sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

LUZ DO SOL - 5

- LINHA DE FOGO -
Hoje, eu tive um sonho com o meu antigo chefe: Luís Maria Alves, diretor-superintendente dos Diários Associados no Rio Grande do Norte. "O velho Alves" era como todos o chamavam na redação do Diário de Natal ou da Rádio Poty, emissora associada do Rio Grande do Norte. Seu jeito era de um homem de porte médio, apesar de ter menos de 1,70 mts de altura, forte, mas não gordo, olhar baixo, poucas palavras, mãos na cintura com os dedos para frente. Às vezes calçava sapatos. De outras vezes, chinelos ou alpergatas. Trajava sempre uma roupa caqui - calça de camisa sempre usada por fora das calças - e em outras ocasiões, ele estava de roupa branca. Quando vestia uniforme - calça, camisa, gravata e paleto, calçando sapatos - era reparado por todos os que trabalhavam na redação do jornal e da rádio. Era um homem cizudo, porém de certa forma, cortez. Tinha gente que lhe dizia o que estava acontecendo na redação. Isso, ele não precisava perguntar. Era apenas esticar a cabeça para ouvir e o alguém já sabia o que era para dizer;
--- Flataram dois. Estavam fazendo Vestibular. - dizia o informante.
Ele, então fazia um gesto de que podia dispensá-los de vez. Tudo isso ele fazia por gestos. E, muitos dos funcionários temiam a presença do "velho". Todos o cumprimentavam para não receber resposta de agradecimento. O "velho" saía de cabeça baixa para algum lugar do diário. Certa vez, ele me pegou no corredor da Radio Poty e perguntou:
--- Para onde vai? - disse o velho.
E eu respondi.
--- Para a direção. - respondi eu.
Ele respondeu em troca:
--- Ah Bom. Você trabalha aqui? - perguntou o velho.
Eu respondí.
--- Na redação. - disse eu.
Ele se conteve e continuou seu caminhar em direção ao bar da Radio, onde servia café, bolo, sucos de frutas, pasteis dentre outras. Ao que parece, ele nem sabia que trabalhava na Rádio, apesar de estar alí a uns cinco anos. O mesmo aconteceu com outros repórteres. Pelo seu gosto, nenhum funcionário teria um outro emprego. Mesmo assim, tinham os que trabalhavam no Estado, Prefeitura, INPS (hoje INSS), Câmara Municipal e em outros locais de atividade.
Luís Maria Alves chegou à Natal sem emprego, no ano de 1946. Aquí fez um teste para operador de Morse na Western, empresa americana, a cabo que dominava o mundo inteiro. Se alguém - um usuário - precisasse se comunicar com um navio em alto mar, era só passar um telegrama para esse navio e podia esperar resposta. Em poucos minutos tinha a menságem de volta. A Western era o progresso das comunicações naqueles anos.
Quando na Western, ele fez amizade com outros operadores e ficou sabendo que poderia encontrar um emprego de repórter no Diário de Natal, no tempo, o maior jornal do Estado. O DN tinha sido adquirido por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, natural do Estado da Paraíba, nascido no sítio Umbuzeiro, no dia 4 de outubro de 1892. Assis Chateaubriand era um homem de visão e dominou o império de jornais, revistas, emissoras de rádio e, a partir de 1950, também implantou no Brasil, a televisão.
Ainda moço, Luís Maria Alves conseguiu um emprego de repórter policial. E assim, continuou em sua faina. Algum tempo depois ele era repórter de notícias gerais. Quando uma autoridade do Governo Federal ou autoridade militar desembarcava em Natal, no Campo de Parnamirim, lá estava Luis Maria Alves. Instruindo o fotógrafo, ele se fazia presente, postando-se entra as autoridades e, com o sinal combinado, o fotógrafo dava o clique e ele saía descretamente do meio das personalidades. No dia seguinte era divulgada a matéria feita por ele onde dizia "que entre os passageiros encontravá-se Luis Maria Alves, repórter do Diário de Natal". E a vida continuou por todo o tempo que lhe proporcionava um meio de viver. Por volta do ano de 1960, o DN vivia a sua mais grave crise. A falta de dinheiro para pagar aos funcionários era alarmante. Contudo, deste fato ninguém - o povo da rua - sabia. O que interessava era ler o DN e ouvir a Radio Poty, apesar de, nesse tempo, existirem outras emissoras em Natal, como a Rádio Nordeste, Rádio Cabugi, Radio Trairy (hoje Tropical) e Radio Rural. Qualquer notícia que se ouvisse, era conferida na Rádio Poty, pois era alí que a noticia dava fé. E, por esses anos, assumiu a direção do DN e Rádio Poty o senhor Luis Maria Alves, comandando o império da informação no Estado. A ordem dada pela a direção da rádio era de que nenhum locutor pudesse fazer divulgação de produtos em outras emissoras de rádio, salvo se o anunciante pagasse para sair, também, na Rádio Poty. Em poucos tempos, sob a direção do "competente" Luis Maria Alves, o DN e Radio Poty normalizaram o pagamento de seus funcionários. E se pensar em trabalhar no DN era um sonho de muitos.
O sonho notrido por seu Alves, era ter conhecido - de perto - Francklin Delado Roosevelt, dos Estados Unidos; Winston Churchill, da Inglaterra; Charles De Gaule, da França: Josef Stalim, da União Soviética; Benito Mussolini, da Itália; Imperador Hirohito, do Japão; Chiag Kay-shek, da China e Adolf Hitler, da Alemanha. Japão, Itália de Alemanha formaram o Eixo que desencadeou a II Guerra Mundial que terminou com a captulaçao do Japão, em 1945, depois da explosão de duas bombas atômicas em Hyroshima de Nagasaky. A Alemanha ja havia se rendido com a morte do seu ditador Adolf Hitler poucos meses antes deixando uma cidade - Berlim - destruida por vários anos. Na Italia, Mussolini foi morto por enforcamento. Isso tudo, seu Alves sabia. E era o que conversava com os repórteres do jornal para o deleite de alguém que achava graça até demais dos feitos havidos durante a guerra. O homem lia tudo o que se escrevia sobre a II Guerra e da história vivida por outros, ele contava baixinho para os ouvidos atentos dos repórteres. Um personagem não citado àcima, foi Getulio Vargas. Isso, por que seu Alves teve oportunidade de vê-lo. Porém Getulio Vargas teve uma posição decisiva na guerra, cedendo o seu território para o tráfego de aviões norte-americanos que faziam escala no aeroporto de Parnamirim, Rn. Nessa mesma linha de fogo tremiam os alemãs que aqui ainda tiveram um homem que operava via Morse, dando a posição de embarcações navais e aéreas, e da situação geográfica de Natal e de Parnamirim. Esse homem foi preso quando operava de dentro do cemitério do Alecrim, durante a noite com o seu transmissor.
Agora, tempos depois da morte do "velho Alves", eu sonhei com ele dizendo que estava no DN e que os "outros" sairam de lá. Os outros eram o superintendente do DN e mais 100 funcionários que foram despejados sem dó nem piedade. "Seu Alves" foi um dos primeiros a sair do DN e ainda assim montou um jornal que tirou apenas dois exemplares. Ele não era tão astuto nesse ponto pois queria fazer frente ao DN que dirigiu com tanto empenho. A questão foi que o jornal que ele montara tinha o seu menor número de adesão e todos sorriram dele por tal iniciativa. Quando o "velho" morreu, poucos foram os que estiveram no seu velório. Em dias de dezembro do ano passado, um rapaz contou que "viu" seu Alves, todo de branco, de pé, no palco da Radio Poty. O rapaz estava só e ainda chamou, com espanto, pelo seu nome. E o vulto desapareceu.

Um comentário:

José Damião Leandro disse...

Oi, Aldérico, eu iria sugeri que você postasse essa pequena biografia de Luís Maria Alves no blog Natal de Ontem. Mas antes de escrever esse comentário, tive a curiosidade de olhar o seu perfil no seu blog e, por coincidência, você, assim com eu, é um leitor do Nataldeontem. De toda forma, acho que quanto mais divulgação sobre as pessoas inportantes de Natal, melhor para construção da meméria da cidade. Até logo e parabéns pelo artigo.
José Damião Leandro