terça-feira, 31 de março de 2009

RIBEIRA - 279

JOÃO ALVARES
No dia 30 de abril de ano de 1896 nascia João que na pia batismal recebia o nome de João Àlvares de França, filho do professor Luis Alvares de França e de Ana Isabel Alvares Pinheiro. Era o primogênito da famila de mais seis irmão - Sebastião, Francisco, Beatriz, Alzira, Alice e Gabriela. Natal, Rn, era ainda uma pequena cidade e o professor Luis de França tinha um sítio da rua Camboim, estreia, por sinal. No seu tempo, a rua Camboim nem começava da rua Jundiaí, pois essa não existia ainda. E nem terminava da rua Apodi, pois essa também nem começava naquele canto. A rua Camboim era a última rua da Cidade que se chamou depois de Cidade Alta. O sítio terminava quando começava o sitio do "Coronel" Cascudo, pai de Luis da Câmara Cascudo, homem que se projetou na cidade do Natal por seus estudos. O sítio de Luis de França ficava no seu final, onde hoje é a sede da Assen,tomando quase todo o que seria chamado de quarteirão, tempos depois. Ali, vivia João com seus pais e irmãos, à sombra dos cajueiros, mangueiras, e de outros pés de frutas, numa sombra que parecia eterna. Luís de França, além do seu sítio na rua Camboim, tinha um outro terreno, em parceria com o seu tio. O terreno ficava onde hoje está a Nova Catedral. Em 1890 até 95, Luis concordou em doar o espaço ao padre João Maria para a construção de uma Igreja. Padre João Maria Cavalcante de Brito começou naquele local a construção da Catedral de Natal, um pouco distante da velha Catedral. Mas, com a sua doença, Padre João Maria não pode dar continuidade à obra e faleceu em 1905 deixando boa parte da construção feita.
João Alvares estudou em escola particular e no Atheneu, onde concluiu o primeiro estagio dos seus ensinos. Para ir mais além, João Alvares fez os estudos na Escola Normal, em 1918, onde, ele e tantos outros, inclusive moças, receberam diploma do Professores. No ano seguinte, em 1919, João Alvares conseguiu uma colocação no Estado, sendo Mestre da Secretaria de Ensino, tendo que partir pelo sertão, já como Inspetor de Ensino. Assim, ele foi para o municipio de Pau dos Ferros, terra distante da capital para onde se chegar, tinha-se que levar um bom tempo. De lá, partiu para Mossoró, Papari (hoje Nísia Floresta), Flores (hoje, Florânea) e tantos outros sertões bravios. Na condição de Inspetor de Ensino, ele era recebido pelos professores primários de cada municipio desses, como uma sumidade, com o mais prestigiado respeito. Em 1927, João Alvares teve que ir ao Rio de Janeiro, capital da República, para fazer o mestrado em sua profissão. Foi um longo período de sacrificios. A viagem foi de navio. E com o seu final, ele voltou à Natal, tendo sido recebidos com imenças corbeles de flores e festa por todos que habitavam Natal. Em 1929, veio o seu primeiro casamento com a jovem Raymunda Barbosa de França, gente de classe fina, natural de Belém, do Pará. Contudo, esse matrimonio durou pouco tempo, pois a sua esposa faleceu em principios de 1930, não deixando familia. Para João, foi um abalo muito grande a morte de sua mulher. Ambos moravam na rua "Vai Quem Quer", hoje chamada de rua Mossoró. O sepultamento ocorreu no cemitério do Alecrim, único da cidade. O tempo passou e João conheceu uma outra moça - Reinéria - com quem veio a se casar. A jovem moça era da família Leandro. Em casa, era chamada por Néra. Os dois foram morar um uma casa na rua Camboim, onde João nascera. A moça tinha sua família que residia na Rua da Estrela (hoje, José de Alencar) e assim, ficava perto dos seus familiares, pois a casa dos pais de Néra era na esquina da rua da Estrela, onde havia um local para a comercialização de urnas mortuarias, feitas pelo seu pai, Miguel Leandro que, por sinal, ocupava o seu tempo como Tabelião do 1º Cartorio de Natal, dando emprego também, a seus filhos. Em 1935, faleceu Miguel Leandro, um abalo para a familia composta de 16 filhos, deixando a esposa, Estefânia Leandro. Quem cuidou do enfermo, antes dele vir a falecer, foi a sua filha, Néra. Passado o tempo, João e Néra cuidaram de sua vida. Em 1936, no verão, mês de dezembro, eles foram passar as férias de fim de ano na Praia de Areia Preta. Alí, so havia casebres de taipa. Em um deles se abrigava João e Néra em companhia de seus parentes, Maria do Carmo e Tenente Severino, ambos casados. No ano seguinte, 1937, João Álvares foi incumbido de fazer inspeção das escolas de Baixa Verde, onde para lá rumou em companhia de sua esposa, Néra. A mulher reclamava muito das cobras que se escondiam nas paredes da casa em que residiam. E quando João teve que voltar a Natal, a sua esposa deu graças a Deus. Certa vez, ainda em Baixa Verde, eles - João e Néra - estavam jantando quando ouviu-se uns passos de algo de não se sabia o que era. De repente, um cavalo pôs a cabeça no vão da porta do corredor e balançou-a como quem dá "boa noite" e rumou de volta por por onde o educado animal havia entrado. Foi um susto e tanto. contava Néra, aquele cavalo tão educado entrando para apenas dar um "boa noite" e avisar ao dono que a porta da casa estava aberta àquela hora da noite, até cedo, por sinal, mesmo em se tratando de uma cidade do interior. Seu primeiro filho nasceu no ano de 1938. Foi uma festa para todos os seus familiares. Nôza - Leonor - era a mais encantada com o novo rebento, quase não o tirando dos braços para inticar, assim, a sua irmã, que morria de ciumes. Em 1940, João Alvares esteve empregado no Campo de Aviação de Parnamirim, cerca de tres léguas do centro. Foram cinco anos de assombros e medos. Havia o tradicional "apagão", quando ninguém podia ficar com qualquer luz acesa, mesmo num casebre do bairro do Carrasco ou Lagoa Seca. Nesse perido de "escuridão", um homem foi preso quando transmitia via código "Morse" informações sobre a cidade, escondido, no interior de uma catacumba do Cemitério do Alecrim. Isso, foi mais que um assombro, sem dúvidas. No mesmo período, em 1942, dois fatos aconteceram em ambas as famílias Leandro e Alvares. Um, foi a morte de Dona Estefãnia, mãe de Néra, vítima de diabetes. Ela faleceu no dia 23 de janeiro de 1942, sete anos após perder o marido que morreu de um desarranjo intestinal. O segundo foi a morte de Luís de França, pai de João Alvares, que morreu vítima do coração. Em igual tempo, João Álvares estava morando na rua Trairí esquina com av Hermes da Fonseca, última casa daquela rua. Deu-se ai um fato curioso. Certa vez, em 1944, o seu filho viu uma "gravata" pendurada nas telhas do quarto da casa, uma casa isolada por todos os lados, e plantios de pés de banana anã e de mamão. O garoto chamou a sua mãe para ver a tal "gravata". Quando a mulher chegou ao quarto, mas que repente, agarrou o filho nos braços e partiu para a rua clamado: "aquilo é uma cobra!!!". Os vizinhos acorreram para socorrer dona Néra enquanto João procurou ajuda de um guarda florestal que estava no morro do Estrondo. O homem veio e mirou na cabeça da serpente, deflagrando um único tiro e acertando em cheio na cabeça da cobra. O sangue que desceu, molhou todo o lençol da cama e dona Néra juntou tudo o que podia, encharcado com o sangue da serpente e atirou na rua, pois tal sangue não sairia com uma ou duas lavagens com água e sabão, por mais que se esfregasse. O caçador advertiu que uma outra serpente deveria aparecer pelas redondezas e dois dias depois a segunda serpente apareceu numa casa próxima a que o casal morava. O homem disse mais que aquelas cobras só andavam em parelha. "Se não fosse o menino!!!", era o que dizia uma mulher que morava na casa vizinha. Da rua Trairi, João Alvares, alarmado por sua esposa, que não tirava da cabeça a imagem da cobra, tratou de vender o imóvel e adquirir uma outra casa, não muito longe, na rua Afonso Pena. E a familia se mudou para o novo endereço. Como Inspetor de Ensino, João costumava a viajar para locais não muito longe. Néra ficava em casa, visitava os parentes, às vezes iá até a praia tomar banho de mar e dar banho no seu garoto. Em 1947, veio o segundo filho. Esse foi de um parto bem mais dificil, pois a mulher estava com 41 anos de idade. A parteira, Mãe Luiza, lutou em vão para extrair a criança do útero de dona Néra. Após dois dias de sacrificio, recomendou que aquele caso estava dificil e era bom que a mulher procurasse um médico e fosse ao hospital para ter o seu filho. Chamado às pressas pelo pai da criança. o Dr João Leandro que, além de dentista era médico, buscou uma ambulancia e levou a sua irmã para o Hospital Miguel Couto (hoje Hospital Onofre Lopes) e ali foi feita a operação de retirada do garoto. Ela costumava dizer: "Foi tirado a ferro!!!". Mesmo assim, o garoto, extraido a ferro não apresentava maiores transtornos, a não ser um ferimento na cabeça causado na hora da extração. Coisa de só menos importância e que sarou bem depressa. Passado o tempo, em 1953, João Alvares vendeu o imóvel e comprou uma casa do bairro de Petrópolis. Alí, ele viveu até o dia de sua morte, a 29 de março do ano de 1958. quando uma leucemia lhe cobrou a liberdade de viver. Morreu um mês antes do completar aniversário. Na hora de sua morte, estava com ele apenas a sua mulher, dona Reinéria Leandro Álvares. Era o fim de um professor, entre muitos outros, que foi lente da Polícia Militar durante vários anos, formando soldados, cabos, sargentos e tenentes. Hoje, nem uma pedra tem afixada para lembrar o seu nome naquele Quartel. Ou mesmo, nem uma rua, praça, beco ou vila qualquer para lembrar quem foi aquele professor João Álvares de França.

segunda-feira, 30 de março de 2009

RIBEIRA - 278


PASSAGEIROS
Há algum tempo o diretor Rodrigo Garcia pode ser reconhecido por mérito próprio, e não apenas por ser o filho do grande escritor Gabriel Garcia Marquez, vencedor do Nobel de Literatura. Rodrigo desenvolveu toda a sua carreira nos Estados Unidos e ganhou destaque como operador de câmera em alguns filmes, como em "Grandes Esperanças". Foi posteriormente diretor de fotografia de alguns projetos, como "Gia - Fama e Destruição" e, na direção já comandou episódios das premiadas séries televisivas A Sete Palmos e Amor Imenso. "Passageiros" é a primeira grande produção dirigida pelo colombiano, que já havia trabalhado em projetos menores no cinema, como o drama "Questão de Vida". É uma pena perceber que tal profissional tão elogiado por seus outros trabalhos, não tenha conseguido tornar esse filme em algo mais interessante. Mas os erros não são apenas do diretor, que voltará a ser citado em breve, e já se iniciam com a premissa de suspense. Com a queda de um avião comercial, um pequeno grupo de sobreviventes passa a ser entrevistado por Claire Summers, terapeuta que procura minimizar os possíveis traumas causados pelo acidente. Com algumas sessões de terapia a mesma se deixa envolver com um dos sobreviventes e passa a investigar os motivos que estão levando seus pacientes a desaparecerem, um a um. Se uma curta sinopse já deixa pistas do que pode acontecer em "Passageiros", a campanha de divulgação do filme apenas potencializa isso, o que prejudica imensamente a produção que utiliza a estrutura básica dos suspenses que se desenvolvem mantendo as surpresas para serem reveladas em seu final.
Anne Hathaway, Patrick Wilson, Dianne Wiest, Clea DuVall e Andre Braugher, todos atores competentes, todos desperdiçados em "Passageiros". Hathaway em particular, indicada ao Oscar este ano por seu excelente desempenho em "O Casamento de Rachel",tem a performance mais incorreta do longa, sendo em parte prejudicada por sua personagem. A atriz se esforça mas não consegue fugir da caricatura, criando uma terapeuta que parece duvidar de sua capacidade, extremamente influenciável, que funcionaria mais se fosse uma colegial e não alguém que possui dois mestrados, como um dos personagens menciona durante o filme.
E Rodrigo Garcia, por sua vez, aparentemente não faz muito esforço para tirar "Passageiros" da ponta do precipício. A cena de sexo entre os protagonistas é uma das mais frias que o cinema já desenvolveu. É até estranho ver "Passageiros" nos cinemas brasileiros, visto que o filme foi ignorado pelo público americano.
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domingo, 29 de março de 2009

RIBEIRA - 277

SEGREDOS ÍNTIMOS

Parece que o mundo se fechou numa redoma onde todos vivem sem segredos. É bastante sentir o que trata o cinema. Foi ontem e é hoje. Tudo a mesma coisa. Em "Segredos Íntimos", é o tema que se debate. A intolerância religiosa, novamente em foco, como fator provocador de profundas dores na alma humana é sempre um tema fascinante. Só não precisava ser um tema tão mal-tratado como neste insano e bem arrumado "Segredos Íntimos", coprodução franco-israelense espantosamente indicada para oito prêmios da Academia de Cinema de Israel. Aliás, isso não é de admirar. A produção é israelense, por certo.
O roteiro se centraliza em Noemi (Ania Bukstein), uma jovem estudiosa, filha de rabino, que tem tanta sede de saber que espera se tornar ela própria uma religiosa. Após a morte da mãe, Noemi decide adiar seu casamento por um ano para se internar num seminário, onde aprimoraria ainda mais seus estudos. Lá chegando, porém, ela conhece a insubordinada colega Michel (Michal Shtamler) e a misteriosa estrangeira Anouk (Fanny Ardant, a viúva de François Truffaut). Estas duas mulheres mudarão para sempre a vida da protagonista.
"Segredos Íntimos" é dirigido com mão pesada e falta de sutileza, que não é de admirar. Peca pelos exageros, por interpretações fracas e por um tom novelesco que acaba por desperdiçar um roteiro que poderia ter resultado num bom filme. Sente-se, então, que oito prêmios conquistados ainda foi pouco, para um produção israelense, feito em Israel e por acaso dado pela Academia de Cinema de Israel. É pouco ou quer mais?.
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sábado, 28 de março de 2009

RIBEIRA - 276

GLAUBER ROCHA
O longa-metragem "Anabazys" surgiu em meio ao trabalho de restauro dos filmes de Glauber Rocha que vem sendo feito desde 2003 por Joel Pizzini e Paloma Rocha, filha do cineasta. As sobras de imagens inéditas dos demais filmes de Glauber vinham sendo editadas para os extras dos DVDs das obras restauradas.
Mas a quantidade e a riqueza de imagens e sons deixados por "A Idade da Terra" - assim como o interesse despertado por eles em festivais internacionais - levaram Paloma e Pizzini a transformar o material num documentário com existência independente e condições de exibição nos cinemas.
Lançado agora, poucos dias depois da data (14 de março) em que Glauber completaria 70 anos, e 27 anos depois de sua morte, "Anabazys" aborda questões cruciais sobre o último período da vida do cineasta. Elas podem ser agrupadas em dois aspectos ligados entre si: as polêmicas posições políticas assumidas por ele da década de 1970 e o impacto estético desorientador provocado por "A Idade da Terra". "E´um filme que não se pode classificar segundo as regras tradicionais, uma obra feita claramente com a idéia de que não se completa", diz o professor e crítico de cinema Ismail Xavier. "Glauber expressa todas as angústias que enfrentou na vida dele em face da história"
Ismail, que coordena a reedição da obra escrita de Glauber pela editora Cosac & Naify, diz fazer esse trabalho com "um recorte bem claro de encorajar as pessoas a assistir ao trabalho" do cineasta, sem que suas declarações políticas venham a "servir de filtro" para chegar a ele. No calor da hora, isso não foi possível.
O grande abalo político causado por Glauber, então exilado, foi uma carta escrita ao jornalista Zuenir Ventura e publicada em março de 1974 na revista Visão. Nela o cineasta defendia o apoio a uma suposta ala moderada ou progressista do Exército que conduziria a transição para um regime civil. Glauber elogiava o presidente Ernesto Geisel e o General Golbery do Couto e Silva, estrategista do governo militar a quem chamou de "gênio da raça".
"Anabazys" examina demoradamente o episódio e seus possíveis significados. "A leitura da realidade feita por Glauber era a de um artista" diz Joel Pizzini. "Sua intuição sobre política não pode ser analisada do ponto de vista teórico". Nem por isso, observa Ismail, o cineasta deixou de pagar um preço alto por suas declarações após a exibição de "A Idade da Terra" no festival de Veneza de 1980. O filme foi execrado nem tanto por sua estranheza formal, mas porque teria sido financiado pelo regime militare estaria a serviço de forças de direita. Glauber protestou veementemente no palácio do festival, com sua gestualidade e franqueza verbal caracteristicas, e tudo isso teve ampla repercussão.
"Foi uma experiencia muito traumática para ele ter feito um filme visionário numa época de crise, quando o cinema industrial americano cooptava autores como John Cassavetes e Louis Malle", diz Pizzini, citando dois dos cineastas em competição no festival de Veneza daquele ano. A tensão vivida por Glauber na época foi um dos motores da criação de "Anabazys", na medida em que faz parte das memórias de Paloma Rocha, que trabalhou como continuista e atriz no filme do pai. O "viés afetivo", nas palavras dos realizadores, e a preciosidade do material que tinham em mãos os levou a dar um tratamento glauberiano ao que de início tendia a se circunscrever ao registro histórico.
Isso significou, segundo Pizzini, "desblocar" a edição que havia sido feita originalmente para o DVD, com seu formato adequado ao menu interativo, e criar um novo filme, em que "A Idade da Terra" se relaciona com trechos de outros títulos de Glauber, além de dar ao cineasta baiano a voz do narrador. Sobretudo, buscou-se "um fluxo mais livre, mais circular. às vezes delirante" em consonância com o estilo glauberiano. Foram suprimidos os créditos de identificação - "A Idade da Terra" é célebre por não conter nenhum letreiro e quase nenhuma palavra escrita - e tentou-se incorporar alguns conceitos estético-narrativos de Glauber. como a montagem nuclear, pela qual as sequencias do filme podem ser vistas em ordem independente (o diretor queria, no caso de "A Idade da Terra", que essa decisão ficasse a cargo do projecionista a cada exibição).
"Anabazys" resultou numa colágem com a grande abrangência que Ismail aponta como caracteristica dos filmes de Glauber. Misturam-se cenas de vários filmes com entrevistas em vídeos e áudio, trechos nas aparições do cineasta no programa de TV Abertura e bastidores de filmagens. Debatem-se questões políticas, estéticas e religiosas, e fala-se muito do cinema no Brasil, pelo qual Glauber trabalhou não só como autor, mas também como historiador e articulador. Sobre o estado geral da arte e da industria, ele diz em "Anabazys' uma frase lapidar: "Uma coisa é conquistar o público; outra é explorar o público".
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sexta-feira, 27 de março de 2009

RIBEIRA - 275

"CHE"

O médico e revolucionário (entre outras coisas) argentino Ernesto "Che" Guevara é uma figura tão polêmica quanto fascinante. Assim sendo, sua trajetória comporta bem mais do que um único filme. No caso do diretor Steven Soderbergh, ele fez dois, o primeiro deles, "Che", chega aos cinemas de São Paulo, Rio e Campinas, nesta sexta-feira, 27 de março. Certamente, Soderbergh não foi o primeiro a inspirar-se na aventurosa vida de Che. Em 2004, o brasileiro Walter Salles dirigiu "Diários de Motocicletas", baseado num livro de memórias de uma viagem da juventude do médico argentino.
No ano passado (2008), o documentário "Personal Che", de Adriana Marina e Douglas Duarte, mostrou o quanto o personagem é visto por vários ângulos, desde vilão até santo milagreiro. O filme de Soderbergh não busca responder quem foi realmente Che Guevara e qual a sua importância para a história do século 20. Trabalhando a partir de um roteiro assinado por Peter Buchman, baseado num livro de memórias do próprio revolucionário, o diretor filma com distanciamento quase documental dois momentos na vida do personagem: a campanha para a tomada do poder em Cuba, em 1959, e a visita à ONU em Nova York, em 1964.
Filmada em preto-e-branco, com uma imagem com aspecto de envelhecida, a viagem de Che (Benício Del Toro, premiado como melhor ator em Cannes 2008 por esse trabalho) intercala as cenas de guerrilha ao lado de Fidel Castro (interpretado por Demián Bichir). Nos Estados Unidos, o revolucionário se torna santo e demônio ao mesmo tempo.
Para o governo norte-americano, ele é uma força que deve ser reprimida antes de espalhar a revolução pelo resto do continente. Para outras pessoas, ele se torna quase um ícone pop. imagem que foi reforçada com a famosa foto de Alberto Korda, estampada em camisetas por todo o mundo, tornando-se o panfleto ambulante dos esquerdistas. Uma fala central em "Che" é dita logo numas das primeiras cenas, por Raul Castro, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro: "O importante não é tomar o poder; é saber o que fazer com ele". Soderbergh, porém, está mais interessado em mostrar como Che e seus aliados tomaram o poder e não com o que foi feito depois da derrubada do ditador Fulgencio Batista. Por isso mesmo, Che é visto mais no meio da floresta, atuando na guerrilha, do que nos corredores do poder. A contraposição entre as cenas de luta e a burocracia na visita à ONU faz lembrar que toda revolução precisa, em certos momentos, de diplomacia e negociação.
No centro da obra de Soderbergh está o comprometimento de um homem com seus ideais. Se aqui o diretor mostra a ascensão de Che, com a Revolução Cubana, na segunda parte, "Guerrilha", prevista para estrear nos próximos meses, o diretor explora a queda, com o fracasso da tentativa de revolução na Bolívia, que culminou na morte do guerrilheiro, em 1967. De qualquer forma, seja nos corredores da ONU, numa festa chique em Nova York ou tendo um ataque de asma em plena selva, o Che Guevara que vemos na tela é uma figura tão fascinante quanto emblemática, uma pessoa disposta a lutar por seus ideais, seja pegando em armas ou duelando com palavras.
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quarta-feira, 25 de março de 2009

RIBEIRA - 274

ALEXANDRA MARIA LARA
Depois que ela fez o papel da secretária de Hitler em "A Queda", todos querem filmar com Alexandra Maria Lara, estrela do novo filme de Francis Ford Coppola. Seu sucesso lá fora, no entanto, não se repete na Alemanha.
Nascida em Bucareste, em 1978, Alexandra Maria Lara fugiu com seus pais do regime de Ceausesco quando tinha 4 anos. Criada em Berlim, Alexandra Maria Platareanu mudou seu nome para Lara em homenagem à amante de Omar Sharif em "Dr. Jivago". No cinema, ela foi descoberta pela diretora alemã Dorris Dorrie, no filme "Nu", em 2002. Dois anos mais tarde, no papel de Traudl Jung, a secretária de Hitler em "A Queda", chegava sua hora de estrela. A partir de então, os convites para filmar com renomados diretores internacionais não pararam mais de chegar.
Alexandra Maria Lara, a menina com olhos de gazela, é considerada hoje a grande promessa alemã para Hollywood. A imprensa de seu país, no entanto, não divide a mesma opinião dos famosos diretores. Incentivada pelo seu pai, o ator Valentin Platareanu, que chegou a ser vice-diretor do Teatro Nacional na Romênia de Ceausescu, a atual namorada do ator britânico Sam Riley começou sua carreira em séries de televisão alemã aos 11 anos de idade. Ao desfilar no tapete vermelho de Hollywood ao lado do ator Bronu Ganz, que fez o papel de Hitler em "A Queda", candidato ao melhor filme estrangeiro no Oscar de 2005, não somente Coppola deixou-se encantar por seus talentos. Desde então caíram convites internacionais. Somente no ano passado, Maria Lara atuou no novo filme do diretor americano Spike Lee, "Milagre de Sant'Ana", na produção britânica "Controle", do holandês Anton Corbijn sobre a vida do vocalista Ian Curtis: em "Poeira do Tempo", do grego Theo Angelopoulos; e no novo filme de James Ivory, "Cidade do Seu Destino Final".
Além de sua participação no júri do Festival de Cannes em 2007, seu desfile no tapete vermelho hollywoodiano também lhe valeu o convite para estrelar no novo filme de Francis Ford Coppola. Apesar de dizer que adora filmar no seu país, Alexandra Maria Lara não participou de nenhuma produção alemã nos ultimos anos. Com tanto trabalho, ela recusou o comvite de Tom Cruise para participar de seu novo filme rodado na Alemanha, "Operação Valquíria", onde deveria novamente fazer um papel de uma secretária.
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terça-feira, 24 de março de 2009

RIBEIRA - 273

ARCA RUSSA
O russo Sergei Eisenstein, um dos grandes nomes da história do cinema e teórico refinado, via a montagem como a alma dos filmes. Para ele, o sentido da obra não estava nas cenas, e sim no encadeamento entre elas. Essa idéia ainda vigora. Mas outro russo, Alexandr Sukurov, decidiu ser do contra. Fez um filme sem montágem, rodado em um único plano-sequencia, uma longa cena sem corte. O resultado desse feito, nunca antes alcançado, é o monumental "Arca Russa". São 96 minutos filmados sem interrupções e com mais de dois mil figurantes.
A sensação de ação é dada apenas pelo movimento da câmera e dos atores em 35 salas do museu L'Hermitage, em São Petersburgo, ex-palácio dos czares, onde os quadros e três décadas da história da Rússia convivem em melancólica harmonia. Perfeccionista, o diretor exigiu que nenhum ruído fosse feito durante a gravação. Marcou as posições dos atores com o rigor de um coreógrafo de balé. Distorções sonoras e visuais foram corrigidas por computador depois da filmagem e o material captado em vídeo foi transposto para a película. Foi uma realização épica.
Para cumpri-la, Sukurov esperou 15 anos. Antes da tecnologia digital, que permite filmar por mais tempo sem cortar, seria impossível a produção de "Arca Russa". Sukurov teve de pedir para fazerem uma alteração em uma câmera digital de alta definição. O aparelho foi amarrado na cintura do diretor de fotografia alemão Tilman Buttner, que se locomovia com o material de 30 quilos sem poder errar. Antes, porém, houve muito ensáio. Oito meses de dedicação exaustiva a cada detalhe.
O diretor é de uma ambição sem medidas. Tateia uma noção de identidade russa em sua empreitada. Ela está dividida entre a tradição eslava e a vontade de ser européia, algo traduzido pela convivência de dois narradores fantasmagóricos. Um é invisivel e russo. O outro, visivel, é europeu Ambos andam diante dos quadros como se fossem ectoplasmas perdidos e sem bússola para o futuro. Esses dois guias um tanto confusos ciceroneiam o espectador pelas várias portas abertas de "Arca Russa". É um grande filme. Principalmente porque subverte a técnica em benefício de sua proposta. Alfred Hitchcock fez apenas oito cortes quase imperceptiveis em "Festim Diabólico", porque tinha de trocar o negativo a cada dez minutos. Sukurov fez de "Arca Russa" um clássico - e mostrou que o cinema é diferente de todas as outras artes.
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veja também: http://www.rnsites.com.br/. e http://nataldeontem.blogspot.com/.