sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

RIBEIRA - 203

OTHON BASTOS
Eu conheci Othon Bastos no ano de 1965, em Salvador, Bahia, quando se realizava alí um encontro de cineclubes de todo o Brasil. Ele vinha por uma das ruas tortuosas de Salvador, perto de onde morava. Ele já havia passado por mim quando alguém me alertou: "Olha! Aquele é Othon Bastos!". De imediato puxei a minha câmera fotográfica e gritei: "Othon Bastos!". E ele se voltou para mim. E eu: "clic". Tirei a foto do rapaz. Ele falou: "Que susto! É porque, agora tem a imprensa "marron" procurando a gente!". Aí, entramos em conversa, eu dizendo já ter visto cerca de 10 vezes o seu filme, "Deus e o Diabo na Terra do Sol". E ele se descontraiu de vez. Falamos sobre cinema e coisa e tal e ele me disse que "ali, na livraria" tinha um disco com os temas musicais e falados. Nós entramos da Livraria e, tão logo olhei a capa do LP, pedi ao rapaz e comprei aquela preciosidade que trouxe comigo para todo o sempre. O disco com a trilha sonora de "Deus e o Diabo". Depois de certo tempo, ele disse que já ía e eu lhe falei que naquela noite estava no encontro de cinema. Tempos depois, Othon Bastos esteve aqui, em Natal, Rn, como uma peça de teatro e eu fui lá visitá-lo. Conversamos à vontade até a hora em que ele entrava em cena. Na verdade, aquele foi um tempo memorável.
Othon José de Almeida Bastos, nascido em Tucano, BA, em 1933, é o seu nome verdadeiro. Ator de profissão, ele é intérprete da geração do teatro de resistência, tendo fundado sua própria companhia nos anos 70, produzindo espetáculos representativos do período, tais como "Um Grito Parado no Ar", "Ponto de Partida" e "Murro em Ponta de Faca".
Inicia fazendo teatro estudantil na Bahia, sendo levado ao Rio de Janeiro, por intermédio de Paschoal Carlos Magno, para integrar o Teatro Duse, uma escola de teatro,onde se inicia nos desempenhos de Terra Queimada, de Aristóteles Soares, 1951; "Lampião", de Rachel de Queiroz; e "Noiva do Véu Negro", de Leone Vasconcellos, ambos de 1954; e "Phaedra", de Jean Racine, 1955.
Integra teleteatro na TV Tupi, ao lado de Sergio Britto, transferindo-se logo após para São Paulo. O primeiro retorno à Bahia dá-se em 1956, para dirigir na recém-fundada Escola de Teatro, iniciativa do Reitor Edgar Santos e comandada por Martim Gonçalves. A Escola é para somar um choque intelectual e de modernidade à vida cultural baiana. Othon Bastos segue para Londres, onde estuda teatro e ao voltar, na Bahia faz entre outros espetáculos "As Tres Irmãs", "Um Bonde Chamado Desejo" ao lado de Maria Fernanda e "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, em 1959.
Em 1960, Othon sai da Escola para fundar a Companhia de Teatro dos Novos, empenhando-se na construção de Teatro Vila Velha. Nessa ocasião, conhece a atriz Martha Overbeck, com se casa. Em 1962, tem sua primeira experiencia cinematográfica: "Sol Sobre a Lama", filme de Alex Vianni. Num pequeno e marcante papel, integra ainda o filme "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, no mesmo ano. A consagração, porém, vem com a personagem "Corisco", no lendário "Deus e o Diabo na Terra do Sol", filme épico de Glauber Rocha transformado em emblema do cinema novo. A sólida experiencia teatral do Othon Bastos é decisiva para a criação do personagem. Ele recorda que, nesse tempo, Glauber Rocha, certa vez, munido com um fone, gritava como um louco da frente do seu apartamento, em Salvador, em cima de um jeep: "Othon Bastos! Othon Bastos! Cadê voce? A turma está esperando lá nas rochas!Othon Bastos!!!". Ele acordou meio tonto sem entender de nada o botou a cabeça do lado de fora da janela. E Glauber continuava a insistir: "Vamos! Vamos! Já é tarde!". Aí foi que se lembrou: O filme. Coisa que Glauber falou com ele há algum tempo e não mais retonou a falar. E ele esquecera do tal filme. Nessa ocasião, deu-se um problema: no local onde se fazia a filmagem, quando Glauber chegou lá uma caméra havia se quebrado. Glauber mandou buscar outra em Salvador. Veio a segunda e também se quebrou. Mada-se buscar outra. E tempo passando, num sol de queimar. Finalmente, veio a terceira camêra e aí, se deu um outro problema: ator escalado para fazer "Lampião", não apareceu. Foi nessa hora que Glauber Rocha chamou Othon Bastos e lhe disse: "Você vai fazer os dois papeis. Lampião e Corisco". E Othon: "Como assim?". Glauber respondeu: "Faça e deixe comigo". Então, Othon fez os dois personagem. Por dentro, ele dizia; "Esse negócio vai dar uma merda danada!! Terminado o tempo de Othon, ele voltou para Salvador deixando Glauber pelo interior. Tempos depois, o telefone de Othon toca. Era Glauber: disse ele "Venha ver como ficou o filme, Othon!" . E Othon nem se lembrava mais. Não foi lá, no dia da estreia. No dia seguinte, no Rio de Janeiro, a imprensa estampa: "Novo Filme de Glauber é Sucesso". Foi então que Othon Bastos "acordou" do seu sono. "Deus e o Diabo" era pleno êxito.
Analisando a longa trajetória do ator, homenageado pela vida artística, o crítico baiano Carlos Alberto Matos destaca: "Desde que rodopiou no chão pedregoso de Cocorobó como o memorável cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, a autoridade cênica do baiano Othon tomou de assalto a dramaturgia brasileira. Criou a partir dali um padrão de domínio que torna as suas performances inesquecíveis. Othon é o tipo de ator que não depende de sua imagem visual para ser reconhecido. A voz, uma das mais célebres do país, já é suficiente para identificá-lo mesmo no escuro"

Um comentário:

Carlos Barros disse...

Meu caro,fico feliz em acessar o seu blog.
Estou escrevendo um livro sobrte Othon Bastos.
Sou cantor e pesquisador de práticas artísticas.
Você teria outras informações ou gostaria de falar mais sobre ele?

Abraços.