quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 43 -

- Deborah Kerr -
- 43 -

Nada mais havia de singular naquela alcova adornada pelos candelabros quase acessos pelo brilho de âmbar dolente. Um criado-mudo era encimado por uma estatueta de Buda. Brilhos reluzentes por todos os recantos. O leito era feito de ferro polido de cor de ouro com peças também de ferro em cor de ouro. Os colchões eram completados de um esmero incomum. Eram dois os colchões para dar mais suavidade aos encontros de puro amor. O jovem Honório apreciava ao redor para perceber algo de novo. Nada havia enfim. Um tocador enfeitava o ambiente onde as damas da tarde ou da noite teciam seus arranjos ornamentais. Um armário embutido era tudo o que havia para enfeitar o cômodo. A dama da tarde apenas apreciava Honório que nem sabia o nome. Um telefone próximo a cabeceira da cama era tudo de mais moderno a existir. Se Honório quisesse, faria ligação a distancia de plena alcova de cetim. Isso deu a idéia do homem falar com a sua esposa, a contar onde deveria estar. Porém não faria tal audácia de qualquer jeito.

Honório sentado no leito tinha em seu dorso a linda e extasiante mulher a afagar com as suas mãos os cabelos do jovem homem, de joelhos como estava e acostumada com os devaneios dos Diomedes da vida. Honório, quase a cochilar, apenas dizia como se sentia tão meigo com aquele afago. A mulher sorriu compreensiva. Carmen sabia muito bem, apesar de sua pouca e tenra idade, os afagos dos homens quando caíam em suas almofadas feitas de veludo. Ela era o termômetro a enxergar o mais intimo segredo do ser amado e mesmo que não fosse amado ou amante. Seu divinal corpo deixava apaixonado a qualquer homem ou rapaz. Ela não dava a menor importância para esse fato. Queria Carmen afagar o cansado mártir de outras mãos já mesmo tão cansada em afagar carinho.

--- Teu nome? Não precisa dizer a verdade. Só um nome. – falou Honório.

--- Carmen, querido. Eu sou Carmen. – sorriu a mulher dona da tarde.

--- Belo nome. Se não for esse, bem poderia ser. – argumentou o homem com a cabeça baixa por força das mãos da mulher.

--- Mas eu sou Carmen. – sorriu a dama da tarde.

--- Que você faz além de estar aqui? – perguntou Honório meio sem jeito de saber.

--- Nos dias comuns, eu levo a vida somente a pintar. Aquarelas. Reproduzir pinturas clássicas. – respondeu a mulher sem querer fazer algo do que dizia ao homem.

--- Você pinta mesmo? Reproduz telas? – indagou alarmado e se virando inteiro para Carmen o que ela de acabara de dizer.

-- É isso. Esses quadros são meus. – sorriu a meiga dama da tarde.

--- Incrível! Não tem quem diga que não é original! – teceu eufórico de entusiasmo o homem.

A moça sorriu de encanto com as bravuras do homem que nem sequer o conhecia. Para não dizer que não ouvira falar da “Botija”, isso era fora até a galeria apreciar os quadros à mostra. Porém, ela desconhecia Honório e foi então que indagou.

--- Você conhece “A BOTIJA”. – perguntou Carmen sorrindo.

--- Não me vá dizer que tem quadro seu na Botija! – precaveu-se Honório assustado.

--- Não. Não tem! Você conhece? – indagou Carmen já sentando bem ao lado do rapaz, muito embora toda nua.

--- A BOTIJA? Eu sou o dono! – alegrou-se de vez Honório cheio de entusiasmo.

--- Serio? – investigou Carmen temerosa.

--- Mas é claro. Eu negocio com peças raras. Xícaras de porcelana, pratos, pianos e mesmo quadros como esses que diz você que faz. – sorriu Honório de prazer.

--- Eu faço. E tenho melhores que esses que tem aqui. Dali, Monet, outros, sem falar nas aquarelas de minha autoria. – sorriu a moça.

--- Menino! Onde fui amarrar minha burra! – sorriu Honório ao se referir aos quadros.

--- Como? – indagou a moça dama da tarde ao ouvir tal citação que não entendeu.

--- Nada não. Você quer mostrar seus quadros? – perguntou Honório entusiasmado.

--- Quem sabe. Eu estou expondo em uma galeria de outro Estado. – sorriu a dama.

--- Ora, ora! De outro Estado! E no meu Estado nem se fala? – indagou o homem com bastante decepção.

--- Não é isso querido. Foi um convite feito por um marchant. – argumentou a dama.

--- Eu logo percebi que tinha um corno no meio. – sorriu Honório decepcionado.

--- Não bem assim. E mas o coitado é homossexual. Ele me formulou o convite e eu aceitei. Pronto. Foi assim. – relatou a dama a sorrir.

--- Eu sei. Eu sei. O corno sou eu então. – respondeu Honório entristecido.

--- Mas podemos fazer um acordo. Eu apareço em seu escritório para nós conversar. - -sorriu a dama da tarde.

--- Apareça! Apareça! Leve os quadros. Qualquer um. Nus são melhores. Eu até mesmo posso comprar dependendo do valor monetário. – sorriu o homem se aconchegado as pernas da doce mulher.

Aconchegado ao colo amado, Honório sentiu o imenso e terno carinho que naquele momento lhe faltava tanto. Naquele imenso amor ele estaria prestes a dormir com as mãos da dama da tarde a lhe afagar os cabelos da sua cabeça. Nobres sentimentos os quais lhe faltavam desde o tempo de menino quando a sua mãe lhe afagava os negros, longos e belos cabelos que lhe encimava a sublime e afetuosa testa. No instante como esse, ele adormeceu cansado. Porém passado o tempo Honório despertou assombrado com o toque do telefone da alcova.

--- Quem era? – ele indagou a dama completamente assustado.

--- A tua companheira está no bar. – sorriu Carmen ao dizer tal fato.

--- Porras! E agora? – indagou o homem sobressaltado.

--- Você agora vai sair por esta porta que lhe leva a entrada do cassino. – respondeu a mulher docemente e cheia de encantos.

--- Por aqui mesmo? – perguntou o homem um tanto cismado em encontra sua amada Luiza.

--- Sim – sorriu Carmen se ajeitando para se levantar de vez da cama e procurar um hobe decente para vestir.

O homem saiu quase que desabalado do quarto onde estava para entrar no cassino. Ele saiu mesmo pela cozinha do cassino e entrou em lugar soberbo, cheio de jogos os mais diversos. Então se sentiu seguro não precisando mais ficar assustado como ocorreu nos momentos passados. O cassino era um verdadeiro paraíso onde quase todos os clientes jogavam nas roletas, no bacará, nas apostas e em tudo mais que pudesse se pensar. Em um cartaz bem amplo tinha o nome gravado – CASSINO – com luzes em pisca-pisca. Por trás da palavra existia uma roleta de jogos. Pessoas se aglomeravam em torno desse cassino. Outros apostavam na sorte a qual dificilmente acontecia. Mesas de jogos havia por todo o recinto do local de apostas. Jogos de dama eram tão comuns como as maquinas existentes do lugar. Tudo era luxo no local das apostas onde as damas da tarde e da noite viviam com lentidão acolhendo os seus parceiros para uma partida mais ousada.

Aquele conforto dos homens e mulheres não fazia a vez de Honório, pois sabia muito bem que por trás de tudo aquilo havia quem gerisse a maquina. Para o rapaz, ver as sisudas caras dos homens e das mulheres a jogar já lhe bastava demais. Por isso, o rapaz rodou por todos os locais do cassino vendo em cada olhar a vertiginosa roleta a correr para dar o numero da sorte ou mesmo os jogos de dados para se tentar adivinhar a combinação para marcar pontos. Naquele dia, dezenas de jogadores tentavam a sorte. Quando alguém tinha a melhor sorte, de repente se ouvia o gritar:

--- Ganhei! – gritava alguém no meio do salão do Cassino.

Era assim a vida dos viciados em jogos. Com pouco mais de tempo ele saiu do Cassino para o lado de fora onde encontrou a sua amada Luiza e ela nem desconfiou do modo do rapaz em dizer que estava no Cassino do motel onde tudo eram esmero e qualidade. Os dois saíram, abraçados, ao longo da praia para o encanto de primavera onde todos podiam estar. Um rapaz se aproximou do casal para dizer:

--- Por favor, dispam-se, pois aqui é praia de nudismo. – falou com gentileza o moço.

Honório olhou para Luiza e sorriu. Em um só tempo os dois se perguntaram.

--- Vai tirar? – e caíram na gargalhada.

Com a aproximação do fim da tarde os dois preferiram regressar para a sua aconchegante Alcova até que se fizesse à hora do jantar. E seria a qualquer hora da noite.

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 42 -

- Ana Alvarez -
- 42

A praia ficava a poucos metros do motel, construído a beira mar. Honório e Luiza descobriram há tempo, ainda no sábado pela manhã. O local era amplo por demais. Seus ocupantes eram todos homens de negócio. O mar batia nas pedras e ressoava para dentro da praia. Não havia ninguém para observar os freqüentadores da praia. Muros altos, muito altos, e alguns pescadores se atreviam em içar a vara de pescada mais para longe daquele local. Havia praia, sim. Isso havia. Porém, a despeito da imprensa falar que era uma praia de nudismo, porque era mesmo, os ocupantes dos chalés não tinham que ligar as ameaças vindas pelos jornais. A Prefeitura, essa não dava a menor importância. O proprietário do motel sempre alegava que ali era uma praia de nudismo. As mulheres corriam para o mar completamente despido, igual aos homens. Havia guardas por toda a redondeza para evitar a ação inconseqüente de alguém ou de um penetra em tirar fotos para negociar com a vítima dessas pilantragens. Algo semelhante já havia sido tomado por uns penetras. Eles, sorrateiros, colheram fotos de homens de negócio completamente despidos e depois quiseram fazer a chantagem de “paga ou divulgo”. Esse era um negocio promissor para os paparazzi. Havia sempre alguém por detrás de um monte a espera de um fulano de alta categoria e a lhe tirar a foto, talvez pelo menos para divulgar em revista de escândalos. Valia muito mais para as matérias a mulher totalmente despida e uma boa angulação que o paparazzo fizesse. Tais fotos eram comuns de se ver. Mesmo assim, os homens de negócios, empresários com suas barrigas ao sol, doutores, e mais e mais já não ligavam muito para o fato. Os homens estavam sempre completamente bêbados e se houvesse uma reclamação por parte da família o negocio era então o divórcio, caso houvesse ou o desquite, se não houvesse divórcio. Era costume se conseguir fotos de homens e suas acompanhantes que fossem estrangeiros. Havia certa temeridade por conta disso, pois o fato envolvia muita soma em dinheiro, principalmente para os marajás. Para as mulheres, nem tanto. Nesse caso a foto era apenas uma foto. Por tal motivo tal ocorrência não mexia muito com Luiza de Campos. E Honório, sempre temeroso, costumava ir ao banho de mar procurando as sombras dos pés de ciprestes. Ao descobrir o mar com suas ondas límpidas atraentes e calmas devido aos quebra-mares que se antecipavam Honório, a certa altura do dia, não teria maior prazer e ousadia, a não ser ver as mulheres encantadoras que ali também estavam. Os homens de negócios, barrigudos antes de tudo, corriam feitos crianças nos pegas as suas mulheres, todo mundo efetivamente desnudado. De inicio, Honório ficou temeroso com aquela astucia dos mulherengos algozes da vida. Mesmo assim, ao sentir-se a vontade vendo Luiza totalmente desnudada correu como lebre para ter encontros de amor e sedução com sua acompanhante. O jogo do seu Clube, já não era mais importante. O negócio naquele instante era apenas vadiar e nada mais.

Quando Honório procurou freqüentar um motel à beira-mar, não pensou em viver climas de aventura com a que estivesse vivendo. Ele buscou um local bucólico onde tudo pudesse se ficar a sombra do total esquecimento. Porém, naquele motel também havia o mar cheio de encantamento e de prazer. Uma ponta de morro havia ao longe e a amplidão do mar era de nostálgica aventura. Luiza sabia bem dessas ocorrências, talvez por ter ficado algum tempo na companhia do seu namorado ou mesmo do seu chefe Jorge Dumaresq. Com efeito, para Luiza era tudo um devaneio viver ao ar livre o que provocava surpresa no seu homem, Honório. Se para um lado tinha morros, para outros tinham ilhas, baías, entradas de mar brando de rara beleza para ele não conhecedor de tais encantos. Honório vivia apenas do trabalho para a Mansão e de quando em quando, uma praia ingênua onde se podiam viver as mil maravilhas da própria vida. Ao se deparar com aquela imensidão de lugar, para ele era de impressionar. No motel havia gente de vários países, pelo que ele pode observar. Luiza, por seu jeito de mulher fascinante conversava com umas e outras amigas feitas naquela ocasião. Quando Honório chegou da praia e entrou em um amplo cassino, ele se cobriu por inteiro com vestes do próprio motel, como toalha e calção de banho. Ele passou a observar, com Luiza, o jogo que se fazia naquele local. Havia mulheres que estavam no local do jogo por longas horas. O rapaz pode notar bem isso pelo rosto alquebrado dessas mulheres, perdendo e ganhando as partidas de bacará. Mesmo assim, Honório não se meteu na partida, levando a sua amante até a alcova onde ele por completo se refez com um magnífico e reconfortante banho de ducha feito a dois para em seguida comer algo da cozinha do motel.

--- Menina! Eu não sabia que havia tudo isso em nossa cidade! – reclamou Honório.

--- Para você vê. Tem cada um mais atraente que outros. – respondeu Luiza a sorrir.

--- Como você sabe dessas coisas? – indagou Honório surpreso com a mulher.

--- Conversando, oras! – sorriu Luiza ao se enxugar.

--- Conversando! – observou o homem desconfiado.

--- É. Conversando. – sorriu a dama.

--- Mas você já esteve nesse local? – averiguou Honório com pouco de ciúmes.

--- Nesse, não. Fui a outros bem mais atraentes. – respondeu Luiza sorrindo.

--- E como não me disse? – indagou Honório com um pouco de ciúmes.

--- Você não me perguntou. Eu fiz a minha parte. – sorriu Luiza.

Foi então que Honório começou a julgar a moça que o acompanhava de forma bem mais sutil e condescendente. Para ele, Luiza de Campos era uma moça não mais virgem e vulgar, porém que não fazia programas com qualquer um. Teria ela os seus costumeiros amantes. E Honório lembrou de repente do soarê que ela vestiu na noite da sexta-feira. Roupa enobrecida a qual nem todas as moças e mulheres teriam o direito de possuí-la. Era um caso a pensar, se por efeito ele tivesse a intenção de se amasiar com a sensual e glamorosa mulher a qualquer dia e tempo. Ele sabia de um caso até então insolúvel da morte por suicídio do jovem que ela era a namorada. Mesmo assim, foi um caso. E nesse ponto, ele não merecia perguntar algo a respeito até porque foi um episódio já há muito deveras esquecido. Mesmo assim, e se não tivesse sido algo normal, Honório atribuía o poder de encanto que a meiga jovem garota trazia consigo para atrair alguém igual à serpente fazia para cercar a sua preza. Esse pensar foi de momento e Honório logo esqueceu. Contudo teria a passagem onde a augusta moça lhe disse que conhecia outros locais bem mais suntuosos e diferentes do local onde se hospedara. “Eu fiz a minha parte”, era o que Luiza havia pronunciado. Nesse ponto, Honório se inquietou.

Pouco mais tarde, Honório foi ao bar do motel onde servia bebidas. Ele só queria apenas conversar com alguém que estivesse assim tão amargurado. A moça, Luiza, nesse momento, dormia tranqüila em sua alcova, exausta pelo exercício do banho de mar da manhã. Na carência de uma nova amizade, ele sussurrou ao barman se havia alguém no salão que enfim pudesse conversar. O barman então, perguntou-lhe:

--- Homem ou mulher? – indagou o barman.

--- Tanto faz. Qualquer um. – respondeu Honório com a face inquieta.

--- Espere um instante. – argumentou o barman.

Honório não tinha pressa. Afinal estava confinado em um ambiente até a tarde do domingo. E então, só pensava em que ou como haveria de falar a sua bela mulher. O certo era dizer que pego de surpresa para acompanhar o seu time em uma excursão. Veria ele se com essa conversa haveria de colher um maior conhecimento de Ângela, em sua inocência de mulher. Seria tentar para ver se dava certo. Ele estava de cabeça abaixada quando o barman chegou e lhe disse em voz baixa.

--- Alcova 12 – e piscou o olho. O homem sorriu e se afastou para outro local.

De imediato, Honório se afastou para a alcova dita pelo barman e ao chegar ao número 12, a porta estava aberta, porém encostada. O homem se aproximou e bateu de leve na porta. Abriu e deparou com uma mulher linderrima demais. Talvez tivesse uns vinte anos. Ele ficou suspenso de tanta formosura encontrada toda despida, enrolada apenas com uma toalha de banho. Seria uma visão, pensaria o homem ao se defrontar com a ninfa de alcova. Ele observou bem. Podia ser um homem em trajes de mulher. A alcova era suntuosa. Quadros de Rafael e de Renoir espalhados pelas paredes da alcova. Um espelho gigante denunciava a sua presença. Cristais por todo o recanto. E uma penteadeira de valor inestimável. Tudo era plenamente rico naquela alcova. Tapetes de veludo, toalhas penduradas nos cabides, luz amena em plena tarde. Honório sentiu-se em outro mundo. Uma vitrola tocada um tango muito suave e lento, quase imperceptível.

--- Boa tarde. Entre amor. – falou a mulher de forma divinal e meiga.

--- Você é fêmea? – indagou Honório um tanto desconfiado.

--- E por que não? – sorriu a mulher abrindo a coberta que lhe envolvia e fechando em seguida.

--- Eu estou para conversar. Sinto-me um prisioneiro da sorte. Eu tenho uma parceira que nesse momento dorme. Todos quase dormem. Alguns estão à beira-mar. Poucos. Mulheres divinas. Cada qual com o seu companheiro. E eu estou sozinho neste oceano de luz e de largos sorrisos como o teu. – proferiu Honório numa conquista invulgar.

A dama da tarde sorriu e abraçou o homem querendo chamá-lo a deitar em um leito coberto por toalhados macios e quentes pela forma como eram depositados.

--- Sente-se. Converse! Fale o que sente! – recitou a dama da tarde.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 41 -

- Claudia Galanti -
- 41 -
O convite para a apresentação da Orquestra Filarmônica, tenor, soprano e grupo de bailarinos era para a noite de sexta-feira. Honório nem disse a sua dileta esposa para não poder criar constrangimento. Os dois bilhetes deveriam ser para ele e a esposa. E não podendo levar sua mulher, ele resolveu partir com a sua secretaria particular, Luiza de Campos. A jovem ficou feliz em poder assistir a tal apresentação, mesmo não gostando da erudição das peças, pois achava uma melodia antipática. Mesmo assim, tinha a companhia de Honório e isso era o suficiente. Na noite da sexta-feira, Luiza estava por demais elegantes em seu esmerado soarê de fino trato. Para tanto teve que voltar a sua casa, arrumar-se com esmero e após o banho um pouco de perfume de Água de Toalete antes de por as vestes. O seu deleite preferido era o de estar bem vestida de acordo consigo mesma, sem artificialismo. O carro fora de casa era o de Honório. O rapaz foi buscar a enigmática e estonteante moça para sentir o esmero dos detalhes por ela escolhidos. Não foi sem susto que ele observou a chegada de Luiza ao seu veículo, vestindo um indumento de cor escura, pois era dessa forma a sua veste reluzente encantando as mais extasiantes das senhoras e senhoritas que estariam pelo teatro àquela noite de graça e esplendor.

--- A cada vez você está mais esplendorosa de todas as mulheres que eu já conheci! – falou excitado o rapaz a cada movimento de Luiza.

A moça sorriu e disse apenas:

-- Vamos! – sorriu ainda mais Luiza.

O programa de concertos e de balé era verdadeiramente impressionante. Apesar da moça não admirar tal arte, ele agradou aos presentes ao Teatro Municipal naquela noite de verão. Um espetáculo sublime onde apenas os entusiastas da música erudita podiam solfejar algumas partes das notas as quais impingiam a virtuosa Orquestra conduzida por um bravo maestro cheio de pompa e de orgulho. Ao final da apresentação, maestro, orquestra, tenor, soprano e o corpo de balé se apresentaram a agradecer a ovação do público, o qual não parava de assobiar e bater palmas acompanhadas pelos:

--- Bravo!!! Bravo!!! Bravo!!! – fazia o público em delírio marcante.

O doce encanto de Luiza não deixou por menos. Honório, extasiante de anseios, voltou o seu veiculo na tumultuada saída do Teatro e seguiu para o mais luxuoso motel de sua cidade. No local, admirando a esplêndida dona daquele corpo despido o homem se deslumbrou no mais eterno amor sob as ondas do mar bravio, ao lado de fora e, bem mais distante a arrebentar as muralhas inóspitas do majestoso e atroz oceano bravio do prazer. Após tantas horas de prazer, o homem adormeceu solitário. A mulher, acordada, olhou indiferente aquele corpo nu e inerte igual um cachalote a dormitar lento e preguiçoso. O homem sonhou que estava em frente a um bazar muito amplo, coisa de vinte metros. Ele então perguntava a um homem a que horas começava o show e o homem parecendo seu parente dizia:

--- Está tarde! – dizia o homem no sonho.



Quando Honório despertou do seu sono profundo, ele olhou em volta e viu o corpo despido de Luiza, amplamente sensual, dormindo com um anjo. De momento, Honório esfregou os olhos e, depois, olhou as horas no seu relógio de pulso. Ele olhou e não deu a menor importância. Porém, a olhar bem depressa novamente viu que eram mais de seis e meia da manhã. O homem se levantou apressado, acordando Luiza no mesmo leito em que estava ao dizer:

--- Acorda! Acorda! Já chegam às sete horas da manhã! – gritou Honório para a moça.

Ela dormia como nunca e nem se deu por conta. Honório saiu depressa para o banheiro, temendo o que havia de dizer a Ângela, pos aquela era a primeira noite como casado que o homem passava fora de casa. Ocupou o sanitário, depois lavou o rosto e escovou os dentes e de quando em quando olhava para a cama ao lado a chamar pelo nome da moça a qual dormia sossegada:

--- Luiza! Luiza! Acorda!. - dizia o homem com a pressa que nunca teve na vida.

E então comentava as mil e umas desculpas para dizer em casa quando ele tivesse que voltar naquela hora incerta da manhã de sábado. E ele viu Luiza novamente a dormir enquanto a sua situação era desesperadora por demais.

--- Que diabos eu vou dizer a Ângela! – lamentava Honório se enxugando do banho quente que acabara de tomar. Em certos momentos, ele chamava por “meu Deus” e em outros rogava uma praga por ter dormido a noite toda, ou parte da noite. A madrugada.

Em seguida, ao voltar ao quarto, encontrou Luiza ainda a dormir e não se conteve. Ele arrastou a moça do leito e fez cair no chão. Com o impacto, Luiza acordou meio sonâmbula, ficando sentada inteiramente despida, a olhar para Honório e indagar.

--- Está louco! Não vês que ainda estou dormindo? Ora merda! E estou inteiramente nua. Porras! – gritou a moça para Honório atarefado em se vestir com toda pressa.

--- Te veste! Te veste! Vamos embora! Está na hora! – falou o Homem apressado enquanto se vestia a qualquer preço apanhando uma camisa que estava em cima da cama.

--- Tá na hora o que? – disse Luiza enquanto se levantava do chão e caminhava para o banheiro

--- Vamos! Que diabos! O que vou dizer a Ângela? – indagava cismado Honório com toda a pressa do mundo.

Luiza, no sanitário, com as mãos no queixo esperava o tempo de urinar quase que a dormir em pleno dia. Ela olhou as paredes como se nunca tivesse visto. Era um encanto aquele sanitário, aquele banheiro. Os adornos existentes. Luiza olhava tudo ao seu redor. Era como se estivesse ainda a dormir. De fora, ouviu o grito de Honório:

--- Embora porras!!!! – gritou o seu amante das horas incertas.

--- Espera amor. Vou tomar banho! – respondeu Luiza apaziguando a fera.

--- Que banho que nada! Que diabos! Ângela me perdoe! – lamentava o homem a todo custo.

Quando saíra do banho Luiza indagou a Honório se estava aterrorizado por não ter o que dizer em casa, quando chegasse. Luiza comentou que ele podia ter viajado com o time, em cima da hora e não tido tempo de ligar avisando do tal imprevisto. Uma conversa amena e que Ângela não tinha mais o que dizer. Ademais, ele não voltaria para casa – a sua Mansão – naquele dia para dar mais ênfase à conversa.

--- Boa desculpa. Até por que o time está em excursão pela região. Mas você acha que ela acredita? – indagou Honório meio surpreso.

--- Acredite ou não esta é a sua versão para este destemperado sábado. E agora vou dormir. – respondeu Luiza se projetando na cama novamente.

--- Dormir uma porra! Vamos embora! – gritou o homem ainda nervoso com seu atraso.

--- Sossegue. Tenha calma. Você tem até segunda-feira para vadiar. Vamos dormir mais um pouco. Sossegue amor meu. – falou tranqüila a moça ao homem.

--- Isso é uma porra! E não tenho nem roupa para mudar. – argumentou o homem.

--- Sossegue. É só você pedir para que eles providenciem um par de roupas novas para você. O motel tem essas coisas. – sorriu a moça.

O homem cismou para poder chegar à conclusão de que a moça estava bem informada sobre motéis, paletó, calças e camisas. O tempo passava e Honório se inquietava. Ligaria para o presidente do clube Lagunas procurando saber onde estaria chegando naquele dia o time de futebol. Porém, o presidente Ernani Ganso Frito tinha viajado com a equipe por esses dias, foi o que se informou de sua casa. Ele fez outra ligação. Esta deu certo. Maneco comentarista foi quem atendeu. Honório pediu para ele informar por mais de uma vez que o time seguira e em sua delegação fora também o diretor de esportes, Honório Dumaresq, pego em cima da hora. Maneco concordou com essa historia. Ao perguntar onde Honório estava esse disse que em lugar incerto e não sabido. Mas o amigo Maneco devia dizer que ele viajara com a delegação.

--- Está bem. Eu dou a notícia. – respondeu Maneco.

--- Isso! Isso! Isso! Obrigado! Eu te dou o cheiro na barriga! – sorriu Honório pelo telefone.

--- Está bem. Agora, o time só vai viajar hoje à tarde! – sorriu Maneco.

--- Puta Merda! Agora deu zebra! – reclamou Honório desesperado.

--- Estou brincando. O time foi ontem à noite. Sossegue. Um beijo na mulher que está ao seu lado. – sorriu Maneco em plena gargalhada.

--- Sacana! Você é mesmo sacana! – reclamou Honório a Maneco.

E os dois namorados passaram o restante da tarde do dia no motel. Cerveja, vinhos lagosta, camarões e tantas coisas mais eles teriam para agradar a sua fome de seduzir e amar. Somente no domingo à noite, eles deixaram o quarto de motel, pois a segunda-feira era o dia de fazer negócios no escritório e no atelier.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 40 -

- Vivien Leigh -
- 40 -
Atarefada com a demissão de Cléia Alves, pois estava a redigir um rascunho para que Honório apreciasse, Luiza se voltou para a sua nova indicada Nora Velásquez e verificou as perguntas e respostas que estavam feitas ou por fazer. Quando chegou a do Estado Civil, Luiza mostrou aquilo que era mais indicado: solteira. E explicou: se ela não era casada de fato, na verdade era solteira, pois o homem com quem vivia maritalmente aparecia uma vez ou outra e ainda ele era casado com outra mulher. E disse mais:

--- Deixa aquele verme. Tu és solteira. Ou então mande que ele se separe de vez. E se quiser é assim. – falou Luiza muito altiva.

--- Mas eu gosto dele! – choramingou a moça.

--- Gosta nada. Você gosta é de você. Ele que se dane. – fomentou Luiza meio com raiva.

--- Tá bom. Já sei! – falou Nora tomando a decisão mais acertada.

Tendo feita a cópia do pedido de demissão de Cléia Alves, sem tanta pressa Luiza fez a entrega do rascunho para Honório conferir. E então esperou a resposta. Enquanto isso Nora estava sentada em uma cadeira no escritório de reunião esperando a vez para ser atendida. Após ter lido o rascunho, Honório disse a sua secretaria especial.

--- É isso mesmo. Bata o definitivo. Falou o homem e se virou de imediato para Nora a pedir o que ele entregara.

A moça fez a entrega do documento e esperou resposta. Ela já estava acostumada com esse tipo de negócio, uma vez que foi proprietária de um antiquário. Desse modo já estava ciente de qual decisão seria tomada pelo homem de negócios. Quando Honório falou:

---Está admitida. Agora espere para que a outra saia de seu lugar. Parabéns! – falou o homem.

A moça sentiu um alívio. Para quem foi empregadora, era até de pensar como se sentia nesse momento como funcionária. Mesmo assim, era um cargo de tal importância cuja admissão valeria esperar por algum tempo.

Em seguida, Luiza de Campos fez entrega às mãos de Cléia Alves a sua exoneração do cargo de gerente. A funcionária foi pega de surpresa e incontinente falou:

--- Que merda é essa? Você pensa que está falando com quem? – indagou irritadíssima a moça

--- Eu apenas entrego o que me foi dado. Alguma reclamação é com o seu chefe. – respondeu Luiza sem atrevimento e clama.

--- Ele vai ver quem sou eu! – mostrou-se desnorteada a funcionaria da Butique e partiu em frente para falar com Honório Dumaresq.

Em lá chegando, empurrou a porta com força quase atingindo a funcionária novata e foi logo dizendo por cima de pau e pedra.

--- Quem o senhor está pensando quem é? O senhor é um merda! – gritou estabanada a moça.

Honório ouviu aquela afronta de forma acadêmica e falou apenas o que havia para dizer:

--- A senhora está demitida! – falou baixo e com voz ativa para a moça ouvir.

--- O senhor pensa que me demite? – indagou a moça de forma impetuosa.

--- Já assinei a demissão. Miguel! (chamando o porteiro). Retire essa moça de meu escritório! Ordenou a Miguel levar a moça para fora da sala.

Foram gritos terríveis de Cléia Alves proferindo nomes indecorosos que nem a mais estrema e vulgar meretriz tinha a coragem em falar. Miguel segurou Cléia pelo braço enquanto essa se debatia arrogante, descompondo o patrão de a moça Luiza que já vinha chegando do andar de baixo e olhou totalmente aturdida os desaforos de Cléia. O vermelho de sua cor passou a ser desbotado. Gritos histéricos eram ouvidos por toda a rua com pessoas ao passar ficando a olhar o que estava a acontecer naquele prédio. “Por sua vez, Luiza, de forma delicada fez com a mão como quem diz – “Vá embora. Sai daqui. “Terminou o seu reinado” - Cléia não se conformou e partiu para cima de Luiza apesar de está segura pelas mãos de Miguel. Chutes e ponta-pé eram dados a torto e a direita. Luiza se protegeu por trás de uma mesinha enquanto Cléia esbofeteava o vento e cuspia para ver se atingia a moça em seu rosto.

--- Você me paga “rameira”. – gritava Cléia a sua rival.

Luiza se defendia com um sorriso na face. A mulher foi arrastada para baixo do prédio onde ainda ficou esbravejando as mais céleres frases de ameaças. O povo, fora, observava a cena. Cada um que dissesse:

--- Que foi isso? – perguntou alguém.

--- Sei lá! – dizia outro suspendendo os ombros.

--- Briga de mulher da vida! – argumentava outro.

--- Arrocha! – proferia um homem a sorrir.

Quando a calma reinou no ambiente, Luiza entrou no escritório de Honório, meio assombrada ainda com uns papéis na mão. Os papeis eram ingressos para o teatro que um rapaz deixou às mãos de Luiza de Campos. A moça nem teve tempo em olhar, pois a sua atenção era somente para a gritaria que estava ouvindo do escritório de cima da Sala de Artes “A Botija”. Luiza entregou os ingressos a Honório e ainda teve tempo de falar:

--- Que confusão! – respondeu a moça para o seu chefe.

--- Ela agora vai embora mesmo! – replicou Honório se ajeitando para poder começar os despachos dos documentos que estavam em cima de sua mesa.

Na rua, o povo ainda procurava saber o que houve de tão esquisito. A moça, Cléia Alves, se recompôs e arrumou os seus eventos ainda espalhados por sobre o birô e de arrancada saiu da Sala de Artes ainda assim descompondo uns e outros:

--- Que é? Nunca me viu não? – indagava esbaforida Cléia ao povo que começou a vaiar.

Os ingressos que foram entregues na portaria e então recebidos por Luiza de Campos eram para a apresentação da Orquestra Filarmônica acompanhada por um tenor e uma soprano tendo ainda a participação de um grupo de balé. O rapaz fez a entrega de dois convites oficiais, bem comum para governantes, autoridades e convidados especiais. Outros ingressos eram vendidos na portaria do Teatro Municipal. No entanto, os afazeres da empresa tiraram de vista de Honório os ingressos doados para uma apresentação de gala. Na hora ele recomendou que Luiza batesse o contrato da nova gerente, Nora Velásquez, pois assumiria de imediato a sua função em gerir o atelier. Após esse assunto, Honório disse ter de sair para o Porto, pois já estava tarde para ver os despachos atrasados. E assim ele fez. No Porto, um navio estava encalhado com sua proa enfiada no cais, por um retardo de marcha. O navio já estava daquele jeito desde cedo da manhã quando a maré encheu, pois o Porto ficava em um rio. Quando entrava, as águas do mar favoreciam a atracagem. Quando não havia maré alta ou enchente, os navios ficavam a esperar ou no meio do rio ou em mar aberto. Com o impacto do navio no cais, houve uma quebra de trocos de madeiras, tarugos e pedaços de cimento onde havia a possibilidade do navio atracar. Todo o Porto estava paralisado por conta do acidente, pois o impacto foi violento e todos os dispositivos foram empregados para retirar o cargueiro, onde havia boa quantidade de peças de madeira para deixar do Porto. O caso devia durar o dia todo, pois dentro de momentos haveria nova baixa das águas e assim o trabalho de desencalhe seria suspenso. Os homens do Porto, todos sujos de graxa e suor era um vai e vem de modo terrível procurando ajudar o pessoal de embarque de dois barcos rebocadores lutando para arrastar o navio do trapiche onde estava encalhado com a popa para o interior do rio. Honório juntou-se a outros despachantes, tendo ficado a olhar o manuseio da embarcação.

--- É danado! Mais um dia perdido! – gesticulava um dos despachantes.

--- É isso mesmo. Pior é para o prático que fez esse acidente. – destacou outro.

--- É bem pior mesmo. – emendou Honório com a cabeça latejando de dor pela raiva que teve da moça Cléia ainda horas antes.

Um rapaz que estava manuseando o rebocador para tirar o navio do Porto gritou bem alto:

--- Agora! Agora! Dessa vez a gente arrasta essa embarcação!!! – gritou o rapaz.

Os rebocadores, uma para a esquerda e outro para a direita, fizeram a manobra de uma vez e puseram o navio ao desencalhe liberando o cais. O navio bateu com a quilha em cima do cais, criando vários problemas para outros navios e o mesmo atracarem de vez. A luta dos barcos rebocadores pelo desencalhe do gigante dos mares demorou cerca de três horas. Adernando para um lado, o colosso de nau demorou a se livrar das amarras e retornar a posição original.

--- Felizmente. Já não agüentada mais! – declarou um despachante.

--- Que merda! O que foi que deu na cabeça desse prático que abalroou no Porto? - perguntou outro ainda suado do vexame que passou e viu passar a tripulação do imenso barco.

--- Sei lá! Eu vou tomar é café! – respondeu Honório após um longo assobio.

Os homens do cais apressaram em soltar as amarras e deixar o navio flutuar.

domingo, 3 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 39 -

- Catherine Deneuve -
- 39 -
Quando Honório saiu com Luiza, no final da tarde daquele dia, uma sensação estranha lhe tomou o corpo em ânsia de sedução. Ao dobrar a esquina com o seu veículo, ele perguntou a Luiza se teria condições de ir até ao LAMPEJO, um motel de classe presumivelmente alta onde passaria parte da noite, se fosse o seu desejo. A moça olhou para Honório e sorriu franco para lhe despertar efêmeras emoções. O homem entendeu aquilo que a moça despertara, pois só Luiza tinha esse prazer de atormentar tais sentimentos. Não tardou ele em seguir mais que depressa para o motel com Luiza se acomodando em seu ombro abrasador e volúvel de terno aconchego. No motel tinha de tudo. Não precisava nem pedir, pois o serviço de quarto era feito de antemão mesmo antes de ser ocupado. Tudo era um encanto em nada havia de se por defeito. Aquele era um sonho de luz que Luiza jamais tinha visto um dia. O sorriso de santa da moça embriagava em todo o homem apaixonado de encanto. Esbelta, pura, cheia de amor para dar, a moça deixava se esvaziar de um perfume incandescente de mulher amada. No seu canto, no leito, com as mãos para traz postadas sobre a cabeça, Honório olhava a mulher cheia de encantos que o trouxe a pura realidade das ilusões indecentes. A lua branca cheia de fulgor e de encanto pairava no céu pleno de solitário afago para compor a aquarela dos amores. Em derradeiros instantes a cobiça veio queimante pelo que Honório vislumbrava no pleno seio da mulher amada. Foram horas de loucuras e de ternuras de ambos amantes por entre lençóis e cobertas que enfeitavam o ambiente desejado. E o tempo não tinha tempo de provocar de certo a ânsia de afeto nos dois enamorados. No seu peito, Luiza adornava com a lua nova da emoção o apelo da afeição incontida do amado. Aquele jardim de afetos era tão somente a meiguice de humilde teto dos pecadores.

--- Você é a doce candura de afetos. – aludiu Honório ao final do ato de amor.

--- Bobo! (a moça Luiza sorriu) – Agora, eu tenho uma proposta a te fazer? – comentou Luiza a sorrir.

--- Faça! Sou todo ouvido. Diga o que é que você quer! – sorriu Honório.

--- É o seguinte. Veja bem. Eu tenho uma amiga – não bem uma amiga, mas é uma pessoa honesta. – E ela já teve um atelier do moveis antigos. Desistiu da empreitada. Recursos. Eu faço a proposta. Você aceita ou não: Ela, a minha amiga, vem para o lugar de dona Cléia Alves e essa tal gerente você manda para o lugar que era meu. Buscar cartas, bater oficio. Essa coisa. Sim ou não? – perguntou Luiza de Campos sorrindo.

--- Assim é de lascar. Não dá nem para pensar. E tenho que ouvir Ângela. Não consigo dar uma resposta em cima da bucha. – falou exasperado o homem.

--- Está bem. Fale com Ângela. Mas não esqueça de que Cléia quase quebrou a porta. Foi um barulho estrondoso. Você pode alegar que tem a testemunha de Miguel. Ou se não, dê as contas que ela merece. Tenho você aqui, ó! – e apontou para o seu sexo.

--- Você me pegou de jeito. Eu faço isso amanhã. Nem preciso falar com Ângela. Ela vai ficar braba comigo. Mas é o jeito. Quebrar uma porta? Isso é serio! Não tem nem contemplação. – reprovou Honório cheio de raiva.

--- Isso é “sim”? – indagou Luiza com paciência.

--- Traga a moça. Estamos certos! – respondeu o homem cheio de furor.

Já eram mais de 9 horas da noite quando o casal saiu do motel “Lampejo”. Após deixar Luiza em sua casa, Honório rumou para o Hospital do Coração onde foi saber do progresso de saúde do seu velho tio, Jorge Dumaresq.

Eram dez horas da noite quando Honório chegou à mansão de seus pais. Por sinal, Honório não tinha mais o pai. Somente a mãe. No entanto se costumava chamar por tradição de a Mansão dos Dumaresq, pois foram sempre os Dumaresq que ali moraram. O seu tio, Jorge Dumaresq habitava com a sua esposa Anita Colares em outra espécie também de Mansão, uma casa ampla e bem cuidada. Na noite em que passou no Hospital do Coração, dona Anita não estava mais e o Hospital se encontrava fechado permitindo acesso aos familiares dos pacientes de primeira classe. Como o velho Jorge Dumaresq estava a dormir, tendo a companhia de uma enfermeira, Honório pouco sobe a seu respeito, a não ser de que estava bem. Ao chegar a sua Mansão encontrou Ângela desperta e a perguntar:

--- AGORA? – foi o que disse a esposa de Honório assustada.

--- É que eu fui a uma reunião da sede do Clube Lagunas agora à noite. – explicou Honório com a cara mais deslambida do mundo.

---Jura? – indagou a esposa com a cara de quem não acreditava no que ouvira.

--- É verdade. Vou ter que escalar o time para os próximos jogos. – respondeu Honório para não ser molestado ainda mais.

--- E nós? – perguntou Ângela com a tara que sempre teve.

--- Espere. Deixa eu me banhar. Volto logo. E a perna? – indagou Honório cismado.

--- Está aqui. Ela não incomoda. – sorriu Ângela beliscando na coxa o seu marido.

Na manhã seguinte, Honório acordou cedo, tomou café, pão, bolachas, queijo e muitas frutas para logo sair com destino ao Hospital. Ângela ainda dormia. A sua mãe, Do Carmo, estava acordada e disse ao rapaz estar se preparando para ir ao hospital. De qualquer forma, o rapaz não se ateve a promessa de sua mãe e disse que depois veria se podia dar alguma informação ao caso de Dumaresq. E assim fez. E assim foi. Quando Honório chegou ao Hospital encontrou todos os servidores fazendo limpeza geral nos quartos e corredores. Entre uma lagoa e outra, Honório foi pulando até chegar à suíte de Dumaresq. O pessoal da limpeza também estava no local, varrendo e espanando o cômodo. Dumaresq estava desperto, porém deitado. Ao ver o sobrinho se pôs a chorar. Honório reclamou da atitude o tiú e perguntou se tudo estava bem. A enfermeira fez um sinal afirmando. O velho foi logo a perguntar:

--- E a loja? – inquiriu o velho Dumaresq ainda chorando.

---Está uma beleza. – sorriu Honório para satisfazer o seu tio.

--- Aquela BOTIJA será o futuro de Ângela. – respondeu o velho a lacrimejar.

Tão logo se despediu do tio Honório rumou para o escritório da empresa de Despachantes, conduzindo sua pasta cheia de documentos, cheques e canetas além de anotações. Ele estacionou o seu veículo dentro do cercado que havia no prédio e então subiu os degraus para o andar de cima, vendo de repente o atelier ainda fechado. Ele fez algo inexpressivo com o rosto e caminhou quase que correndo para o seu escritório. De passagem pela entrada viu a silhueta de uma moça bem esmerada e linda a quem cumprimento sem maiores afagos. Bom dia também para Miguel, o porteiro, que estava ainda limpando o chão. Ao entrar no escritório viu em face de moça Luiza de Campos, a sua secretária particular a quem perguntou:

--- Dormiu bem? – perguntou Honório a Luiza.

A moça sorriu e quase não responde de emoção. Em seguida ela chamou a atenção de Honório para a presença na sala de espera de uma moça que Luiza falara na noite passada. Ela era uma linda mulher, vestindo um robe todo branco, transparente e cheio de adornos.

--- O nome dela! – inquiriu Honório um pouco desatento.

---Há quem a chame de Nora. Mas, o seu nome é Norma. – sorriu Luiza bem próxima a Honório

--- Nora? – indagou surpreso o rapaz.

--- Sim. – sorriu a moça.

--- Nora Velásquez? – indagou surpreso o homem.

--- O sobrenome eu não sei ao certo. Mas, ao que parece é esse mesmo. – sorriu Luiza.

--- Ora vivas!. Nora Velásquez! Mande-a entrar. Que sorte! – enfatizou Honório.

--- Eu mando entrar? – perguntou Luiza sorrindo.

--- Mas é claro. A filha de Diana Velásquez! – enfatizou Honório com muito apreço.

--- E a outra? – falou Luiza se referindo a Cléia Alves.

--- Rua! – determinou Honório com a cara trancada.

--- Como? – indagou Luiza sem entender ao certo.

--- Rua! Demita! Agora! Não quero ver nem a sua cara! – reclamou Honório

A moça sorriu de contentamento e foi a procura da novata Nora Velásquez que estava esperando em uma sala vizinha. Luiza chamou a moça e disse que ela tivesse cuidado com a fera, pois não tinha quem passasse por perto que a fera não a tragasse. A moça sorriu e se conteve nos seus princípios. Ao entrar da sala nobre de reuniões, foi recebida com amplo orgulho da parte de Honório. Conversas de quem não sabia muito das artes, mas entrara em um ramo para o que desse e viesse. Ao entregar a ficha para preenchimento, a moça olhou uma passagem que estava para preencher. Estado Civil. Nora foi para junto de Luiza e indagou:

--- O que ponho aqui? – perguntou Nora meio atrapalhada.

sábado, 2 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 38 -

- Marion Catillard -
- 38 -
Ângela, na Mansão dos Dumaresq, recebia a visita de sua mãe, Almira, que foi ver como estava passando a sua filha depois do acidente sofrido no escritório de trabalho. Ângela teve uma fratura do fêmur e engessou a perna direita por completo, tendo ficado em repouso em seu leito doméstico. Eram três horas da tarde quando Almira chegou a Mansão. Quase que não havia viva alma. Ela bateu palmas e veio o pai de Catarina para abrir o portão de ferro. Almira agradeceu e entrou na Mansão, seguida pelo homem até o quarto onde estava deitada a sua filha Ângela. Almira não era de muita conversa e perguntou a filha como estava passando com o tal problema da perna. A moça apenas disse:

--- Mais ou menos! O negócio coça que nem ele. – choramingou Ângela.

--- É assim. Certa vez engessei o braço e coçava muito. – respondeu Almira, de forma paciente.

--- E eu tenho que ficar sempre deitada. – chorou Ângela aos braços de sua mãe.

--- Calma. Isso é só nos primeiros dias. – sorriu a mulher.

--- E quando eu posso andar? Já estou fedendo! – reclamou a moça.

--- Você pode andar a qualquer hora. Venha que eu te dou banho. Escore-se em mim e vamos para o banheiro. Venha. Força! Isso! – falou resolvida dona Almira.

A jovem mulher abraçou-se a sua mãe e, mancando, começou a andar, apenas com uma perna, pois a engessada só fazia esforço para fixar no chão. Ângela aproveitou para cumprir suas necessidades e, nesse ponto, pediu que a sua mãe ficasse fora. A mulher se zangou e falou com brabeza.

--- Ora! Quem já se viu? E como você vai por a perna para se ajeitar no aparelho? – respondeu Almira com raiva.

--- Espera mãe! Não é assim. Isso é uma bosta! Não sei como fazer! – reclamou Ângela.

---É assim, doida! Põe a perna engessada para cá e pronto! – resolveu Almira.

O gesso foi protegido por um saco e a moça, com uma perna só, se segurando em sua mãe e na parede ligou o chuveiro e assim por diante tomou o seu banho com alegre fantasia. A sua mãe esfregou sabonete em suas costas, bustos e nas partes íntimas. Por todo canto possível. Apenas as nádegas ficaram por conta de Ângela. Após um banho de meia hora, Ângela se compôs com um penhoá de seda e, se agüentando em sua mãe, seguiu sorridente para a sua alcova onde se recompôs nos íntimos detalhes. Foi à melhor ducha de sua vida, como disse logo após se enxugar com sua cara descabida.

--- A senhora é a minha mãe! Por isso eu não tenho vergonha de nada! – sorriu Ângela mostrando os brancos dentes.

--- Amanhã eu estou aqui para te dar outro banho. – falou a mulher se enxugando também.

--- Tomara! Tomara! – sorriu Ângela com seu modo travesso.

No escritório de Dumaresq, naquela tarde, o negocio seguia de forma plenamente normal, apesar da ausência de Honório que seguiu pela manhã tão logo o telefone tocou de parte de sua mãe avisando sobre a esperançosa condição de saúde do velho Dumaresq. Eram ainda dez e meia quando o rapaz largou tudo e foi para o hospital, correndo desenfreado como um louco em meio da tempestade. Às três horas da tarde, Cleia, gerente da loja A BOTIJA de artigos novos e antigos entrou na sala de reuniões do escritório a indagar a Luiza de Campos sobre o estado de saúde de sua diretora, a senhora Ângela. A secretária particular do senhor Honório informou bem pouco do que sabia.

--- Ela está em casa, em repouso. – relatou Luiza sem levantar os olhos da máquina de escrever

--- Ah. Disso eu sei! – respondeu Cleia pouco aborrecida.

--- E por que pergunta? – inquiriu Luiza.

--- Ah bom. Quem está aqui agora? – perguntou Cleia tão abusada como antipática.

--- Pelo visto, só tem uma pessoa. E esta pessoa sou eu. – recitou Luiza abusada também.

--- Eu sei que você está aqui. Eu pergunto uma pessoa de maior porte. – quis saber Cleia.

--- Ah sim. Tem seu Miguel, um homem bem forte. Serve? – indagou Luiza para gozar da cara de Cléia, a antipática.

--- Só tendo paciência para agüentar um verme desse. – respondeu a gerente se postando a sair do local.

---Ô moça ou seja lá o que for. Verme não senhora. A senhora perguntou e eu disse o que sabia. Quanto ao verme ele está bem debaixo de sua saia. – disse então de modo atrevido a secretaria Luiza de Campos.

A gerente Cléia se arrebitou e puxou a porta com toda força chega estremeceu o prédio. O homem que tomava conta das chaves, senhor Miguel, estremeceu também e, tão alarmado ficou chega correu para junto a portar do escritório de reuniões, balançando a porta para ver se alguma dobradiça estava a cair. Ao chegar ao local, olhou para dentro, viu a senhorita Luiza, fez uma careta de quem não sabia o que se passara. Em seguia, deu duas voltas na porta e fechou de vez, de forma vagarosa. E assim seguiu o dia sem maiores problemas. Quando Honório chegou ao final da tarde, Luiza indagou sobre a saúde do velho Dumaresq. Honório sorriu e imediatamente disse:

--- Já está bom para outra! – sorriu o rapaz delirando de satisfação.

--- Verdade? – indagou a moça alegre e cheia de felicidade.

--- Sim. Verdade. Oras! O velho é duro na queda! Derruba um enquanto o outro está caído no chão. – delirou o rapaz cheio de regozijo.

--- Já volta amanhã? – indagou Luíza repleta de emoção.

--- Não. Ele ainda fica uns dias no hospital. – relatou Honório exercitando os braços para trás.

Quando Honório desceu até o local onde era instalado o atelier A BOTIJA para saber como estavam andando os negócios feitos nas últimas horas, encontrou Cléia com uma cara horrível de dá medo. Mesmo assim ele nada perguntou sobre a cara da mulher. Honório apanhou o livro de apontamentos e passou a ler o que já fora vendido e o que estava chegando. Entre os móveis de sala e de prateleiras, um era notado: um piano de parede. Era o segundo piano daquele estilo que A BOTIJA vendia num curto espaço de tempo. Isso alarmou o homem temendo que a classe alta estivesse se desvencilhando de instrumentos musicais de elevada categoria. Honório olhou bem esse pormenor, porém não disse nada a não ser;

--- Muito bem. O preço deve ser afixado no móvel. – falou Honório.

--- Sim, senhor! Algo mais? – indagou a gerente Cléia Alves.

--- Por enquanto é isso. Vou sair e volto mais tarde. E. ...A propósito: quando é o seu casamento? – indagou Honório despercebido das coisas da vida.

--- Na próxima sexta-feira. O senhor vai estar presente. – sorriu a moça ao dizer tal fato.

--- Ah sim. Estarei. – falou meio forte o diretor da firma Dumaresq.

--- Ah. A propósito! A sua secretaria é uma pessoa muito chata. Hoje, eu estive a perguntar sobre a saúde de Ângela e ela veio com desaforos. – comentou Cléia Alves.

--- Ah bom. Eu vejo isso. Boa tarde. – e assim saiu Honório do birô onde estava rumando para o seu escritório.

O rapaz subiu de um pulo para o escritório onde devia encerrar o expediente. Ao chegar, já encontrou Luiza de Campos se preparando para ir embora. O rapaz se admirou com a rapidez da moça em se esmerar como uma diva. Nesse instante, Honório indagou a Luiza o que houve à tarde no escritório.

--- Nada. Tudo normal. – explicou Luiza.

--- A gerente de A BOTIJA contou que se zangou com você. – disse Honório.

--- A foi. Ela quase quebrou a porta ao sair. Deu um puxavante que estremeceu o prédio todo. Ela é estúpida. Não merece nem varrer a sala. Seu Miguel foi quem endireitou a porta. – respondeu Luiza aproveitando para envenenar ainda mais o caso.

--- Ora! Não sabia disso! Deve ser conseqüência do TPM que ela sofre. – relutou Honório.

--- Eu não sofro isso. Meus negócios vêm e somem com três dias. É inveja dela por ter me encontrado aqui dentro. A sujeitazinha besta! – enfatizou Luiza ao seu chefe.

O homem sorriu e perguntou de imediato.

--- Vai sair? – indagou Honório sorrindo.

--- Vou para casa. – falou será a moça.

--- Vamos? – inquiriu Honório com duplo sentido.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 37 -

- Tony Curtis -
( 1925-2010)
- 37 -

No dia seguinte, Honório esteve logo cedo no Hospital do Coração. Esperou longo tempo pela chegada do médico. De tanto esperar, ele tirou os seus sapatos e passou a coçar os dedos do pé descalço. Quando o médico apareceu após os bons dias habituais, ele foi logo a perguntar pelo estado de saúde do seu pai. O médico então veio logo a perguntar se o velho tinha contato com gente da África. E o rapaz logo respondeu que, ultimamente, ele esteve a bordo de um cargueiro que esteve naquele continente. O medico ficou calado, de cabeça baixa a procura de uma resposta. E falou em seguida:

--- É o seguinte. Isso é uma hipótese. O seu pai deve ter sido mordido por uma mosca “tsé-tsé” transmissora da moléstia do sono. Essa é uma hipótese. A mosca vem da África, da região de Angola ou Moçambique. Por esses países. Ao que parece, ele guarda os sintomas de quem tem doença do sono.

--- Puta-merda! E agora? – perguntou alarmado o filho de Dumaresq.

--- E agora? É esperar! Nós tiramos amostra de sangue para exame. Ele pode durar até seis anos. Também pode ir a óbito em apenas seis meses. Tudo isso são hipóteses. Vez que o paciente esteve a bordo de o navio vindo da África, ele pode ter sido picado por uma mosca do sono. Mas, pode também ser outra causa. – respondeu o médico ao filho de Dumaresq.

--- Isso é uma porra. Caralhos me mordam. – caiu em prantos Honório.

--- Tenha calma. Tenha calma. São hipóteses. – falou o medico a Honório.

--- Hipóteses! Hipóteses! – e o homem continuou a chorar como uma criança.

Na verdade, Dumaresq tinha estado em um navio que havia aportado em portos da África. Esse fato fazia quase um mês. O homem costumava a embarcar em navios cujo itinerário fosse a cidade onde ele estava. Como despachante, tornava-se mais fácil Dumaresq embarcar em um navio de bandeira estrangeira. E então, ele conversava com o capitão do navio e visitava os camarotes da embarcação e até mesmo o bar onde a conversa era mais ampla. Eram vários navios que aportavam e ele os visitava. Dessa forma, Honório sempre se lembrava dos navios visitados por seu pai, pois muitas ocasiões ele também estava a bordo de tais embarcações. O caso do navio em apreço foi pelo motivo de se ter servido um almoço ao despachante, caso raro de se ofertar a um visitante. E o rapaz se lembrava de ter um mosquito ou mosca pousada no pescoço de Dumaresq e esse matou sem dó nem piedade aquele inseto. Não fora esse detalhe, talvez Honório nem se lembrasse do fato. A mosca do sono era um inseto que podia existir em uma longa travessia de um navio. Talvez, esse inseto fora o mesmo que nessa oportunidade fazia o homem a sua vítima.

Quando Honório chegou ao escritório depois de passar por sua Mansão a contar a novidade da tsé-tsé que poderia ter acometido o velho Dumaresq, a arrumação da escrivaninha de sua nova secretária, Luiza de Campos, era o seu nome completo, já estava organizada. A moça informou que devia haver uma pessoa para cobrir a Agencia dos Correios onde buscaria as correspondências postadas na Caixa do velho Dumaresq. Ao dizer tal fato ela olhou fixo o olho de Honório e notou a presença de lágrimas. Então indagou:

--- Então? Que houve? – perguntou Luiza de Campos surpresa com a resposta.

--- O velho. Você já não estava aqui. Foi no tempo em que você se afastou. Ao que parece, ele foi picado por uma mosca transmissora da febre do sono ou doença do sono. Dá no mesmo. O problema é que se for isso mesmo, ele tem dias contados. – falou Honório entristecido.

--- Pena! – destacou Luiza sem chorar.

A esposa de Dumaresq, a senhora Anita Colares, estava no Hospital do Coração nesse mesmo dia. Então, foi quando o médico lhe chamou para dizer as novidades do paciente. A mulher entrou no consultório do médico por deveras apreensiva. O seu estado de nervosismo era angustiante. A mulher quase não fazia suas refeições na hora certa. E em outro horário sempre vinha com explicação:

--- Não tenho fome. – dizia Anita com a voz pesada e cheia de temor.

--- Mas a senhora necessita comer qualquer coisa, dona Anita. – recomendava a empregada doméstica da casa onde a mulher morava.

--- Não. Eu vou para o Hospital. Quando eu voltar sei que tem comida aqui. - respondia a mulher de qualquer forma.

E nessa desventura da vida, Anita Colares se levantou da poltrona onde estava sentada e caminhou até a sala do médico. Em lá chegando, ficou em pé na frente do especialista. Quando o homem a falou não sobe nem articular uma palavra.

--- Bem, dona. ... Anita. – consultou o prontuário de Dumaresq para não confundir o nome.

--- Seu marido recobrou os sentidos. – falou o médico a Anita. Era o momento que jamais a mulher esperava ouvir. Ao dizer tal afirmação, Anita desmaiou, quase caindo ao chão, no fora a rapidez de um enfermeiro que estava ao lado em acudir a mulher.

--- Peça o maqueiro. Depressa! – disse o medico alarmado com tamanha sensibilidade da mulher. Ele não esperava que a notícia fosse o choque para Anita Colares.

Dois maqueiros que estavam a postos na porta do consultório vieram imediatamente para acudir à paciente e colocar em uma mesa hospitalar que sempre havia no consultório. Os maqueiros fizeram friquição no pulso de Anita enquanto o médico procurava ouvir as suas pulsações e o coração. Alarmado com o desmaio de Anita, o médico procurou passar nas suas narinas um liquido muito forte para fazê-la despertar.

Após alguns minutos, a mulher tinha recobrado os sentidos, apesar de estar um tanto chorosa ao dizer que o doutor a desculpasse pelo vexame sofrido. O médico respondeu que ela sossegasse e chamou uma psicóloga para cuidar a mulher. Foi um caso surpreendente. Uma pessoa desmaiar ao ter boa notícia. Ao cabo de meia hora o médico voltou ao consultório de onde tinha saído. Acompanhado de outro médico ele perguntou a Anita se a mulher estava passando bem. A mulher respondeu que sim. Então, o médico informou de modo calmo que o paciente Dumaresq despertou e estava nesse momento sendo cuidado por uma equipe de especialistas. Na verdade, não se tratava de moléstia perigosa, como ele afirmara ter suspeita de uma febre da mosca do sono. Desse momento em diante, Dumaresq passaria um período no hospital até que os exames que eram feitos chegassem a alguma conclusão. A mulher caiu em pratos e procurou rezar pedindo a Deus que curasse o paciente Dumaresq. Com nenhum familiar estava presente com Anita Colares, a notícia não teve meios de se propagar para outras localidades de imediato. A mulher procurou saber se era possível ver o seu marido. O médico pediu apenas que esperasse um pouco.

Uma copeira trouxe leite quente, café, bolachas, sucos de frutas para dar a dona Anita Colares. Essa, mais animada, tomou uma xícara de leite, comeu umas três bolachas e bebeu um pouco de café. Sentindo-se reconfortada Anita declarou que Deus era bom até demais. A copeira sorriu. A mulher desceu da cama onde estava e caminhou para a varanda onde havia o plantio de mudas de várias espécies. Anita olhou aquele ambiente, mas não vislumbrara nada do que havia se plantado. Ela apenas queria ver o seu marido e saber quando ele poderia sair da UTI. Ao longo da manhã era só espera. O homem estaria lúcido para qualquer assunto, era o que perguntava a mulher a um enfermeiro. E recebia a noticia de que estava muito bem, com certeza. Então, Anita resolveu discar para Do Carmo dando ciente das novidades. E fez.

Ao meio dia, chegaram à sala de recepção dona Do Carmo, a doméstica Catarina e o seu filho Honório, todos loucos para saber das novidades. Anita estava sentada em uma cadeira e logo se levantou para receber as visitas. Chorando bastante, ela apenas disse:

--- Deus é bom. – e voltou a chorar.

Honório saiu de corredor a fora à procura de um médico para ter as novas informações. O homem Dumaresq recobrou de pleno os sentidos e seria transferido para um quarto de primeira categoria dentro de mais algumas horas.

--- E o negócio da mosca? – perguntou Honório preocupado.

--- Era somente uma hipótese. Porém os exames deram negativo. Tudo bem, agora. Dumaresq fica por mais alguns dias em observação e depois pode sair para a sua casa. Mas, lembre-se: Nada de esforço físico. Essa é a recomendação que se prescreve. – lembrou o médico.

--- É danado! Passar dois dias dormindo? – relutou Honório ao médico.

--- Não foram exatamente dois dias. Foi um apenas. Ele esteve sedado enquanto na UTI. Mesmo assim, se resolveu tirar o medicamento na noite passada e ver o que sucedia. Agora, está tudo bem. Avante, rapaz! – sorriu o médico batendo nas costas de Honório.

--- Mesmo assim. – destacou o rapaz de forma calma.

--- Olhe bem. O sono é benéfico para o coração. A falta de sono é um fator de risco para uma série de problemas de saúde. Ao longo do tempo tem se estudado o fenômeno, como a calcificação das artérias coronárias. Ele é uma pessoa que já sofre de problemas coronários. Não é raro que se tenha um pouco de sono a mais para recuperar as perdas das coronárias. – sorriu o médico.

--- Menos mal. Vamos então dormir. – sorriu Honório.