quinta-feira, 12 de junho de 2008

RIBEIRA - XIV


Natal começou a conhecer o progresso a partir de 1943 quando assinou com os Estados Unidos o protocolo para ceder uma parte do seu território ao distante e desconhecido pais amigo, conforme está registrado na visita do presidente do Brasil, Getúlio Vargas com o presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt, no dia 28 de janeiro daquele ano que fizeram o acerto entre as duas nações. Natal cederia o terreno para a construção de um aeroporto e os Estados Unidos entravam com os gastos que se fizessem necessários. O encontro dos dois Presidentes se deu a bordo do destroier Jouett. Nesse dia, ninguém sabia, nem mesmo as autoridades locais, da presença de Vargas e Roosevelt em Natal. Somente o Governador potiguar Rafael Fernandes teve um convite para comparecer a Base, sozinho, sem nada saber. Quando foi feita a inspeção a base de hidroavioes, Parnamirim e os Quarteis Militares, o Governador Rafael Fernandes esteve presente sem nenhum auxiliar. Á noite, assistiu a "Conferencia de Natal". O Governador só veio a saber das presenças das autoridades quando estava na Base. Foi nesse encontro, às escondidas, que Natal entrou na II Guerra Mundial. No dia seguinte, os Presidentes Getulio Vargas e Franklin Roosevelt, - no dia 29 de janeiro - , seguiram viagem. Vargas voltou para o Rio de Janeiro e Roosevelt, para Trinidad. A conversa entre os dois Presidentes foi para acertar a entrada do Brasil no Conflito Mundial. Tudo isso feito na surdina, sem que ninguem soubesse.

Mesmo assim, Natal,a cidade brasileira mais próxima de Dakar, na África entrava para a história. Desse dia em diante, começou a se pensar em progresso. A Cidade era, até àquela época, um lugar esquecido no resto do mundo. Porém, como acontece com quem entra na luta, a capital do Rio Grande do Norte ganhou espaço no noticiário do Brasil e dos países que se fizeram amigos naquele tempo de conflito. O que se tinha na cidade era um rio, o Potengi, onde navios atracavam quando em viagens de norte a sul do pais. Além disso, no Cais do Potengí, havia desembarque de gasolina e óleo para nutrir as parcas industrias locais e os poucos carros que rodavam na cidade. Foi, então que se pensou mais alto. Os Estados Unidos começaram a investir no combustível. os diques foram erguidos ao longo do Cais, perto de Santos Reis, e assim foi feito a tempo rápido o progresso de Natal.

Uma estrada, chamada de pista, entre Natal e Parnamirim, com 18 quilómetros de extensão foi feita num espaço récorde de 45 dias. Era a famosa pista de Parnamirim que começava na praça Pedro Velho e terminada dentro do aeroporto de Parnamirim. Ainda hoje se tem vestígios dessa famosa pista que alarmou até mesmo os norte-americanos. Uma construção que durava apenas 45 dias. Na capital, no morro existente nos confins da cidade, caminhões retiravam areia para forrar a pista. Foi um serviço de tal preço que o morro findou por abrir uma enorme rombo que veio a desaparecer com o progresso da cidade, anos depois. O morro ficava onde hoje e situa a rua Tuiutí - que já balizada por Areia Preta -.No tempo em que os caminhões retiravam a areia do lugar, não havia residência alguma. Tudo que existia era uma vacaria de propriedade de Artur Marinho. A água, no local era puxada a cata-vento e o seu dono fazia doações de latas de água aos poucos moradores de ruas próximas, no Alto do Juruá. Pela frente da vacaria transitavam constantes os caminhões carregados de areia retirada das encostas do morro, para forrar a pista que era feita na rua Potengi e na avenida Fermes da Fonseca.

De Santos Reis para Parnamirim, foram instalados tubos de cano de ferro, por baixo do chão,para levar combustível que abastecia os aviões e caminhões que se abasteciam no aeroporto. Era uma via de canos que cercava desde Santos Reis, passando por Brasilia Teimosa - nome que não existia naquela época - rua do Motor até a subida de Petrópolis e entrar pela Avenida Hermes da Fonseca, indo terminar em Parnamirim. O combustível continuava a ser descarregado no Cais do Porto, na Ribeira/Rocas, indo se armazenar nos tanques de Santos Reis, como ainda hoje é feito. A Cidade cresceu vertiginosa com o progresso vindo com o dinheiro investido pelos norte-americanos após uma reunião em segredo entre os presidentes desses dois países a bordo de um navio.


quarta-feira, 11 de junho de 2008

RIBEIRA - XIII


Natal foi fundada no dia 25 de dezembro de 1599. De lá para cá sofreu terríveis descompassos, como invasões estrangeiras, de franceses, holandeses, japoneses, alemães e até mesmo de portugueses que se achavam donos dessas terras. Ainda hoje se tem imigrantes que vivem aqui, fazem fortunas e se dizem donos das terras que eles ocupam. Há uma falta de Governo pois se tem dado as nossas coisas boas aos de fora e, para os daqui, sobram os pedaços miúdos que já não servem de coisa alguma. Este é o Brasil nordestino que na visão de sulistas é uma terra sem dono. Peixes para os que vem visitar e ficar na terra e espinhas para os que são nativos, os verdadeiros donos dessas terras cuja idade é de quase 410 anos, porém, se contar os silviculas, vai muito mais além desse tempo.

A praia de Areia Preta é um sinal disso tudo. No inicio do século XX, a praia era um deserto. O que havia eram casas de taipa ou de palha e, além disso, nada mais. Era uma praia de pescadores. Poucos pescadores, por sinal. Eles viviam da pesca e do mar, trazendo para a cidade - cidade? - aquilo que conseguiam apanhar no arrasto das ondas. Esses pescadores, ninguém sabe os seus nomes, descendência ou o que faziam de bom e de mal. Eles eram apenas "pescadores" e nada mais. Os casebres sofriam com as cheias do mar e a cada vez, os pescadores eram sempre empurrados para cima, para bem longe do mar, fonte de vida que eles teimavam em tirar um pouco do muito que esse oceano tinha e tem a oferecer.

Pelo que se sabe, Areia Preta era um pedaço de terra de pescadores nos primeiros anos do século XX. Porém, o progresso estava chegando. Haviam casas de morada - casebres - no Alto do Juruá, uma fatia de terra bem antes de Areia Preta. Foi ali que, em 1905 morou e morreu o padre João Maria, sacerdote de Natal, vitimado pela doença do diabete. Com certeza, no Alto do Juruá ja havia casas como também havia lá em baixo, na praia de Areia Preta. O tempo passou e chegou o ano de 1912, quando se instalou a linha de bonde para Petrópolis. Pela "rua" que o bonde seguia, mais tarde chamada de av Getulio Vargas, havia somente uma casa, no alto do morro. A Casa dos Ingleses, e nada mais. Na rua tinham os postes que conduziam os fios para dar a energia onde o bonde se sustentava. No chão, os trilhos desses veículos. Nesse tempo, poucas casas eram vistas na praia do Morcego ligada à praia do Meio.

Em 1920, o bonde seguia o seu caminho até a praia de Areia Preta, onde havia apenas casas de palha e de taipa. Um local que servia café para aqueles que faziam serestas era o local mais rico daquele recanto. O café ficava onde hoje é uma peixada, no cruzamento da Rua Dois de Novembro e a avenida Silvio Pedroza. Alí, o bonde voltava para a cidade, onde começava fazer o seu percurso novamente. No ano de 1935, nada havia além da praia de Areia Preta em direção ao morros que dava sustento para unas poucas casas de taipa. Com o tempo, já em 1960, alí passou e se chamar de Rua Guanabara, nome dado por um um Guarda da Febre Amarela - hoje, SUCAM - seu Orlando de tal. Um homem baixo, um pouco gordo, mas nem tanto. Ele vivia de trazer água de beber que apanhava nas caçimbas existentes em Areia Preta.

Como se dizia, no ano de 1935 a Areia Preta servia de refugiu para quem queria passar as férias na praia ainda deserta. E o ano se passou. Chega-se a 1940. Um pescador, certa vez, trouxe uma mulher e sua neta, vindo de Paraíba - que hoje de chama João Pessoa - para vir com ele morar em Natal. A mulher foi residir numa casa no alto do morro, onde hoje é o cruzamento dos ónibus, numa esquina, perto do local onde tempos depois - 1951 - se construiu o Farol de Natal. Alí morava o pescador, sua mulher e uma neta. Em cima do morro, existiam 13 casebres situados na altura de onde hoje é uma galeteria, no começo da rua João XXIII. Esse pessoal teve que sair dos seus casebres por ordem dos Guardas da Febre Amarela - SUCAM - e foram morar na rua que hoje se chama Teófilo Brandão. E veio a II Guerra Mundial. Tudo, na praia era silêncio. A mulher do pescador, Luiza, e a sua neta, seguiam para buscar alguma coisa para comer nas casas existentes no Alto do Juruá e proximidades.

Luiza também teve a profissão de "parteira", como era assim chamada. Os garotos que moravam no Alto do Juruá, quando vinham buscar frutas nos morros que rodeavam a casa, costumavam pedir licença a então Mãe Luiza e na volta, sempre deixavam um pouco de frutas eu sua mesinha. Os soldados do quartel avançado do Ante Aéreo, também costuvam ir, quando precisavam, pedir licença para tirar uns galhos de pé de pau e assim fazer a estrada até chegar ao Quartel Avançado. Tudo que existia na rua João XXIII era uma casa de seu João Balbino, onde hoje tem uma casa de comercio de madeiras, tintas, portas, tijolos e outros materiais semelhantes. Somente um morador na rua sem nome e em um bairro também ignorado. Era o ano de 1944 quando o trator derrubou a mata na entrada do morro e se fez ali uma calçada com pedras de praia.

Terminada a guerra, Mae Luiza continuava a fazer parto das mulheres, pelos idos de 1947. No Quartel do Exercito, que ficava no quadrado entre as ruas Trairy, Afonso Pena, Mossoró e Rodrigues Alves, o Comandante da Unidade dava aos moradores do morro uma sopa, todos os dias, inclusive aos domingos, dias santos e feriados. E Mae Luiza também recebia um pouco de comida que as pessoas recebiam. Eram moradores dos morros próximos. Na avenida Hermes da Fonseca, onde hoje é a Escola Maria Auxiliadora, era o então Quartel General. No resto do terreno, tudo era mato e umas trincheiras para os soldados treinar. No Morro, continuava morando Joao Balbino e lá em cima, onde o Governo construiria o Farol, morava Máe Luiza. Por tal motivo, o bairro quando se formou, passou a ser chamado de Mãe Luiza, por conta dessa parteira. O Farol ficou sendo Farol de Natal, inaugurado do ano de 1951. Essa é a história de Mãe Luiza.

terça-feira, 10 de junho de 2008

RIBEIRA - XII


Certa vez, pela manhã, por volta das 9 horas, José Leandro mandou que o garoto fosse fazer a cobrança dos alugueis dos quartos que ele alugava aos mais pobres. Os quartos ficavam na travessa Belo Horizonte próximo a rua do mesmo nome, já no começo da rua. Para fazer o serviço, José Leandro ensinou ao garoto como se chegava até o local. O garoto já sabia muito bem. Sabia até de um pé de Tatajuba que encontrava no meio de um beco que dava entre a rua do Areal e a rua Belo Horizonte.. A tatajubeira ficava bem no meio do beco que nem nome tinha. E lá se foi o garoto com uma recomendação de cobra a todos que moravam nos oito quartos existentes na casa, de modo especial a Zé Areais que morava no primeiro quarto da vila.

Da Ribeira para as Rocas, o garoto levava um bom tempo, pois era uma caminhada e tanto. Mesmo assim, lá foi o garoto pegando a rua mais próxima que havia - General Glicério - até chegar ao ponto em referencia. Ao chegar na vila da travessa Belo Horizonte, ele bateu forte na porta serrada ao meio até que alguém de dentro perguntou:

- Quem é!!! - voz de quem perguntou.

E o garoto, sem meias palavras, respondeu:

- Cobrança do aluguel. !! - voz do garoto

A voz calou e após um bom pedaço de tempo apareceu entre a meia porta quase aberta a figura de Zé Areias, despido da cintura para cima, um bucho grande, cor pálida, olhos meio fechados, barba por fazer, cabelos assanhados de quem dormia até aquela hora. Tão logo abriu a meia porta, de modo entreaberta, o garoto enfiou a mão com o recibo do aluguel para que o homem pudesse pagar a conta que devia. Porém, pegando o recibo e devolvendo ao garoto, Zé Areias disse apenas isso:

- Ora! Diga a Zé Leandro que já paguei o aluguel, ontem mesmo. Mandei o dinheiro pelo "avalista". - voz de Ze Areias.

Disse isso e fechou a porta. O garoto continuou com o seu trabalho de cobrador, batendo em todos os outros quartos e de todos recebendo um "só pago no final da semana". Missão cumprida e o garoto voltou ao escritório na rua Dr. Barata, no edifícil d'A ORDEM. Ao chegar lá, foi inquirido por seu tio, com sua vez altiva, o rosto redondo, olhos esbugalhados, os óculos para ver melhor, pança aloprada e tudo mais que fazia de Zé Leandro um senhor do comércio:

- Recebeu?! - perguntou Zé Leandro.

- Não, senhor. - respondeu o garoto. E disse mais:

- ...Somente Zé Areias que falou ter mandado o dinheiro desde ontem pelo seu fiador. - respondeu o garoto.

E José Leandro, a receber a noticia, disse apenas.:

- Oooooora!! O fiador sou eu!! - com a cabeça entravada e baixando para refazer as contar.

Horas depois, Zé Areias apareceu no escritório, perguntando:

- Vamos ao Carneirinho? - voz de Areias.

O Carneirinho de Ouro era um bar frequentado por todos os habituais da Ribeira. O bar ficava no alto do Café Expresso, esquina da Dr. Barata com a Av Tavares de Lyra, em frente ao Armazém Potiguar. No seu interior tinha um bar repleto de bebidas e três mesas de bilhar onde a turma jogava em troca de uma cerveja ou coisa assim. O Bar vivia cheio de gente de boa postura e de linhagem diversa. Nessa ocasião, Zé Leandro apenas respondeu:

- Não! Hoje eu vou ao Lago Azul. Bebi demais, ontem. - disse Zé Leandro.

De cobrança, nem falou. E o garoto ficou ali, calado e espantado com o procedimento de seu tio. Era de se perguntar por que não falou em pagamento do aluguel? Afinal. era tudo que ele falou poucas horas antes. Cobrar de Zé Areias. Passado o tempo, ele recebeu órdens para fechar o escritório. Já era 11 horas do dia e Zé Leandro, acompanhado de Zé Areias, Rapa-Coco e o garoto, rumou para oLago Azul, um bar que ficava na rua Coronel Cascudo, em frente ao Armazém de Móveis de seu Zacarias, quase em frente à Loja de Jesse Freire. Por lá, ele ficou até doze e meia, com Rapa-Coco escorado na porta de entrada e o garoto esperando dentro do carro do seu tio, um veículo Mercury que toda vez que chegava a ladeira da Radio Poty, na av Deodoro. estancava, obrigando Zé Leandro a descer, fazendo a volta para ir pela a avenida Rio Branco, dizendo, sempre:

- Oooooora!!! Inda compro um carro que preste!!

domingo, 8 de junho de 2008

RIBEIRA - XI


O garoto, nesse dia, se lembrou de uns tempos que passou em São José do Mipibú, naquela época, bem distante de Natal. Foram ele, seu pai, sua mãe e seu irmão passar um tempo na casa de Miguel Leandro (filho do velho Miguel Leandro). Para se lembrar desse fato ele precisou, também, recordar do tempo do trem que ligava Natal a Recife. Isso, já faz muito tempo. Talvez tenha sido no ano de 1948, mais que isso. Foi uma alegria total do garoto que, com seu primo, também chamado Miguel - Miguelzinho era como o chamavam em família - vasculharam todo o centro de São José e partiram, um certo dia, com os seus pais e mais duas primas, filhas de Miguel Leandro, dono de um Cartório na Cidade, em busca de um popular "Banho de Bica" que havia em um município vizinho. A família foi a pé mesmo. Nesse tempo não tinha ónibus que transportasse pessoas de um lugar a outro.

E, dessa viagem ficou na lembrança do garoto o trem, meio pelo qual ele e sua família rumaram até São José. O trem de ferro. Uma maria-fumaça que queimava à lenha. O trem, para se bem dizer surgiu no Brasil com a Revolução Industrial na Inglaterra nos idos do século 18. Nesse período, numerosos inventos surgiram, como o tear mecânico e a máquina a vapor. Foi, igualmente, nesse tempo, no ano de 1814, que apareceu a primeira locomotiva. Em 1852, Irineu de Souza, o Barão de Mauá, deu inicio a construção e exploração da primeira linha férrea no Rio de Janeiro inaugurada dois anos depois.

Em Natal, a primeira máquina a vapor chegou no ano de 1902. Foi locomotiva Catita-03 cujo feito maior foi inaugurar no ano de 1916 a ponte sobre o rio Potengi, ligando Natal a Ceará Mirim e, depois, indo até Baixa Verde.. Por esse tempo, Natal crescia de forma lenta, conduzido passageiros até Pedro Velho (municipio) e depois foi seguindo para a Paraíba, com poucos anos por terminar no Recife. O trem também fez linha para Mossoró, viajando por Baixa Verde e de Mossoró, para Sousa, (município), no Estado da Paraíba. De Natal ao Recife o trem demorava cerca de 18 horas. Para muita gente, era uma demora e tanto. Os passageiros comiam nas estações intermediárias de tudo que aparecia. Quando o trem parava em uma estação era coberto pelo pessoal de terra oferecendo de tudo um pouco. Aquele era um meio de vida para muitos nordestinos.

A ponte de Igapó foi inaugurada pelo Governador Joaquim Ferreira Chaves, cujo nome foi posto em uma rua do Bairro da Ribeira, no dia 20 de abril de 1916, às 10 horas da manhã. A locomotiva Catita 03 também inaugurou, em 26 de setembro de 1970, a Ponte Costa e Silva, primeira de concreto, puxando vagões levando dentre outras personalidades, o governador Walfredo Gurgel. Hoje, aquela locomotiva está guardada no Museu do Trem, na cidade do Recife, Pernambuco. Entre outras locomotivas existentes, o Rio Grande do Norte uma outra que fazia o ramal Lages, Pedro Avelino, Afonso Bezerra e Macau. Umas das locomotivas que faziam linha pelo Estado, a de número 106, de fabricação inglesa, virou ao passar num pontilhão destruído pela chuva entre as estações de Oscar Nelson e São Rafael, no ano de 1956, causando a morte do maquinista Manoel Crecenso e o folguista João Pedro. Um outro acidente ocorreu com a locomotiva 400 que virou na Serra do Cabugí entre a Cidade de Lages de Santa Cruz, causando a morte do maquinista Francisco Batista. Esta locomotiva foi a que puxou os dois Trens da Esperança do candidato a governador Aluisio Alves, em 1960 nos trajetos Natal/Angicos e Natal/Nova Cruz. Na comitiva do candidato a governador estava o seu vice, Monsenhor Walfredo Gurgel, o deputado Clovis Mota, João Machado e outras autoridades.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

RIBEIRA - X



O Bonde foi o primeiro transporte de massa que despontou em Natal. Apesar do registro marcar que o Bonde chegou nessas plagas em 1908, informes mais precisos de que o transporte estava aqui no final do Século XIX, com os primeiros Bondes puxados à tração animal. Com o passar do tempo esse transporte foi mais além, indo da Cidade Alta à Ribeira e posteriormente ao Alecrim. Com efeito, do Alecrim só faltava se chegar a Lagoa Seca. Para isso acontecer, foi um pulo. Implantou-se os trilhos até o novo ponto, uma espécie de arruado, onde moravam trabalhadores que precisavam estar no emprego às 7 horas da manhã.

Então, o Bonde chegou a Lagoa Seca. Do mesmo modo, se fez a linha da Ribeira, onde o meio de transporte chegava até a rua do Areal. Com o tempo, o transporte largou de mão esse percurso, pois, afinal, ali naquele local havia pouca gente que se interessava em pegar esse meio de transporte. Então, o Bonde ficou apenas na Ribeira, fazendo a linha de quem chega ao Bairro pela a avenida Duque de Caxias, indo até a Esplanada Silva Jardim e voltando pela Rua Frei Miguelinho até alcança a Av. Tavares de Lyra, onde fazia o seu contorno. Dali em diante pegava a rua Duque de Caxias novamente para seguir com destino à Cidade Alta, subindo pela rua Junqueira Ayres, o mesmo trecho que o Bonde fazia para chegar ao bairro da Ribeira, quando se destinava em ir.

A história do Bonde, em Natal durou cerca de 50 anos, terminando em 1956. Até esse tempo, se podia ver linhas de Bonde com direção ao bairro do Tirol, com ele voltando alí do Prédio do Aéro Clube e também se destinando ao monte de Petropolis, pois era um monte mesmo. O Bonde chegava a Petropolis partindo do bairro da Cidade Alta, seguindo pela rua João Pessoa (nesse tempo o nome era outro), pegando a rua Deodoro (também tinha outro nome), chegava até a rua Trairy, seguindo até a Nilo Peçanha (o nome também era outro), subindo a ladeira do monte e chegando a av. Getúlio Vargas (não tinha nome, a rua). Dali, então, o Bonde seguia pela via até atingir um pondo já no cruzamento com a Praia de Areia Preta, onde perdurou por muito tempo. Depois disso, encurtaram os trilhos e o Bonde ficou com o seu ponto final próximo a rua Dionísio Filgueira (não tinha nome essa rua), no terminal e começo da chamada Balaustrada, uma via calçada com pedras de praia que descia para até a Praia do Meio.

Esse foi o trajeto completo da malha de trilhos do Bonde em Natal. Na Cidade Alta. ele fazia o trajecto circulando a Praça da Matriz, entrando pela Praça da Alegria e ficando onde tempos depois foi o Cine Nordeste, antes Escola de Comércio. Daquele ponto em diante, o transporte seguia para a Ribeira e, posteriormente, para o Alecrim. O Bonde que fazia o trajeto para a Lagoa Seca voltava mesmo do bairro do Alecrim. Com todo esse esquema, duas empresas exploraram esse meio de transporte de massa: a Sociedade Vale Miranda & Barros e, tempos depois a Empresa Força e Luz que chegou a importar os Bondes diretamente da França. O preço da passagem do Bonde, entre a Cidade Alta e a Ribeira, ou Petrópolis, Tirol, Alecrim e até mesmo Lagoa Seca eram de 300 réis, o equivale, hoje a 30 Centavos de Reais. Uma quantia que, hoje, nem se teria troco.

O Bonde de Natal trouxe muito divertimento para os estudantes do Atheneu, escola que ficava num trecho por onde o Bonde (elétrico) passava. Os estudantes untavam a linha do Bonde com sabão somente para ver o transporte deslizar quando fosse subindo aquele trecho. Se trouxe divertimentos para os estudantes, também trouxe tristeza para os donos da empresa: Foi quando um transporte daqueles pegou fogo, sendo destruído totalmente. O incêndio em Bondes ocorreu nos transportes da Ribeira, em frente ao Colégio Salesiano, no Tirol, em frente ao, hoje, II Distrito Naval, na Linha do Alecrim e também de Lagoa Seca. Por falar em Lagoa Seca, certa vez, um garoto colocou uma bala de revólver no trilho do Bonde e foi ficar a espera do que acontecia, sentado na porta de sua casa. Quando o Bonde passou sobre a bala, fez explodir e então o garoto que estava a uma certa distância foi duramente alvejado, tendo morte imediata.

Na rua Presidente Bandeira, por onde o bonde trafegava com destino ao bairro de Lagoa Seca, a garotada, por várias vezes, untou os trilhos do Bonde com sabão para ver o veículo derrapar ao passar e findar por descarrilar. Isso levava horas para se levantar o Bonde o colocá-lo nos trilhos, de novo. Por vezes, era um tempo que durava até o dia seguinte. Outras mensões do Bonde de Natal, era os passageiros que não pagavam dos 300 réis da passagem. Eram, de modo mais acertado, garotos até mesmo de colégio. Quando pegavam o Bonde o viam o cobrador se acercar, os garotos passavam para o outro lado do Bonde. Com isso, enganando o cobrador, os marmanjo se deleitavam folgadamente.
Para marcar o número de passageiros que tinham pago a passagem, o cobrador puxava em uma correia empendurada sobre suas cabeças, num renc-renc que anotava o numero dos que se dirigiam aos seus locais. Para seguir em frente, o motorneiro era avisado por uma sineta - din-din - que fazia o Bonde partir. No final do seu percurso, também o cobrador mudava o sentido da lança pondo de um lado para outro par o Bonde poder seguir viagem. Era uma viagem agradável aquela que se fazia de Bonde. Todo aberto para permitir a descida ou subida do passageiro. o carro tinha mais a condição de dar opção para o passageiro viajar em pé, segurando um pau que havia pregado nas laterais. Vida difícil para quem comandava o percurso e muito boa para quem fazia o trajeto.

terça-feira, 3 de junho de 2008

RIBEIRA - IX



Viver na Ribeira era o mesmo que sonhar acordado. O certo era que no bairro havia de tudo um pouco. Da farinha de trigo trazida pelos navios mercantes aos deliciosos bom-bocado, bolos que se encontrava em quase todas as casas de lanches que abundavam naquele local de ébrios e sacerdotes. Quando o garoto foi trabalhar no bairro da Ribeira jamais pensou em encontrar um mundo tão estranho como nunca tivera a ocasião de admirar. Gente muita estava ali naquele recanto de estranha atracão. Os Bancos ou casas de créditos, esses haviam naquele local e na hora de movimento, nos dias de semanas, eram todos cheios de gente buscando sacar dinheiro ou mesmo depositar em sua conta.

Certo dia, o garoto foi mandado por seu tio a fazer um depósito de um titulo em uma agência bancária do bairro. Nesse tempo, como ainda hoje acontece em certos Bancos, as Casas de Crédito abriam logo cedo do dia, por volta das 9 horas. O Banco era o mais importante do país já naquele tempo. Só tinha uma agência em Natal. Era o Banco do Brasil. O garoto foi depressa à agência que ficava em um prédio localizado entre a rua Duque de Caxias e a Rua 15 de Novembro. Isso, foi antes de ser inaugurada a agência da rua Duque de Caxias. A definitiva, até hoje. Gente, tinha demais. A pessoa entrava por uma porta de ferro e se deslocava até um balcão feito de madeira. Ali, ele viu uma quantidade de gente a trabalhar. Para o garoto, ir a uma agência do Banco do Brasil já era uma surpresa e tanto.

Com certeza o garoto já estava acostumado em ir a Bancos, como a Caixa Rural. o Bandern e mesmo ao Bancaldo. Porém, era a primeira vez que ele estava a fazer um mandado no Banco do Brasil, coisa que lhe deu uma arrepio na espinha. Antes de chegar ao BB, ele passou pela rua 15 de Novembro, correndo, segurando o dinheiro no bolso de sua camisa. A rua era chamada de rua das putas porque havia muitas mulheres em casas de certo modo, bem feitas. O fato de ser 9 horas da manhã não lhe incomodava muito pois ele acreditava que aquela hora as mulheres estariam dormindo. Ou então, nem pensava em nada.

Mas o que aconteceu lhe causou surpresa. Duas mulheres estavam sentadas na porta de entrada da casa onde moravam, provavelmente. E uma delas, de repente abordou o garoto, chamando para entrar e fazer algo que ele teve medo. Sem contar conversa. o garoto escapuliu e fez carreira, entrando no Banco, com o coração batendo forte, igual a um tambor. Nunca alguém lhe metera tanto medo na vida. O certo, é que o garoto nem gravou a fisionomia da meretriz. Quando ele estava na agência bancária, alguém lhe tocou o ombro. De imediato ele se voltou, só pensando na mulher que tentara lhe seduzir. Mas não era ela, e sim, um homem.

O garoto, que estava escorado no balcão do caixa, entre todas as outras pessoas que se aglomeravam no local, ou do homem essa recomendação:

- Garoto! Se afaste daí! Sabe por que? Isso é um caixa! E se alguém, no momento que receber o dinheiro e achar por falta de alguma cédula, você evita de levar a culpa. Por isso, se afaste do balcão.

O garoto, de imediato obedeceu ao que lhe disse o homem. Ele nunca mais se encostou perto do Caixa de um Banco e sempre lembrava aquilo que o homem lhe dissera. A partir de então, o garoto procurou guardar a fisionomia do cidadão que lhe deu uma aula de sabedoria. O tempo passou e nunca mais ele teve oportunidade de conversar com o cidadão. Um dia, um rapaz, seu companheiro, ao saber dessa história, lhe disse que aquele homem era o pai de sua esposa. Quanto tempo se passou essa aventura, um já homem feito não podia mais se lembrar. Somente que esse velho senhor, um dia morrera e o menino nunca teve oportunidade de lhe agradecer o bom conselho.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

RIBEIRA - VIII


Em certo dia, o garoto estava no escritório do seu tio Zeca, ouvindo conversa que trocavam os homens que estavam lá já há algum tempo. Eram eles Zé Areias, Rapa-Coco e um outro que lia os jornais, como fazia todos os dias, antes de ir para o trabalho. Seu nome era Gastão. Homem de pele clara, bem clara mesmo. Branca, para melhor dizer. O seu vestir era um paletó branco, calça e camisa também brancas e uma gravata para destoar com a alvura de todo o branco que o homem vestia: de cor azul ou cinza, parece. De conversa em conversa, Zé Areia lembrou de uma história ocorrida na Ribeira. Uma tatajuba. Ou tatajubeira, como era mais conhecida.

O pé de tatajuba ficava numa feira que só servia café com bolo, tapioca, cuscuz, macaxeira cozida e pão bem quentinho feito em uma padaria que ficava em frente a feira. Para se ter uma idéia, a tal feira que só vendia café, logo cedo da manhã ficava da rua Frei Miguelinho, esquina com a Ferreira Chaves. Mesmo na esquina. Do lado que havia a feira não tinha nada. Prédiu nenhum. Do outro lado, confrontando com a feira havia uma loja de ferragens. Pelo lado direito da rua Frei Miguelinho, tinha o Beco da Quarentena, famoso Beco de tanto desamor. Logo adiante ficava um prédio meio alto que era a padaria Palmas. Alí, tinha pão o dia todo. Os vendedores de pães, bolachas, biscoitos, brotes e outras coisas, apanhavam seus carregamentos logo cedo para levar aos moradores da Ribeira, Rocas e parte da Cidade Alta.

Nessa ocasião, por volta de 1930, juntavam-se rapazes e homens feitos também, para tomar seu café alí, em baixo da tatajuba, frondosa que deixava uma calma em todo o ambiente. As mulheres da "zona" também vinham saborear o café quentinho que era servido a todos e a qualquer um por um preço razoavel. Com certeza, o café saía de graça pois se cobrava mais pelo cuscuz, a tapióca, o beijú e tudo enfim. Era essa conversa que durava a manhã inteira no escritório, com Zé Areias gargalhando ao contar as passagens de cada um dos frequentadores.

A tatajuba é um pé frondoso que aqui em Natal já não existe mais. Os poucos que haviam foram pondo ao chão pela ação do machado. De arvores antigas, a tatajuba só existe para os lados do Para e Amazonas.Aqui, por esses lados, já não existe mais. E Zé Areia falava com pesar da morte de tal frontosa árvores, posta ao chão pela necessidade de se construir um novo prédio. Foi o que se deu naquele local. Com a morte da tatajuba também acabou-se a feira e o café saboroso que se vendia no local. Restava apenas a Padaria Palmas, por alguns anos ainda. Depois também a padaria acabou. Restou apenas a lembrança. Hoje, dizia Areias, não mais ninguém para recordar os velhos e famos tempos que já passaram.

Era bem certo o que Areias dizia, naquele tempo. Mas que palavras, ele abria um leque para o futuro, pois o tempo se ía e tudo que ele viveu, já nao restava mais. O homem. esse ser do seu presente, poria ao chão tudo o que ainda sobrava para dar lugar as casas de comércios que também passariam seu tempo para morrer, um dia. Quem sabe, um dia, pensando no que dizia Zé Areias o homem não tenha misericória de si mesmo.