quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 50 -

- Barbara Paz -
- 50 -
A moça voltou a sorrir com o desfecho dado por Dumaresq. E sorriu onde podia se lembrar no caso de uma pergunta feita ou não feita por ela: “Será?”. Essa indagação trazia problemas para o velho se ele de fato ouvisse Lucia a indagar. Porém ela não teceu tal comentário. Apenas observou o velho Dumaresq e nada mais. No motel de luxo onde ficara com Honório, ela pode observar o desatino do rapaz. Lucia tinha adquirido três peças de roupas bem compostas e apenas uma o homem pode observar. Mesmo assim nem se preocupou em saber por quanto fora àquela despesa da moça. Além dos três vestidos teve mais combinações de seda e dois pares de sapatos de ultima moda. Nada disso Honório tomou conhecimento. Apenas pagou a conta. Para a jovem moça aquilo não tinha gerado preocupação. Porém, no dia seguinte, ao ver o desequilíbrio de Honório perante o seu tio, ela voltou em suas elucubrações. O velho ainda não estava tão alquebrado pela sorte e sabia muito bem o que fazer. Naquele momento, Luiza recordava da oportunidade de ter uma casa. Mesmo assim, contemporizou aquele instante, talvez para poder observar melhor o que estava a acontecer.

--- Aquele quadro vale muito – refletiu o velho displicentemente.

--- O senhor quer que eu ligue agora? – perguntou a moça ao velho.

--- Faça, por favor. – respondeu o velho D em uma atitude desatinada, pois pensava mais nos quadros.

A tarde chegou logo após e Luiza, por volta das três horas, procurou o velho Dumaresq na galeria de artes, onde ele devia estar. Com Luiza desceu também a jovem Carmen. Essa não sabia o que lhe esperava. Apenas seguia a moça modestamente. O velho estava entretido com as molduras para por na parede, na sexta-feira vindoura, quando ele queria mostrar os dois quadros de Rafael que a moça copiou. Não notou a presença de súbito da sua secretaria, Luiza ao dizer que a jovem Carmen estava com ela. O velho se pôs de imediato a prumo e com sublime delicadeza e cumprimentou a jovem mulher. O sol ainda estava bem quente e o ambiente na sala era de tenaz calor. Automóveis iam e vinham a passar pela frente do atelier. Moças, rapazes, homens sisudos e donas de casas passavam a toda presa pela calçada do bazar sem notar que dentro estavam homens a trabalhar freneticamente para abrir a loja logo depois, às quatro horas. A gerente Nora Velásquez estava junto do velho Dumaresq conferindo as peças e anotando as medida para que, na sexta feira estivessem prontas. O bonde trafegou próximo ao atelier e se ouviu o barulho que fez ao sair. O rádio tocava ao longe um choro bem conhecido cujo nome era Resedá o que levou o velho a olhar sorrindo a sua bela e modesta secretária Luiza que de temor também sorriu. Nora de imediato notou o sorriso de Luiza e fez também o leve sorriso como quem quisesse dizer que estava ouvindo a melodia. E logo depois veio outro chorinho que tinha o nome de Odeon tocado em plena luz da tarde ao piano. Logo após, o velho falou a jovem moça Carmen.

--- Vamos aos negócios. – relatou Dumaresq.

A moça Carmen sorriu de leve como se estivesse com puro medo. Ela observou Luiza temendo ser reconhecida de imediato. Mesmo assim, não relutou ao dizer.

--- Sou toda ouvida. – sorriu Carmen inquietando-se com os braços presos entre si.

--- O preço da obra? – indagou Dumaresq sorrindo.

--- Eu não sei. Deixo a sua responsabilidade. – respondeu a moça Carmen.

O homem refletiu um pouco dando margem ao tempo. O que parecia era que a jovem era uma estreando em exposição de seus quadros. Por isso tomou o ensejo de perguntar quantas mostras de artes a moça já havia participado. Carmen relutou em dizer, porém declarou que estava com uns quadros de sua própria elaboração expondo em uma galeria de outro Estado. O homem fez um leve sorriso. E indagou se ela teria idéia por quanto venderia os seus belos quadros. Ela fez um gesto de não saber.

--- Bem. Nesse caso vamos bater um contrato. A senhora fica com vinte por cento do que for apurado e o restante é da “Botija”. Não pense que seja pouco para a senhora. Nós arcamos com as despesas, propagandas, anúncios, jornais e tudo mais. A senhora ganha 20 por cento limpos e crus. Aceita? – perguntou Dumaresq com o rosto trancado.

A moça ficou a indagar da jovem Luiza se era bom aquilo. Luiza respondeu não saber. Porém pelo jeito era melhor aceitar.

--- Olhe bem. A senhora, se sair vendendo por aí, não vai encontrar um preço justo. É por isso que eu pergunto. Sim ou não.

Mais uma vez a dúvida. Após certo tempo a moça disse aceitar. O velho teve que subir para o primeiro andar e cegando onde estava o escritório, bateu o contrato para a secretaria passar a limpo e então a moça assinar. Com todo esse tempo, Dumaresq passou a ligar para o rapaz auxiliar de molduras e fazer os arranjos dos quadros. Dumaresq ligou para os jornais da cidade e encomendou tiras de propagandas para as artes. Quando Carmen assinou o contrato, Dumaresq advertiu que daquele momento em diante a moça se preparasse para dar suas entrevistas aos jornais e rádios. Tudo estava sacramentado, então. A moça Carmen ficou aturdida pelo que tinha a falar com a imprensa.

--- Não se incomode com isso. Nós falaremos por você. – disse o velho a sorrir.

Na sexta feira, tudo estava armado para a exposição do quadros de Carmen retratando duas obras de Rafael: “Transfiguração de Jesus” e “A Sagrada Família”. Os valores eram por demais impressionantes: U$ 50 mil cada peça. O sobrinho do velho Dumaresq advertiu que por tais preços nem vendendo o Bonde. O velho, ao saber do que o sobrinho dissera, recomendou que ele fizesse silencio, afinal era a sua loja quem estava em jogo. Em cada peça já havia um aviso: “Reservado”. Isso demonstrou o valou das peças para cada um dos visitantes. Alguém perguntava quem teria o poder de comprar uma peça por tão alto preço. A moça Carmen não cabia em si. O velho argumentou dias antes um nome para a sua modesta pintora. Teria que ser um nome que impressionasse a todos. Surgiram vários títulos. Por fim chegou-se a um em definitivo: Carmen Azucena. Os repórteres dos jornais não paravam em perguntar a Carmen se ela era de outro País. A moça dizia apenas que seus pais tinham vínculos com o pessoal de fora. Fotos de todos os ângulos. Era um tomento para a moça. Até um rapaz que se dizia de origem francesa e de família de brasão dedicou um poema em forma de pedido de noivado a jovem senhorita. Para Carmen o que lhe importava era receber a sua parte na venda de suas obras de arte, reprodução de Rafael, o autor verdadeiro.

Um jovem da Igreja Católica esteve no local a observar a obra de Carmen Azucena e indagou por quanto era pretendia vender as amostras. Ela respondeu que tal assunto era só com o seu marchant. Ele insistiu que os originais já estavam no Vaticano. E ela respondeu que não estava à venda o original. Apenas uma reprodução da obra de Rafael.

--- Mas isso é uma exorbitância! – reclamou o jovem da Igreja.

--- Compra quem pode meu jovem. E as obras já estão negociadas. Apenas “A Botija” tem a satisfação de mostrar tão belas obras de arte. – proclamou soberbo o velho Dumaresq.

--- Isso é uma afronta a Rafael. – reclamou o rapaz com a cara franzida.

--- Olha bem moço. Ninguém pediu a sua intromissão nesse assunto. – teceu Nora Velásquez.

De um pulo o rapaz foi embora para no dia seguinte sair uma reportagem de capa no jornal de propriedade católica que se estava fazendo comércio com obras sacras. Um cidadão norte americano pediu para se mostrar as duas obras, pois ele queria adquiri-las. A resposta veio de imediato.

--- As peças estão negociadas. – relatou uma porta voz de “A Botija”.

--- Eu dobro o valor de compra! – enfatizou o norte-americano.

O assunto calou fundo no coração de Dumaresq. U$ 100 mil por cada uma das obras de arte. Era um clarão de felicidade para a moça que nunca pensou em ganhar tanto dinheiro. O negocio foi feito e as peças enviadas para os Estados Unidos sob abrigo de severos agentes da polícia norte americana, dias depois. Dumaresq já estava repleto de felicidade, pois seu atelier passaria a ser um conglomerado internacional com adesão de outros salões de arte. A artista Carmen Azucena era então a mestra de refazer obras de arte, beliscado peças de Da Vinci, Michelangelo, com a pintura Pietà, obra original em escultura representando Jesus morto nos braços da Virgem Maria e Donatello refazendo em pincel a obra original do escultor. Não sobrava tempo algum para a moça Carmen Azucena, trabalhando dia e noite. Às vezes, recebia em seu próprio atelier a vista de Dumaresq e em outras, a visita de Honório. Nesses dias ela estava sempre suja de tintas já não mais pensando em continuar suas obras em aquarelas.

Eram completados quarenta e cinco dias de engessamento da perna a mulher de Honório. Chegara por fim o dia de se retirar aquele envoltório que tanto a incomodava. De manhã, logo cedo, Ângela seguiu no carro do marido, em sua companhia para o hospital. Na casa de saúde um enfermeiro retirou as peças postas na perna e o médico mandou fazer novos exames de radiografia. Foi um tempo eterno. Passou-se pelo menos até as onze horas da manhã. Porém, tudo estava ótimo. Um medicamento foi passado em caso de dormência ou dor. O casal regressou feliz e contente para a sua mansão. Ao cruzar com uma rua, um caminhão de óleo cru buzinou insistente por ter em seu trajeto o veículo do rapaz Honório. O automóvel seguia pelo lado direito do caminhão. Ângela, ao desespero gritou:

--- Cuidado!!! – clamou insistente a jovem Ângela temendo pela batida do seu lado. E com isso levantou o braço cobrindo o rosto.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 49 -

- Angelina Jolie -
- 49 -
O velho Dumaresq passou em silencio um bom tempo. E ainda pensou de que valeria fazer um negócio em um momento para se decepcionar em outro. O que Luiza dissera calou fundo no coração de Dumaresq. Ele jamais pensou em ter alguém a lhe trair. Uma névoa toldou o seu pensar e o velho não quis falar nada do que estava a supor para a moça Luiza. Se houvesse traição, ele haveria de descobrir muito antes. O seu sobrinho já tomara a parte dos recursos emprestados pelo velho. Disso ele – o velho – veio a tomar conhecimento. Por seu lado, a jovem Luiza não quis dizer coisa alguma do se passou com ela no final de semana. Era uma decisão tomada por Luiza, pois falar naquele instante ou em outro, seria por água no mel. De imediata Luiza se levantou dos braços de Dumaresq e saiu para a sua mesa. Sabia que o velho estaria a pensar em tudo que ela acabou de dizer. De repente o telefone tocou. Ela olhou para Dumaresq e esse lhe disse:

--- Atenda. – sorriu o velho com estando a acordar de profundo sonho.

Ela pegou o telefone e atendeu de pronto. Era a irmã de Ângela quem estava a falar. Era para perguntar apenas pela saúde de Ângela. E disso Luiza respondeu tudo do modo como sabia. Ela estranhou o fato de Adélia ligar para o escritório de Honório quando bem poderia ter feito direto para a Mansão de sua irmã. Mesmo tendo estranhado o ocorrido ela não disse nada a esse respeito e preferiu calar de vez. Com um pouco de tempo a moça ao telefone indagou de Luiza se estava sozinha na firma. Luiza olhou a cara do velho e o viu dar a recomendação em dizer que ele não estava na sala. Luiza assim fez. Ela estava só, naquele momento. Adélia agradeceu o ensejo de ter sido atendida e desligou o telefone. Por sua vez, o velho Dumaresq um pouco desconfiado logo que Luiza desligou o aparelho veio a perguntar.

--- Quem era? – perguntou o velho querendo saber quem falava de verdade.

--- Adélia, irmã de Ângela, mulher de Honório. – sorriu com encantos Luiza e retornou a sua banca de escrever.

O velho ficou há pensar certo tempo para depois decidir o teria a fazer. Nesse momento, Honório entrou na sala onde estava Dumaresq sentado em sua poltrona, sempre calado, a bater com uma caneta nos dentes. O rapaz olhou em volta e viu Luiza a escrever. Logo então perguntou se alguém tinha lhe procurado. A Moça Luiza declinou que só havia recebido ligação de Adélia.

--- Adélia? O que ela queria? – perguntou Honório assustado.

--- Perguntou apenas pela irmã. – sorriu Luiza de modo calmo.

---Pela irmã? – interrogou Honório de forma estranha.

Nesse momento o telefone voltou a tocar e Honório de pronto atendeu. Era Maneco perguntando pelo final de semana e dizendo que o presidente Ernani Salgado havia convocado reunião para a noite de terça feira, a sede do Clube Lagunas. Honório ouviu e disse em seguida que estaria presente. Quando ao fim de semana, ele não quis falar. Disse apenas que estaria em pouco tempo no Porto. O rapaz Maneco agradeceu e se despediu dizendo:

--- Até ao Porto. – sorriu pelo telefone o jovem.

Honório desligou o telefone e em seguida indagou do tio se estava tudo bem com ele. O velho respondeu que sim. E perguntou sobre o telefonema. Honório respondeu que era do Clube Lagunas do qual era o seu diretor de esportes. O velho Dumaresq respondeu que era uma missão difícil e complicada. Honório sorriu ao dizer:

--- Tudo na vida é complicado. – sorriu Honório para o tio.

Em seguida, o velho indagou sobre os quadros que a moça trouxera logo cedo da manhã. Ele respondeu que aquilo tinha que pensar. O velho respondeu:

---Deixe que eu pense. Eu vou cuidar daqueles quadros. – fez cara séria o velho.

--- Mas tio? – indagou meio surpreso Honório.

--- Tio que nada! Você não sabe avaliar nem uma obra de arte!– respondeu o velho sisudo.

--- É verdade! – contemporizou Honório agüentando um sermão que deviria ocorrer.

--- Os quadros eu tomo conta deles. Eu vou marcar os preços. – respondeu o velho

Honório calou profundo diante dos argumentos feitos pelo velho Dumaresq. Na verdade, Honório não sabia precisar o valor de uma obra de arte. Ou cobrava mais ou cobrava menos do valor de venda do objeto. O velho, por ter mais experiência e sabedoria poderia pôr um preço real no valou da obra como a “Transfiguração de Jesus”, reprodução de Carmen do original de Rafael. Ao dizer que se responsabilizava pelos quadros de Carmen, o velho Dumaresq assumia um compromisso irreparável para a loja de artes “A Botija”. Luiza não disse coisa alguma ao ver o velho assumindo a competência dos trabalhos. No entanto, Luiza só observava o que o velho tinha a dizer como foi quando Dumaresq perguntou:

---Qual o endereço da moça? – indagou o velho.

--- A moça? Que moça? – perguntou o jovem Honório sem saber qual a moça.

Luiza ouviu o entrevero entre os dois, tio e sobrinho, e não se metendo na briga, relatou que a moça Carmen tinha lhe dado um telefone para qualquer reclamação ou chamado a qualquer hora, menos nas que não estivesse em sua própria casa. E Honório pediu depressa o bilhete escrito a mão puxando das mãos de Luiza com total brutalidade. Foi algo terrível e malcriado o modo como o homem arremessou-se contra Luiza para ter o papel do telefone. O arroubo foi tão violento que obrigou a o velho Dumaresq se intrometer.

--- Que é isso rapaz? Respeite a moça! – falou Dumaresq assombrado com a arrogância de Honório.

O rapaz se conteve apesar de manter o olhar violento para Luiza como se a moça tivesse toda culpa do mundo por conta de um telefone. O velho pediu com delicadeza a Honório o papel e disse por fim:

--- Vou discar para saber se esse é o telefone da moça. ... Como é o nome dela meu Deus. ...Ah. Está aqui. ... Carmen. .... Ninguém sabe aqui quem era Carmen? – sorriu o velho olhando para os dois que há pouco estiveram em contenda. Principalmente Honório.

Ninguém entre os dois, homem e mulher, respondera, apesar de Honório, por certo saber quem era a Carmen, tão comentada nos meios radiofônicos e televisivos. Carmen de Bizet. Na verdade, Carmen era uma ópera em quatro atos feita por Georges Bizet, baseada na novela de igual nome escrita por Prosper Mérimée. A ópera estreou em 1875, em Paris. Carmen era uma cigana que usava seus talentos de dança e canto para enfeitiçar e seduzir vários homens.

O telefone chamou e ninguém atendeu. Com certeza ela, a mulher ou moça, ninguém sabia ao certo, apesar de Honório ter o seu conhecimento a respeito de Carmen. Desse modo, o velho desligou o telefone e recomendou a Luiza que depois fizesse nova ligação convidando Carmen para a tarde daquele mesmo dia a comparecer ao seu escritório. A moça recebeu o papel com o numero do telefone e guardou em sua pequena bolsa agradecendo e dizendo que voltava a ligar para a moça ainda pela manhã daquele dia. Se não fosse deveras atendida pela manhã, telefonaria logo depois, no segundo expediente. O caso se encerrou daquela maneira. O rapaz Honório puxou sua bolsa com ímpeto e saiu porta a fora alegando que estava atrasado para ir ao Porto. O velho sorriu por causa da raiva que despertara em Honório e olhou para Luiza que também sorriu, arqueando os ombros vendo o rapaz com sua tirania e arrogância.

--- É um meninão. – fez ver o velho Dumaresq.

--- Ele ficou irado porque o senhor disse que ele não entendia de artes. – comentou Luiza se ajeitando e sentando à sua banca de escrever.

O velho Dumaresq caiu na gargalhada com a lembrança de Luiza a esse respeito. Depois de alguns instantes o velho voltou a falar no assunto que tratara bem antes, pela manhã. El observou a atitude do sobrinho e era bem provável de, com o tempo, se perder com todos os recursos depositados em seu nome. O velho sentiu uma lucidez extrema no enfoque de Luiza a despertar que seria de máxima prudência ela ficar em seu escritório, pois assim, teria mais ampla condição de saber o que estava a ocorrer, de fato. Algo que Dumaresq não levara em tal importância. Porém, o apego aos valores monetários das artes deixou Honório à descoberta para alguma outra façanha. Seja lá qual fosse. Com isso, Dumaresq retrocedeu em sua atitude de deixar Luiza sozinha em uma casa que ele nem sabia se valia à pena. Ele não quis comentar o mérito da questão. Porém, apenas relembrou que a moça tinha plena razão em ficar onde estava por mera desculpa de precisar ganhar o seu salário.

--- Eu pensei melhor. Sinto que você tem toda a razão. – argumentou o velho.

--- Da casa? – perguntou Luiza.

--- Não. Dos acontecimentos daqui. Houve apenas uma briguinha. Mas. ... – argüiu o velho.

--- É. Pelo visto é bom o senhor fazer uma reunião com os dois e definir quem manda aqui. – sorriu Luiza de modo disfarçado.

--- Mas eu mando aqui! – argumentou o velho Dumaresq atormentado.



terça-feira, 12 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 48 -

Anita Eckberg
- 48 -

A luz do sol penetrava na sala do escritório de Dumaresq, com um tênue reflexo apenas iluminando a escrivaninha da jovem Luiza e ditando que já dia bem avançado. O velho indagou de Luiza como estavam os negócios no atelier, pois não sabia o mínimo detalhe a respeito do assunto. A moça disse o que sabia. E de uma reunião havia dias atrás onde Honório foi eleito diretor do órgão. Dessa reunião participaram Ângela e a gerente do atelier, senhorita Cléia Alves, cujo destino foi o de ser posta para fora por causa de um mau querer com o senhor Honório. No seu lugar assumiu a senhorita Nora Velásquez, moça ativa e que mostrou seu desempenho naquele final de semana com uma renda suprema em dividendos. Era tudo o que sabia Luiza para responder ao seu Dumaresq.

--- Muito bem. E você? Por que Honório te transferiu para esse lugar? – perguntou Dumaresq.

--- Por causa do serviço. Tem coisas que não se deve escrever de modo que todos vejam. – sorriu Luiza

--- Ah. Isso é bom. Ficar em um local mais tranqüilo e sossegado. – respondeu Dumaresq com o pensamento a vagar.

--- Creio que sim. – sorriu Luiza mais tranqüila com os enredos.

--- Eu estive a dormir por vários dias. Parece que os médicos me doparam. Quando acordei, não sabia de nada o que acontecera. – falou Dumaresq.

--- O senhor esteve passando mal, pelo que disse o seu sobrinho. Os médicos chegaram até a desenganá-lo. Eu ouvi dizer por Honório que o senhor tinha de um a seis meses de vida. – exclamou a jovem Luiza a se notar a fraqueza com o que dizia.

O velho sorriu. Quando a música terminou de tocar em um rádio distante, ele também parou de dançar alegando que já estava cansado, indo sentar na sua poltrona e dali pegando em um lápis a bater devagar em cima da escrivaninha com um olhar distante. Talvez ele pensasse que estaria para morrer e o sobrinho assumira a direção da empresa. Seu semblante denunciava tal fato. Depois de um longo tempo a sentar, olhando vago para algo que não se podia vê, Dumaresq voltou a falar com Luiza. Ela estava sentada na mesinha onde estava a máquina de escrever. E de certo modo se assustou quando o velho perguntou:

--- E você? – quis saber o velho D.

--- Eu? Que tenho eu? – sorriu Luiza se recompondo do susto.

--- O que fez nesse final de semana? – indagou Dumaresq.

--- Ah. Bem. Fui ao teatro da sexta feira, dormi no sábado e fui com umas amigas à praia no domingo. – sorriu Luiza. Sabia que tudo que havia dito, em parte era mentira. Mas foi o jeito.

--- Com aquele vestido? – indagou o velho Dumaresq.

--- Ah sim. Um preto. E o perfume. – sorriu a moça.

--- Perfume? Que perfume? E eu te dei perfume? – caçoou o velho para ouvir a resposta.

--- E não deu? Um elegante. Suave! – sorriu a moça ao se lembrar do perfume.

--- É. Devo ter dado mesmo. – sorriu o velho.

Luiza olhou em direção ao velho e gargalhou pelo modo como ele havia se esquecido do tal perfume. Uma eloqüente Água de Toalete de suave encanto, cuja essência era oriental. Quando a jovem moça queria atrair um homem, usava desse delirante perfume. E Honório era uma presa daquelas de se usar um perfume tão original. O velho se endireitou no alcochoado no qual se sentara, coçara as costas esfregando na própria poltrona, fazendo uma cara amarga e sorriu em troca. Ele pensou um tanto antes de falar a Luiza.

--- Você quer ter uma casa somente tua? – indagou Dumaresq a jovem Luiza.

--- Quem? Eu? Bem que gostaria de ter. Mas com esse salário... – sorriu à jovem.

--- Quer? – tornou a indagar Dumaresq.

--- Querer, eu quero. Mas com esse dinheiro, não dá para o sustento. – relatou à jovem.

--- Eu te dou a casa! – falou o velho de forma arrasadora.

--- Quem? – sorriu Luiza a contemplar o velho enquanto punha papel na máquina.

--- Você não acredita? Você pode escolher. E eu dou os recursos necessários. – respondeu o velho como se pusesse um fim na negociação.

A moça Luiza ficou a pensar por uns instantes e voltou a sorrir ao indagar do velho se aquilo era uma brincadeira.

--- Eu não estou brincando. – falou o velho com a voz de quem exprime verdade.

--- Mas veja. Eu tenho o meu trabalho. E o que será feito dele? – quis saber a moça.

--- Mande as favas. Você merece tudo o que eu posso te dar. – rompeu Dumaresq cheio de orgulho e destemor.

--- O senhor vai me dar uma casa? – perguntou Luiza de forma estranha.

--- Isso. Com roupa, comida e o que mais houver para a sua necessidade. – desafogou o velho no instante de magia.

--- O senhor está brincando comigo. – levantou a moça de sua cadeira e veio na direção de Dumaresq.

Uma casa para a moça era tudo e até demais. No entanto ela precisava saber o que lhe restaria em troca, pois a oferta era grande demais. Se ela aceitasse, se veria fora do trabalho e levaria vida tranqüila. Mesmo assim, ainda pensaria em seus pais e irmãos, pois, com certeza, o homem não teria o avivamento de querer uma mulher e uma casa cheia de gente para morar. Era em tal fato que a moça pensava naquele instante.

--- Veja bem: eu tenho pai, mãe e irmãos. ..- pronunciou a jovem Luiza.

--- Eu sei disso. Mas você podendo ir morar em uma casa somente sua e de mais ninguém, é bem melhor. Seus pais, você visitaria. Daria a eles uma feira. Certo? – perguntou o velho.

--- Certo. E eu o que faço? – indagou a moça sobressaltada.

--- Você faz o que quiser. – sorriu o velho cheio de si.

--- E o senhor? – perguntou Luiza para se certificar do que ouvira.

--- Eu? Colho amêndoas maduras. – gargalhou o velho cheio de encanto.

--- Só isso? Todo dia? – indagou a moça ao velho.

--- Só. Só. É o bastante. – relatou o velho Dumaresq.

--- É o bastante. Mas veja bem. O senhor tem uma mulher. ...- disse Luiza a pensar.

--- Veja bem, menina. Eu estou casado. Isso não quer dizer que eu vou ser casado. Eu posso muito bem conseguir um desquite, uma vez que no País na há divorcio. E posso casar com você além da fronteira, onde já tem divorcio ou mesmo casamento. Entendeu agora? – perguntou o velho Dumaresq.

--- Por que o senhor deixaria a tua mulher? – indagou Luiza de Campos a pesquisar a intenção do velho.

--- Isso é outra história. Quer ou não? – quis saber Dumaresq.

--- Onde o senhor vai morar? – perguntou Luiza de forma inquieta.

--- Em tua casa! – gargalhou o homem.

Então, Luiza sorriu. Um sorriso intenso como um passarinho solto a cantar. Viver ou morar era a questão. E disso ela só podia delirar. Se o velho estivesse falando a verdade, era um sonho a desvendar mistérios da vida. Em sua alma palpitou algo de esperança, pois nem tudo na vida teria fim por completo. Morar com o velho era para Luiza algo de sublime apesar da diferença de idades. Ela bem sabia que isso não seria para sempre, pois o velho já não teria mais forças para conduzir a vida. Uma alegria extremada contagiou o coração da jovem moça e, ela, de imediato caiu aos braços de Dumaresq como uma criança travessa e barulhenta. O que dia era só algo de modo indecifrável talvez por sua beleza e pura simplicidade. Era algo como que diria o seu afeto total por ter alguém em confiança. Lagrimas rolaram no seu resto embriagando sobremaneira o apego do velho Dumaresq. Porem, em certo instante, Luiza recobrou a razão, saindo do sonho a realidade lembra talvez se estivesse fora não mais lhe serviria como uma observadora dos reais acontecimentos que toldavam toda aquela empresa. Ela, como empregada seria mais servidora para saber do que havia nas mentes poluídas dos que estavam por trás de tudo.

--- Que achas? – indagou a sutil moça ao seu pretendente amado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 47 -

- Isabelle Huppert -
- 47 -
Após longo período a examinar àquela obra que Carmen reproduziu do original e todo se contorcendo como quem tinha uma espinha enfiada na barriga, Honório já sem poltrona, pois o velho Dumaresq ocupou o assento em que Honório se espojava com toda a impetuosidade de alguém que não sabia quem era, ele então falou, procurando ouvir os conselhos do seu tio, o velho Dumaresq. Pelo seguir da carruagem, tendo recebido um sinal de desaprovação o seu próprio tio, por não conhecer “Ressurreição”, de Rafael, ele procurou afirmar:

--- Muito bem! Eu aprovo, - e olhou para o seu tio Dumaresq.

O velho sentado na poltrona comentou apenas com um gesto da mão, postando a mesma para um lado como quem dia:

--- “E por que não?” – fez com a mão o velho D.

A moça sorriu timidamente ao ser aprovada naquele exame de boa forma. Na verdade, a tela feita pela dama era tão perfeita que o próprio Rafael teria dito a mesma coisa. Ao lado da “Sagrada Família”, a última tela de Rafael ali reproduzida era uma verdadeira perfeição. Algo sublime sem comparação. Naquele instante podiam-se ver duas obras primas: a de Rafael e a de Carmen que alguém poderia dizer ser a dama a reencarnação de Rafael. Luiza não se queixava de coisa alguma. Apenas se postava distante das telas a olhar indiferente. Na verdade Luiza observava bem melhor a dama que as suas magníficas e admiráveis pinturas como quem estava a perscrutar algo de especial na atraente dama da tarde. Para Luiza aquela dama ela já a conhecia de algum lugar. Então, se voltou a sua paupérrima cadeira diante da maquina de escrever ficando a imaginar de onde fora que aquela dama se originou. Luiza era bem jovem. Porém com a sua idade já conhecera diferentes locais. Em um deles ela já teria visto a dama da tarde.

O tempo passou e a dama acerto deixar as suas obras quase primas para que Honório pusesse em sua galeria de artes já naquele dia à noite. A se acerto o preço, pois se veria a ação dos compradores a arrematar o óleo. Notadamente aquela seria uma luta de gato e rato, pois com paciência se veria o valor daquela obra de arte, apesar de não ser autêntica para ter um bom preço afinal. Após a dama sair, o velho Dumaresq opinou que gostaria de ver as obras da moça em local de destaque. Assim se poderia sentir o seu verdadeiro valor. O sobrinho, já suado, disse afirmativo e levou as telas para o atelier que ficava na parte de baixo do prédio. Jovem moça gerente do atelier de nome Nora Velásquez ainda não tinha chegado, pois, afinal, o seu expediente era a partir das quatro horas da tarde apesar de ter que chegar horas antes.

O velho ficou sentado em sua poltrona a olhar sem sorrir, a sua secretária, cuja tarefa estava a fazer naquele momento. Luiza batia à maquina como se estivesse ao desespero para terminar o que tinha acumulado desde a sexta-feira. O velho a olhava com uma caneta batendo nos seus próprios dentes e com o seu jeito tranqüilo de um homem por sinal às vezes sério. O telefone tocou. Era o rapaz que estreava no seu trabalho. O rapaz perguntou se Honório estava e prontamente a moça declarou:

--- Ele saiu. Quem é que está procurando? – indagou a moça.

O telefone parou um pouco e em seguida voltou o rapaz a falar.

--- É para seu Honório – disse o rapaz amedrontado.

--- Passe a ligação – respondeu a moça ligeiramente irritada.

Na ligação estava à senhora Ângela procurando falar com o seu marido. Luiza respondeu que ele havia saído fazia pouco tempo. A senhora então perguntou se seu Dumaresq estava. E a moça respondeu afirmativo. Então a moça pediu muita cautela e que passasse o fone para o seu Dumaresq. Luiza prontamente passou a ligação para o velho D. Nesse ponto o velho D não se esquivou em receber a ligação e de imediato atendeu a Ângela esposa de Honório. A mulher indagou o que o velho estava a fazer do escritório. E ele respondeu:

--- Sentado à mão direita de Deus pai. – sorriu fartamente.

--- Mas o senhor não sabe que está de dieta? – indagou Ângela alvoroçada.

--- E estou? Mas não tem nenhuma importância que eu venha até o escritório. Que está muito bem arrumado, por sinal. – sorriu o homem abertamente como um neném.

Ele ouviu a mulher rosnar de raiva como uma pantera negra. Se um animal como esse fosse sua companheira ele estaria perdido ou então já estaria longe. Então o velho D. procurou ser mais suave em suas contemplações para amenizar um pouco a raiva que a linda mulher sentia e deixar o seu coração nem tanto a palpitar. Ele sabia que tudo aquilo foi plantado por sua mulher Anita Colares. E nesse meio tempo, lhe veio o som de um distante rádio a tocar velha melodia de doce encantamento. A letra falava de certa bailarina. Ela estava a dançar cheia de momentos de felicidade. Mesmo assim, era total engano quem observava a bailarina em ver tal deslumbramento, pois em vez de alegria havia ali apenas a tristeza. Em seu humilde coração pairava um sonho desfeito, uma lembrança perene de um amor. Por tal motivo, ao desengano, ela era forçada a enganar o seu par de ocasiões e com ele a dançar para ter apenas o seu sustento garantido. Em todos os momentos de sua limitada vida ela, a bailarina, era como um lírio em verdadeiro lamaçal em suas noites de orgias. Sem poder ter a escolher o seu par dileto a bailarina passava de mão em mão com as suas fugas de nebuloso e triste sorriso encobrindo de certo uma lágrima caída de seus olhos amargos. Isso o velho Dumaresq ouvia e senta uma profunda vontade de chorar.

--- Que bela música. - disse o velho entristecido

--- Qual? – indagou Luiza de forma tardia.

--- A que tocou no rádio. – falou o velho Dumaresq a enxugar uma lagrima caída de seus prateados olhos.

--- Não ouvi. Estava envolta no trabalho. – sorriu Luiza.

--- É. Não tem importância. Era só uma música. – falou o velho apenas desconsolado.

A moça voltou a sorris novamente e lhe pediu desculpas por sua distração. O rádio era colocado em outro edifício e ela pouco ouvia as melodias por ele compostas e tocadas. Luiza, distraída, só se lembrava dos momentos alegres e felizes que passou ao lado de Honório no final daquela semana, e nada mais.

--- Estás ouvindo? – gritou Ângela com plena brutalidade ao velho Dumaresq.

O homem já nem mais se interessava com o caso e postou o telefone em cima do birô ficando a admirar somente a moça Luiza que não deixava de teclar a maquina de escrever. Triste por causa da melodia, Dumaresq ficou a solfejar a melodia e a bater os dedos em cima do birô lembrando-se dos seus dias de mocidade e a alegria que lhes traziam para sempre como um vigoroso Danúbio caudaloso. O desencanto da velhice já assumia o coração de Dumaresq, pois não podia evitá-lo de vez e para sempre. A vida se transformava em rua escura de um tempo frio inclemente com deveras de um desencanto perdido. Em tal momento, o velho se levantou devagar e foi até onde estava Luiza e se encostou ao seu corpo apenas a dizer o quando a amava por todo o resto de sua incompreensível vida. A moça sorriu, pois tais palavras vindas de um velho advinham um momento de solidão e ternura. Luiza teve um instante sublime de compaixão e beijou-lhe as suas mãos sofridas que alguma vez e muitas passaram na face de outra dama.

--- Se eu pudesse a tomaria em meus braços e voaria para os campos longínquos do afeto. Relatou o velho Dumaresq entristecido.

--- O senhor está demais, hoje. – sorriu Luiza levantando-se de repente da bancada onde escrevia e abraçando o nostálgico velho em compadecimento pelos lamentos sentidos.

--- O que eu sinto é amargura. Se tu estivesses comigo, nesses últimos dias, eu não estaria isolado em uma cama de hospital. Você pode nem saber. Porém eu te digo quanto te quero. – lamentou o velho a chorar de fora incontrolável.

--- Sossegue amor. Tenha calma. Não vá se desesperar. Eu sempre estarei aqui ao seu lado. Sempre contigo. – respondeu a moça de forma seria. Era tudo mentira. Porém era tudo que ela podia fazer naquele instante de dor e solidão.

Outra música dolente tocada no rádio assombrando de vez o velho e sonhador Dumaresq. Era uma melodia tão distante do seu tempo que ele nem mais se lembrava tanto. Falava de um amor sofrido. Por todo o tempo, a musa que cantava estaria a dizer algo de tão sublime para os esmerados e delicados corações apaixonados. O velho tomou Luiza em seus braços e passou a dança ao som daquela suave melodia em plena estreita sala, pois era o que restava para acudir o seu pobre e enfeitiçado anseio. A luz do sol do lado de fora não encantava mais aqueles nobres sentimentos do velho. Ele só queria dançar com a bela e sublime dama, tudo o que lhe sobrara naquela manhã. Por todo o resto de sua vida o velho a lacrimejar dizia à bela e insinuante dama: nada mais poderia fazer por seu amor tão doce e ameno resedá. A dama se encostou bem ampla ao corpo do homem que um dia fora alguém de muito especial para outra nobre e delicada pessoa. A luz difusa entrava pela janela onde a felicidade era um subterfúgio de duendes encantados. Luiza pensava em ter um lar que lhe fizesse mulher mesmo sendo uma mulher de segunda classe. Porém, de primeira classe ela já perdera a esperança. E então, naquele fútil instante valsava com o velho dos velhos sonhos de outrora.

domingo, 10 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 46 -

- Isabelle Adjani -
- 46 -
Eram oito horas da manhã de segunda-feira quando Honório chegou ao seu escritório. Um rapaz estava na recepção e deu bom dia ao chefe o que esse respondeu prontamente. Com sua pasta cheia de documentos, entrou no escritório propriamente dito e encontrou de imediato a senhoria Luiza eu o cumprimento. Ele perguntou quem era o rapaz que estava na mesa de recepção e Luiza disse ser um empregado da loja de peças antigas. Honório não o reconheceu de imediato. Luiza perguntou como fora a recepção na noite passada por sua mulher, Ângela. Ele respondeu ter sido normal. Ela nem suspeitou de para onde ele fora. Luiza sorriu querendo dizer como as mulheres eram tolas. O homem notou o sorriso e disse em seguida que aquele negócio, nunca mais faria. A moça fez um bochecho como quem dizia:

--- “Espere”!!!. – e sorriu com o seu pensar.

Em seguida, Honório sentou ao seu birô e começou a trabalhar. Ele olhou as horas e voltou a trabalhar organizando toda a papelada. Uns documentos ele passou para Luiza. Outros ficaram com eles. Ele quis saber da moça que trabalharia no sábado no atelier.

--- Tem notícias de Nora? – isso perguntou a Luiza.

--- Não. Mas esteve a trabalhar. – respondeu Luiza batendo à máquina.

--- Como você pode asseverar tal fato? – indagou Honório à moça.

--- Ela telefonou hoje dizendo que sábado foi muito bom e estaria em pouco tempo no atelier. – respondeu Luiza meio desatenta.

--- Bom. Vamos ver se a moça vai dar certo. Pelo menos eu já tenho boas informações a seu respeito. – argumentou Honório.

Luiza se levantou de sua cadeira com uns papeis para ele assinar. Ele verificou se tudo estava certo e assinou a papelada. O tempo voava. Ele perguntou a secretária se alguém telefonara e obteve resposta negativa.

--- Nem Maneco? – indagou Honório vexado pelo atraso de Carmen.

--- Não senhor. – respondeu a moça com um sorriso na face.

--- Sei que ele está no Porto. – resmungou Honório verificando as horas outra vez.

--- Tem na parede. – respondeu Luiza sem dizer o que.

--- O que tem na parede? – indagou Honório preocupado com Carmen.

--- O relógio. O senhor está atento as horas. Tem um relógio bem grande na parede. – sorriu Luiza com sua cara sempre alegre após passar um excelente fim de semana.

--- Ah sei. É a mania de saber que horas. – falou Honório para se despreocupar das horas.

O telefone interno tocou e Luiza atendeu de imediato. A voz do outro lado disse alguma coisa que Honório não conseguiu saber de fato.

--- É para o senhor. – respondeu a moça passando o fone ao patrão.

--- Que é? – indagou assustado Honório.

--- Não sei. O rapaz é quem disse. Parece ser uma cliente. – respondeu Luiza incontinente.

--- Deixa-me ver quem é. – disse Honório com as mãos molhadas de suor.

Na verdade, era Carmen. Ela trazia consigo dois magníficos quadros, pintura original de Rafael Santi. Um deles era a Transfiguração de Jesus. Um belo quadro que ela pintou em forma como o mestre havia feito. O segundo era outro quadro de Rafael retratando “A Sagrada Família”. Foi com esses dois quadros que Carmen entrou no escritório de Honório a perguntar se ele era na verdade o senhor Honório Dumaresq. E ele respondeu disfarçando o sentido de conhecer a moça.

--- Sou eu mesmo. Em que posso servi-la? – indagou Honório de supetão.

--- É porque eu tenho dos quadros a óleo e vim saber se interessa ao senhor. – respondeu Carmen fazendo-se de desconhecida. No mesmo momento ela reconheceu a dama que estava com Honório.

--- Deixa-me olhar de perto. – disse o homem assustado com tanta beleza nos quadros.

Ele teve a paciência de olhar um e outro para poder definir o seu pensar. Estava ele com as mãos sobre duas peças gigantescas de um pintor do quilate de Da Vinci e Michelangelo que a mulher Carmen conseguira traduzir para as suas verdadeiras simplicidades: quadros da “Transfiguração” de Jesus e da “Sagrada Família”, ambos de autoria de Rafael Santi Sanzio mestre da pintura italiano. O homem ficou extasiado com a criação da jovem com o cuidado de repintar dois quadros de Rafael como se o próprio autor das obras. A cada passo que Honório traçava as pinturas mais ainda estava abismado com todo aquele esplendor. De momento o homem se inquietou e se a moça teria quadros de Da Vinci ou de Michelangelo para efeitos de reprodução. Ela respondeu: positivo. Contudo, Da Vinci era um quadro muito difícil de expor por causa do seu tamanho. Honório ficou perplexo com toda aquela maravilha divina no trabalho da “Transfiguração”. Aquele sinal traduzia um trabalho da imortalidade de alma, como o homem chegou a explanar. Tudo era perfeito e feito com arte e perfeição. Esta foi à obra final do artista, morto em 1520. O próprio Nietzsche interpretou o trabalho de Rafael como a noção de “aparência da aparência”. O rosto de Jesus resplandece como o sol. Suas vestes tornam-se puramente brancas e ao seu lado surgem os profetas Elias e Moises, homens que viveram muito tempo antes. O trabalho da suntuosa moça deixou Honório apaixonado e de imediato ele proferiu:

--- É fantástico. Pena que foi feito por alguém quase que desconhecido. Você merece o louvor dos Deuses. – proferiu Honório ao ter em suas mãos uma réplica da obra de Rafael.

A moça sorriu encabulada por tanto exagero do homem com relação a sua obra imperfeita, pois era apenas uma reprodução de uma grande e majestosa lembrança de um soberbo pintor o qual a jovem jamais teria o alcance que o mestre renascentista assumiu.

--- Eu tenho um outro quadro do mestre. – recordou a dama.

--- Um outro? Um outro? – se enfeitiçou o homem de negócios completamente deslumbrado.

--- Sim. Um de pouca divulgação. – replicou a dama da tarde.

--- Qual é esse “um”! – indagou perturbado o homem.

--- É a “Ressurreição de Cristo”, feito em 1502. – argumentou a dama.

--- Não o conheço. Porém vale a pena vê-lo. Vale à pena! – respondeu Honório inquieto.

--- Você não conhece a obra de a “Ressurreição de Cristo” meu amado jovem? – indagou uma voz de alguém que vinha entrando no escritório.

--- Meu tio? O que o senhor faz aqui? – indagou alarmado o jovem Honório.

--- Ora, ora! Meu sobrinho dileto não conhece a obra de Rafael. Bom dia mui encantante senhora. Prazer em tê-la conhecido. - falou o velho Dumaresq.

--- Mas meu tio? O que é que o senhor faz aqui? – perguntou alarmado Honório.

--- Ora, ora! É o meu escritório. Tenho que vir pelo menos ver tão bela senhora! – sorriu o velho Dumaresq.

--- Senhorita, se bem lhe serve. – recomendou a moça Carmen a sorrir.

--- Mas é claro. É um magnífico prazer! – aproximou-se o velho da mulher ao lhe beijar a mão.

--- O prazer é todo meu. – respondeu a dama a flexionar um joelho e curvar-se então.

--- Ora! Deixemos de lamúrias. Vamos ao que interessa. Onde está o quadro da “Ressurreição” – indagou o velho Dumaresq.

--- Bem. Eu não o trouxe. Apenas estes dois que estão aqui ao lado. – sorriu a dama.

O homem, com esmero e de forma empertigada apanhou o quadro da “Transfiguração” e pôs-se a olhá-lo com admiração e quietude. O silêncio se fez no alegre ambiente do escritório de negócios. Foi um tempo curto, porém que se tinha a sensação de durar uma eternidade. A dama Luiza, que estava de pé, em pé ficou se alegrando ainda mais por ver o chefe àquela hora do dia já em plena forma depois de um leve acidente que o acometeu. Delirante, ela pensava em um passado remoto e delirante entre ela e o chefe Dumaresq quando estiveram em um local amplo como o mesmo, ou melhor, que o mesmo onde esteve nesse final de semana com Honório, o seu sobrinho. Luiza delirou ao ver de novo o velho Dumaresq. Sentiu-se de repente na vontade de agarrá-lo e apalpá-lo para ter certa de que não era um sonho o que se estava a acontecer. Porém se conteve. Apenas o sorriso na face não pode esconder.

--- Magnífico! Brilhante! Ele está exposto à venda? – indagou o velho Dumaresq.

--- Isso é o a que venho tratar com o senhor. ...Honório. Desculpe-me por esquecer o nome. – relatou a dama da tarde.

--- Muito bem! Discutam! Eu fico sentado na minha poltrona a ouvir. – sorriu o velho ao falar.

sábado, 9 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 45 -

- Jane Fonda -
- 45 -
No salão das refeições estava Honório e Luiza ambos degustando um pouco de mungunzá, tapioca, bolos e café. Ao lado, uma porção de gentes. Alguns ainda molhados. Eles foram a praia logo cedo da manhã. Em uma mesa estava Carmen, a moça que Honório conhecera no dia que passou. De onde a moça estava, deu para olhar para Honório. Ela fez um piscar de olhos uma vez que a sua amante, Luiza, estava sentada de costas para Carmen. O homem recebeu o cumprimento e nada fez em troca. Apenas a olhou com firmeza. Carmen entendeu tudo o se passava. Momentos seguintes, Carmen se levantou da cadeira posta à mesa e caminhou direto para o local em que estava sentado Honório. Esse sabia que a moça não teria disposição de atrapalhar o seu romance. Aproveito para dizer a Luiza algo como às horas, se dirigindo a Carmen de modo a que Luiza não viesse a suspeitar.

--- Dez horas? – indagou Honório para Luiza.

--- Quase! – respondeu Luiza sem suspeitar de coisa alguma. Porém a jovem Carmen compreendeu e de passagem sorriu para Honório. Ele se conteve. Mesmo assim ainda disse:

--- Mais tarde. – falou Honório displicente.

--- Mais tarde o que? – indagou Luiza sem entender o sinal do homem feito para Carmen.

--- A gente vai. – respondeu Honório para apagar a fogueira da cisma.

--- Ah bom. Você já disse isso. – sorriu Luiza procurando olhar em sua volta se alguém passava.

A música que saia do sistema de som do salão de refeições era cândida, doce e edificante. Para Honório, nos seus aconchegos, era uma melodia terna e compassiva, humana e sentimental. Ele apenas dedilhou, olhando para um lado e para o outro com vagar como quem procurasse alguém. Mesmo assim, somente havia mulheres e os seus companheiros. A jovem moça olhou fixo para Honório e então perguntou:

--- Quem tu procuras? – indagou Luiza um pouco cismada.

--- Ninguém. Quer dançar? – inquiriu o homem a mulher amada.

A moça se soergueu e se dispôs a bailar sob a música delirante envolvendo todos os corações enamorados. Os dois então a dançar nem teceram juras de amor. Eles esperariam para bem depois no aconchego da alcova. E a música terna dizia apenas juras de afeição para aqueles que estariam sempre apaixonados. Casos de apego envolvente para os que estavam apenas a amar para todo o sempre, igual à devolução dos corações sangrantes de candura apaixonada. Amores de intensa procura e de sorrisos afoitos como para todo o sempre. Um carinho para dois era tudo que a melodia pedia para os débeis enlevados, a esquecer que o café já estava frio e nada mais tinha o que fazer de repente e afinal. Terna e extraordinária, a música apenas chamava os amantes ao seu apaixonado conforto à luz de um candelabro. Uma saudade imensa se afogou no peito de Honório ao toque de uma melodia. O homem não perdia a noção do tempo e teceu a lacrimar de uma eterna nostalgia de seu amor. Como a cabeça voltada para trás de Luiza não a deixava a ver os seus sonhos embriagadores naquele momento de sedução dado através da encantante e débil harmonia.

Após o almoço servido às duas horas da tarde, Honório e Luiza se recolheram a sua alcova para repousar, conversar e jogar cartas. Honório só sabia pif-paf. A moça era mais esperta. Sabia quase tudo no baralho. Ele jogava cartas por jogar. E estava fazendo o seu jogo para ver quanto tempo Luiza suportava ficar atenta sem dormir. E assim, Honório foi indo até certa hora quando a moça abriu a boca um sinal de que necessitava dormir. Ele olhou o semblante de Luiza e ficou atento da vez que a moça confundia a jogada. Quando isso o ocorreu ouviu da jovem donzela o desejo de querer dormir. Então Honório recolheu as cartas e seguiu para o sanitário. A moça caiu no leito pronto para dormir apenas dizendo:

--- Não se esqueça de me acordar antes das seis. – falou Luiza já morrendo de sono.

O homem disse sim do banheiro onde estava. Dentro do banheiro Honório demorou um bom pedaço fazendo serão para dar a oportunidade de Luiza conciliar o sono. Ao sair ainda observou a moça para sentir se a mesma estava fielmente adormecida. Honório se lembrou da bebida que Luiza tomara durante o almoço no salão: vinho tinto seco o que forneceria maior tranqüilidade para o homem. De imediato, ele saiu devagar, pisando em ovos. Da porta ainda observou para a moça e ver que exatamente dormia.

--- Muito bem! É agora! – esfregou a duas mãos e partiu para o abraço.

Ele estava querendo encontrar novamente Carmen, a mulher sensual e abstrata. Da ultima vez ele não quis fazer coisa alguma. Naquele dia seria a segunda. E tão logo seguiu ao bar, foi de pronto perguntar se a chave doze estava livre. O barman olhou para o quatro das chaves e voltou a dizer para Honório:

--- Ela foi embora, mas deixou recado para o senhor. – respondeu o barman.

--- Qual foi, qual foi? – indagou Honório apressado.

--- Ela mandou dizer ao senhor que tinha entendido. – foi o que disse o barman.

--- Isso é uma bosta! E ela foi para onde? – perguntou angustiado o homem.

--- Partiu. Foi embora. Hoje, mais cedo. – dialogou o barman.

--- Ora porras! Estou lascado! – revidou Honório não querendo assim acreditar na resposta do barman.

O barman sorriu e não disse mais nada. Nem mesmo o decifrar do pensamento de que Carmen poderia estar com outro em uma alcova qualquer. Honório vergou a cabeça para o texto do balcão do bar e se escorou nos braços. Foi um momento apenas. De repente se soergueu e se levantou preparando-se para sair, olhando em todas as direções para ver se ainda estava por algum canto a mulher dos seus delírios. Honório se escorou por instantes no balcão do bar com os cotovelos, mas de nada adiantou a sua esperança. O homem batia alguma bebida em um sacolejar intermitente o seu conteúdo em um objeto de alumínio. O barman não tirava o olho de Honório enquanto ouro garçom passava por detrás dizendo apenas;

--- Saindo! – disse o garçom que estava levando uma bebida para alguma mesa.

O barman olhou ao redor e não disse nada. Aquele era como um aviso de que estava saindo para servir alguma mesa do salão. Honório se desencostou do balcão e saiu a caminhar para fora do local onde estava a pensar quanto tempo perdido por causa de uma mulher. E assim, Honório divagou para um lado de outrora quando a sua mãe lhe falava dos casarões que havia na rua onde morava no tempo em que era menina. E depois começou a se lembrar da viagem que fez com a sua atual mulher, Ângela e a vez que ela lhe forçou a fazer amor. Coisas simples que aconteceram durante a sua vida. Com um pouco ele estava sentado em uma cadeira forrada de veludo a contemplar o oceano. Sua cabeça doía talvez por conta da bebida que havia ingerido horas antes. O homem se espreguiçou na cadeira de veludo e ali adormeceu. Uma mulher com vestido de cor de goiaba madura vinha se chegando a passos mais ou menos rápidos, em meio a um turbilhão de gente parada em uma calçada a espera que a casa bancaria abrisse. Honório havia saído do meio da multidão. Ele viu a moça e logo correu para o encontro no meio da rua. A moça respondeu que estava vexada, pois morrera uma parenta sua. Ele ficou sem ação. De repente, o homem viu quando a moça se entremeou por entre a multidão e desapareceu. Ele acordou de repente. Tudo não passaria de um sonho.

Naquele instante Honório viu chegando ao local onde estava à companheira Luiza, vestida com um indumento cor de rosa, do motel, com certeza. Ele esfregou os olhos para dizer:

---Estava sonhando com você. – e sorriu sem graça.

--- Mentira! Mentiroso! – respondeu Luiza a sorrir.

--- Que horas? – perguntou Honório se esquecendo de olhar no que estava em seu pulso.

A moça olhou o seu relógio e disse em seguida:

--- Cinco horas. – disse Luiza olhando a praia distante.

Honório se levantou da cadeira e seguiu para o banheiro do motel, uma casa grande, imensa até demais, parecendo mais com um casarão do tempo antigo. A cor do prédio era amarela, de apenas um andar. Mas havia ali todo tipo de jogos de azar com as pessoas acordadas a noite inteira e segundo por o resto do dia e emendando com o outro. O casarão tinha uma suíte na parte do meio que fazia uma espécie de divisão do terraço. Havia um estacionamento de carros na parte da entrada deixando a impressão de que era uma varanda confrontando com o chalé de cima. Tudo era requinte de prazer que o motel proporcionava. Ao parar o veículo no local de entrada a pessoa sempre deixava a chave para que o funcionário guardasse o carro em outro ponto. Tudo em si era de uma admiração impar. À noite, tudo era iluminado, por dentro do lugar e por fora com as lâmpadas pregadas na parede. Em cada suíte havia um largo pelo lado de fora para proteger o casal. As portas do motel, nas suítes, ficavam abertas noite e dia. Os jardins eram cultivados com plantas exóticas e flores deslumbrantes e belas. O anoitecer no motel era como se fosse o amanhecer de uma linda primavera. O nome do motel era visível em um canto solitário. Eram ali aonde poucas pessoas chegavam e admiravam de verdade. O rapaz arrumou-se de pronto e passou na recepção onde efetuou o pagamento das despesas feitas. O seu automóvel já estava à espera. Ele ouviu da recepcionista o;

--- Volte sempre! – disse a moça com um sorriso largo na face.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DANÇA DAS ONDAS - 44 -

- Julia Roberts -
- 44 -
O domingo chegou ainda tumultuoso para Honório. Ele pensava bastante em Ângela e no seu tio Dumaresq. Ele podia fazer uma ligação para o Hospital e saber de como estava passando o enfermo Jorge Dumaresq. Com bastante cisma na resposta, Honório desistiu da fazer a ligação logo cedo da manhã. Esperaria para com um pouco mais. De onde estava, no leito, viu a jovem Luiza a dormir abraçada a um travesseiro. Pensaria ela que o travesseiro fosse Honório. Por isso mesmo, o moço sorriu. O homem se soerguera no leito e mesmo de onde estava ligou o televisor pelo controle remoto. Estava a passar um filme cujo tema era de um rapaz que havia sido morto e mesmo assim, o jovem morto vinha ter com sua noiva à procura do homem que o matou. O tema era simples. Porém foi bem conduzido e a história melodramática deixava no espectador uma tensão cuja noção era a de se emocionar e até mesmo chorar. Já no seu final, o homem morto beijaria a sua noiva e desaparecia em uma luz do eterno. Honório chorou por causa da atriz, muito linda, talvez exuberante no seu estilo simples do vestir. Algo lhe fez lembrar o passado. Historias de sua mãe a contar fase de sua vida de menina. Casos como as mocinhas de vestidos longos e de cores brancas a saltitar em frente de suas residências todas bem apanhadas. Porém de uma firmeza estrutural do qual não seria um casebre de taipa. Eram nobres essas casas. Para a sua mãe, casas belas e enigmáticas com canteiros e roseirais pelo lado de entrada. Para Honório aquele talvez fosse um tempo feliz, onde não se andava de ônibus, pois havia os Bondes a tração animal. Maravilhosas casas nobres de antanho.

Ao soar às oito horas da manhã, o café era servido no restaurante do motel, podendo ser acordado nos próprios leitos do casal de amantes fugidios. Tal refeição dependia do conforto de cada um. O telefone tocou e Luiza atendeu sem sobressalto. Alguém do outro lado da linha apenas perguntou:

--- Seu Honório, ele está dormindo? – perguntou a voz do outro lado do ramal.

--- Quem fala, por favor? – indagou Luiza de forma normal.

--- São oito horas. Ele pediu essa ligação. Estou apenas informando que está feita. – declarou a voz ao telefone.

A moça Luiza passou o telefone para Honório dizendo:

--- A ligação que você pediu. – respondeu Luiza ao entregar o telefone nas mãos de Honório.

--- Fique aqui. É rápido. – falou baixo o homem.

A moça se aquietou não saindo mais da alcova de veludo onde passara a noite a dormir. Nesse momento Honório falou ao telefone ao se referir ao seu tio. Apenas gostaria de saber como estava passando o velho Dumaresq. Uma voz no outro extremo do fio pediu licença para de vez confirmar o que o homem estava, a saber. Demorou uns minutos e a voz voltou a falar:

--- O senhor Jorge Dumaresq já teve alta e com certeza está em sua casa. – respondeu a voz.

Era aquilo que Honório não esperava: o seu tio estar na sua mansão. Agradeceu e desligou o telefone. De imediato pediu para que se fizesse uma imediata ligação para a mansão do seu tio fornecendo o número específico. A pessoa atendente pediu alguns minutos de espera.

--- Isso é uma merda! O velho está na sua mansão! – fez ver Honório a moça assombrado.

--- E o que tem isso? – indagou a moça ao seu amante.

--- Nada. Nada, Mas eu não estava com eles. Isso é uma verdadeira merda! – falou patente e desesperado o homem para a sua companheira de alcova.

--- Ainda bem. O pior era uma notícia negativa. – sorriu Luiza a contemplar Honório.

O rapaz cravou os seus na mulher a olhando fixo com o pensamento distante. Apenas a olhava igual a uma escultura que se vê, porém não fala. Luiza por igual olhou o rapaz ao terminar por sorrir e indagar o que de tão interessante Honório estava a admirar na sua pessoa. Foi um caso por demais interessante o de Luiza, pois nem o próprio homem tinha algo a lhe responder, pois nem sabia para quem estava a olhar. O seu tio era o único pensamento que lhe afetava naquele instante. E ao saber que o velho Dumaresq já estava em sua mansão isso lhe deixava sensibilizado. Honório não sabia e nem ouvia Luiza naquele momento de preocupação total. Ele apenas olhava a moça igual se investiga uma gema de diamante a lapidar. E ele pensava na verdadeira jóia a qual seria aquela que estava sendo lapidada: o bazar de antigos objetos.

O telefone voltou a tocar e Luiza atendeu como sempre fazia. Logo em seguida forneceu o aparelho ao cavalheiro Honório lhe adiantando ser da mansão do velho Dumaresq. O homem agradeceu e falou em seguida. Após os cumprimentos habituais, Honório indagou do estado de saúde do velho D. Quem atendera ao telefone fora uma empregada doméstica do casarão. Disse à moça que o velho Dumaresq estava muito bem e nem por sombra parecia aquele que fora mandado ao hospital. A continuação, a doméstica informou que naquela hora o casal estava a dormir, uma vez que havia recomendação médica nesse sentido. Honório falou que estava em outra localidade e por isso não pode estar presente a sua alta no hospital. Ele mandou um abraço e que o tio o abençoasse. Após esse dialogo se despediu e largou o fone na almofada da alcova.

--- Parece que o velho está bem de saúde. – relatou o homem à Luiza ainda temeroso.

Em seguida, Honório pediu nova ligação recomendado a telefonista que dissesse ser de outro Estado e era Honório que estava a chamar. A telefonista manifestou seu acordo ao que o homem lhe dissera. E pediu a telefonista a espera de um breve momento. Com isso, Honório desligou o telefone e passou a esperar.

--- O que eu vou dizer? – indagou Honório a Luiza tremendo de medo.

--- Diz que estás em outro Estado e agora foi que conseguiu ligação. – sorriu Luiza deitada na alcova acetinada de veludo.

--- Isso é uma merda. Sabe o que é uma merda? É isso. – declarou Honório tremendo de medo.

Luiza apenas sorriu deitada de bruços, inteiramente despida. O homem a olhou e não disse nada. Ele estava incomodado com a demora da ligação. Com um pouco de tempo o telefone tocou. Dessa vez quem atendeu foi o próprio Honório. Do outro lado da linha quem recebeu foi Catarina. Quando a moça falou, logo foi reconhecida por Honório. Ele falou indagando sobre Ângela. Catarina respondeu:

--- Ainda dorme. Ontem foi muita coisa aqui. Ela dormiu tarde. – falou Catarina.

--- Ah bom. Eu estou em outro Estado com o time. Diga-lhe, por favor, que volto ainda hoje. Eu liguei duas vezes e não se atendeu. Não sei o que deu. Viajei de surpresa com a equipe. Estou um molambo. Roupa suja. Imunda. Mas não tem importância. Minha mãe foi para a missa? – perguntou Honório.

--- Foi. Ainda não voltou. – respondeu Catarina.

--- Está bem. Deixo um beijo para todos. Obrigado. – e desligou o telefone.

--- Eita mentira danada. – sorriu Luiza logo após o telefonema.

--- Mas estou aliviado. Essa foi por pouco! – suou o rapaz ao comentar a informação de que tudo estava em paz em sua mansão.

--- Vocês fazem um bicho de sete cabeças quando o assunto é tão simples. – respondeu Luiza.

--- Porque não é com você. – contrapôs Honório com raiva pelo comentário de Luiza.

--- Comigo, eu não dou a mínima. Você acha que não tenho o que dizer em casa? Pois sim! – explanou a moça de um modo até difícil.

--- Ah, Mas você é mulher! – respondeu Honório ainda de cabeça sem sentido.

--- E você é homem, seu. ....- respondeu Luiza ao rapaz.

--- Seu o que? Diga! Seu o que! – indagou o homem a Luiza.

--- Bosta. Pronto. Não queria ouvir? Pois ouça! – emendou a moça já com raiva e saindo da alcova para se recompor.

--- Ora bosta! Bosta é você, sinhá rameira. – respondeu Honório cheio de raiva.

--- Quer saber de uma coisa? Vou embora! – relatou chorando pela alcunha de rameira que o homem acabara de dizer.

--- Vá. Eu quero vê. Pode ir. Eu vou em seguida. Pelo menos estou livre de você!!! – falou Honório com imensa raiva.

A moça se voltou para Honório e chorou demais por ter dito o que não devia dizer. Afinal, ele não teve culpa alguma. Ela entrou no banho para poder chorar demais. Não podia perder aquele trabalho de forma alguma. E ele sabia muito bem disso. Como secretária particular, Luiza tinha maior penetração nos assuntos da firma e até mesmo da família de Honório. Seria melhor a moça calar e voltar para pedir desculpas do que deixar a situação tensa demais. Ela sabia da culpa que tivera em deixá-lo dormir a madrugada toda. Enfim, foi isso o que se deu. Luiza voltou, com os olhos marejando e se desculpou ao homem. E então, abraçados voltaram a alcova de cetim. Almofadas de veludo foram postas ao leu. Os amantes se eternizaram de carinhos por momentos indecifráveis. O sol já brilhando conclama a todos para o banho de mar.