segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 53 -

Ginger Rogers
- MEIAS DE SEDA -
- 53 -
No sitio de Jubal que ele conservava próximo da linha de passagem do trem, José, o rapaz que ajudava a cortar feno, agora tinha também outro ajudante de nome Ezequías que cuidava do plantio enquanto José cuidava do outro sítio ao lado vez que seu Osias não podia mais dar conta por causa da sua saúde debilitada. Osias tinha amputado a perna direita e com isso procurou mais ficar na sua casa, pois era muito esforço para ele, de muletas, sair para o sitio, o segundo sitio que Jubal comprou de Osias. Então, José ficou dividido com os seus afazeres além de ter que fazer a conferencia das vendas da granja de Mangabeira – Fazenda dos Dois – onde tinha muito mais que se fazer. A fazenda era entregue ao homem, senhor Miguel, o qual cuidava da venda das frutas e tomava conta do gado e cavalos, além de porcos, cabras, carneiros e até galinhas. Nos dias de feira José estava em Mangabeira e só voltava no outro dia. Para tanto, ele se montava no cavalo de nome Pintado uma vez que o Otário cara de vez em Mangabeira. Para visita cotidiana, Jubal passava pelo sitio, conversava um pouco, orientava o que estava se fazendo e depois saia para outros lados. Às vezes chamava José para dar-lhe orientação com respeito ao Zeca (José Bento) não falando nem no nome do rapaz, fazendo somente um gesto com o dedo no olho:


--- Olho nele! – queria dizer Jubal, pois após a saída de Osias do sítio o homem ficou solto de canga e corda.

Os encontros mais festivos eram no sábado para o domingo, quando Jubal e sua esposa, Natália além dos filhos destes, almoçavam, jantavam, tomava café na Fazenda dos Dois onde tudo era alegria geral. José aproveitava o instante para dar seus namoricos com a filha do caseiro da Fazenda, Manoel de Tal que sempre olhava os dois para evitar agarração. O nome do caseiro era Manoel de Tal, sem sombras de dúvidas. A filha do caseiro se chamava Dulce. Porém, todos a chamavam de Dudu. Vez por outra José e Dudu se embrenhavam mato adentra e lá faziam o que tinham gosto ou o queriam fazer. Ela era uma garota de 17 anos coisa igual com a idade de José. E passavam horas e horas até surgir cheios de matos, capim, pega-pinto entre outros lances. Eles chegavam desconfiados e quanto se perguntava:

--- Onde estavam? – perguntava Manoel com a cara azeda.

--- Vendo as vacas. – sorria Dudu puxando no braço do seu companheiro de fuzarca.

--- Pois sim. Se as vacas estão desse lado! – respondia Manoel com desconfiança.

--- É as vacas amojadas! – sorria Dudu para aquietar seu pai.

--- Esse tempo todo? – perguntava novamente Manoel de Tal mais ainda desconfiado

--- É que elas estão para dar cria. – respondia Dudu sorrido.

--- Quero ver a cara desse bezerro! – relutou Manoel, com seu cachimbo na boca e se virando para o outro lado.

No dia seguinte, segunda-feira, Jubal já estava, bem cedo, no sítio que foi do velho Osias e que ele arrematou por uns níqueis a mais. No lugar, Jubal já estava a conversar com seu Libório, dono de uma caminhoneta que estava propenso a comprar o excedente do feno que sobrava depois de Jubal despachar os primeiros fenos para o Esquadrão da Policia e a Prefeitura da Cidade. Com isso, mesmo vendendo aos carroceiros, ainda sobrava feno para outros donos de cavalos e asnos, gente que guardava mais de mil animais em toda a cidade, dentre eles seu João Freire, seu José Freire, seu Joaquim e muitos outros donos de asnos da capital. O acerto foi de Libório levar o feno em troca de pagamento na hora. Libório “chorava” porque os que compravam não tinham nunca dinheiro na hora. Jubal dizia em troca:

--- Dê um jeito. O negócio é esse!- - falava Jubal sem muito entusiasmo no assunto.

--- Mas seu Jubal? – reclamava o homem estirando assim a conversa.

Mesmo assim, ficava a palavra do mais forte: Jubal Valadares. Depois dos acertos, Jubal passava em vista o que estava havendo do sítio de Osias – que já era dele -, orientava Zeca, o caseiro do sítio de Jubal, voltava ele para o sitio antigo, conversava com José assuntos diversos, olhava o trabalho de Ezequias que, no fim das contas sempre argumentava com José, neto de dona Eunice, doméstica de sua casa:

--- Não gosto desse rapaz! – dizia baixinho para somente José ouvir.

O rapaz José ficava meio desconfiado e nada proferia. Após certo tempo, com Jubal olhando o resto do telhado da casa de guardar instrumentos de trabalho, ele, sem comentários, saía devagar e sempre para o seu carro, no alto da Rua Ocidental. E dali seguia ladeira à fora pensando em Natália e no que a mulher lhe disse que certa vez conheceu uma senhora de nome Vitória e que perguntou a sua mãe.

--- Olá Corina. É a menina que você cria? – perguntava Vitória de corpo descomunal.

No Mercado da Cidade, Jubal já estava no seu lugar reservado para tomar café, comer mungunzá e jogar conversa fora. O local era o Café de Nazinha freqüentado pelos mais diversos tipos de gente. Os talhadores de carne ficavam próximos ao Café e sempre ofereciam a sua carne de gado à freguesia.

--- É dez! É dez! É dez! Levando tudo faço por nove. Dez! Dez! Dez! Vai querer freguesa? – falavam os talhadores.

Jubal já nem mais se azucrinava com a gritaria dos talhadores. Apenas fazia de conta que não ouvia. Nesse dia, a mulher Nazinha tinha outra conversa. Ela sempre trazia uma conversa nova e diferente. Então, sem mais nem menos, aproveitando o sossego da freguesia do Café, perguntou a Jubal:.

--- Já viu a senhora? – perguntou Nazinha a Jubal pondo as costas para o lado dos Cafés adjuntos.

--- Que senhora? Não vi não! – respondeu Jubal surpreso e querendo saber mais.

Nazinha mexia um caldeirão cheio de mungunzá bem apressada como nunca. E olhava para Jubal e o caldeirão para evitar do mesmo “queimar” e por seu mungunzá a perder.

--- A dona! A Doca! Mulher infeliz! Agora é espírita! – respondeu Nazinha sem se voltar do canto.

Jubal então sorriu e disse à mulher que mexia com pressa o caldeirão de ferro quase cheio de mungunzá.

--- Mas vocês não se entendem! Deixa a mulher em paz. Espírita é como qualquer outra religião. – comentou Jubal sem fazer cerimônia.

--- Como qualquer outra, não! Eu sou católica apesar de não freqüentar a Igreja. Mas sou católica. E ela é espírita. – reclamou Nazinha com muita raiva.

--- Veja! Tanto faz espírita como católico, protestante, judeus e até mesmo maçons. Tudo é uma coisa só. Se uns prestam é por que recusam o não prestar. Tudo é uma coisa só. Eu conheço dona Bela que é uma senhora muito católica. Já tem outras, como dona Joaquina, que é crente. Tudo é uma coisa só. – respondeu Jubal tentando contemporizar a situação.

--- É. Mas ela é espírita do brejo. Dá ataque. Fica se tremendo toda. E não reza, tem mais essa! - fez crítica dona Nazinha ao seu freguês de sempre.

Jubal sorriu de fazer vergonha. E Nazinha ficou olhando para perguntar de vez:

--- Inda acha graça? Pois fique sabendo que ela conversa com os espíritos. Até mesmo com a filha dela. A Zilene. O espírito dela vem dizer coisas do passado. Taí! Pronto! O senhor não acredita? Pergunte a ela! Vá lá! Pergunte! – recitou a mulher Nazinha com os bofes saindo pela boca.

--- Besteira! Cada um pensa o que quer e o que pode. – fluiu Jubal a Nazinha.

--- Sabe quem me disse? A empregada. A cozinheira. Uma mulher que foi com ela até a Casa de não sei o que. – respondeu zangada Nazinha.

--- Centro Espírita. – respondeu Jubal desalentado.

--- Centro o que? É isso. É essa coisa mesmo. – respondeu Nazinha mais braba ainda.

--- Eu não sei. Falar com Zilene? Ela morreu faz pouco tempo! – falou Jubal não acreditando muito bem.

--- É. E tem mais: a morta deu o nome de uma loja para ela comprar um livro! – rebateu a mulher de forma espantada.

--- Qual loja? – perguntou Jubal um tanto curioso.

--- Não sei. Parece que o nome era Cortina de não seu o que! – respondeu a mulher de forma zangada.

--- Cortina de Pérola? – perguntou Jubal com persistência.

---- Isso! Isso! É essa Cortina que o senhor fala. – respondeu Nazinha moendo o milho.

--- Eu sei onde fica. É logo aqui, em frente ao Mercado. No andar de cima. – falou Jubal quase correndo para ir dizer a Doca.

--- Pois é. E a bruxa não encontrou nunca. Sei não. Esses espíritos têm cada uma! – respondeu Nazinha mexendo o caldeirão de ferro.

Passado o tempo e Jubal teve a idéia de procurar dona Doca para ver se ela encontrou o livro que a moça havia dito. Afinal, Zilene estava morta e não tinha por que temer a raiva da sua mãe. Tudo o que aconteceu era passado. Nesse momento, ele só temia a Deus e nada mais. E caminhou por um tempo por locais diferentes até chegar ao Café de dona Doca onde teceu seus cumprimentos e perguntou à mulher se já havia achado o livro que o espírito de Zilene havia recomendado.

--- Não achei. E acho até que o espírito era de outra pessoa. Já estou desconfiada de tudo. – reclamou dona Doca sem querer olhar para Jubal.

--- Pois bem. A senhora me desculpe pela minha entrada de qualquer jeito. Mas, eu digo que a Cortina de Pérola fica aqui em frente ao mercado, no seu primeiro andar. É uma salazinha de nada. Pertence ao velho Jacó. Ele tem muitas coisas antigas. Livros principalmente. Se a senhora quiser, pode ir até a loja de Jacó. Pode ser que ele tenha o livro. Como é o nome do livro? – perguntou Jubal olhando para Doca.

--- Como é o nome Hermínia? – perguntou Doca a cozinheira sem se virar para Jubal e de forma mais que tranqüila.

--- A moça está dizendo que é: “Anjos”. Ela me falou agora. “Anjos”. É esse o nome. – respondeu Hermínia.

--- E minha filha está aqui? – perguntou de surpresa a mulher que só voltava às costas para Jubal.

--- Está. Junto à senhora. Ela diz que a senhora faça o favor de olhar para o senhor Jubal. Não guarde rancor por nada.

--- Desculpe meu senhor. Foi minha filha quem pediu para eu olhar para o senhor. – respondeu Doca para Jubal de rosto abaixado.

domingo, 22 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 52 -

Maureen O'Hara
- MEIAS DE SEDA -
- 52 -
No dia do casamento de Jubal e Natália não foi tão simples assim. Para se adornar, Natália ficou em sua casa onde teve a ajuda de sua “filha”, com se chamava a jovem moça de 20 anos de nome Mirna. Além de Mirna, outras pessoas amigas estavam na casa de Natália. Vizinhas; comadres, conhecidas, amigas. Eram as arrumadeiras que se encontravam presentes na preparação dos arranjos, como vestido de noiva branco e longo, grinalda para por na cabeça, véu comprido de arrastar no chão, sapatos brancos, luvas, bolsa branca e sem falar nas meias, por sinal, de seda. Com todo o cuidado, a mulher, Natália, se vestia com aprumo e elegância que sempre fazia uma mulher no dia do seu primeiro casamento. Apesar de todo o cuidado possível, a meia de seda de Natália arrastou um fio, coisa imperceptível, ao longo de seu comprimento deixando a noiva inquieta a chorar.


--- Não pode ser! Logo agora? E comigo? Esperei tantos anos para vir logo acontecer comigo? – pronunciava Natália a prantear o fato de a sua meia ter se rasgado furtiva e delicadamente ao longo do seu trajeto que percorria do pé a coxa.

--- Espere! Não chore! Deixa de agonia! – dizia uma das comadres.

--- A gente ajeita! – dizia Mirna com todo o seu cuidado em rematar a noiva.

No entanto, nada era possível fazer. Apenas um simples fio de seda aberto acabou com a festa da mulher de seus quase quarenta anos. A noiva chorava com todo o rigor de que entra em um estado de depressão. Arranjos florais estavam postos a cama ao passo que o buque de nova feito de rosas puras e brancas encostado igualmente na penteadeira não faziam diferença para Natália. E nesse redemoinho de puras emoções descontroladas alguém falou:

--- Aqui perto tem uma lojinha de arranjos de noivas! – falou a mulher despreocupada.

--- Então chegue até a lojinha e veja se tem um par de meias para ser usada! – rebateu Mirna aquietando a noiva.

--- Aleluia! Aleluia! – declarou uma comadre alegre e festiva.

Naquele instante preciso, Mirna foi de imediato com a comadre de Natália ver se a mulher dispunha a tempo de meias de seda e que pudesse vender após explicar o que acontecera com ao outro par. Dos muitos modelos apresentados, Mirna escolheu dois e falou que estava levando sob condições. A mulher do Bazar das Noivas deu sim como resposta e, alegremente, destacou que esse tipo de situação era o sacrifício das noivas quando estavam com pressa de casar. E Natália era uma das quais. Foram sorrisos a valer. E em um instante Mirna e a comadre de Natália estavam de volta com novos pares de meia de seda. Para o contentamento da noiva, um dos pares bem que dava certo, pois era da mesma cor do vestido em cetim brocado de renda italiana. Era um magnífico vestido de noiva bem aceito pela sociedade do momento. Enfim, ao caso Natália deslumbrante e bela, chegou a Catedral com quinze minutos de atraso como era praxe de acontecer: a noiva sempre atrasar para o seu primeiro casamento. Na Igreja Matriz estavam já a postos todos os convivas, desde padrinhos ao majestoso pessoal, convidado tanto pelo noivo Jubal Valadares Guimarães e a suntuosa noiva Natália Coimbra que, após a cerimônia, teria o sobrenome do marido: Guimarães.

Dona Chiquita, mãe do noivo, com sua bengala, era uma das mais entusiasmadas com a majestosa festa. Outras que fizeram festa mesmo na Catedral eram as filhas e filho de Jubal, o garoto Otavio, e as mocinhas Olinda e Oceanira. De outra parte, a irmã do noivo Carmen e os seus filhos Ricardo e Roberto. Da parte de Natália, tinha a sua filha de criação, chamada Mirna além das comandes, amigas e gente próxima. A festividade era em um suntuoso local que era próprio para tais comemorações. Uma orquestra animaria a festa tendo ao piano o mais conceituado maestro, Oscar Novaes cujo requinte era magistralmente o de se notabilizar por tocar em festas de casamento, noivados, debutantes, saraus além de acompanhar a grande Orquestra Sinfônica local uma das prestigiadas Orquestras da região cujo nome atravessou fronteiras.

A festa de casamento atravessou a madrugada quando a lua crescente já imaginava já por demais tarde. Os noivos recém casados voaram para um novo esconderijo em local plenamente desconhecido onde se ouvia o bater das ondas a marulhar nas pedras quando o silencio era total. Em local ermo e descuidado ainda dormiam os recém casados sob um céu de flaboian onde ninguém acordava para se ingerir a primeiríssima refeição da manhã. Como deslumbrar chuva de prata era o luar que ascendia os corações medrosos dos apaixonados. A noiva quieta dormia e não ouvia nada além do seu eterno respirar. Quando a manhã já era alta com o sol ao cume uma vitrola tocava uma melodia dolente fazendo com que Natália se espreguiçasse toda e voltou o seu olhar para o homem adorado que apenas procurava um beijo do amanhecer.

--- Dormistes como um anjo, querida. – falou Jubal ao dizer que aquele momento era um instante de amor que não passaria nunca mais.

--- Bobo! Nós já podíamos ter isso há muito tempo! – sorriu Natália infantilmente.

--- Mas eu não te conhecia, amor! – sorriu Jubal para a bela dama.

--- Porém eu te conhecia há longo tempo. – respondeu a mulher com alegria.

--- E por que tu não me procuraste antes? – perguntou Jubal com espanto

A mulher sorriu e fez um aceno com a mão como quem dia: “Deixa pra lá, homem”. E novamente beijou o seu marido.

Quando à tarde já morria a mulher procurou arranjar suas vestimentas de noivado em uma caixa forrada de veludo. Quando Natália pos as meias de sedas no lugar, ela se lembrou dos outros pares de meias e com isso ternamente sorriu. O marido a vendo sorrir pergunto de que estava lembrando.

--- Nada! Besteira! Eu apenas fiz um dramalhão a vestir as minhas meias e notei que um dos fios havia se soltado. Quase o mundo caiu. Mirna teve que ir comprar outro par de meias. – sorriu Natalia com muito vagar.

--- Interessante! Um par de meias por sinal de seda quase acaba uma felicidade para longos tempos! – falou Jubal ao encostar-se ao corpo da amada.

--- Pois é. Um par de meias. – sorriu Natalia pensativa.

--- Em que estás a pensar? – perguntou Jubal um pouco atento.

--- Em nada ou em tudo. Você disse que eu me parecia com sua ex-mulher. Eu disse que eu e ela fizemos presepadas no colégio onde estudávamos. Tudo aí, muito bem. Acontece que as aparências enganam muito. Você sabe disso muito bem. Mas, ontem, ao terminar a solenidade na Catedral, quando saiamos, uma mulher de certa idade, veio me dizer que eu estava casando com o ex-marido da minha irmã verdadeira. Eu fiquei atônita. Mas a mulher desapareceu. Eu me lembro que um certo dia, a minha mãe vinha comigo pela rua da Cidade e uma mulher – parece que seu nome era Vitória – perguntou a ela:

--- Olá Corina. Essa é a menina que você cria? – falou Vitória.

--- A minha puxou pelo meu braço e atravessou a rua sem dizer uma palavra. Eu nunca me esqueci desse fato. Eu era pequena. Muito pequena. Mas me lembro como hoje. – relatou Natália com angustia.

--- E você nunca perguntou à sua mãe? – perguntou Jubal com espanto.

--- Não. Não. Eu queria muito bem a minha mãe. Às vezes eu olhava para ela e sentia vontade de perguntar. Mas eu sei que ela não diria nada. Se foi ou se não era. No muito ela diria:

--- Quem disse isso? – diria a mãe de Natália.

--- Eu pensava duas vezes e terminava por não perguntar. – declarou ensimesmada Natália já chorando.

--- É muito estranho o que você está me dizendo! – falou Jubal pensativo.

--- E Nora nunca tocou no assunto? –perguntou Natália levantando a cabeça.

--- Não. Nunca. – disse Jubal remoendo a lembrança.

sábado, 21 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 51 -

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- MEIAS DE SEDA -
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Na segunda-feira, sete horas da noite, dona Doca já estava sentada em um banco de madeira no Centro Espírita para assistir a primeira sessão. Ela estava acompanhada da sua ajudante Hermínia quando a sessão começou com a leitura do livro Evangelho dos Espíritos como forma de tradição nas sessões dos Centros do mundo. Após um amplo discurso feito pelos mestres espíritas alargando seu amplo conhecimento sobre a luz do espiritismo, negócio que durou uma hora, veio então a segunda sessão quando as luzes eram desligadas ficando acesa uma em cima da mesa. Dava a impressão que não se via ninguém na sala totalmente lotada e com mais gente pelo lado de fora, vendo tudo pelas janelas. Os passes eram dados em cada uma das pessoas, cerca de dez, que seguiam em absoluto silêncio até um local vastamente escuro por trás da parede que dividia o Centro das salas de passes. Eram todos os seguidores do espiritismo a tomar passes. Na sua vez, Doca foi chamada para a mesa do Centro, com sua amiga, onde se sentou, com muito temor. Um Mestre se pôs por trás de Doca, com suas mãos sobre a cabeça da mulher e se ouviu um grunhido de alguém com a cabeça abaixada e dizendo palavras desconexas:


--- Que a luz divina esteja com você, minha irmã! – rezou o mentor que estava por trás de Doca.

--- Eu sei. Eu sei. Hum. – fez a mulher incorporada.

--- Que a Irmã procura? – perguntou o Mestre.

--- Eu procuro paz. Mas não encontro! – respondeu a incorporada.

--- A Irmã tem algo a dizer? –perguntou o Mestre.

--- Tenho sim – disse a incorporada após fazer gestos com a boca.

--- A Irmã já não está nesse mundo. Volte para o seu verdadeiro mundo de paz. – disse o mentor.

--- Não. Não. Eu quero falar. A mulher que o senhor está com ela, não é a mulher que eu quero. Eu quero a outra. Dona Hermínia! – respondeu o espírito incorporado.

--- E por que a Irmã quer a outra Irmã? - perguntou o mentor.

--- Porque essa está coberta por sua filha e ninguém pode entrar. - disse a mulher obsedada pelo espírito de outra mulher.

--- Então diga o quer está precisando? – falou o mestre.

Ouve um silencio sepulcral no ambiente quando a situação tomou um outro rumo. Um outro espírita tomou o lugar da obsedada e logo foi dizendo.

--- Essa mulher que vocês estão orientando é a minha mãe! – respondeu o espírito.

--- E que a irmã tem a dizer? – perguntou o segundo mestre.

--- Ela deve rezar pelos que estão em volta do seu aparelho e não se zangar com o meu pai. Ele está enfermo por alguns dias. Vai se curar. Ela não deve temer. Eu sou Zilene. Já tivemos outras vidas juntas. Ela era a minha irmã. Eu senti a sua partida quando se foi. Eu vim buscar o seu amparo. Porém voltei a perder o meu contato. Ela deve rezar por todos nós. Eu estou sempre ao seu lado. – falou Zilene devagar.

Em seu canto, Doca chorou demais como se fosse uma criança. Pedia perdão a Zilene por tudo quanto tinha feito.

--- Perdão, filha! Perdão! – disse Doca a chorar copiosamente.

--- Minha mãe. Você foi minha irmã! Veja perto do Mercado a casa Cortina de Pérola onde a senhora vai encontrar um livro escrito por uma autoridade. A senhora não sabe ler. Mas Hermínia sabe. Peça para que leia para a senhora. Por favor. Agora eu vou partir. Sempre estarei ao seu lado. – disse o espírito. Fazendo um gesto, desapartou da médium.

Dona Doca foi levada para o salão de passe, onde com muito choro, tomou seus passes perante dois assistentes que pediram para a mulher voltar no dia seguinte, uma terça-feira para ver como se sentia e como estavam as suas angústias. Nesse momento Doca sofreu um desmaio aparentemente por ter falado com a sua filha. Os médiuns levaram para um quarto de enfermagem e uma enfermeira – que era espírita também – fez fricções nos pulsos e colocou amoníaco no nariz da mulher. Com pouco de tempo, Doca estava retornando de sua síncope. Os médiuns espíritas já agoniados esperaram por um tempo até que a mulher se restabelecesse.

No dia seguinte, a mulher recomendou para que Hermínia procurasse por uma loja nas imediações do Mercado, que tivesse o esquisito nome de Cortina de Pérola. Tão logo teve tempo à mulher saiu à procura de tal loja ou armarinho com o bendito nome. Hermínia foi de casa em casa, até em hotéis, a procura de tal casa. Por mais que a procurasse nada viu da rua indicada por Zilene. Foi e veio sem nada poder achar. Hermínia perguntava a pessoas mais idosas se elas tinham ciência de algo como Cortina de Perola e recebia “não” como resposta. Enfim, desistiu de procurar de vez:. Hermínia voltando ao Café de Doca informou que:

--- Nada feito. Não existe tal Casa aqui por perto. Perguntei a gente mais velha que eu e ninguém disse nada. Vendo que perdia tempo, voltei. Mais tarde a gente pergunta novamente a Zilene onde fica essa casa. – falou Hermínia desapontada com o seu total insucesso.

Tal situação deixou Doca intimamente perturbada, pois a moça que lhe falara parecia ser, na verdade, a sua filha Zilene. Doca era novata no kardescismo e não entendia patavina do que se passava em um Centro Espírita. As coisas ditas e sentidas podiam ser verdadeiras ou não. Se alguém lhe perguntasse:

--- O que achou da sessão? – alguém perguntando.

Ela responderia a seu modo:

--- Assim! Achou que foi verdade. – responderia Doca para não contradizer a pessoa.

Na verdade, ela sentia um aperto no coração ao se lembrar do a moça Zilene estava lhe falando, com relação a vidas anteriores. Como é que ela podia saber de tais fatos para responder a sua filha. De qualquer forma Doca era católica, mas nem sempre freqüentava a Igreja. Ou por falta de tempo ou por não querer mesmo. A mulher guardava dúvidas a respeito de muitas coisas. Ou então não sabia dizer o que alguém lhe perguntava a respeito de religião. Certa vez uma comadre sua teve a idéia de chamar Doca para ir a um Culto da Igreja que a mulher freqüentava. E ela foi. Porém, só uma vez. O homem que falava ao povo assistente no Templo parecia que só era para repreender aos crentes. Quando a mulher saiu do Templo fez jura de nunca mais voltar naquele lugar. E não disse coisa alguma a sua comadre. Sempre que a mulher lhe convidava para ir a um culto, Doca dizia:

--- Hoje não posso! – respondia Doca por estar muito desconfiada com os carões do Pastor que repreendeu até a mulher dizendo palavras “ofensivas”.

E certa vez ela comentou com uma de suas ajudantes que na Igreja Protestante o “Padre” – que era Pastor – somente falava em Cão, Diabo, Lúcifer, Demônio, Satanás e coisas das quais a mulher não gostava nem de ouvir discorrer.

--- Não! Pra mim basta! – sempre dona Doca dizia.

Quando alguma pessoa falava para dona Doca:

--- E o ímpio? – dizia a pessoa.

--- Não! Deixa disso! Ímpio eu sei onde ele arranja! – comentava Doca com a sua cara fechada e cheia de medo.

De uma forma ou de outra, essa era a vida que Doca levava. Certa vez, a mulher notou uma porção de outras pessoas, caminhando em silencio, saia comprida, batendo até ao chão, gola apertada, mangas longas e cores acinzentadas. Eram as “crentes” que passavam a caminho da Igreja “dos crentes”. Ela se esquivou para dentro de sua casa, e por uma fresta da janela pode observar que cada uma das mulheres – não mais de quatro – levavam uma Bíblia debaixo do braço e seguiam calado o tempo todo.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 50 -

- MEIAS DE SEDA -
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Entrementes, quando ainda estava tratando dos preparativos para o casamento, Jubal comprou a fazenda do velho Ferreira, no local Mangabeira, onde havia grandes árvores frutíferas como mangas, jacas, cajus, entre outras tantas, e uma criação de gado que apenas nessa criação, Jubal retirou o dinheiro aplicado. Não eram muitas cabeças, mas para a criação daria para manter o seu orçamento e sobrar recursos para se cuidar de tanta riqueza que a terra podia dar. Foi um investimento salutar, e Jubal, quando pagou ao ex-dono, estava com a futura mulher que viu toda a transação. Como testemunhas, ele levou dois homens de negócios da cidade. Ele, tão pronto comprou a fazenda logo em Cartório passou as escrituras da terra, selando o negócio. A vida de Jubal tomava um novo rumo com esse investimento salutar.


Em igual tempo, suas filhas estavam a concluir os estudos. Olinda progrediu um ano em lugar de Oceanira e ambas estavam no mesmo ciclo de estudos. Olinda dizia que se formaria em Professora, mas Oceanira relutava com o que teria que fazer. Ela chegou a dizer que, provavelmente entrasse para o Convento de Freiras. O pai, certa vez, disse que ela estava querendo seguir o mesmo trajeto da Irmã Salésia. Oceanira sorriu e disse apenas isso:

--- Estou pensando meu pai. Nada concreto. Estou pensando. – falou Oceanira.

E o assunto morreu aí. Nada mais se falou a respeito. Tudo eram preparativos para o novo casamento do papai. A anciã Chiquita tinha voltado para casa e se deitava no mesmo quarto de antes. A casa era um reboliço. Às vezes, era Carmen. Outras ocasiões era a própria Natália para o desassossego da empregada doméstica Eunice que não sabia a quem atender primeira e a bom tempo. Jubal era todo galante com esse novo casamento. Certa vez, no Mercado, a dona do Café Nazinha perguntou a ele quando haveria de ser o casório. Ele respondeu:

--- Breve. Breve. – falou Jubal com a cara séria.

--- E as vacas? – perguntou Nazinha se referindo ao cercado que Jubal falou.

--- Estão lá. Mugindo uma para outra. Estão fazendo serenata. – sorriu o homem.

Com isso, a mulher caiu na gargalhada como ninguém tinha visto. Ela sorriu tanto que quase derrubou a mesa do café. E os outros fregueses da manhã também acharam graça até demais. Não se sabe se por causa da serenata das vacas ou pela risadagem de Nazinha. O Café de Nazinha tinha dessas coisas quase sempre. Alguém dizia uma coisa e era o suficiente para que todos os marmanjos caíssem na gargalhada e depois saíssem comentando o fato ainda sorrindo. Essa de Jubal foi uma das tais. Por vários tempos alguém comentava a seresta das vacas com sorrisos amplos na face. E quem ouvia também sorria como ninguém.

Em uma sexta-feira bem antes do casamento de Jubal e depois que ele comprou a fazenda de seu Ferreira, no local Mangabeira, perto do município de Macaíba, ele combinou com José, roceiro do sítio que Jubal mantinha próximo à linha do trem, perto da Feira do Paço, do rapaz conduzir um cavalo dos dois existentes naquele local para a Fazenda Dos Dois, pois era assim que colocou o nome na sua granja. O rapaz concordou em ir, seguindo Jubal – ele à cavalo e Jubal no seu automóvel. E fizeram valer o compromisso logo cedo do dia. Jubal seguiu a estrada das Quintas, parando para esperar por José que vinha a cavalo e depois seguir até a Curva da Morte, local de extremo perigo para quem viajava de carro. Outra parada até o rapaz chegar. Jubal ainda perguntou a José:

--- Cansado? – perguntou Jubal.

--- Não senhor. – respondeu José sorrindo.

---Essa é a Curva da Morte. Quem viajava por essas bandas sempre corre o risco de morrer ou ficar ferido em um acidente. – comentou Jubal a José.

--- Sim senhor. Ainda não conhecia. – respondeu o rapaz.

--- Pois é. Eu vou segundo e lhe espero na curva, adiante. Vamos? – perguntou Jubal sorrindo do cansaço que o rapaz demonstrava ter.

E assim seguiu o trajeto parando aqui e acolá até chegar à chácara Fazenda Dos Dois. Na viagem, só eram Jubal e José. Ambos desceram – um, do carro e o outro do cavalo – e ficaram inspecionando a Fazenda. José ficou de boca aberta ao ver tantas árvores frutíferas como pés de banana, uma mata de camboím, jacas e muitas outras árvores cheias de frutos.

--- Admirado? – perguntou Jubal a sorrir.

E o rapaz José só fez sorrir. Então, Jubal percorreu todo ou grande parte do terreno, vendo as vacas, cabras, bodes, carneiros, ovelhas e até mesmo galinhas, algumas de origem pedrez. Aquilo era um mundo para Jubal. A casa grande estava toda trancada e a casa do homem que tomava conta do terreno e de tudo, era a única que estava aberta. Na meia porta se encontrava uma mocinha curiosa que olhou para José e logo se afastou. O homem que tomava conta do cercado, o caseiro. Abriu a porta de baixo, abotoando a camisa, e veio até Jubal, dando os seus cumprimentos de sempre.

--- Bom dia patrão. Trouxe um cavalo? – perguntou o caseiro.

--- É. – então virou Jubal para olhar o cavalo – Esse é o Otário. Tenho outro no sítio. – falou Jubal com um sorriso na face.

--- Otário? Que nome! – sorriu o caseiro.

--- Crio solto. Pra ele não morrer de fome. – sorriu Jubal.

--- Otário! Quem já se viu? – argumentou o caseiro examinando o cavalo

Otário deu um coice espantando as moscas e relinchou. Depois fez uma espécie de “sim”, com a cabeça, balançando para cima e para baixo.

--- E ele entende! – sorriu o assustado.

--- Ora se não. Isso é burro mesmo! – comentou Jubal a sorrir olhando o cavalo.

O animal parece não ter gostado da piada e deu um relincho mais forte balançando a cabeça para cima e para baixo. E o homem se afastou da fera temendo que ele virasse para o seu lado.

--- Seu nome é? – perguntou Jubal.

--- Manoel. – respondeu o caseiro. – Morro ali, naquele casebre. – finalizou o caseiro.

--- Ah bom. Eu vou deixar o cavalo aqui. Vou tirar os arreios e soltá-lo para ele comer galinhas. – sorriu Jubal ao dizer isso.

--- Minhas galinhas? – perguntou o caseiro Manoel espantado.

Quando já estava de volta, vindo no seu carro, acompanhado de José, no banco da frente, ele avistou de longe algo estarrecedor. Procurando ver bem melhor, tinha um caminhão capotado na beira da estrada de areia, na Curva da Morte, e várias pessoas gemendo e outras desacordadas. Havia carros no local do desastre recolhendo os feridos e enfermos do acidente. Com mais vagar, Jubal se aproximou e viu os corpos largados pelo chão, feridos sendo socorridos para o Hospital da Cidade, dois carros despedaçados na estrada de areia. O caminhão virou para o lado da curva e o outro foi sacudido longe da estrada. Era um lamento só aquele acidente. Mulheres, mocinhas, meninos, homens e anciãos largados no meio da estrada. Alguns ainda escaparam com vida e estavam colocando os feridos dentro dos autos que estacionavam próximo ao local do incidente. Nesse momento, Jubal e José correu para socorrer aqueles que mereciam de socorro, fazendo de improviso a parte de trás do seu automóvel em uma espécie de cama, colocando quem podia se sentar dentro do carro e seguindo para o Hospital da cidade.

--- Desastre, meu Deus!. Desastre! – lamentou cruelmente o condutor do carro.

--- É isso que estava a dizer para esse rapaz: é a Curva da Morte. – discorreu Jubal atarantado prosseguindo em sua viagem para a capital.

Ainda havia mortos e feridos na estrada. Os feridos a espera de socorro. Já era uma hora da tarde quando o carro chegou ao Hospital.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 49 -

- MEIAS DE SEDA -
- 49 -
Com a insistência de sua filha Chiquita, mãe de Jubal se levantou da cama onde estava sentada, rezando o terço de qualquer hora e se levantou para ir com ela até a sala de visita ver o que estava a acontecer. Quando chegou à sala fez uma cara de quem olha e não entende muito bem. Apenas vislumbrou o seu filho Jubal e uma moça que estava com ele. Nesse instante perguntou quem era a moça. E o rapaz respondeu que era alguém que desejava conhecê-la. A mulher se voltou para sair da sala e a filha disse logo à sua mãe:


--- Espere minha mãe. Espere. Não é a quem a senhora pensa. Veja direito! – falou Carmen, irmã de Jubal.

--- Olha o que? É uma mulher, ora! – respondeu Chiquita um pouco brava.

--- Mas, não é assim que se faz. Olhe bem como ela se parece! – discorreu Carmen insistindo com a mãe Chiquita.

A mulher de pouco menos de setenta anos se voltou e olhou para a senhora com mais cuidado até que enfim se aproximou da mulher para enxergar de perto e respondeu para a filha:

--- É Nora? Essa mulher é Nora? Isso é bruxaria! Vou embora! – falou a anciã querendo partir de imediato amparado por uma bengala. E então começou a voltar para o seu quarto de dormir.

--- Minha mãe! Escute! Ela é a mesma coisa de Nora. Entenda! – falou Carmen, baixinho, para ver se a anciã entendia.

--- Heim? Não é Nora. Mas se parece com Nora que morreu! – falou a anciã com a voz tépida ao ver novamente a mulher com seus olhos quase cegos pela catarata.

--- Não mãe! Ela é a cara cuspida da defunta! – ponderou Carmen.

--- Ah, é? Deixa me ver! Como é o seu nome, moça? – perguntou a anciã.

E a moça respondeu para tirar o espanto geral que reinava no ambiente.

--- Bom dia, dona Chiquita. Meu nome é Natália. Prazer em conhecê-la. – sorrio Natalia

--- E como é que essa doida me pôs confusão na cabeça? – perguntou Chiquita a sua filha Carmen.

A senhora sorriu e disse apenas que aqueles que a conheceram quando era menina sempre diziam que elas eram irmãs. Quando conheceu Jubal, este também teve a mesma impressão. Isso depois de tantos anos passados. E naquele momento Jubal quis fazer uma surpresa a sua mãe a levando para sentir com a igual forma a anciã reconhecera como Nora, a primeira e única esposa de Jubal. Natália fez saber que não era a mocinha que a anciã pensava ser. Sua profissão era de mestra de ensino e conhecera Jubal por acaso quando caminhava para a Feira do Paço.

--- Ah, bom. Sente-se. Sente-se. Eu mando servir um café para a gente tomar. Sente-se. Sente-se, por favor. – proferiu a anciã Chiquita então que a surpresa foi desfeita.

E as duas mulheres conversaram como nunca. Natália dizendo que conhecera Nora quando menina. Elas estudavam no mesmo colégio. E chegou a contar peraltices que as meninas fizeram em classe quando uma professora perguntou qual das duas era Nora. E ambas disseram a uma só vez:

--- Essa! – apontando cada uma a uma só vez em direção oposta. Nora dizia que Nora era Natália e Natalia dizia justamente o contrario: Nora era a outra.

Isso deu muita gozação por parte dos alunos, com toda a gente gargalhando numa verdadeira anarquia. A turma batia nas carteiras e cadeiras de madeira enquanto a professora alertava:

--- Parem com isso! Ora já se viu? Eu ponho todos de castigo se continuar assim! Quem é Nora afinal? – perguntou a mestra cheia de raiva.

--- Essa! – fizeram as duas ao mesmo tempo.

E a aula terminou por aí com todos os alunos sendo postos de castigo absoluto a rezar um rosário inteiro. Quem terminasse logo, continuava a rezar de novo. E assim foi o tempo todo com os escribas há sorrir o período inteiro. Ao fim do momento de aula a professora só fez dizer:

--- Amanhã não tem aula! Podem sair! Vocês me deixam louca! A minha paciência acaba! E vocês duas, venham já pra cá! Escrevam seus nomes até encher o caderno! Só voltem quando encher as folhas! Ouviram bem! – gritou a professora com os olhos bem arregalados.

Com essa história a anciã Chiquita, a irmã de Jubal e o próprio Jubal caíram na gargalhada recordando o tempo de escola onde cada um fazia o pior que podia fazer. À hora do almoço avançava e a visita acolheu o pedido de Carmen para almoçar. Os dois filhos de Carmen – Roberto e Ricardo – estavam presentes àquela hora da refeição. Jubal não se fez de rogado. Um lauto almoço foi servido e até vinho e champanhe Jubal e os seus sobrinhos foram comprar para que todos, menos Chiquita, bebessem para valer. Foi uma tarde de festa com as amizades foram refeitas entre Jubal e Carmen, coisa que já durava um bocado de tempo. Os irmãos acordaram em que ficasse a casa onde estava do jeito em que fora feita e a mãe dos dois irmãos podia voltar quando quisesse, pois, afinal, não haveria mais má querência entre ambos. Os filhos de Carmen – Ricardo e Roberto – aplaudiram a iniciativa dos dois irmãos. Na oportunidade, Jubal tomou a iniciativa de pedir a mão de Natália em casamento uma vez que dona Chiquita fazia bom proveito desse acerto. A anciã Chiquita, com o rosário da mão, não conteve as lágrimas ao ver o filho beija a mão direita de sua noiva. E dizia sem mais rancor:

--- Nunca mais tinha visto noivado tão lindo como o do meu filho Jubal! – e caiu no choro para todos os efeitos.

A festa de noivado durou até as cinco horas da tarde, quando os noivos se despediram dos que ficavam com a promessa de dona Chiquita voltar de imediato para a sua casa e Carmen também fazer visitas mais constantes à sua mãe.

Três meses após, houve o casamento de Jubal e Natália, na Igreja da Catedral e todos aplaudiram com entusiasmo a festa dos nubentes. Estavam presentes dona Chiquita mãe de Jubal, a irmã Carmen, os filhos desta, Ricardo e Roberto, e o filho e filhas de Jubal, como sejam Otávio, Olinda e Oceanira. Todos os presentes eram de completa alegria. Eles olhavam a madrasta como sendo a sua verdadeira mãe pela semelhança que Natália estampava em seu rosto. Delicada e cheia de encanto, a senhora não só depositava a alegria bem como a satisfação de poder casar com o homem que ela vira unir com a sua melhor e maior amiga: Nora. Mais de quinze anos se passaram e a festa voltou a acontecer, então com a segunda pretendente ao cavalheiro romântico. Ao sair da Catedral, ela ouviu de uma pessoa uma frase que a inquietou. A mulher falou baixo, quase ao ouvido de Natália:

--- Esse homem era marido de sua irmã verdadeira. – cochichou depressa a mulher e desapareceu por entre o pessoal que se aglomerava na calçada da igreja.

Natalia ficou aturdida e não sabia o que pensar. E buscou encontrar aquela anciã por entre o pessoal, mas a mulher desapareceu de imediato. Ele ficou a cismar com o que ouviu da mulher. O seu marido, com pressa para chegar, puxou a mão de sua noiva e muito alegre, disse:

--- Vamos querida. Vamos passar a perna neles! – pronunciou Jubal muito alegre.

A senhora Natália, agora senhora mesmo, ainda atribulada com a notícia, entrou no veículo de Jubal olhando sempre para um lado e para outro a procura da desgastada anciã, contudo não a encontrava. O noivo, inquieto, somente perguntou a sua então mulher:

--- Que foi amor? Eles vêm logo atrás! – sorriu Jubal.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 48 -

Loretta Young
- MEIAS DE SEDA -
- 48 -



Naquele dia Doca estava triste com a cara de quem chorava. No café da manhã, as mulheres providenciavam os acertos para servir a todos os que procuravam.: cuscuz, tapioca, bolo, mungunzá entre outras iguarias de sempre. O Café de Dona estava repleto de pessoas que costumavam ir para fazer sua primeira refeição da manhã. A quase idosa mulher estava sentada em um banco, com o cotovelo encostado na mesa, o braço em pêndulo, a mão escorada na cabeça e o braço esquerdo pendido para o chão. Sua cara era de uma mulher triste, pensativa, acabrunhada, melancólica se como o mundo estivesse no fim. Olhar abatido perdido no espaço infinito, cabisbaixa como sendo uma estatua de bronze tolhido pelo desengano de uma mulher doente. Era assim Dona Doca naquela hora de desmesurada e infindável retraimento. Em seu colo, a ponta de um envelope de carta vinda não se sabia de onde. Talvez de muito longe até como se alguém pedisse a misericórdia divina para uma mulher infeliz. No seu pesar magoado, uma das mulheres que a auxiliava veio em seu auxilio buscando acudi-la para que algo ressuscitasse aquele corpo mortal. E então, a mulher viu de longe o envelope de carta. E, por assim, perguntou:


--- Carta para você, Doca? – perguntou a mulher.

Doca demorou em responder para, por fim contrapor:

--- Não! – com a sua voz quase em prantos e olhar perdido.

--- Não? Para quem então? – perguntou a mulher ajudante.

--- Minha filha! – respondeu a mulher aos prantos.

--- Mas ela está morta! Coitada! Morreu e a pessoa nem sabia! – falou a ajudante.

Doca nada respondeu. Continuou com seu olhar perdido no espaço e a cabeça pensa.

--- Deixa aqui! Se para ela, deixa aqui. Só ela pode ler. Se ela não vem, então deixa aqui. – finalizou dona Doca.

Então a mulher começou a chorar lento. Em momento de desdita, Doca baixou a cabeça, enfurnando por entre os braços no rigor de que o mundo para ela, não restava mais. Zilene morrera com a sua mãe, era o que Doca pensava. Então não foi Zilene quem morreu. Foi todo o universo. E acabara-se, portanto a vida que Doca sempre experimentara existir. O pessoal que estava no Café perguntava em voz baixa o que estaria havendo com a mulher que, naquela hora, estava assim tão tristonha. Como ninguém sabia a razão, muitos dos quais faziam apenas olhar e para o que perguntou diziam mudos com os ombros para cima e para baixo dando a impressão de que não sabiam mesmo.

As horas passaram e Doca continuava ali sentada, pensativa apenas para quem esteve com ela todo um tempo e que depois se foi para não mais voltar. Choro e lágrimas, cabeça baixada na mesa. Isso era tudo o que restava a mulher fazer. Em derradeiro momento a ajudante pediu por caridade que ela pudesse ler o conteúdo da carta, uma vez que Doca não sabia ler e que Zilene já estava morta para todos os séculos. Doca olhou para a sua ajudante e no derradeiro instante abriu bem os olhos e respondeu:

--- Quer saber? Ninguém vai ler coisa nenhuma! Ela foi mandada para a minha querida Zilene e ninguém mais pode saber desse segredo. – falou com raiva a mulher.

--- Mas mulher, tenha paciência. Zilene pode está até querendo que a senhora saiba. A senhora não acredita nisso. Mas a santa Zilene se encontra aqui nesse momento. Ela está ao seu lado pedindo a senhora faça isso. Eu digo por que eu escuto o que ela diz. Esta alegre. Não chora. Diz que a vida é muito boa de onde ela está. E vai estar aqui quando a senhora partir para o lado dela. Disse mais: seu pai vai ficar bom. Espere. Espere. Sim. Disse que ela não teme a morte por que a morte é apenas uma passagem de um lugar para outro. E falou da sua mãe. Ela diz que a sua mãe vai voltar a Terra na barriga de Salésia. Ela diz tudo isso. Salésia está no Convento, mas não vai ser freira. Ela disse que a moça vai voltar para a casa dos seus pais. A carta é de uma amiga que ela teve quando estava com a senhora. Foi o que ela disse. – falou a ajudante de Doca.

A mulher estremeceu de alegria e quase gritando, perguntou:

--- Você Jura que ela está aqui? Você está vendo a minha menina? Ela disse tudo isso? E quem é Salésia? – perguntou alvoroçada a mulher.

--- Espere. Espere. Ela vai dizer por minha voz. – respondeu a ajudante.

E Doca ficou impaciente nesse momento de saber que podia ouvir a filha falar. Era algo impressionante. Algo que ela mesma não acreditava. E a mulher ajudante se sentou ao lado de Doca, fez um esforço e de um momento para outro estava já incorporada em Zilene.

--- Sua bênção minha mãe. A senhora não acredita que eu esteja viva. Mas estou. Estou bem aqui. Desde que a senhora chegou que está triste. Sabe por quê? Era eu quem queria “falar” com a senhora. Sabe minha mãe. Minha avó vai voltar a Terra como filha de Salésia. A moça é hoje um aprendiz de noviça. Mas, não vai ser Freira. Ela volta para casar com seu Jubal. É isso o que tenho a lhe dizer. – falou Zilene pela voz de uma ajudante da cozinha de Doca.

Diante de tal fato, Doca não suportou o embate e ali mesmo perdeu os sentidos. A ajudante se recompor e teve que levar quase meia hora para fazer Doca se recompor. Quando isso aconteceu, a mulher já estava sem nem poder falar. Toda a gente do Mercado veio ver o que estava a acontecer. E em alarmes dizia:

--- A mulher acordou! A mulher acordou! Vejam! Vejam!. – dizia o pessoal que lotava a banca de Café de dona Doca.

--- Isso é mentira dessa outra mulher. Ela fez de conta de que estava falando com o espírito da morta. – reclamou um incrédulo que se postou ali para ouvir.

--- Você é um sacrílego. Não vês que a mulher esta cansada? – perguntou um espírita.

--- Cansada que nada. Ela está precisando é de. ... – e parou o ateu ao dizer isso.

--- Sacrílego! Sacrílego! – respondia o espírita, com muita raiva.

--- Deus seja louvado. – respondeu um cristão.

--- Amém. Amem. – disse outro ao se benzer.

Um crente que estava no local para ver em que dava aquela situação inusitada, nada respondeu, saindo devagar, para outra banca de café. Doca chegou a ser levada para um consultório de um médico espírita que receitou um calmante e disse que ela devia freqüentar as sessões espíritas kardecistas para tranqüilizar o espírito de Zilene, pois conforme ele ouviu era um “espírito de luz” e que precisava ser chamado para se incorporar em um médio vidente de uma sessão e ser doutrinado para poder alcançar a verdadeira luz que um espírito mais pudesse fazer pelo seu semelhante. O médico não cobrou nada pela consulta. Ele morava uma rua depois do Mercado. Ele era um homem idoso que só trajava branco, inclusive as chinelas. Seu cabelo da cabeça era todo branco. Muito embora fosse espírita, ele conduzia o consultório regularmente como se não fosse espírita.

A mulher saiu de sua clínica mais aliviada e procurou saber de sua ajudante onde tinha um centro espírita que ela pretendia ir às sessões. Doca tinha medo de ir sozinha e combinou com a sua ajudante para ir com ela todas as segundas e quartas-feiras, regularmente ao Centro Espírita escolhido pela ajudante. O Centro ficava em uma rua da Cidade e ele se comprometeu em ir todas as sessões programadas.

--- É bom minha patroa. É bom. A senhora vai gostar. Nesse Centro tudo é paz. Depois de cada sessão tem os passes que todos nós tomamos. A senhora pode tomar passe pois não ofende a ninguém. A senhora vai notar como sua vida melhora. E a de Zilene também. Pode até haver uma sessão especial para a senhora falar com sua filha. Sabe o que acontece? Muitas vezes, nós nem somos filha de uma pessoa. Somos de outras vidas como filha daquela que hoje é nossa filha. Tudo é expiação. Tudo! – resumiu a ajudante do Café.

--- E a senhora é também desse Centro? – perguntou dona Doca.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

MEIAS DE SEDA - 47 -

ZSA ZSA GABOR

- MEIAS DE SEDA -
- 47 -
Àquela hora da manhã, logo cedo, cinco e meia, chega ao Café de Nazinha, vestindo terno branco de brim, seu Jubal com um sorriso alegre na face. Após dar bom dia a Nazinha e aos demais freqüentadores do Café, o homem procurou um banco para sentar, encontrando um tamborete meio solto que para se usar teria que se ajeitar com o corpo. A mulher, notando, resolveu dizer a Jubal que aquele tamborete não prestava para se sentar. Era melhor ele procurar um outro que estava guardado em baixo da mesa.Jubal não se fez de rogado e encontrou o outro tamborete. A conversa era a de sempre que os freqüentadores do Café ouviam. Um balaieiro passou com sua pressa carregando um balaio cheio de compras de um cidadão e disse para dona Nazinha que por sinal estava de costas para ele e para a rua:

--- Volto já! – informou o balaieiro sem se virar e com a cabeça bem colada ao corpo mais parecia ter nascido assim.

A mulher nada respondeu e perguntou a Jubal vendo o homem todo alinhado para uma manhã de qualquer dia.

--- Que chique! Vai à missa? – sorriu a mulher ao perguntar tal episódio.

--- Não. Não. Vou ver minha mãe. Mais tarde. É que me arrumei para levar uma moça até ela para lhe apresentar.

--- Ah, bom. Casamento? Está na hora de se casar! – brincou Nazinha com Jubal.

Jubal sorriu e não disse nada. Emendou para outra conversa que não tinha nada a ver com casamento. Era mais para descartar o assunto. E foi assim que ele falou:

--- Tem um sítio em Mangabeira, caminho de Macaíba, perto do famoso Engenho Ferreiro Torto que o homem dono da terra quer vender.

--- Onde fica? – perguntou Nazinha com seu bule de café quente trazendo para a mesa.

--- Mangabeira. Perto do Ferreiro Torto. – respondeu Jubal.

--- Ferreiro Torto! (pensou a mulher). É por que o homem era torto mesmo? – sorriu Nazinha ao perguntar novamente.

--- Parece. Parece. Diz a história que no local tinha um ferreiro que punha ferraduras em cavalos, bois e coisa e tal. No local também tinha um coqueiro que era torto. Daí o nome que o povo colocou. Ferreiro em baixo do coqueiro torto. Dizem. – sorriu Jubal.

--- Engraçado. Minha avó falava muito nesse Ferreiro. – sorriu a mulher buscando tapioca e macaxeira para servir ao seu Jubal.

--- É. Ainda hoje se fala no Ferreiro. Como também Peixe-Boi. – sorriu Jubal.

--- Ah. Esse eu me lembro. Era menina quando minha mãe dizia que ia para Peixe-Boi. Interessante! – (pensou Nazinha) – Eu nunca vi peixe boi por lá. – sorriu a mulher com bastante franqueza.

E então sorriu Jubal e os outros freqüentadores do café com a hilariante proeza de dona Nazinha.

--- É o povo que inventa. – respondeu um circunstante do Café.

--- É. É povo. Não tem Quintas? O que diabo é Quintas? – perguntou a mulher a sorrir.

--- Quintas tem sentido. Era um português que arrendou do Governo um terreno localizado naquela região e em troca pagaria uma quinta parte do lhe renderia de seu plantio. Depois vieram outros portugueses. ...uns quatro. ...e também requereram parte da terra em troca do pagamento da quinta parte do que eles tirassem da terra. É por isso é se chama de Quintas. – explicou Jubal.

--- Dá pra ver. Eu pensava que era porque era longe. Lá pros quintos dos infernos. – caiu na gargalhada a mulher.

E todos sorriram com a impetuosidade de Nazinha que, enfim, nunca parava de trabalhar trazendo cuscuz, tapioca, mungunzá, macaxeira e sem falar no café.

--- Leite? – perguntou a mulher em volta das cozinheiras que a ajudavam.

--- Um pouco! ... Basta! – fez um circunstante com as mãos.

E a mulher pôs um pouco de leite no caneco em que o homem tomava café.

--- E o sitio? – perguntou Nazinha a seu Jubal que já estava de boca cheia de tapioca.

--- Pois é. Eu tenho que ir ao local. Têm vacas, cavalos. ... A peste dos cavalos. ... Eu me lembro do “Otario”. – sorriu Jubal de boca cheia espalhando tapioca pra todo lado.

--- “Otário”? Que “Otário”? – perguntou Nazinha se assustando de vez.

--- É um cavalo que eu tenho. Todos que me conhecem acham graça porque eu o chamo de “Otário”. – sorriu Jubal ainda com a boca cheia de tapioca. – Mas ele é Otário mesmo. – gargalhou Jubal naquele instante.

Os demais que estava no Café olharam um para o outro e também acharam graça pelo modo como que Jubal se comportava. E nem ligava para a sua roupa toda respingada de tapioca. E Nazinha gargalhou por que os outros também gargalhavam.

Ao passar esse bom tempo, Jubal largou para o sitio onde já estava pego no serviço o garoto José, já um pouco alto, corpo largo e com uma barriga saindo das calças. Ele, Jubal se comportou pelo modo como vestia e deu as ordens ao rapaz que já sabia até de co. Em seguida disse ao jovem que tinha que sair para uns compromissos inadiáveis sendo assim que logo subiu para pegar o seu auto em cima na Rua Ocidental onde deixara estacionado. Um trem que passava de norte azucrinava o juízo de Jubal com aquela barulheira toda.

Ao chegar da primeira travessa que dava na casa onde morava a senhora Natália, o homem estacionou seu veículo e desceu para bater palmas à porta. Coisa que nem precisava, pois a senhora já estava pronta. Ela falou qualquer coisa para uma moça que estava dentro da casa e logo saiu. Um bom dia foi o que ambos disseram. Dalí em diante Jubal rumou para as Quintas, próximos a Tração, onde sua mãe estava a morar na casa de sua adorada filha de nome Carmen. Em tudo isso Jubal voltou a explicar a sua acompanhante Natália para que a senhora ficasse sabendo do que teria de passar. A mulher era a cópia fiel de sua primeira e única esposa Nora. O homem já estava em meio a um romance com a mulher, talvez por causa da imensa semelhança que essa apresentava com a sua primeira senhora. A mulher se encantara desde a primeira vez que conheceu Jubal em uma festa de casamento com Nora. Porém, naquela ocasião não disse nada. E o tempo passou lento, Jubal ficou viúvo, ela perdeu a ligação com o homem e assim continuou a vida. Solteira para todos os efeitos.

Entremeios, Jubal olhou para Natália e esta se apresentava mais deslumbrante do que já havia ele notado. Vestida a rigor, com um traje longo, bolsa a tiracolo, pintura sem exagero, a digna senhora era cheia de encantos. Certa vez, a filha de Jubal, em uma Missa na Catedral, teve oportunidade de ver a senhora em um banco da nave principal e disse ao seu pai com muito espanto.

--- Que mulher mais parecida com a minha mãe! – falou Oceanira de boca aberta.

Jubal não disse coisa alguma. Nem mesmo se já havia encontrado. Apenas fez que olhou e assinalou para Oceanira que ela – a mocinha - estava na Missa e por meio disso se comportasse. A mocinha não mais falou no assunto. De qualquer forma não se conteve e ao sair da Missa resolveu passar perto da senhora para olhar mais de perto.

Ao chegar à casa de sua irmã Carmen, o homem bateu palmas como era costume para ver se alguém estava a atender. De imediato, veio a irmã, Carmen, e olhou para a senhora pondo uma cara de espanto. Ela abriu a porta e o casal logo entrou na sala. Por fim, ainda espantada, correu para o quarto de dormir e chamou ás pressas por sua mãe, Chiquita, que estava rezando o terço.

--- Mamãe! Venha ver quem está aí! – falou a filha assombrada.

--- Deixa eu rezar meu terço! – disse a anciã sem pressa.

--- Venha, minha mãe! – insistiu a mulher.