quinta-feira, 11 de novembro de 2010

AMANTES - 25 -

- Juliana Baroni -
- 25 -
Às 17 horas, horário local, chegava a Fiumicino o vôo regular que levava entre tantos outros passageiros os três brasileiros; Vera Muniz, Silas Albuquerque e Diomedes Nogueira, esse conhecido popularmente pela alcunha de Molambo. Todos eles trajavam esmeradas roupas, desde Vera Muniz com vestes de seda, a Silas e Molambo, trajando roupas em negro com um cachecol em volta do pescoço também em negro. Por entre as aberturas dos sobretudos que cada um dos homens vestia, notavam-se camisas de linho de cor branca. Sapatos pretos, meias de seda também de igual cor. E para sofisticação a mais Silas conduzia uma bengala de cor negra tendo deixado com Molambo uma mala 007. Com todo o orgulho, Molambo conduzia essa mala como se estivesse conduzindo o mundo em suas mãos. O Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci ficava a trinta e cinco quilômetros do centro histórico da cidade.

Roma tem o seu núcleo urbano ao longo do rio Tibre. O inverno marca no mês de janeiro com temperatura chegando a zero e marca gelada. É comum chover nessa época do ano. Mas em julho tem início o verão com pouca umidade. Nesse período de verão é comum ter sol a aproximadamente às 9 horas da noite. Por isso mesmo os jovens amantes partiram para Roma no mês de julho. Era a companhia o velho Diomedes Nogueira, o popular Molambo. De início, os três viajantes foram para um hotel de classe. Por essa primeira tarde e noite aproveitaram para repousar e ver alguns dos imponentes monumentos existentes na Cidade Eterna. Era pouco tempo para se ver de tudo. Por isso, eles tiraram uns poucos depois de fazer um repasto em uma estalagem do século XVIII, porém moderníssima para os dias que o casal de amantes e Molambo estava a desfrutar. Algo como La Cucina a Roma de salutar cardápio. Dalí em diante os três companheiros visitaram casas noturnas e mais alguma das atrações que Roma oferecia. Eles voltaram tão logo puderam em taxis para o repouso da madrugada já então satisfeitos do que viram à noite primeira onde tudo era festa.

Manha por volta das nove horas, o trio seguiu para a sede da Agencia Pomar, em Roma, centro da cidade. Os amantes puseram a trabalhar, depois de se identificar que eram brasileiros e estavam a serviço da agencia da qual Vera Muniz era a Presidente. O velho Diomedes, trajando o seu fraque e com a bolsa 007 ao seu lado, foi com os amantes tendo ficado ao lado para atender a alguma solicitação de urgência feita por Silas Albuquerque. O prédio da Agencia Pomar era antigo, porém acolhedor. Os funcionários foram bem dispostos em atender a todos os pedidos que o grupo fez. O caso era bem mais simples do que Vera e Silas pensavam. Ao final da tarde, depois da hora do almoço, tudo estava terminado. Então o casal e o velho Diomedes puderam visitar os locais nobres de Roma. A capital da Itália, com sede na província de Lácio era o que se falava: a Cidade Eterna. O centro histórico com as suas sete colinas: Palatino, Aventino, Campidoglio, Quirinale, Viminale, Esquilino, e Celio. Este era o primeiro passo para o casal e o velho visitarem. Silas não se cansava em ouvir do velho Diomedes:

--- Mas é magnífico!!! – dizia o velho assoberbado.

Aquilo era a história de mais de dois mil anos: Reino de Roma, República Romana e Império Romano. Foi assim que Roma se tornou República Italiana. No interior da cidade encontra-se o Estado do Vaticano, a residência do Papa. Roma é uma das cidades com maior importância na História mundial. Do Império Romano encontra-se velhas ruínas e monumentos. Vera, Silas e Diomedes ver de perto as pinturas que retratavam a história antiga do império romano. A se ver a cidade de um alto podia-se identificar o velho passado historio da capital da Itália. A partir da Basílica de São Pedro avistava-se um panorama monumental da capital do País onde havia um labirinto de casas de moradia e de comercio. Na verdade a cidade cresceu pela invasão de centenas de milhares habitantes que se projetaram pelo rio Tibre e ocuparam seus espaços por todo o recanto. Era a invasão dos bárbaros, ou seja, povo que não seguia a religião da época.

No dia seguinte, pela manhã logo cedo, os visitantes seguiram o trajeto que deveriam ter, em visitar tais velhos espaços. A Prefeitura de Roma, o Coliseu romano, o Metropolitana de Roma, a Estação Termini, o Centro Histórico, a Basílica de São Pedro, o Panteão, a Fontana de Trevi, o Templo de Saturno, o Castelo de Santo Ângelo, o Palácio do Quirinal entre outros grandiosos monumentos que ao tempo perduravam.

--- Um dia só não dá para ver tudo o que Roma tem. – declarou Vera Muniz. Em sua companhia seguia um cicerone italiano mostrando o que de mais impressionante a cidade guardava. Um quadro que impressionou sobremaneira a visitante da Cidade Eterna foi um da Crucificação de Jesus Cristo feito por Diego Velásquez. As Catacumbas de Roma, local que serviu de cemitério subterrâneo aos primeiros cristãos foi algo que por demais impressionou Silas Albuquerque. A mais visitadas em todo o mundo é a de São Calisto, na região central de Roma. Cerca de vinte mil pessoas estão enterradas nesse local. O local é considerado santo, pois ali estão sepultados corpos de pessoas que viveram na época de Jesus Cristo. Outra catacumba famosa é a de Santa Priscila. Tais catacumbas foram construídas cinco andares abaixo da terra. Mais de vinte quilômetros de corredores levam aos diversos túmulos. No tempo em que Silas, Vera Muniz e Diomedes visitaram o local algumas dessas catacumbas estavam abertas aos turistas.

Ao fim do dia Vera disse a Silas que teriam que ir a Veneza, pois o certame da mostra somente aconteceria de agosto a setembro daquele ano. E a produção não ficara concluída para ser exibida em um Festival de Cinema. Mesmo assim, ela passaria por Veneza, pois o roteiro indicava passar da cidade. E os três turistas visitariam o Palácio do Cinema edificado e aberto ao público desde 1932. Afinal, Veneza era um centro turístico de real beleza. A Praça de São Marcos era um dos mais importantes monumentos de sua história. A cidade histórica ocupa uma localização excepcional numa lagoa no Mar Adriático. O principal núcleo da cidade de Veneza é constituído por um conjunto de ilhas no centro da lagoa. Em se olhar do alto a cidade há de se ver um conjuntos de edifícios em torno do rio Ádige. Entre as diversas lagoas que tem a cidade pode-se citar: Lido, Murano, Burano e Torcello. Quem vai a Veneza tem o dever de fazer a sua travessia de gôndola. Mesmo assim, há a travessia de barcos-taxis entre áreas da cidade. Um aeroporto, o Marco Pólo, serve também para os turistas. Para quem prefere ir de táxis, em Veneza existe muito pouco. A cidade foi construída sobre a água. A Ponte dos Suspiros é a mais freqüentada pelos turistas, pois os amantes e dois acompanhantes estiveram a visitar esse local. E os turistas brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer a Basílica de Santa Maria da Saúde, a Ponte Rialto e as tradicionais gôndolas venezianas. Vera Muniz fez o seu breve segredo a Silas:

--- Pena que não temos um Leão de Ouro para comemorar. – sorriu Vera com forma amistosa.

--- Nem o de Prata. – sorriu Silas Albuquerque.

Para se chegar à Turquia, via aérea, tem que se começar pela capital do País, Ancara. Depois de um pernoite em hotel da cidade, toma-se outro vôo para a cidade de Anatólia. É impressionante o que os nobres turistas visionaram de imediato: as torres das Mesquitas. O governo é parlamentarista, a moeda é a Lira turca, o idioma é o turco, porém a religião é Mulçumana, com 99,8% de mulçumanos. Apenas 0,2 por cento de católicos e judeus. Quem viajava a Turquia, pegando o destino de Ancara, já sabe: quer conhecer a Capadócia. A população da região não chega a um milhar de habitantes. O nome de Capadócia nem sequer tem em todos os mapas da história. No local são formações geológicas, conseqüência de fenômenos vulcânicos. Que vê do alto Capadócia enxerga apenas montanhas:

--- Aquela é Capadócia; - relatou Vera Muniz ao seu marido.

--- Puxa. Eu fazia outra coisa. – respondeu Silas de boca aberta.

--- Nem se incomode. Pois tem muita habitação para se ver. – sorriu Vera se tranqüilizado.

--- Espero. Espero. – sorriu Silas a mulher.

--- Aquele monte de cupim, pois se parece com cupim mesmo, foi tombado pela UNESCO. – reportou Vera.

--- São habitações trogloditas. – pensou Silas um tanto acanhado.

--- Mas é uma região habitada há milhares de anos. – ponderou a mulher.

--- E como se faz habitação ali? – indagou Silas a mulher.

--- A região foi habitada pelos os Hititas. E suas formas geológicas permitiram aos homens nativos construir habitações escavando o calcário em lugar de erigis edifícios. – relatou Vera.

--- O que é Capadócia? – indagou Silas.

--- Terra de cavalos de raça. – explicou a amante.

Silas sorriu com o seu significado bastante elementar. O avião seguiu reto e Silas pode olhar que toa a região era em um planalto. Ele avistava um vulcão desativado e a vista de um vale. O velho Diomedes estava a dormir na poltrona do avião e nada do monumento universal ele pode observar. Quando os passageiros chegaram a Anatólio foi o tempo de Diomedes acordar. E Vera sorriu encantada com o comportamento de Molambo na reta daquela viagem. O sono talvez fosse conseqüência da viagem cansativa que os três amigos fizeram desde Roma a Veneza e então a Turquia. Meio descontrolado com os solavancos do aparelho, Molambo, ao despertar ainda perguntou:

--- Estamos no Rio? – indagou Molambo assustado.

--- Que rio? – respondeu sorrindo o seu companheiro de viagem.

Enorme gargalhada se fez presente pela voz de Vera Muniz.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

AMANTES - 24 -

- Juliana Knust -
- 24 -

Na sexta-feira à noite estavam reunidos Paredão, o Pescador, Racilva, o casal Vera e Silas e além desses, presente estava também Molambo ou Diomedes. Era a sessão que os médiuns faziam no apartamento de Silas e Vera. Após a leitura do “Evangelho Segundo o Espiritismo” teve início a sessão costumeira. As lâmpadas do apartamento foram desligadas, o televisor também havia sido desligado, não havia rádio na sala. Para completar a sessão, só havia uma vela e um copo com água além do Evangelho. Os trabalhos foram iniciados com Racilva na ponta da mesa que dava para ver o exterior do prédio, E não outra ponta estava Molambo. De um lado ficavam Vera e Silas e do outros Paredão e Pescador. Para o início dos trabalhos o homem “Paredão” fez uma prece conclamando espíritos de luz para protegerem os trabalhos e retirar os espíritos intrusos. E assim começou a segunda parte da sessão espírita com os trabalhos no maior silêncio apenas quebrado por uma buzina de algum carro que passava na avenida que era na verdade uma rodovia federal. Porém, para esse caso ninguém dava a menor atenção àquela hora ainda cedo da noite, caso de oito horas ou mais um pouco. As preces em silêncio todos os participantes da reunião faziam. E se notava os seis participantes de cabeças abaixadas como se estivesse a dormir ou quase isso. De um determinado momento um espírito “desencarnado” “baixo” no corpo de Racilva. Nesse ponto Racilva deixava de ser a mesma, pois com o segundo espírito no seu corpo ela não era mais a própria. E o “espírito”, de imediato, acudiu para outro “espírito” que estava a possuir o corpo do velho Molambo. E esse espírito “vingativo” apenas queria se vingar da “matéria” de Molambo. Ele estava ali há vários séculos querendo se “vingar” de Molambo. E não sabia nem mesmo o nome de Diomedes. Ele só queria mesmo era “vingança”.

Então, o espírito de luz que incorporou em Racilva perguntou ao espírito das trevas o que ele queria naquele corpo estranho. E o espírito das trevas respondeu:

--- Vingança a esse sujeito! – rosnou o espírito das trevas com a maior ira possível.

--- Escute irmão. .... – começou a falar o espírito que estava em Racilva e foi atrapalhado pelo espírito da escuridão.

--- Não seu o teu “irmão”! – esbravejou o segundo espírito que estava no corpo de Molambo.

De olhos esbugalhados o espírito do mal se levantou da mesa e bateu forte com o punho querendo medir forças com o espírito de luz que estava em Racilva. E esse respondeu de imediato.

--- Sente-se espírito mal!!! Esse homem que tu persegues não é o homem verdadeiro. Hoje ele é outro homem. Tu vens de incontáveis gerações a atormentar um ser que não é mais o seu ser! – falou o espírito de luz com altivez.

--- É ele sim!!! A roupa não muda o homem! Ele está assim para me iludir!! Mas não fará mais! – rosnou o malfazejo espírito.

--- Larga esse corpo que não é teu e nem de quem procuras! Tu estas condenado a viver na escuridão! Larga imediatamente esse corpo e vai para outra esfera. Eu te acompanho! – gritou o espírito de luz.

Verdadeira gargalhada assolou o recinto fazendo estremecer todos os lustres dependurados. O espírito relatou por fim que aquele “guerreiro” era o comandante de aldeia onde os seus também “guerreiros” foram dizimados. E todos eles estavam ali com o líder das tropas, que era ele, presentes. E queriam tão somente vingança. Em resposta o anjo da luz acoitou uma chama queimante em cima de todos os outros espíritos para amortecer a sua força e dizendo em seguida com toda raiva possível:

--- Saia desse corpo espírito obsesso! Procura o teu caminho! Eu sou Emmanuel e te ordeno! – declarou o espírito de Emmanuel.

Depois de finda a sessão noturna o médium “Paredão” explicou que ninguém se perturbasse, pois no mundo encarnado e desencarnado havia inúmeros seres e que a subjugação era uma influencia tão forte sobre a mente de um médium que este não mais raciocinava nem agia por si mesmo, passando a influência dos espíritos obsessores.

Depois desse caso de desobsessão de Molambo o mediu “Paredão” reconheceu nele um forte mediu e precisaria ter mais conhecimento da doutrina espírita para ser um verdadeiro médium. O homem, que não sabia o que tinha ocorrido com ele, perguntou a “Paredão” como faria para conhecer a doutrina. E “Paredão” disse-lhe.

--- Lendo, irmão! Lendo! Tem muitos Livros que você pode ler nos dias atuais a começar pelo Livro dos Espíritos. Não se importe por não saber o que lhe aconteceu nessa noite. Todos os médiuns têm ou não clarividência. – respondeu “Paredão” a sorrir.

Muito embora inconsciente para o que houve com ela de encarnar Emmanuel, Racilva relatou que nos atuais tempos modernos o espiritismo considera a Obsessão o mau do século. As suas seguidas manifestações fogem ao conhecimento do enfermo se tratar corretamente. E citou o caso da Anneliese Michel que foi transformado em filme. A moça teria tido um sonho a Maria, mãe de Jesus onde a Santa Mãe de Deus lhe teria oferecido duas opções: a de se ver livre que a atormentavam ou a de continuar sendo atormentada por eles – os espíritos - para que as pessoas soubessem a ação do mal. A moça, de dezesseis anos, preferiu a segunda alternativa. Desse modo a obsessão consentida foi uma missão de vida.

Nos dias seguintes, para onde caminhava Molambo sempre estava com um livro de publicação espírita. AE não deixava passar a pergunta que lhe faltava de quem era esse ou aquele. Ele continuou a estudar profundamente o espiritismo como um exemplar médium. Não raro, em reunião no apartamento de Vera estava Molambo a ler um trecho do Evangelho Segundo o Espiritismo ou mesmo de outra obra que ele acabara de “descobrir”. E dessa forma Molambo conseguiu ler autores antigos e modernos que escreveram sobre o espiritismo, como Chico Xavier ou Geazi Amais, esse, autor do livro “Apometria”. Após esse tumultuoso caso de tal enigma podia-se dizer que o médium Molambo já estava pleno da doutrina espírita, capaz de falar em publico sobre o espiritismo. Até mesmo o nome Molambo ele adotou com sendo próprio, pois já se falava que no magnetismo do homem todos tinham mais vocação em ouvi-lo dizer ou falar.

Durante o dia, Molambo estava a dirigir o automóvel de Silas Albuquerque, tendo sempre um livro espírita à mão coisa que com o tempo o perseguia vorazmente, e a noite, ou estava na sessão do Centro Espírita, ou em alguma casa onde se fazia costumeira reunião ou mesmo no apartamento de sua chefa Vera Muniz a debruçar em uma mesa redonda com um pacote de livros emprestados, doados ou mesmo comprada por ele. Vera Muniz estava no seu quinto mês de gravidez e foi quando chamou ao seu escritório o marido Silas Albuquerque tendo como companhia o velho Molambo. Ela teve a dizer nessa conversa que eles estariam em viagem dentro de quinze dias para a Itália. O esposo de Vera já sabia dessa viagem. Porém Molambo foi pego de surpresa:

--- Mas eu minha senhora? – indagou espantado o velho.

--- É. Você mesmo. Os documentos já estão em cima da minha mesa. – sorriu Vera Muniz.

--- Eu não sei nem onde fica esse Estado. – clamou inquieto o velho Molambo.

--- Não é Estado. É um País. E você. Estamos conversados. – sorriu a mulher.

--- Ô com os seiscentos. Itália? – reclamou Molambo.

--- Bem. Se não quiser ir, não vai. E perderá a oportunidade de ver uma exposição de livros espíritas. Vai ou não? – indagou Vera Muniz.

O velho ficou a meditar, meditar. E, pela exposição de livros espíritas ele então se decidiu e de repente declarou.

--- Onde fica esse Estado? – sorriu Molambo para vera consentindo em ir.

--- País. Fica próximo. ...É em Roma, terra do Papa! – sorriu a moça a dizer o local.

--- Terra do Papa!!! Caramba! – relatou por sua vez Silas Albuquerque cheio de orgulho.

O velho sorriu e depois de afirmar positivamente ainda perguntou de sobressalto.

--- E o patrão vai também?- indagou Molambo cheio de surpresa e graça.

--- Vai. Ele vai. E você vai ser o cicerone dele! – sorriu Vera ao dizer tal expressão.

--- Vou o que? – indagou abalado o velho.

--- Deixa pra lá. Arrume-se!!! – respondeu a mulher para o velho Molambo.

--- Sim senhora. Sim senhora. Já estou arrumado. – sorriu o velho tirando e pondo seu chapéu.

--- Calça, camisa, paletó, meias, sapatos e cachecol. – sorriu a esposa de Silas.

--- Cache o que? – indagou espantado o velho.

--- Deixa como está. Silas diz o que você deve levar. Hoje, no apartamento. Certo? – perguntou a mulher com a barriga bem proeminente à Molambo.

--- Tá certo. Tá certo. É pena porque eu vou perder as reuniões do Centro. – reclamou, contudo o velho Molambo.

 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

AMANTES - 23 -

- Juliana Paes -
- 23 -
Certa vez, Racilva Pontes estava com o seu automóvel estacionado em uma bomba de reabastecimento de combustível por volta das nove horas da manhã. A moça deixava o tempo passar esperando tão somente o bombeiro chegar com a fatura para ser paga. Racilva olhava para o céu, onde via uma revoada de pombos passando ao largo. De imediato ela avistou também um rapaz. Ele estava naquele local a esperar para abastecer o seu carro. Não olhava para Racilva porque estava de lado. O seu nome era Hugo, um velho colega de escola onde Racilva estudara a primeira série. Esse tempo já passara e Racilva, nunca mais, desde que terminara os estudos naquele Grupo, avistara Hugo. Certa ocasião alguém lhe falou dos velhos colegas de escola e nessa ocasião lembrou o nome de Hugo não sabia de que. Na verdade, Racilva pouco se lembrava do garoto a não ser pelo seu costume de catar catota do nariz e passar na carteira. E a garota sempre dizia em voz baixa com o rosto repugnado.

--- Bruto! Covarde! Néscio! Chega dá nojo! – argumentava Racilva de seu canto onde estava.

E por aí seguia a aula com Hugo sentado a duas cadeiras à frente na outra fileira, e Racilva logo atrás. E daquela vez que estava no posto de gasolina ela se lembrou de imediato de Hugo, pois avistara um lenço de cor branca saindo do bolso traseiro da sua calça e Racilva de imediato pensou nas célebres catotas. Ela fez um ar de repugnância e ao mesmo tempo sorriu, pois o jovem ainda devia comer catotas. Ou, pelo menos, passar em sua mesa de trabalho. E ninguém duvide se no carro do rapaz não tivesse um mundo de catotas também. Foi então que Racilva sorriu com um lenço branco de filó em sua boca para não demonstrar o seu preconceito com as catotas do rapaz.

Logo que abasteceu o seu carro, o rapaz entrou e fechou a porta sem esquecer o lenço ao passar pelo nariz e deixá-lo pregando na boca. A moça sorriu a valer pondo-se abaixada para que ninguém visse que estava a sorrir. E então ela fez o igual comentário desabonador de quando era escolar:

--- Néscio! – comentou Racilva a sorrir.

E sorriu a vontade. Apesar de não sorrir em horas que não estava tão disposta por sinal, Racilva não teve outra contemplação a não ser a de dar uma bela risada a valer. Com um poço veio o homem que abastecia o seu automóvel entregar-lhe a nota da despesa. E Racilva voltou a achar graça por quanto o bolso traseiro do bombeiro estava cheio de bucha, com certeza para também assuar o nariz ou outra coisa qualquer. Por fim, a moça deu de marcha no seu automóvel e no sinal de transito à frente ela teve que brecar enquanto abria para que ela seguisse. Foi nesse ponto que ela, olhando de lado, viu a figura de Hugo no seu carro, com o lenço preso à boca e roncando a bessa como quem queria escarrar. E Racilva comentou outra vez por se encontrar com Hugo, colega de estudo:

--- Não é possível! Até aqui ele está? Ah vadio! Esse homem não passa de um néscio mesmo! – gargalhou a moça com toda a sua franqueza.

Desse ponto em diante o rapaz, quando abriu o sinal, dobrou por uma rua à direita e Racilva seguiu em frente a sorrir constante. Certamente ela teria boas lembranças para recordar naquela manhã a sua colega de aula Vera Muniz.

No mesmo instante em que chegou ao seu escritório, Racilva deixou em cima do birô os seus documentos e caminhou depressa para o gabinete de Vera Muniz onde pretendia contar todo aquele imprevisto, coisa que há um bom tempo não teria para dizer. E foi assim que começou a conversa:

--- Sabe quem é Hugo? – perguntou Racilva a Vera.

A mulher meio desligada e se acostumando com o seu quarto mês de gravidez, respondeu:

--- Não! Quem é? – respondeu Vera.

--- Mulher! Aquele que comia catota na escola! – replicou alarmada Racilva.

--- Hugo? E o que é que tem ele? – indagou Vera Muniz alheia aos comentários de Racilva.

--- Não é possível que você não se lembre de Hugo. Era baixo, entroncado, amarelo que nem um cadáver. Ele sentava duas carteiras à frente da que eu sentava. – reprovou a Racilva o desconhecimento de Vera.

--- Parece que me lembro. Vamos! O que tem ele? – indagou Vera inquieta.

--- Nada de mais. É que eu encontrei o néscio há pouco quando eu estava abastecendo o meu automóvel. Ele é do mesmo jeito. Tira catota e ainda usa o lenço na boca. – gargalhou Racilva.

--- Ora. Ora. E você me vem contar uma porcaria dessa? Agora sei quem é. Ele é o gerente de uma firma nesse mesmo bairro. Hugo. Deixa-me ver. Hugo. Hugo. Hugo Alcanforado. É esse o nome. Alcanforado. Eu me lembrei porque lembra cânfora. – sorriu Vera Muniz.

E a conversa conduziu por um belo tempo até chegar ao gabinete da Presidente o seu Diretor Silas Albuquerque tendo por companhia o empregado Diomedes bem mais conhecido entre Silas e Vera por Molambo. Nesse momento, Silas, olhando a cara das duas mulheres bem alegres e satisfeitas foi logo a perguntar:

--- Que houve? Estou melado? – Silas falou para ambas as mulheres.

Então, foi uma gargalhada geral. As duas amigas não se contiveram de tanto alarme. E o tempo passou com gargalhada ate que as mulheres pararam de sorrir. E Silas declarou, com efeito, que todos os documentos de Diomedes estavam quites. Então era só registrá-lo para tê-lo como funcionário. A esposa de Silas procurou ver melhor a documentação e entregou a sua vice-presidente para acionar o pessoal competente e fazer de Diomedes o novo funcionário da firma. E Racilva tomou de conta todos os documentos alertando para Molambo que a partir daquele instante ela era um novo homem. Molambo sorriu e agradeceu toda deferência. Quando Racilva saiu do gabinete, Vera teve nova conversa com Molambo:

--- Escute bem. Você foi aprovado como motorista. Então vai ser o novo motorista de Silas. Exclusivo. Somente de Silas. Isso é para começar. Eu tenho para dar outras recomendações. Por enquanto é só isso. Está certo meu velho amigo? – indagou Vera a Molambo.

--- Sim senhora. Sou todo ouvido. – respondeu Molambo.

Logo após, no almoço em meio ao próprio refeitório da Agencia Pomar, a jovem Vera Muniz teve conversa reservada com seu marido. O que ela veio a lhe dizer foi de puro segredo, afinal ninguém podia saber de imediato. Dentro de breves dias ela teria que ir ter a Roma averiguar certos casos da empresa. Com certeza, ela levaria o velho Molambo e, sem sobras de dúvidas, também Silas Albuquerque.

--- E o que Molambo vai fazer em Roma? – indagou Silas.

--- Nada! Nada! Absolutamente nada. Eu preciso de um passaporte para Molambo. Só isso. Você será meu cicerone. Além disso, verá a prestação de contas do Pomar na Itália. Quando terminar esse processo, temos que visitar Veneza onde será realizado o Festival de Cinema e o filme que nós fizemos vai estar presente. E depois, viajaremos à Turquia para você conhecer Capadócia, o berço da civilização. – sorriu Vera Muniz.

Um assobio prolongado fez Silas ao ver que tanta ocorrência estaria para ser feita. E ele complementou com a frase:

--- Tá danado. Agora? Você grávida? Não é possível!!! – declarou Silas atormentado.

--- E o que tem a ver com isso? Se eu parir na Itália, o menino será italiano. – sorriu Vera.

--- Na Itália? – indagou o marido de Vera admirado.

--- É. Na Itália, no Brasil ou na Turquia. Não há problema algum. – voltou a sorrir Vera.

--- É. Na Itália! – conjecturou Silas no seu modo de raciocinar.

--- Só há um problema! – argüiu Vera.

--- Qual é? Qual é? Qual é? – indagou enervado o marido Silas.

--- Na Itália não tem caju. – e Vera soltou uma bela gargalhada se lembrado da época dos cajus que brotavam no pé do morro onde os dois sempre partiam para colher.

--- Ora merda! E não tem também abelhas! – gargalhou Silas a se lembrar do cabelo da garota todo assanhado por contas as abelhas. Ela até parecia uma bruxa.

Os amantes soltaram uma boa risada com Vera aproveitando para alfinetar ainda mais o seu marido por causa das abelhas. Pois na verdade, naquela ocasião, nem as abelhas estavam presentes. Apenas uns mosquitos de arapuá. E a garota, completamente desgrenhada, com os cabelos estirados para um lado e para o outros parecia bem mais uma verdadeira bruxa, toda e inteiramente assanhada.

--- Você era mal. Seu perverso! – clamou a moça para o marido com a cara enrubescida.

--- Mas, depois, veio o melhor. – sorriu Silas apaziguando a raiva momentânea de Vera.

E a jovem mulher sorriu.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

AMANTES - 22 -

- Nathália Dill -
- 22 -

O velho estava triste com os seus pensamentos vagando pelas sombras das estrelas aonde o ocaso não mais chegaria. Ele era todo a cismar. Temia por que tantos sonhos lhe inquietavam sobremaneira de vez em quando. Um dia era ele um cavaleiro. No outro, um mendigo. Em alguns tempos um rei. E sempre aqueles sonhos a divagar pela sua precária natureza onde o velho apenas sabia o sofrer daqueles dias de mendigo. O velho nunca fora a um cinema ou não teria visto cenas em revistas. Aquele amargor profundo era o que ainda mais o inquietava. Era um tempo distante e ele teria que ir guerrear com a sua legião. Duas moças bem jovens ainda se abraçaram a ele que não era tão velho. Ele as tratava com carinho enquanto os arqueiros o olhavam com severidade. O tempo bramia para ele com a partida a qualquer hora. Era verão. Ou primavera. Ele não sabia ao certo. Os montes eram tudo que se avistava. Os guerreiros impacientes. Todos queriam partir para a batalha. Uma longa distancia. Os arqueiros armados de lanças, espadas, arcos e flechas. Alguns guardavam uma faca por entre a bota no final da perna. Eles estavam intranqüilos com o adeus do comandante Euclides. As filhas de Euclides choravam de comoção. A mulher dele também fazia em prantos. Tudo era horror.

--- Com você era chamado pelos companheiros? – indagou Silas tão de repente.

--- Comandante. Chefe. Coisa assim. – respondeu o velho Molambo.

--- E você o que fazia com eles? Quero dizer: na campanha? – perguntou Silas curioso.

--- Não sei muito bem. Eu era o chefe. Quer dizer, eu era alguém que se fazia de chefe. Ou era o chefe mesmo. – respondeu o velho.

--- Eu me lembro do que o médium disse naquela ocasião. Era que a moça que disse ser tua filha respondeu que você se chamava de Euclides. – argumentou Silas preocupado.

--- É. Mas tenho outros sonhos em que era um Rei. – respondeu o velho.

--- Estranho isso. Muito estranho mesmo. – respondeu Silas preocupado.

--- E o senhor não tem sonhos? – indagou o velho Molambo.

--- Eu? Tenho! Mas quase não me lembro do que eu sonho. – sorriu furtivo o moço Silas.

--- Eu tenho pesadelos. Acordo sobressaltado. – falou o velho.

--- Agora, eu me lembro de um sonho que eu tive há alguns dias. Eu caminhava por uma rua. Ao lado tinha um teatro. Na metade da rua, o teatro tinha uma porta. Eu entrava por essa porta. Tinha meninas ensaiando uma peça. Depois caminhei através do estranho teatro. E encontrava um piano. E encostado ao piano estavam vários atores e atrizes. E eu dizia ao grupo que no tempo de Racine o teatro era lotado. Só isso. – respondeu a Silas de uma forma preocupada.

--- E quem é esse tal Racine? – indagou o velho.

--- Não sei. Teve Racine que era um mestre do teatro moderno antigamente. – respondeu Silas preocupado.

O velho Molambo baixou a cabeça para pensar como fazia nos tempos de mendicância. Ele era um homem extremamente triste o poucas vezes se ouvia sorrir. E ao pensar na sua filha dileta de muitos séculos passados, ele ainda ficou mais triste. Silas o observou. O velho parecia querer chorar. Via-se em seu rosto uma lágrima talvez de saudade. De momento ele se lembrou de batalhas sangrentas e terríveis onde seus homens guerreavam com arcos, flechas, espadas, lâminas de aço. Era a vontade de querer combater até a morte. Molambo viu as suas duas filhas no alto da colina a torcer pelo seu pai, Euclides, o líder da aldeia. Então, as belas mocinhas apenas gritavam a saudação da vitória:

--- Ai meu pai! – diziam isso por varias vezes até o conflito terminar.

Então, de volta a aldeia, Euclides pegou as duas filhas e montou-as na garupa do seu cavalo e caminhou para a aldeia. Os mortos já começavam a se erguer e sair pelo caminho dos falecidos todos eles de cabeça baixa a lamentar.

--- Isso foi roubo. – dizia um.

--- Covardia. – outro respondia.

--- Ah se eu pego eles! – respondia alguém.

--- Vamos pelo caminho dos falecidos que é bem melhor. – outro argumentava.

Uma música suave envolvia a todos os sobreviventes. Era o toque harmonioso feito pelo bardo do grupo seguindo também os seus companheiros. As mocinhas na garupa do cavalo apenas sorriam. E Euclides, o chefe da aldeia, depois de grande luta, extenuado, seguia calado o seu caminho das ilusões perdidas. Era já quase noite quando os lanceiros chegaram às pousadas. Eles estavam então exaustos de tanta luta.

Toda essa cena voltou a atormentar a memória de Euclides. E de imediato, revolveu para a memória de Molambo. Ele como Molambo ou Diomedes, se abriu em prantos tardios e quase infindos no meio do gabinete de Silas, o seu chefe ou patrão.

Ao meio da tarde, Vera Muniz conclamou o motorista que dirigia o carro da empresa para ele fazer uma experiência com o seu novo companheiro de trabalho, o velho Diomedes. Esse respondeu de acordo e chamou Diomedes para saírem até um local sem trânsito onde os dois podiam fazer teste de aptidão. O local era a praia onde poucos carros trafegavam, pois ali o trânsito era mais freqüente aos sábados e domingos. Nos dias de semana era bastante fraco. E ambos foram à praia para ver o que Diomedes ainda sabia fazer no passar de marcha e outros problemas que o veículo podia apresentar. E foi assim que Diomedes seguiu firme e confiante a orientação de seu colega de direção. Lá para as tantas Diomedes declarou que fazia muito tempo ter dirigido caminhão. E esse caminhão era um tanto velho. O carro não passava a segunda marcha e se passasse, era um problema para desmanchar. Não raro tinha que parar o velho caminhão para retirar a marcha engatada. O companheiro de aventura soltou uma bela gargalhada e, quanto mais ouvia a narrativa de Diomedes, mais morria de sorrir.

--- É verdade. O carro era um caco. – disse Diomedes muito sério para o colega de direção.

--- Eu sei que é. Já ouvi muita historia dessa natureza. – sorriu Oscar ao responder a Diomedes.

--- E esse não foi o único. Eu dirigi um carro que não tinha marcha à ré, não tinha freios, não tinha arranco, não tinha luz e não tinha buzina. Certa vez, eu seguia por uma estrada de ladeira onde eu teria que dobrar na próxima esquina à direita. Não contei conversa: passei em frente, pois o carro não tinha freio. Rodei um bocado para encontrar uma rua onde dobrei a direita e fui em frente. Um companheiro que viajava comigo comentou:

--- Por que você não dobrou mais atrás? – indagou o companheiro do motorista Diomedes.

--- O carro não tem freio. E não tem buzina. E não tem arranco, e não tem luz. Para acabar, salta da segunda marcha. – respondeu Diomedes para o companheiro de viagem.

--- Voltes! Eu vou saltar aqui. Se escapei até aqui é melhor eu ficar aqui mesmo. – respondeu o viajante amedrontado.

--- Nada! Você vai até na sua casa. Foi esse o combinado. – respondeu Diomedes.

E assim, foi o que disse o companheiro de primeira aula para o histórico motorista. Esse caiu na gargalhada que não podia nem mais dirigir o seu veículo. O certo foi que o motorista Oscar estacionou seu carro no meio-fio da calçada da praia para ver se terminava do gargalhar com tanta história.

--- E tem mais. Quer outra? – perguntou Diomedes a Oscar.

--- Não. Está bom. – dizia Oscar a Diomedes ainda gargalhando.

--- Certa vez eu vinha com um carro todo em mão de aparelho: branco, amarelo, cinza, azul. Verde, marrom. Tudo que era tinta o carro tinha. Um guarda, desse de estrada, mandou parar o veículo. E veio me dizer:

--- Desse jeito o carro não pode andar. – disse o guarda conferido às corres.

--- E por que não pode? Tem pneus, tem marcha, tem freios, tem arranco, tem luz. E por que não pode andar. – respondeu Diomedes ao guarda.

--- Ninguém sabe qual a cor do carro. – respondeu o guarda molhado de suor.

Nisso, cruzou um caminhão que não tinha nada do que o guarda reclamava do carro de Diomedes. Nem capu do motor. Nem à frente, nem farol, nem banco de motorista, nem pára-brisa, nem nada. Então Diomedes reparou no caminhão que cruzava com o seu e disse ao guarda:

--- E aquele como é que pode trafegar? – indagou Diomedes ao guarda.

E esse não contou conversa. De apito da boca saiu atrás do motorista do cambão para ver, se pelo menos, o veículo tinha ainda documentação em dias. Nesse ponto Diomedes seguiu viagem com o seu carro dando adeus para o guarda que, aquela altura, nem sabia o porquê havia parado o carro de Diomedes e estava a pedir a documentação daquela catrevagem.

--- Não tem seu guarda. Isso é um carro velho. – respondeu o motorista ao guarda de estrada.

 

domingo, 7 de novembro de 2010

AMANTES - 21 -

- Regiane Alves -
- 21 -

À noite da segunda-feira o casal Vera e Silas estavam logo cedo da noite na companhia do velho Molambo na sessão espírita do Centro para assistir a preleção o tomar passes para o chamado tal descarrego. Vera era sensível a incorporar, porém não sabia de tal possibilidade até aquele ponto. Aliás, todos são passiveis de ter algo de espiritismo. Contudo, nem todos são capazes de ver ou mesmo ouvir mensagens ou vultos de seres de outras vidas. As sessões espíritas podem ser feitas nas partes diurnas ou noturnas. Mesmo assim, as sessões na parte noturna são mais eficazes. Depende apenas de mesa, uma sala escurecida, iluminada apenas por uma vela acesa ou por uma pequena lâmpada colocada no centro a mesa e um livro “Evangelho Segundo o Espiritismo”. É recomendada que a mesa não deva ter qualquer objeto de vidro ou minerais, pois materiais podem constituir um obstáculo à recepção de certos tipos de espíritos. Igualmente se recomenda que se liguem aparelhos de televisão, telefones ou rádios ou qualquer tipo de aparelho eletrônico. Tais equipamentos podem constituir motivos de interrupção ou desconcentração da sessão espírita. A sessão deve ser conduzida por um “médium” e ter capacidade de comunicação direta com o mundo dos espíritos.

Às sete horas da noite já havia muita gente do salão quando foi aberta a sessão. No meio da mesa estava em pé o homem “Paredão” e ao seu lado, Racilva Pontes, vidente por excelência, moça que já freqüentara as sessões por vários anos. Do lado esquerdo de “Paredão” estava o “Pescador” e em torno da mesa havia varias pessoas, inclusive Vera Muniz, Silas, o seu marido e uma jovem que dera entrada a Vera que se chamava Cilene. Ela era bem jovem, por assim dizer. Diomedes, o velho, estava sentado logo abaixo na primeira fila de cadeiras a ouvir a preleção de “Paredão” contado fatos muito bem curiosos de acontecimento após a morte ou a passagem de um determinado espírito para o outro lado da vida. Um caso em particular que foi abordado por Allan Kardec em o “Livro dos Espíritos” a consultar um espírito foi a interferência de um espírito ignorante influenciar seres humanos encarnados. O espírito consultado disse que isso acontece normalmente entre todos os seres humanos, inclusive nas relações sexual. O caso enfocado despertou tamanha comoção entre os que estavam no local a participar da reunião. E “Paredão” discorreu que estes casos estão relatados na pergunta de numero 1118 feita por Allan Kardec aos espíritos de luz.

--- Peço a todos os presentes que façam oração pelos vivos para evitar algo desse tipo. – relatou “Paredão”, agradecendo em seqüência.

Na hora do passe um homem chamado. Era ele o velho Molambo. Esse foi pego de surpresa. Mesmo assim, não teve maior importância no seu pensar. Molambo foi até a cabine de passe e tomou seus passes com uma reserva feita pelo médium. Esse disse a Molambo, sem ao menos lhe conhecer que estava ao seu lado uma moça de seus vinte anos. Essa moça tinha sido filha de Molambo em outra encarnação. O médium disse o que ele estava a ouvir, com certeza. E mais: naquela ocasião a moça tinha vendo de seu lugar para agradecer ao seu pai, de nome Euclides, por ter deixado seguir em paz a sua noiva que então na sua vida presente ele “aprisionou” por longos anos. A moça, filha de Euclides desse que após desencarnar para passar para outra vida, o seu pai veio como sendo Diomedes. E a noiva que ele teve como Diomedes era a senhorita Otacília que, na vida anterior tinha sido sua outra filha. Então, com a libertação de Otacília, estava tudo em paz. Ela, a filha também de Diomedes que não era Diomedes e sim Euclides, agora tinha que agradecer ao seu pai por estar consciente outra vez. O médium disse isso porque estava a ouvir de outro espírito. O nome do espírito era Cecília. Ela estava vivendo em outro caminho a espera da irmã que se chama Otacília e na verdade o seu nome real era Noêmia. Ou seja: Noêmia=Otacília; Cecília ainda era Cecília, pois ainda não tinha encarnado novamente; o pai era; Euclides=Diomedes. Assim, Cecília vivia em sua anterior existência a espera de ter nova oportunidade de reencarnar. Após todo esse delírio eterno, o velho Molambo não suportando mais, desmaiou.

Então ele foi levado para a enfermaria onde um médium clamou pelo Doutor Evaristo, médico desencarnado que estava a prestar socorro aos enfermos da carne e diagnosticou que o velho estava bem. Apenas sofrera um choque momentâneo por saber que tinha filhas e uma delas estava no Centro Espírita naquele instante. Com o decorrer dos minutos, Molambo recobrou o sentido. E ainda sonolento perguntou:

--- Onde estou? – falou Molambo ao médium que já estava cercado por outros competentes médiuns inclusive a vidente Racilva Pontes.

--- Você está em paz. E vivo, podemos dizer. – sorriu “Paredão”.

Esse foi um caso surpreendente de transmigração de um ser para outra vida. E ficou nos anais da história do Centro.

O burburinho se formou do lado de fora do Centro, cada um procurando saber o que acontecera com o homem. E Vera veio correndo para perto de Racilva. Essa lhe pediu com reservas um tempo pôs teria que prestar socorro ao senhor Diomedes.

--- Ele morreu, morreu? – indagou Vera com os olhos arregalados e falando baixo.

--- Não. Não. Tenha calma. Ele está bem. O médico já o recuperou. – sorriu Racilva tentando dispensar a senhora Vera Muniz.

Após a sessão, Vera e Silas vieram, a saber, que o velho Molambo teve um desmaio por então conhecer que estava com ele uma filha que nunca ele foi o pai. Mas era uma filha de outra geração. Essa moça veio agradecer a “liberdade” que ele deu a sua noiva – que também era a sua filha, irmã dessa primeira filha de outra geração -. Ele ficou, a saber, o seu nome da outra encarnação. Era o seu nome Euclides. Depois que desencarnou voltou a esta encarnação como Diomedes. Para o homem, tudo isso foi um tremendo choque. E então Molambo desmaiou.

--- Como é cheia de atropelos nossa existência! – comentou Silas a “Paredão”.

O homem, suado, tremendo por ter conseguido levantar um “morto”, a limpar a testa, disse a Silas o que podia dizer:

--- Essa foi demais! Eu tenho falado sempre das angustias das pessoas. E a cada passo deparo com fatos inexplicáveis para nós. – relatou “Paredão”.

--- Eu estou surpreso com o que aconteceu. (e soltou um assobio) – falou Silas temeroso.

--- Que coisa mais estranha. – falou Vera tendo um arrepio.

No dia seguinte, Vera Muniz chamou ao seu gabinete o rapaz de recados para saber o que ele tinha feito com relação aos documentos civis de Molambo. O rapaz disse-lhe apenas que a documentação levaria algum tempo para ser feita e que era preciso Molambo apresentar fotos para alguns documentos como a carteira de identidade e a carteira do Ministério do Trabalho. A mulher se deu por satisfeita e que providenciaria tais fotos. Nesse momento, Molambo estava no escritório de Silas manuseando as revistas que estavam expostas. Apesar de saber ler bem pouco, ele se admirava com as ilustrações mostradas nos magazines com imagens de outras partes do mundo. Ele ficava calado ao tempo em que memorizava as imagens estando Silas apenas a escrever em seu birô assuntos que só a Silas cabia entender. Por alguns momentos o telefone tocou insistente até que Silas atendeu. Era assunto que só lhe dizia respeito, pois Silas não falou com Molambo. A seguir, um rapaz bateu a porta e entrou. Era o rapaz de recados. Ele já trazia consigo uma maquina fotográfica para fazer as fotos de velho Molambo. Ao pedir que Molambo se posicionasse mais circunspecto esse mostrou estranheza.

--- São as fotos para o seu documento. Eu tenho que levar. E o senhor necessita ir para assinar. – falou o rapaz.

O velho ficou surpreso e olhou para Silas.

--- É isso mesmo. Pode tirar as fotos. – respondeu Silas tranqüilizando Molambo.

Após passar o susto o velho se postou de forma que o rapaz pudesse tirar as fotos. Foi tudo muito rápido e o rapaz disse que, quando fosse ao Ministério, voltaria para chamá-lo. O velho se tranqüilizou e olhou novamente para Silas. Este respondeu:

--- Saíram ótimas as fotos. – respondeu Silas sorrindo.

O velho se tranqüilizou e de repente veio à lembrança de que já fizera aquelas fotos para tirar documentos que perdera. Identidade, Trabalho, mas não se lembrava de ter tirado fotos para carteira de motoristas. E perguntou a Silas esse aspecto.

--- Motorista precisa? – indagou o velho Molambo.

--- Não precisa. O senhor deve levar consigo a Identidade. – sorriu Silas ao responder.

O rapaz da foto foi embora para o salão de revelação e Molambo se aquietou, olhando novo. Ele balançou a cabeça como que achasse o fato muito estranho. Afinal era de se pensar para que tanto documento Molambo precisasse! E conversou com Silas desta forma:

--- Certa vez, faz tempo, não sei quanto, eu tive um sonho que se repetiu por várias vezes. Eu sonhava que era um comandante ou um chefe de uns arqueiros. Gente que atirava flecha. E, no sonho eu tinha duas filas. Não sei se eram gêmeas. Mas eu tinha que ir para uma batalha. E então me despedi das minhas duas filhas. Isso é o que lembro. – falou Molambo entristecido.

--- Incrível!! Um arqueiro talvez fosse de um Rei. – discorreu Silas de boca aberta.

--- Talvez. Talvez. Eu vestia uma roupa branca com uma cruz no peito. – acrescentou o velho.

--- Um cavaleiro, com certeza. – prognosticou o rapaz.

sábado, 6 de novembro de 2010

AMANTES - 20 -

- Linda Blair -
- 20 -

Após longas horas de conversa Silas chamou a esposa Vera para tomar um refrescante banho de mar. À praia ficava perto da choupana de Diomedes. A mulher, já entrado para o terceiro mês de gravidez, disse ao esposo que ele poderia ir sozinho, pois que ela ficaria apenas a esperar somente a olhar da porta do casebre do velho Molambo. O homem sorriu e chamou a garotada para sair com ele enfrentar o mar revolto. Ondas fluíam nas pedras à claridade da manhã e poucos eram os que estavam a gozar dessa aventura paradisíaca. Com os meninos em verdadeira algazarra, Silas entrou a água, àquela hora ainda morna, pois toda à noite a água do mar ficava morna. Os meninos também caíram na água o seu modo, nadando com braçadas fortes para além da visão de Silas. Ele não estava preocupado nem um pouco com os garotos feitos naquela praia. E nem a si mesmo, pois era acostumado a nadar. A sua esposa era quem gritava do mio da rua, pouca distancia da praia:

--- Cuidado com as pedras!!! – gritava a mulher com muito medo com Silas.

O homem Molambo que estava por perto de Vera Muniz a tranqüilizou dizendo:

--- Ali não tem perigo. Nunca ninguém morreu nesse ponto. – sorriu Molambo.

E a mulher dizia ao homem:

--- Eu tenho medo de Silas. Ele é muito afoito. – respondia a mulher.

--- Veja os garotos como vão bem longe. – sorriu Molambo tentando amenizar Vera.

E assim, com Molambo apontando para os filhos dos pescadores que tomavam banho de mar, ele sossegou a mulher de seu temor desaforado.

Quando Silas voltou do banho, a sua mulher lhe esperava com uma toalha felpuda para que ele se enxugasse a contento. Um moço que passava com uma fileira de peixes somente deu vontade de Vera abocanhar aqueles pescados e devorá-los cru. Porém se conteve de imediato de suas emoções de mulher grávida. No entanto não ficou calada e disse para Silas:

--- Peixe! E fico com água na boca. – sorriu a mulher ao dizer tal coisa para Silas.

--- A gente vai naquele restaurante que tem na redondeza do rio. – explicou o marido.

--- Mas eu queria comer aqueles. Cru! – sorriu a mulher.

--- Desejos de gravidez. – sorriu o marido acabando de se enxugar com a toalha nas costas.

Entre vinhos e postas de peixes, os amantes então já casados, livrando-se das espinhas do peixe no acanhado restaurante da beira do rio, trocavam impressões sobre o futuro. Além deles e de outros comilões do meio da manhã, estava também, sossegado e tranqüilo, o velho Molambo a ouvir a trocar de conversa dos amantes. Nada o velho Molambo falou até a mulher lhe perguntar sem meios de arrodeios:

--- Mas o senhor sabe ler? – indagou a mulher de supetão.

--- Não muito como os doutores. Mas me arranjo. – sorriu Molambo ao responder a indagação.

--- Ah sim. Eu sei o que quer dizer. Mas o senhor tinha carteira de motorista? – perguntou a mulher tirando farpas de espinhas de sua boca e a engolir o peixe frito.

--- Eu tinha. Mas, após tanto tempo eu acho que perdi todos os documentos. – respondeu o velho sem titubear.

--- Mas isso dar-se um jeito. O senhor quer trabalhar mesmo? – indagou a mulher a sorrir.

O velho ficou cismado com a pergunta e não soube nem mesmo responder. Passou-se o tempo até que a razão lhe voltou.

--- Eu quero. Ajudo a descarregar caminhões. – falou o velho inquietando-se com a resposta.

A mulher olhou para o marido como quem pergunta se devia contratá-lo para uma experiência e o marido não entendeu nada do que a mulher queria lhe falar. Então, Vera Muniz, limpando as farpas do peixe que lhe caíra por sobre o vestido, perguntou a Molambo:

--- O senhor ainda sabe dirigir um carro? – indagou a mulher.

Molambo estremeceu. Não entedia mais o que a mulher lhe perguntara. Certo tempo a muitos anos, ele dirigiu caminhão. Depois do desenlace de sua noiva ele resolveu vender tudo o que tinha e desde aquela época não dirigia nem mesmo carroça de burro. Porém, para quem soube dirigir um carro em certo tempo de sua vida, não restavam dúvidas de que era possível saber um tanto naquela estrada do destino. E então, Molambo respondeu:

--- As coisas mudaram. Mas tudo o que eu sei é passar marcha e pegar no volante. – sorriu o velho um tanto preocupado com as perguntas da mulher que nem tanto a conhecia.

--- Pois bem. O senhor se arrume e vamos para a cidade. Veremos o que pode fazer então. – falou a mulher grávida.

--- Mas agora dona? – perguntou Molambo extasiado.

--- Vera, o meu nome. Vera. Agora! – resolveu a mulher de supetão.

Naquele dia de domingo à tarde no seu apartamento do décimo andar, Vera Muniz estava reunido com seu marido Silas e o velho Molambo que ela preferia chamar de Diomedes, o seu verdadeiro nome. Após o almoço, pelas três horas da tarde, os três foram repousar um pouco. Às seis horas da tarde, após se levantar de seu quarto, Vera foi tomar banho e Silas começou a conversar com Molambo. E então Silas ficou, a saber, que o velho não sabia o porquê de seu encontro com a noiva e após tanto tempo, ela deixou de aparecer a ele, no sábado passado. Foi então que Molambo resolveu trocar de roupa, porém não tinha certeza que de fato fora pelo fato de sua amada desaparecer. Ele nem fazia idéia de tal caso. Silas também não sabia dizer o tal caso do desaparecimento. E não acreditava também que Vera soubesse explicar tal fato. O homem Molambo saíra naquele dia de domingo de sua choupana para ver se ocupava um novo emprego. Ele não sabia ao certo de tudo o que fizera em anos anteriores. Alguma coisa Molambo se lembrava. Alguma coisa. Porém teve importantes fatos do qual ele não recordava ao certo. Então, seria melhor passar uma borracha no que não se lembrara jamais.



No apartamento de Silas e Vera, o velho Molambo passou a divisar um futuro. Algo que podia garantir algo melhor. E o que ele iria acertar com Vera Muniz era o começo de tudo. Ou tal recomeçar. Molambo olhava do alto o mundo ao seu redor. Sentia-se então maior que todos os viventes da Terra. Mesmo assim, não se amedrontara. Em certo momento, ele atendeu a um chamado de Silas para provar certas roupas. Molambo se inquietou com tanta pressa.

--- Não faz mal. Veste essa calça. E a camisa também. Põe a gravata. Vê se o paletó lhe cabe. - recomendou Silas ao velho.

Após tanto veste e tira Molambo veio à sala se mostrar ao seu possível patrão. Tudo era justo e perfeito para o velho. Nesse momento saiu do banheiro a se enxugar ainda a dama Vera Muniz. Ao ver tal arrumação ela ficou desnorteada. E caiu nas graças do marido:

--- (gargalhadas) – E agora tenho dois homens em casa? – indagou a mulher com alegria.

--- Está bom assim? – indagou o marido a sua esposa.

--- Hum. Deixa-me ver. Assim. Assim. Pronto. Está ótimo. – recomendou Vera.

--- Está apertada no pescoço. – respondeu o velho.

--- Não faz mal. Amanhã o alfaiate dá um jeito no colarinho. – sorriu a mulher.

No dia seguinte, segunda-feira, os três saíram às oito horas para o escritório, onde a mulher procurou o alfaiate do magazim para ajeitar as peças do colarinho que estavam apertadas na garganta de Molambo. Ela deixou as peças na mesa do alfaiate e seguiu para o seu escritório em companhia de seu marido Silas e do próprio Molambo. De inicio a mulher procurou saber de alguns documentos necessários. E o que ela não conseguiu ter em mãos ordenou a um empregado de a firma iniciar a retirada de tais documentos.

--- Por enquanto é isso. – sorriu vera para Molambo.

--- Vamos para a minha sala, pois aqui o senhor se sente como um presidiário. – falou Silas ao velho. E este concordou. Ajeitando-se como pode, Molambo seguiu para o escritório de Silas passando por entre um sem numero de pessoas bem vestidas. Ele se sentia despido perante tanta gente daquele modo. Na sala, Molambo não sabia o que fazer. E Silas, para desviar a atenção de Molambo lhe disse que podia folhear as revistas ali postas. O velho era ainda temeroso, pois jamais entrara em tal escritório ou edifício. Quando muito, ele se sentia mais a vontade em uma feira livre no meio de bodes, cabras e carneiros. Ou mesmo nas bancas de vender peixe.

--- Olha o peixe! Olha o peixe! Olha o peixe! Está fresquinho, senhora! Vai querer esse pargo? – perguntava um vendedor de peixe.

Ou então os bodes e cabras a berrar no meio do mundo. A feira do fumo. Os sacos de farinha, arroz, feijão, açúcar. As bancas de carne seca ou verde. Os homens a fazer qualquer negócio com as mangas, bananas, maracujás, abacaxi. De ouro lado, o homem que vendia ferro velho. E o rapaz que trazia sacos para se comprar víveres. Ou as galinhas magras ou gordas. Os galos de raça. Esse era o mundo que Molambo tinha carência de ver.

 


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

AMANTES - 19 -

-Aline Moraes -
- 19 -
Na sexta-feira, à noite, estavam no Ap de Vera Muniz e de Silas Albuquerque, os espíritas “Paredão”, o Pescador e a moça Racilva Pontes para a reunião de mesa que fora marcada com antecedência pela senhora Vera e a moça Racilva. As cinco pessoas depois de uma breve conversa e olhar a rua por entre as janelas do Ap, no alto,eles iniciaram o encontro com a leitura das preces.Um livro com a impressão do “Evangelho Segundo o Espiritismo” foi posto à mesa onde os irmãos estavam a sentar. Na cabeceira na mesa retangular estava Racilva Pontes e na outra parte da mesa estava “Paredão”. Os demais ficaram na parte alongada da mesa. Antes, “Paredão” passou em revista toda a casa, olhando inclusive atrás das portas. Com ele seguiram Vera e Racilva. Depois desse momento, eles iniciaram a reunia espírita. Depois das orações de costume, Paredão falou que a partir daquele instante, e ao querer dos adeptos, ele e quem mais fossem convidados estariam naquele apartamento para estudar um pouco a doutrina espírita. Foi uma longa preleção com o depoimento, principalmente da dona do apartamento, senhora Vera Muniz que estava começando a estudar assuntos de modo espírita sem, contudo entender de muita coisa, como sendo “Apometria”.

--- Bem. Este é um assunto relativamente novo, muito embora já for uma ciência bem antiga. – declarou “Paredão”.

--- Como pode ser uma coisa assim? Antigo e novo? – reclamou Vera Muniz.

--- Bem. É o seguinte: os Guias Espirituais. Os Guias, eu estou falando. Aqueles que já não vivem nesse corpo da carne. Entendeu?; Pois bem! Eles trabalham muito com apometria. A apometria fala do desdobramento, freqüência vibratória, corpo astral, mental e etérico, ressonância do passado, que é uma das técnicas apométricas. A apometria é a técnica que designa o desdobramento do corpo astral. Entendeu agora? – falou Paredão a sorrir levemente

--- Estou em dúvidas. Mas o que essa ciência faz? – indagou Vera meio desconfiada com o ensino de “Paredão”.

--- Veja bem: antes, bem antes, não se falava nessa ciência. Porém com o passar do tempo, com a evolução do próprio espiritismo para não se dizer da humanidade, o véu foi se abrindo e essa nova mais antiga ciência, pois vem do continente africano de inúmeros séculos, foi sendo aplicada abertamente aos médiuns. Segundo os estudiosos, a utilização da apometria pode ser considerada como parte da evolução no tratamento espiritual. A apometria é uma viagem astral. A apometria tem o significado de: “Apó” – além de – e “Metron” – que se refere à “medida”. Por intermédio da projeção do perispírito, o médium pode ver e ouvir os espíritos. É, entre ciências, como técnica eficaz no tratamento das obsessões. Entendeu bem? – perguntou o médium “Paredão”.

O assunto continuou por mais alguns tempos com Vera a pesquisar em sua mente tudo que ouvira falar e dizer sobre a ciência da apometria. Após esse debate, apagaram-se as lâmpadas para ter início à parte da desobsessão de espíritos eventuais que por ali estivessem. Um deles foi mentalizado por “Pescador” a dizer inverdades sobre o outro lado da vida, pois ele estaria vivinho da silva naquele momento. Esse era um caso de um novíssimo espírito que, talvez desencarnara há bem pouco tempo e não sabia que estava assim, desencarnado efetivamente. Houve uma longa prece sobre esse “espírito” e ao fim de tudo ele seguiu para o seu lugar no mundo universal dos desencarnados. O homem tinha morrido há poucos dias e não sabia que ele “morrera” para a vida terrena. O espírito dissera que estava no seu carro e saíra para comprar cigarro em uma cigarreira próxima e nada mais ele dissera. Após longas preces e então Racilva Pontes notou que por trás de “Paredão” tinha um espírito, pois a moça estava a vê-lo. “Paredão” indagou sobre os seus trajes e a moça, em transe, disse ser um “frade” com trajes de uso dos frades, fios dourados em torno da manga da túnica, e seria bem gordo, como dava para ver. “Paredão” disse na oportunidade que aquele era na verdade o “Frade”, espírito de luz que sempre o socorria. Por mais alguns instantes a sessão terminou.

Após a sessão o “Pescador” relatou que certa vez ele ouvira um pedido de “socorro” vindo de certa distancia em pleno mar, durante a noite. Ele procurou ver alguma luz de um barco, mas não avistara. E com isso voltou a dormir no barco de pesca. Algum dia depois lhe chegou a noticia que outro pescador morrera em plena terra depois de uma contenda acirrada com outro pescador. E o homem gritara a pedir socorro e logo morreu.

--- Vá ver que foi ele quem pediu “socorro”. – sorriu “Paredão a beber uma xícara de café que Ver Muniz lhe trouxe.

No domingo seguinte, Vera e Silas foram até a casa de Molambo levando uns pertences para dar a família do homem; arroz, feijão, açúcar, fubá e outras comidas caseiras tão comuns inclusive guloseimas para a criançada. Ao chegar ao mocambo, Silas encontrou na porta da velha casa de taipa e duas quedas de água, um homem sem barbas, sem bigodes, cabelos da cabeça cortados, chapéu de panamá, causas e camisas limpas, calçado limpos. Um homem de brio. Silas ficou a pensar se teria errado a casa ou não. E indagou a mulher, Vera Muniz, se a casa era aquela mesmo. A mulher disse afirmativamente. Após estacionar o veículo na porta da choupana, Silas indagou do homem que estava em pé e a sorrir contente, onde era a casa de seu Diomedes. Então o homem respondeu:

--- Aqui mesmo. E eu sou Diomedes. – respondeu o homem a sorrir.

--- Não. Espere ai. Eu pergunto por Diomedes, um pedinte! – reclamou Silas atordoado.

--- Está falando com ele! – sorriu o homem sem exageros.

--- Mas o senhor é Diomedes mesmo? – indagou assustado o homem Silas.

--- Sou sim. E você é o que esteve aqui em casa há poucos dias. – sorriu Molambo se pressa.

Silas voltou a vista para a mulher e procurou areia nos pés sem encontrar. Após estar perplexo com a mudança havia naquele homem, enfim, Silas continuou a conversa quando de imediato apareceu Luiza, por trás de Diomedes e foi logo dizendo.

--- É ele! Não está vendo? Aquele sujo? Ele seu moço! – declarou Luiza sorrindo de alegria.

--- Mas dona. ...Como é o seu nome? Luiza. Mas é ele mesmo? – declarou Silas ao passo que a sua mulher, Vera, não teve meios de suportar tamanha transformação.

--- Mas é o seu. ...- e a mulher Vera Muniz nem pode completar o que tinha a dizer.

E foi uma comemoração sem fim. Delirante mesmo. O casal estava a ver Molambo em nova indumentária sem saber por qual razão aquela modificação. Silas e a mulher Vera saltaram do seu automóvel e passaram a conversar com o velho Molambo que eles o chamavam mesmo de Diomedes. Foi um abraço acochado, apertado que o casal ofereceu ao homem, além da cesta de alimentos básicos para a sua família. A mulher Luiza, irmã de Diomedes, agradeceu a oferta dos alimentos e a criançada caiu na gandaia atrás de chupar um pirulito ou coisa assim. Então, a família começou a conversar. Diomedes disse que no dia anterior, ao acordar, viu sua roupa rasgada, imunda, toda suja. Os cabelos por fazer. A barba também. Os pés sujos em todos os cantos. E ele não pensou duas vezes. Saiu para o banheiro no quintal da casa. – Um banheiro velho, sujo, horrível que dava dó – e se banhou da cabeça aos pés. Ele mesmo fez a barba, cortou as unas dos pés e das mãos, lavou a boca, vestiu uma calça nova que de nova só tinha o nome e depois seguiu de barba feita e sentou na cadeira do barbeiro e pediu:

--- Arreia!!! – disse ele ao barbeiro que até ficou surpreso.

--- O senhor que corta por aqui? – indagou o barbeiro.

--- Arreia tudo o que tiver. – enfatizou Diomedes.

O barbeiro, amedrontado, começou a cortar o cabelo de Molambo. A certa altura do corte, o barbeiro perguntou:

--- Assim tá bom? – tremeu o barbeiro a perguntar ao velho Molambo.

--- Arreia tudo! Eu não disse? – afirmou Molambo por mais uma vez.

E o barbeiro não contou conversa; cortou todo o cabelo de Molambo. Então, de roupa nova, chapéu de panamá, o homem estava pronto para sair e ir procurar trabalho da feira onde os homens descarregavam os caminhões de frutas, verduras e carne.

--- Foi isso o que eu fiz! – sorriu Molambo ao contar sua aventura.

--- É danado mesmo. O senhor nem se parece com o homem sujo que eu conheci quando era menino. – gargalhou Silas ao notar a transformação havida em Diomedes.

--- Imagino que sim. Agora sou um novo homem! – dialogou Diomedes a sorrir.

Vera Muniz nada falou e somente contemplava aquele homem maduro todo arrumado, dos pés a cabeça e teve vontade de perguntar a ele pela sua noiva. E foi a frente.

--- Mas o senhor me falou que era noivo e estava para casar. Um homem matou a sua noiva. Não foi assim? – indagou Vera assustada.

--- Ah. Eu me lembro dela. Nessa ocasião vou levar flores para por em sua sepultura. Sabe dona? Eu não vi mais essa visagem de Cila!? – deu, a saber, o velho Diomedes.

--- É danado. No dia anterior o senhor tinha visto Cila? – perguntou Silas a Molambo.

--- Eu não me lembro de nada mais! – falou em tom decidido o velho Molambo.