo, senhora. Elas devem estar acordadas logo às duas horas da manhã porque eu venho buscá-las no máximo nesse horário. O barco saia às cinco horas. E quem for deve estar no barco às quatro horas. Daqui para o Porto é uma boa distância. Eu já venho de carro para evitar contratempo. – explicou Honório.

--- Faz bem. Nós estamos sempre dando trabalho ao senhor. – comentou a mulher meio sem graça.

--- Não seja por isso. Eu as convidei. O dever é meu. – sorriu o rapaz.

E a conversa não demorou muito, porque já chegavam às dez horas da noite e Honório tinha que sair para não levantar suspeitas de sua mãe e da menina, Damiana que, com certeza já estava inquieta procurando saber a que horas o rapaz costumava chegar. Pelo menos era isso que Honório pensava. E podia nem estar pensando em tal coisa. De um modo ou de outro, ele teria de arranjar um jeito para explicar a sua mãe de que fora aquele carro e, por certo, que também faria uma viagem no final de semana com o propósito de aquietar a mocinha, pois não dizer coisa alguma era bem pior. Ele sempre saía de casa no final de semana para algum local e continuamente tinha uma desculpa a dar a sua mãe. Desta vez, o que Honório estaria a dizer era de ir a alguma capital o local mais distante para consultar alguns clientes cujas mercadorias chegariam à semana seguinte ou outra do mesmo aspecto.

--- Vou a trabalho, minha mãe. Estou com um carro para poder me locomover mais depressa, pois são inúmeros consumidores a que tenho de visitar. Pelo menos lhe dar satisfação porque a encomenda atrasa demais. – comentou Honório tão logo chegou com o novo carro.

--- Está bem meu filho. Deus te acompanhe. – profetizou a sua mãe.

--- E a garota? Você vai passando bem? – perguntou o rapaz a Damiana, sorrindo.

--- Sim. O senhor vai embora? – indagou a mocinha disfarçando sua curiosidade.

--- Viagem de trabalho. Só isso. – respondeu o rapaz a sorrir.