quarta-feira, 31 de março de 2010

LUZ DO SOL - 71

- CAROL -

- CONTO -

Há alguns anos Carol viveu o máximo de sua beleza e feminilidade. Nos bailes dos elegantes clubes sociais ela era presença marcante com suas vestes ricas e insinuantes. Enfim, era uma diva brilhante ao sabor dos que mais cobiçavam a sua extasiante figura de mulher inevitável e fatal. Valsa, então, era o seu marco forte em meio a um burburinho daqueles que lhe faziam roda a um cálice de champanhe e uns delicados salgadinhos apetitosos feitos de onerosos crustáceos, evento rico para o paladar dos freqüentadores dos salões de baile. Nos tempos saudosos de Carol, havia um belo e impetuoso jovem que marcaria os seus encantos ao lado dos mais ambiciosos moços dos quais a moça não se apartava jamais. E foi em uma noite de seus maviosos encantos que Otávio teve o marco de sua melhor presença. Aproveitando o momento de embriaguez da admirável mulher, o jovem envolveu-se em plena sedução ao seu redor elevando a dama nos seus mais imagináveis sabores de extasiantes cortes. Pela vez primeira a dama deixou-se cair nos atrativos de Otávio.
Ao amanhecer de um domingo, Carol viu então que estava ternamente abraçada ao seu eternal namorado que ele a conseguira atrair para a sua alcova repleta de cetim. De augusto e soberbo local Carol se sentia a apenas uma pequenina mulher. Notara apenas que o seu amante ainda dormia. Ela, porém, estava a despertar, com o gosto amargo de champanhe e a vontade eterna de vomitar tudo o que saboreara na noite que passou. Carol também observara que estava totalmente despida. Então, sem mais um, porém, ela se largou para a cabine de vaso sanitário e ali vomitou tudo o que tinha em seu estômago por entender que, então, era uma simples mulher. Após vomitar o que podia a mulher caiu em lágrimas:
--- Detesto! Detesto! Detesto! Canalha! Aproveitou-se de minha embriagues. – dizia baixinho.
O dia era de chuva. Plena chuva. Ninguém se atreveria a locar, pois era somente eterna chuva. Carol viu isso através da cortina da janela onde residia Otávio. Ele a levou para o seu luxuoso e brilhante apartamento as altas horas da madrugada quando já ninguém habitava pelos corredores das ruas. Mesmo assim, Carol não se lembrava de coisa alguma. Apenas, quando acordara ela se viu desprotegida de todos os seus luxuosos adornos.
Sem temer coisa alguma, Carol agarrou de um estilete e foi até onde Otavio dormia e golpeou por várias vezes em seu peito. O rapaz acordou com a dor da morte e tentou por vários momentos aplacar a ira da mulher que não se satisfazia. Era o homem e a mulher. Ela esfaqueando a ele. Com o tempo, o rapaz desfaleceu e caiu mortal. Ainda assim, Carol lhe desfechava outros golpes por toda a parte de seu peito até esmorecer de cansada, deixado o estilete cair de suas mãos.
--- Pronto cretino! Era assim que querias? Asqueroso! Viu! Repugnante! – clamou a mulher totalmente ensangüentada.
Otavio, já sem vida, emborcara na cama onde seus músculos das pernas estremeciam para a morte. O coração todo esfacelado, já não pulsava. Carol olhava o feito que acabara de executar. Ela então caiu no chão, protegida com uma toalha de felpo, com as pernas encolhidas, a cabeça pendendo nos trêmulos joelhos e as lágrimas descendo aos borbotões. A mulher por fim se sentia vingada pela ultrajante forma com que o rapaz a possuíra. A chuva caía mais forte na rua e o vendaval entrou pela janela do quarto de dormir arrebatando tudo o que tinha pela frente. A janela bateu com rigor, freneticamente, esvoaçando papeis e livros pelo enorme dormitório de Otávio pondo em estado de temor a jovem mulher Carol. Foi isso por um breve e seguro instante e Carol temeu a ventania que se fez presente. Frio cruel que a jovem mulher sentiu. Carol se encheu de temor por conta do temporal que fazia com ventos fortes e mais que isso.
--- Que ventania! – pensou Carol.
E a mulher procurou fechar com todo o seu esforço as janelas que foram terrivelmente abertas por aquele vendaval. A toalha que embrulhava Carol findou caindo no tapete deixando-a inteiramente despida. Ela estava fechando a janela e quando viu a sua nudez comprometida e agachou-se para apanha a toalha e subir com impulso para cobrir os seus peitos até então desnudos. Isso se deu por mais de uma vez e a mulher não tendo resposta apenas clamou:
--- Merda! Merda! Merda! – gritou Carol.
O zumbido frenético da rajada de vento não deixava a mulher alcançar a paz por um segundo. Por fim, Carol agarrou-se ao peitoril da janela e assim teve forças para fechar de tudo a vidraça. Por fim, buscou se assear por completo do sangue do morto que ainda cobria o seu corpo. Ela abriu o chuveiro para tomar um banho quente, uma vez que o tempo chuvoso esfriara todo o ambiente. Um banho salutar não fora o cadáver de Otavio que continuava deitado da cama de casal. Ela estremeceu com medo do homem não estar morto e vir a ter novamente ao seu lado. De imediato, Carol fechou a porta do banheiro e voltou ao seu banho reconfortante. Nesse dado momento, algo despencou dentro do banheiro. A jovem se assustou por completo. Carol procurou ver o que havia ocorrido e viu os materiais de asseio que o rapaz guardava naquele local. Todos os materiais despencaram e estavam espalhados pelo chão. O susto incrível tomou conta de Carol. E ela se pergunta:
--- Como pode? – indagou Carol.
A chuva bramia mais forte ainda. De cima do prédio do apartamento havia água caindo aos borbotões. Ali e em toda vizinhança. Era uma calamidade sem par. A mulher, apavorada temeu pelo pior.
--- O tempo está horroroso! – balbuciou Carol.
Em pura coincidência, do lado de fora do banheiro veio um barulho surdo e esquisito. Era a gota de água que faltava. Aquela zoada tremenda como que não era possível. Carol, de repente, veio à porta fechada do banheiro e ficou desamparada a escutar o que podia ter sucedido então. Porém nada mais fez tumulto. Carol tremia de medo por tudo o que acontecia. O morto na cama, os barulhos na janela, a sua roupa molhada, os perfumes, sabonetes e xampus derrubados. Então, aquele barulho ocorrendo sem maiores explicações. Após certo tempo de escuta arrepiante, Carol resolveu abrir a porta do banheiro. Ela olhou e não viu coisa alguma. Marchou para a sala, e nada de anormal. Ela bisbilhotou em outros locais do apartamento, e tudo estava em paz. De repente, Carol chegou ao quarto onde Otavio estaria morto. Qual não foi sua surpresa: os restos mortais de homem haviam desaparecido do lugar, na cama em que ela o deixou. Uma voraz pancada em sua fronte e a mulher desmaio de vez.




terça-feira, 30 de março de 2010

LUZ DO SOL - 70

- PACTO SINISTRO -
- CONTO -
Era manhã de terça-feira quando algo sucedeu de forma inesperada no andar em que Suzana morava. Algo inquietante ouvia-se do seu apartamento como alguma coisa ou mais estivesse dentro do quarto vizinho a rebolir nas gavetas do birô e cadeiras de palha ali existentes. Naquela hora da manhã Suzana ainda estava deitava, pois fora dormir tarde da noite coletando informes em seu computador para fazer a lição de classe. Ela olhou o relógio, mas o inquietante barulho surgia como mais intenso.
--- Rato? Aqui? – perguntou ela a si mesma.
Então, a moça dos seus vinte e cinco anos, se levantou devagar e muito de leve puxou a porta que dava para o quarto contiguo e viu um rapaz que estava desarrumando tudo o que via pela frente a procura de alguma coisa. Ela estremeceu de medo. No birô, ao olhar sem querer, viu uma espátula que estava ali posta para abrir envelopes ou algo semelhante. A moça segurou firme a espátula e gritou para o jovem:
--- Que estas procurando? – gritou Suzana amedrontada.
O rapaz tomou um susto terrível e procurou correr de imediato passando por entre Suzana e o balcão do birô. O rapaz não disse nada e somente procurou fugir. Nesse momento, a moça que estava com a espátula na mãe, temerosa com a fuga do rapaz, golpeou-lhe apenas uma vez como para se defender de algo que o jovem trazia em sua mão. O golpe certeiro pegou o rapaz em cima do peito. Algo que Suzana fez sem quer. Apenas como forma de se defender de uma possível agressão que sofreria então. A moça puxou a espátula do peito do rapaz. Esse apenas a olhou de boca aberta. Mão no peito, joelhos encurvados e por fim caindo ao chão nos estertores da morte. A moça teve apenas o tempo de gritar.
--- Ai meu Deus! Matei o homem!. – falou então Suzana levando a sua mão à boca.
A vontade que lhe dera era a de correr para algum lugar. Ainda tentou abrir a porta que deva para o elevador e se conteve. O mundo rodou em sua cabeça, pois Suzana não sabia o que fazer. Ao voltar para o interior do quarto topou com o cadáver do jovem que ela acabara de matar.
--- AI. – fez Suzana tremendo de medo.
--- O que eu faço? – perguntou a moça a si mesma.
Então, entrou no seu quarto de dormir onde mais ainda tremia de medo. O que lhe passava pela cabeça nada respondia. Foi então que se lembrou de chamar Romeu, seu namorado, pois ele teria maior segurança em dizer o que se fazer. Pegou o seu celular e discou para o seu namorado. O telefone chamava com insistência, mas Romeu não atendia.
--- Atenda! Atenda! Atenda! – dizia Suzana em prantos.
E então o celular desligou de vez. Ao tentar uma nova chamada para Romeu ela ouviu o seu celular chamar. Com pressa e com temor Suzana atendeu. Do outro lado da linha Romeu falou.
--- Pronto, Suzana. Estava no banho. O que há? Passo já aí. – disse Romeu.
--- Venha urgente!!! Venha urgente!!! Venha urgente! – gritou a moça baixinho.
--- O que há? – perguntou Romeu temeroso.
--- Um morto!!! Venha imediato! – chorava Suzana.
--- Um o que? – perguntou o rapaz sem entender a mensagem por completo.
--- Morto! Urgente! – respondeu Suzana e desligou o celular.
--- Um o que? – voltou a perguntar Romeu, mas nada ouviu em troca.
De imediato, o rapaz trocou de roupa, vestiu-se às pressas como quem queria saber o que havia ocorrido, calçou dois sapatos diferentes, desceu no elevador privativo do seu apartamento, passou pelo portão de entrada sem cumprimentar o segurança. Voou com o seu carro em direção ao apartamento de Suzana rezando por todos os meios que o que ouvira não fosse verdade. Discou novamente seu celular para o de Suzana e este não atendeu. O transito impedia que Romeu chegasse com mais pressa ao apartamento da namorada. Ele desviou um uma rua lateral e por fim chegou ao prédio onde morava a namorada. Discou o seu celular, e não atendeu como se o outro estivesse fora de área. Romeu subiu pelas escadas que era mais depressa que pelo o elevador e chegou ao terceiro andar onde morava Suzana. Ninguém por perto. Nada mal. Então o jovem tocou a campanhia do apartamento e, de repente, a moça parecia estar assombrada. Suzana abriu a única porta de entrada e saída, onde estava o cadáver do rapaz. Ele quase tropeçou na vítima. Alarmado, perguntou.
--- Que é isso? – tremendo de medo ao ver o cadáver no chão.
A moça chorava por demais. E levou um tempo para dizer que era um homem que entrara em seu apartamento. Ela dormia. Quando acordou, ouviu um ruído no quarto vizinho. Suzana veio ver o que era e se topou com o ladrão. Quem era, ela não sabia.
--- O que se faz? Chame a polícia! – sugeriu o namorado.
--- A polícia? Não! Eles vasculham tudo! – respondeu Suzana chorando.
--- Mas tem que chamar. Se não, é pior! – contestou Romeu.
O tempo passou e nenhuma decisão. Suzana não desejava a policia dentro de seu apartamento. Romeu dizia o contrario. O momento cada vez mais passava sem nenhuma solução. O relógio marcava as horas. Implacavelmente. Os dois namorados naquele momento estavam sentados na cama de casal. Romeu procurou um livro para ler aleatoriamente e dizia.
--- É melhor a policia! – contestou Romeu.
--- Não. Policia, não. Tenho uma idéia melhor. Nós botamos o corpo num saco plástico e jogamos no rio. – articulou Suzana.
--- Você está doida? Num saco? E como vamos passar com esse monstro? – perguntou Romeu apavorado.
--- A gente espera que anoiteça. – respondeu Suzana.
--- Anoiteça? A gente vai passar o dia todo com esse cara aqui? – inquiriu Romeu.
--- Tem outra idéia? – perguntou Suzana agora mais tranqüila.
--- A polícia! – respondeu Romeu.
--- Nada de polícia. É assim que vamos fazer. – respondeu a jovem incontinente.
O dia passou lento. O tempo ameaçava chuva. A noite chegou bem vagarosa. E os dois namorados, esperaram que a noite fosse bem mais alem, nas horas da madrugada, ajeitaram o cadáver cortado em pedaços, empurraram dentro de um saco plástico e jogaram na mala do carro de Romeu. Com toda a segurança possível, depois de limpar o chão do quarto de qualquer vestígio de sangue, eles rumaram para a ponte onde de lá sacudiram o corpo do rapaz para dentro do rio. O jovem rapaz olhou por alguns instantes vendo se o corpo despencara na água turbulenta. Carros passavam para um lado e para outro e ninguém notava que ali havia um pacto sinistro de dois namorados.

segunda-feira, 29 de março de 2010

LUZ DO SOL - 69

- EUNICE -
- CONTO -
Sempre que Eunice se lembra do seu velho pai sente um remorso no coração por causa de não ter podido estar presente aos últimos momentos de agonia. Para ela, o seu pai era o ícone de todas as criaturas vivas presentes neste mundo. Lembra-se Eunice de quando ainda era criança de seus oito anos, tinha no seu pai aquele cavalete quando queria assistir aos desfiles dos soldados que aconteciam sempre no Dia da Intendência do País. Montada na garupa do então novo pai – e ela não sabia nem que idade ele estava – olhava com emoção os soldados montados em seus cavalos ou mesmo a pé, os tanques de guerra maravilhosos por demais e por fim os aviões que passavam no céu de sua praça envolvendo a todos os que estavam a assistir o desfile. Ela, agarrada na cabeça de seu pai nem imaginava que outras coisas tivessem. Após o desfile da Independência sempre havia um picolé para distrair o seu paladar de menina. Com Eunice também estava a sua estimada mãe. A boa e fiel mulher comentava sobre a Independência com o seu marido no seu caminho de casa.
Era assim aquele Dia da Independência. À tarde, em conversa com as suas amigas das casas próximas Eunice tinha a dizer:
--- Eu vi o desfile! – falava Eunice procurado chamar a atenção das suas amigas.
--- Eu também vi. – respondia a amiguinha.
--- Eu estava na garupa de meu pai. – discorria a menina.
--- Eu estava em cima do muro. – dizia a amiga.
Por ai seguia a conversas das amiginhas de Eunice, ainda cheia de motivo orgulho para conversar por horas a fio. Aqueles eram dias de glória para a infante sapeca cujo passado ela estava sempre a recordar como se fosse um caso ocorrido no dia anterior. Outras passagens de sua infância, Eunice recordava muito bem. Tais lembranças se prendiam aos domingos pela manhã logo cedo, quando com o seu pai e sua mãe, Eunice seguia para a praia onde tomava banho de mar em um canto raso, pois sua mãe sempre a advertia que o mar era bastante perigoso para se entrar de peito aberto. E a menina não se conformava com isso voltando a mostrar:
--- Olha aqueles moços, mamãe! – dizia a menina insinuando que havia gente a nadar bem longe da praia.
--- Aqueles são rapazes. Você é menina. Pronto! – respondia a sua doce mãe de forma serena e pacata.
--- E papai não vai La dentro? – perguntava a menina.
--- Isso é seu pai. Ele é grande. Pode ir lá no fundo. – contestava a mulher.
--- Só eu que não posso ir? – perguntava a menina.
--- Têm outras também que não podem. Elas brincam da areia. Veja ali. – mostrava a sua mãe outras garotinhas que estavam a brincar de fazer castelo de areia.
--- Droga. Então eu vou fazer castelo. – dizia um pouco ofendia Eunice querendo ser adulto para poder tomar banho de mar mais no fundo do oceano.
Quando o seu pai voltava do banho de mar, logo perguntava a sua filha dileta.
--- Que está havendo? - perguntava o pai se esfregando na toalha que estava próxima.
--- Não sou adulto. Só posso fazer castelo. – respondia amenina.
--- E por que essa cara amuada, heim? – voltava a perguntar seu pai.
--- Porque não posso ir aonde o senhor vai. – respondia Eunice com a cara de choro.
Então o homem arrastava a menina para ir com ele no mar aberto mostrando que ela podia tomar banho desde que fosse à companhia de uma pessoa adulta, como seu pai. E a menina de engasgava com a água salgada do mar, os olhos ardiam também de tanto sal que lhe consumiam a vista. Enfim Eunice começava aprender a nadar diante do olhar inquieto de sua mãe que naquele momento estava com o marido a tomar banho de mar. No local de banho, havia pedras em diversos locais onde as pessoas procuravam distancia com temor de se furar naqueles arrecifes pontiagudos e de letal influência para os de menos conhecimentos.
--- Cuidado, minha filha, com as caravelas! Elas queimam – falava a sua mãe.
E a menina batia na água como se fosse nadando, segurada por seu pai, pondo a criança sempre acima das ondas perigosas do mar. Se a maré estivesse enchendo, havia um maior perigo pôs seu pai conduzia a filha com maior proteção diante das ondas gigantes ameaçando aqueles que estavam na parte mais difícil do mar aberto. A mãe da menina procurava entrar sair para a beira da praia chamando o marido para que não deixasse a filhar sozinha no mar.
Diante de tal apelo, o seu marido atendia prontamente e a seguir, já na margem, mostrou a menina como era difícil se tomar banho sozinho em um mar revolto. Eunice ouvia o que tinha de ouvir, mas em contrapartida dizia muito alegre e com os olhos vermelhos de tanto sal:
--- Foi bom! – respondia alegre Eunice enquanto a sua mãe lhe enxugava por completo
Diante de tal afirmação, seu pai se deitava na areia já aquecida da praia e contemplava a filha ampla de regozijo por ter entrado no mar, coisa que outras crianças não faziam porque não tinham seus pais ou gente grande para sustentar o seu corpo diante do mar cruel. Com pouco de tempo, um vendedor de sorvete passava oferecendo os seus produtos e seu pai comprava três copinhos de abacaxi e então se deleitava a tomar o suco daquela espécie de frutas que deixava a menina animada como se não houvesse coisa mais gostosa no mundo.
--- É bom! – falava a menina Eunice.
--- Quer mais? – perguntava seu pai.
--- Quero, sim! – falava Eunice.
Mais um copinho. E a menina estava satisfeita. A família procurava uma sombra para se acomodar e logo em seguida voltavam todos os três para as suas casas, depois do alto do local da praia, onde o Bonde fazia parada do fim da linha.
Coisas de lembranças de Eunice que àquela hora já não poderia mais conversa, contar histórias, fazer perguntas, delirar aos eternos encantos de quem nutria sempre a maior atenção. Bem longe de onde esteve o seu pai, Eunice só apenas lembrava-se das histórias infantis com quem viveu os seus mais belos tempos.

domingo, 28 de março de 2010

LUZ DO SOL - 68

- CLOTILDE -
- CONTO -

Manhã de domingo, logo cedo, Clotilde estava ao telefone falado com o seu pai sobre questões rotineiras. Ela perguntou-lhe por sua mãe e o pai respondeu que ainda estava internada no Hospital, pois seria submetida no dia seguinte a uma cirurgia complicada que o velho temia por sua sobrevivência. Em contrapartida Clotilde lhe dava conselhos ao dizer que a medicina estava em franco progresso e sua mãe não era a primeira vez que se submetia a cirurgia. O velho se fez de duro para não chorar, porém agradecia os conselhos da filha mais velha do seu casamento de cinqüenta anos com a sua mulher lhe dava como um toque de amparo. No ano em que se deu tal caso, Clotilde estava morando em outra cidade, um pouco mais adiantada do que a do seu velho pai. De qualquer forma, ela temia pela sobrevivência de sua mãe. A mulher, um pouco mais moça de que o seu velho pai, já sofria do diabetes e não era comum para a mulher se submeter a uma cirurgia tão delicada como a que estava programada.
O sei pai, Augusto, estava intranqüilo por tudo o poderá ocorrer com a sua esposa, apesar de falar manso e dizer apenas:
--- Tudo bem. Tudo bem. Obrigado. Vou tentar. – pronunciava Augusto.
Porém dentro de si, havia um temperamento frágil ao sentir que podia perder a qualquer momento a sua esposa Isaura, mulher de fibra, confiante em Deus, católica acima de tudo, capaz de rezar um dia inteiro como fazia quando estava em sua casa, juntando-se as demais amigas do bairro, fazendo o terço do mês de maio, ou mesmo outros terços quando alguém fazia aniversario nas redondezas do seu lar, um apartamento em um prédio de oito andares. Isaura era inegável que sempre esteve confiante na cirurgia a que seria submetida naquele dia e sempre dizia.
--- Deus proverá. – recitava Isaura.
Mãe de quatro filhas, uma da qual casada e morando com seu marido no exterior, pouco discava o telefone para saber como a sua mãe estava passando de saúde. Talvez por displicência a filha não tivesse tanta preocupação. As outras duas tinham mais apego a sua carinhosa e dedicada mãe e sempre estavam no Hospital se revezando na permanência entre si. Por seu lado Clotilde, morando em outro Estado, se preocupava por demais pela delicada sobrevivência a mulher, pois sabia que Isaura enfrentava uma seria crise na sua operação para retirar um tumor maligno que os médicos identificaram quase por acaso, nos intestinos. Com isso, a seu ver, Clotilde tinha por demais preocupação pela sobrevivência da mulher já um tanto desgastada da saúde. No entanto, de onde estava morando, Clotilde pouco podia fazer a não ser também rezar, ir à missa e comungar contrita.
Em certa vez, quando ainda era menina, Clotilde e suas três irmãs passeavam a cavalo, cada uma no seu corcel na fazenda do seu pai, no interior do Estado. Um caso que ela se lembrava sempre era o fato do cavalo morder a brida e sair na correria, passando por fruteiras e matagal, com a amazona sempre gritando:
--- Socorro! Socorro! O cavalo! O cavalo!. – era o que dizia Clotilde.
Quando Clotilde disso se lembrava tremia de medo com o que o corcel fez naquele dia com a sua amazona. Por isso, a mulher sempre temia ao ver um corcel a pastar por perto do alpendre da fazenda. Mesmo assim, ela não abandou as corridas de cavalos fazendo com eles a travessuras de uma menina. O animal que mordeu a brida teve mais respeito por parte de Clotilde que procurava manter sempre distante. Quem apostava no cavalo em uma corrida, Clotilde já adulta comentava:
--- Eu heim! Aquele me pôs sal na moleira. – e desconfiada, sorria de forma modesta.
Ainda passado o tempo, Clotilde comentava o fato de sua montaria e se alguma pessoa perguntasse se teria coragem de montar naquele cavalo, ela dizia:
--- Naquele animal? Nunca mais! – respondia Clotilde.
Mesmo assim, o tempo reservou a morte do animal por conta da velhice pelo tempo de vida de 30 anos, aproximadamente que o animal viveu. A um tanto extenuado, o animal não corria e sempre seu velho pai o guardou poldro em um estábulo próximo aos demais animais da fazenda. Em um dia qualquer de inverno um tratador meio até a fazenda dizer que o cavalo havia morrido. Foi um dia de luto para o seu criador, Augusto, que tanto amava o animal, apesar de sua velha e abatida idade. Por varias semanas se fez luto no recinto em tributo ao velho cavalo que morrera.
Após algum tempo, Augusto veio residir na capital tendo deixado entregue a fazenda a um seu filho adotivo que assumiu a função de dono. Pelo que se sabe tal filho, de nome Junior, porque era Augusto também, tinha sido fecundado pelo seu pai – o velho Augusto - em uma empregada jovem e bem servido que trabalhava na fazenda desde criança. As filhas legítimas de Augusto tinham um ranço por conta de Junior e se falavam com ele, sempre se dirigiam a outra pessoa como se o rapaz não estivesse no local. O rapaz, calado como sempre, ouvia o que as moças falavam para outra pessoa e, açoitando o chão com um chicote saía para aprontar o que havia sido pedido. Quando o velho Augusto entregou a fazenda ao jovem, houve uma discussão por parte das filhas, pois nenhuma entendia a razão do pai se desligar da fazendo deixando tudo com Junior. Porém, o velho sempre dizia:
--- Justiça! É o que se faz. Justiça! – respondia o velho Augusto.

sábado, 27 de março de 2010

LUZ DO SOL - 67

- CLAUDIA -
- CONTO -

Era uma manhã de sábado, quase meio-dia, quando Claudia acordou depois de uma sexta-feira negra, cheia de angustia e desamor. Ela despertou ainda meio sonolenta procurando o seu relógio miúdo que depositara na cabeceira da ampla cama de casal onde ela dormia as noites de fatigas e inconseqüentes dissabores. Claudia era uma jovem mulher de cabelos loiros encrespados, testa firme e ampla, olhos negros e ternos, sobrancelhas arqueadas, boca cheia de amor para dar e busto de uma deusa fatal ao calor do dia ou da noite. Ao ver as horas que já passavam, a mulher abriu a cortina que cobria a janela de seu apartamento tão logo se levantou. Logo ao se levantar da cama, Claudia tropeçou em uma mesa posta entre a janela e o seu leito. A moça não disse nada, mas vez ver a atual situação da deslumbrante mulher que ainda tinha o gosto amargo do uísque em sua boca. Ao abrir a cortina, o sol que fazia aquela hora da manha lhe ofuscou completamente ao ponto de Claudia fechar a vista para não ver coisa alguma.
Então, a jovem mulher se lembrou do que passara na noite anterior. Apesar do uísque que ela tomara, ainda assim notou o seu namorado a conquistar outra moça que se encontrava no salão de baile do dancing onde Claudia foi como era freqüente fazer todo o final de semana para se divertir ao compasso da música. De repente, a jovem puxou o rapaz pela manga de sua camisa e disse, sem contemplação.
--- Fique com ela! Vocês se merecem! Tudo acabado aqui! – rebateu Claudia sem dar margens a maiores discussões por parte do namorado.
E saiu do dancing imediatamente tomando o seu carro e indo para outro bar cheio de barulhos por conta de uma radiola acústica que tocava com mais vigor naquela hora da noite. Ali ela procurou um ambiente bem mais sossegado para ficar e remoer a sua desventura amorosa. Passaram-se horas em plena madrugada com a moça a beber o seu uísque com a cabeça cheia de desagrado em alucinada meditação ao sabor dos muitos outros ébrios que ali estavam a remoer igualmente as suas desilusões de amor. O bar estava repleto de freqüentadores, todos já bastante embriagados. A mesa era de um tamanho de cerca de quinze metros ladeada por bancos mais ou menos altos suspensos por um único meio de sustentação feito de ferro de duas polegadas. Por trás desse balcão havia uma estante cheia de bebidas as mais diferentes para atender ao gosto de quem pedisse. Na mesa do bar propriamente dita, havia um abajur de luz tênue, um objeto não identificado sustentado à parede, e na parede havia ainda os diplomas do bar propriamente ditos. Alguns até bem emoldurados. Na parede ao lado do bar, havia outra estante onde se guardava vários vidros de bebidas quase nunca usados
O que se observava também eram as mesas que eram dispostas no amplo salão desse bar onde os freqüentadores bebiam e comiam frutos de origem do mar e mesmo produtos da terra como carne, peixe, mariscos, camarões, lagostas, caranguejos entre uma diversidade sem igual. E nesse ponto de exclusividade de gente rica estava também Claudia experimentando tudo o que viesse a sua mesa. Por perto, havia outras mesas repletas de gente, conversando os mais intrigantes assuntos que a jovem moça nem chegava prestar atenção. De repente, sentou-se a mesa de Claudia o seu namorado querendo levar conversa de modo à deixa tudo como era antes. Porém, Claudia não quis conversar com o rapaz. Ela preferiu deixar de lado tais aborrecidos temas cujo teor já não lhe satisfazia. Após insistentes pedidos de reconciliação do rapaz se ouviu Claudia falar com aspereza.
--- Cala tua boca indigno. Sai daqui e me deixa em paz. – falou Claudia.
O rapaz baixou a cabeça e disse que Claudia não perdia por esperar. Em seguida, se levantou e mudou de mesa, ficando por lá mais certo tempo. Nesse espaço, já por volta das quatro horas da manhã, Claudia pagou a sua conta com um cartão de credito e tomou rumo de seu apartamento. Chegando lá, demorou-se em abrir a chave por está em vertiginoso estado de embriagues. Depois de aberta a porta a moça entro e nem sequer trocou a sua roupa. Deitou-se a agarrou no sono. Quando era quase meio dia, Claudia acordou e ainda assim sentia o amargor do uísque em sua boca. Depois de abrir a cortina foi até ao banheiro para tomar uma ducha e ver se assim retirava o cansaço que deixara a bebida e uns poucos camarões, lagostas e peixe frito, todo isso ela tragou com a bebida.
Por esse instante, alguma pessoa bateu a sua porta. Claudia estava no banheiro e de lá não saiu. Passados alguns minutos, quando Claudia já deixara o banho, alguém entrou em seu apartamento. Ela baixou a vista para enxergar quem de fato era.
--- Polícia! – disse com uma voz firme um oficial acompanhado de cinco agentes.
Claudia então perguntou:
--- Pois não? Em que posso ser útil? – respondeu a moça.
--- Tem um corpo estirado bem na entrada do seu apartamento. – disse o oficial.
--- Que? – perguntou assustada a moça sem saber do que se tratava.
--- A senhora está intimada a depor sobre o morto. Ao que tudo indica, ele foi morto por outra pessoa. E mais: ele é o seu namorado. – respondeu o oficial.
Nesse momento, Claudia desmaiou. Ao recobrar os sentidos o seu apartamento estava com varias outras pessoas, tomando nota de tudo, averiguando o chão do quarto, fazendo perguntas entre si, sem se importar com a jovem que ainda estava esmaecida. Dos apartamentos próximos, ninguém tinha permissão de passar por perto. Todo o apartamento de Claudia foi revirado de cima a baixo sem que ninguém dissesse a razão por que aquilo estava sendo feito. De Claudia foi retirada as impressões digitais, vendo se havia arma de fogo no interior do seu apartamento em meio a uma série de perguntas que ela nem sabia o que responder. Nome, estado civil, se bebe, se esteve com o rapaz em poucos momentos. Era uma infinidade de questões que a moça não teria mais condições de replicar. Nesse instante, Claudia rebateu.
--- Quero um advogado. Só falo na presença dele. – replicou Claudia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

LUZ DO SOL - 66

- LUDMILA -

- CONTO -

Era difícil para Aldemar saber o que faria então quando Ludmila não quisesse mais fazer amor entre os dois. Quando o rapaz queria, era a vez da moça não querer. Escondida em seu apartamento meio desgastado, pois o dinheiro que conseguia não dava para pagar outro. Ludmila ia levando a vida como Deus queria. Olhos tristes e pensadores, cabelos longos e maus cuidados, boca de carmim, ela andava quase nua para ver se conseguia alguém que aparecesse no randevu a qualquer hora do dia e da noite. E se alguma pessoa fosse falar em Aldemar, ela não ouvia e saia de perto. Seu apartamento era um cubículo apertado nos fundos do prédio do lupanar, um sobrado de três andares onde abrigava as damas da noite que por ali viviam. O bar ficava em cima de tudo, onde uma vitrola arranhava os discos de vinil que ainda ontem se colocava para tocar para o sabor entretido de seus freqüentadores. De novo, apenas havia as mulheres que perambulavam pelos cabarés da velha e acabada cidade, no largo do bairro onde se fazia de tudo. Desde o cachorro-quente até uma Delegacia de Policia que punha a ordem nos botecos do lugar em troca de uma porcentagem das mulheres.
Quando era dia, as damas procuravam comida pronta para comprar, pois nos seus cubículos de dormidas, elas não tinham nem coragem de fritar um ovo. E Ludmila seguia a mesma tradição das outras damas. Se um bêbado aparecia de manhã logo cedo para fazer um pouco de amor, Ludmila estava presente. Era ela quem fazia a vez de atender o vagabundo, mesmo que estivesse sem o mínimo de vontade. Porém, se fosse Aldemar que aparecesse, ela fechava a porta na cara do rapaz e este saía cabisbaixo como se tivesse por completo e extenuado arrependido de tudo o que fizera em beneficio da dama, moça de seus 22 anos de idade. E nesse ponto, o rapaz começava a chorar porque a mulher não mais o queria. Todas as noites, quando dava oito horas, o bar fervilhava de gente. E entre todos os que procuravam diversão, estava Aldemar bebericado uma dose de cachaça e vendo ali a sua mulher amada. Mesmo assim, Ludmila não dava bolas para o rapaz. Então, o jovem se contentava em beber cada vez mais.
De dia, Aldemar costumava consertar carros. E era certo ter uma boa freguesia, pois o seu trabalho era admirado por todos os diversos mecânicos daquela redondeza. Ele trabalhava praticamente da rua, com uma caixa de ferramentas que sempre a deixava quando não tinha nada para consertar, em uma oficina próxima onde Aldemar estava. De onde ele trabalhava podia ver a porta sempre aberta do apartamento de Ludmila que por vezes aparecia para derramar um vaso de água na rua, uma alameda suja e mal cheirosa que muita gente procurava não passar pelo local. Por sinal, o mau cheiro advinha de uma maré que se espalhava por todo o bairro. Os sobrados existentes, como o de Ludmila, eram uma lembrança do passado onde abrigavam engenheiros de cais do porto que vinham para a sua construção. Depois que terminou o serviço, os sobrados ficaram ao relento sendo ocupados pelas prostitutas que se deslocavam para aquele ponto. E o que Ludmila morava era o melhor de todos. Para se ter acesso aos cubículos se subia por uma escada de madeira com era o costume da época em que foi feito aquele prédio. De tanto gastas, as escadas já faziam um ranger como que caindo para um lado e para outro. No ranger que fazia dava-se para ouvir em todo o prédio e todos ficavam atentos para a nova freguesia. Quando era alguém do meio, logo se ouvia os mecânicos a gritar:
--- Olha ele! Chega pra cá! Nós estávamos te esperando! – e caiam na gargalhada.
Se não era de casa, então os mecânicos nada faziam. Principalmente se fossem homens da Policia que a baixa voz todos os chamava de “meganhas”, coisa que desagradava os policiais que ostentavam o poder de dizer:
--- Esteja preso! – dizia o policial.
Entre todas as damas do randevu estava no meio à moça Ludmila, coisa que não preocupava a nenhum, pois todas ali eram também moças na idade, algumas com menos dos seus 18 anos. Essas tais foram embarrigadas logo cedo quando tinham catorze ou quinze anos. Ao saber da “desgraça” o pai punha sumariamente pra fora de casa e tais mocinhas terminavam por seguir a vida de meretriz, com foi com Ludmila. As mulheres de seus 25 anos conversavam nas bancas sobre as novidades que estavam a acontecer. E assim diziam as damas da noite nas suas arrematadas conversas que tinha novidade na roda da prostituição, pois elas tomaram conhecimento de crianças de nove anos de idade que estavam a fazer abertamente trottoir pela rua querendo competir com as mulheres da vida alegre. Tal fato era um escândalo.
--- Ave Maria! Nove anos? Isso é um escândalo. – dizia uma mulher da vida.
Enquanto outras arrematavam:
--- Que é que tem? Eu conheço muita que com essa idade já era embarrigada pelo próprio pai! – conduzia outra meretriz.
--- Eu penso assim. Esse homem, não é homem. É um “cabra” safado. - lamentava a terceira.
E a conversa continuava nesse mesmo ritmo. Em seu canto sentado, bebericando, estava Aldemar. E a sua “mulher”, Ludmila, entrava no cubículo com um homem para fazer um pouco amor. Olhando por baixo como se usasse óculos, o rapaz se entristecia por completo por ter a sua mulher amante, 22 anos, nos braços de outro. Com o compasso das horas, a noite plena de estrelas, o mau cheiro do esgoto da maré, os gritos dos homens que faziam churrasco no meio do caminho entreteciam os ébrios que nas calçadas procuram algum local para conciliar o sono. Os “meganhas”, quando chegavam ao bereu, procuravam logo a gerente do lupanar para fazer sua coleta.



quinta-feira, 25 de março de 2010

LUZ DO SOL - 65

- JUDITE -

- CONTO -

Há tempos que Judite estava sentada em uma travessa da cerca de madeira da fazenda lendo com atenção aquela brochura de um autor que somente ela poderia saber quem era. Era uma tarde de outono e o sol não aparecia deixando apenas a sua luminosidade refletida. A jovem mulher de cabelos bem curtos e loiros vestia um tailleur escuro ostentando o seu poder de uma mulher cosmopolita. De bolsa escura, pendurada em seu ombro esquerdo, blusa de mangas compridas, trajando blusa branca pesa ao decote, saia escura e longa, sapato de salto alto e cor preta, Judite tinha as mãos um par de luvas brancas. O seu olhar obliquou de atenção à leitura era tudo que dizia da senhora ao meio da tarde. Rosto suave, boca meiga pintada de batom, nariz afilado, sobrancelhas arqueadas encimando a sua visão diminuta era o mais que se podia oferecer daquela encantadora e virginal mulher. Ao largo uma espécie de catedral por entre o matagal que assumia para o longe a sua imponente e majestosa silhueta.
Ao se notar a voluptuosa e delicada mulher, nada podia responder o que houvesse no desejo da concepção da exuberante natureza. O mundo se resumia apenas em Judite ao ver a sua história de amor ou de prece que ela estava a decifrar a cada passo. Um automóvel adormecido ao longe era tudo o que havia de progresso e que a senhora dos sonhos nem despertava para o seu existir. A leitura era tudo o que de esmero lhe apetecia. A meiguice que a senhora emprestava ao ler o que estava escrito naquele livro ao sabor do acaso era o que lhe contentava saber. Quando a noite se aproximasse então, Judite levaria sua ostentosa brochagem para os caminhos da sua mansão onde dormiria em tranqüila paz. O acaso da vida se faria completo, por fim.
Judite era uma professora da Universidade e de quando em vez ela procurava ler os mais atuais trabalhos que ilustravam as prateleiras das livrarias do mercado. E era assim que ela formava o seu pleno conhecimento da história onde por varias vezes os seus alunos procuravam entender melhor uma passagem daquilo que se oferecia ao delicado saber dos fatos. Quando um estudante perguntava sobre um assunto fora do que fora ensinado, Judite teria a condição de responder com a precisão de uma exímia lente. Não raro se encontrava Judite olhando o universo a procurar respostas para alguma indagação. Em outras ocasiões, ela estava a ler na silenciosa livraria da Faculdade, epítomes acadêmicos cujas páginas esmaecidas denotavam terem sido consultadas por outros acadêmicos.
Em certa ocasião, Judite buscava encontrar um compêndio que relatasse um assunto complexo para que ela pudesse tecer uma aula de Linguagem Esquecida. Por mais que procurasse tal resumo acadêmico, Judite não o encontrava. Ao esquecer-se de procurar aquele resumo, eis que outro livro dissertava todo o assunto que pretendia encontrar. E assim, ela procurou com certo ardor, compreender todo o seu resumo que estudara de há muito tempo e já não se lembrava ao certo. Nessa tarde, Judite passou a ler o trabalho com pormenor atenção, vibrando até por ter encontrado a sua salvação do ensino.
--- Eureka – disse Judite cheia de entusiasmo.
Ela estava por completo exaltada em poder ter deparado com aquele velho e tanto corroído livro que muitos outros mestres talvez o tenha estudado com o máximo amor e dedicação.
Por essas questões tão enigmáticas, Judite era a mentora daquela Universidade em que mais os alunos se espelhavam. Entre muitos outros assuntos de Histórias e Línguas Mortas, era a Judite que até mesmo o melhor professor buscava as mais perfeitas significações do saber. Por um caso desses, Judite estava então a ler naquele momento tal história que outros mestres nem procurariam saber da sua essência.
--- É noite e deve chover, certamente. – relatou baixinho Judite depois de algumas horas pesa aos estudos.
A tarde estava coberta de brumas empalidecidas onde não mais se podia ver a iluminação do dia que já se esgotara.




quarta-feira, 24 de março de 2010

LUZ DO SOL - 64

- PÉROLA -

- CONTO -

Pérola era a candura que se podia notar nos aposentos inflamados dos bordeis da sua cidade. De nada havia por mais esplendorosa que existisse uma mulher capaz de ser como se almejaria naquelas noites de verão. Pérola era a única deusa entre todas as amantes dos ambientes sedutores dos palácios noturnos. As pecadoras ninfas do amor e do prazer a respeitavam igual às divindades dos augustos altares por sentir demais uma veneração imponente como as demais divindades. Nas noites quentes e fugazes dos escolhidos amantes as damas procuravam saber de Pérola qual o seu verdadeiro amante. As mais novatas das mulheres, ela dizia que fosse com um tal parceiro pois a ela cabia escolher aquele que melhor entre os melhores que se faziam presentes. Em sua alcova recolhida, Pérola era a verdadeira mulher para os seus amantes de poucas horas. No luxuoso e opulento aposento onde a ninfa fazia os anseios aos seus eternos apaixonados um pouco de prazer, ali era também a sua alcova onde dormia todas as noites e dias como assim lhe aprouvesse. Em seu castelo de cristal ornado por tudo o quanto era belo, estava a linda morena a suspirar de anseios ao ver o seu belo amante esbanjar o seu poder que jamais contraía para não ser vulgar por demais. Tudo o que lhe depositavam os seus amantes, ela guardava no seu seio e no dia seguinte chamava uma camareira a qual depositava em uma Casa de Crédito da cidade. Era assim a vida de Pérola no seu caminhar da existência.
A mulher tinha uma beleza impar no seu aprumo de toda a face. Olhos negros e brilhantes, rosto afilado e boca púrpura tinham na maciez de suas curvas sensuais os mais doridos encantos onde tudo se encimava. Tal beleza incomum era toda divinal igual as mais brilhantes pérolas do oceano bravio. Talvez por essa questão provável fosse que alguém um dia lhe chamou de Pérola. E se foi assim, então assim ficou sendo conhecida a deusa para todo o sempre. No altar da concubina nada se fazia a não ser o verdadeiro afeto. O seu local de lide de Pérola era o mais sofisticado do lugar onde se podia ter luxuoso local com as camas e cobertores que encimavam os mais encantados locais que nem se podia imaginar sua essência. Um luxuoso candelabro estava no centro do salão refletindo a sua luz por um amplo espelho amparado na parede e decorado com duas luminárias, cada uma a seu lado. Um abajur lilás ambientava a sala com mais uma banqueta onde se podia ver apenas um luxuoso amparo de rosas. Quadros reproduzindo obras de pintores famosos deleitava o amado após a ânsia de fazer a sua reprodução corriqueira com a amada Pérola.
--- Lindo o ambiente visto de perto. – dizia o amante.
--- Mais lindo é que o vê. - declinava Pérola como forma de sedução.
Diante de tal elogio o homem deleitava para mais uma orgia de afago. Quando vencia o tempo de ficar, Pérola recordava ao homem que era a vez de acordar, muito embora o homem tivesse desperto. Ao sair da alcova, o homem agradecia o prazer da sedução e que em breve voltaria para se ter mais um pouco de apego. Diante de tal afirmação, Pérola olhava com os seus olhos ternos e cheios de encantos aquele augusto másculo e lhe oferecia um brinde de champanhe para satisfazer o desejo de quem partia. No seu altar de sedução, a mulher bem jovem ainda, se espreguiçava como um todo e dormia a seguir. Da porta, o homem largava para o seu caminho quando, logo após entrava a camareira para proteger dos seus preguiçosos sonhos. Tal encanto Pérola fazia a cada vez que o amante de poucas horas saia do seu recinto. Não se importando com coisa alguma, a camareira costumava chamar Pérola para tomar o seu precioso banho e, depois, ela então podia repousar.
--- Ô. Não, mulher. Deixa-me dormir. – falava Pérola como quem quisesse chorar.
--- Levanta. Levanta. Ora. Não estou dizendo mesmo. – articulava a camareira como quem estava com um pouco de raiva.
A dama da noite então saía para o banheiro do cômodo onde se lavava por completo e só então voltava à cama e pedia à camareira que deixasse a luz ambiente para que ela pudesse pegar no sono então.
--- O dinheiro, ele deixou? – perguntava a camareira.
--- Esta na banca. – respondia Pérola com voz de sono.
--- Ah bom. Amanhã eu deposito. – falava a camareira.
--- Deposite. Deposite. - falava Pérola já pegando no sono.
--- Vai dormir mesmo? – perguntava a camareira.
--- Um cálice de champanhe, por favor. Deixa-me dormir. – respondia Pérola.
E assim, terminara a noite da jovem dama da noite que só acordaria no dia seguinte. O sono veio como sopro nos seus olhos negros de cristal e a brandura lhe fez presente ao refino do que almejava a mulher. As horas passavam como todas as horas e na rua, o assobio de alguém se ouvia a passar. A vitrola da casa tocava um tango dolente como sendo uns velhos uns bandolins a rimar no efêmero cantar sonolento de algum cantor ao desespero em busca de sua amada. Algo triste e lânguido igual a quem que busca a mulher amada que desaparecera de vez. A luz do cabaré se apagara por completo e a noite envelhecia para todos os enamorados. A madrugada sonhava tristonha a cada vez que o amante se acariciava em triste nostálgica melodia no desânimo de velhas notas adormecia para os eternos dissabores.




terça-feira, 23 de março de 2010

LUZ DO SOL - 63

- CURVAS DA VIDA -
- CONTO -
Seu nome era Helena, porém todo o pessoal da família a chamavam de Lena. Caso normal em qualquer tempo. Contudo, Helena, já então formada professora de História não ligava muito para o nome e se alguém lhe perguntasse como se chamava ela então dizia simplesmente Lena. Com seus trinta e cinco anos de idade, viúva, pois o marido morrera tempos atrás, Lena vivia dos cuidados dos filhos e de ensinar no Colégio da Capital. Era esse o seu modo de vida. Aos sábados e domingos juntavam os filhos – e eram três, sendo duas meninas e um menino de idades variado de 10 aos 15 anos – e se largava para a chácara dos pais em lugarejo foram do burburinho da capital. O local era aprazível onde tudo era silêncio. Apenas o ruído de alguns carros que passavam longe na estrada, era o toque do progresso que se avizinhava. Na fazendo do seu velho genitor o mais saltitantes de todos era um cabrito novo que fazia as graças de quem estava a vê-lo com certeza. Os criados da fazenda eram os que cuidavam do gado, cavalos, éguas, cabras e até mesmo o novinho cabrito. Para Lena eram um sonho de vida aqueles tempos em que passava juntos aos pais com os seus filhos.
Em certa tarde de sábado, onde o tempo era de chuva, chegou até aquele lugar um homem de seus quarenta anos, pedindo abrigo por questão da chuva que estava a cair. O homem, muito bem vestido - de gravata e paletó, calças de linho e sábados brilhosos se não fora a chuva que o atolou na lama – levava aspecto de gente da cidade e, com certeza, estava ali por passeio, em visita a algum conhecido. O pai de Lena deu abrigo ao homem e perguntou-lhe o nome, de forma modesta. O homem informou o seu nome:
--- Augusto. Satisfação em conhecê-lo. – respondeu o visitante.
O pai de Lena também lhe deu o seu nome para ativar um pouco a conversa.
---Nicanor. O prazer é meu. – respondeu o pai de Lena.
E assim se fez as graças de ambos. Lena, que estava em um dos quartos, notou a conversa do velho pai com o forasteiro. Ela ficou a escutar o que ambos conversavam sem maior atenção. Em certa ocasião, o seu filho passou até a sala e cumprimentou o visitante sem maior cuidado e saiu pela porta da frente para ver como estava o tempo por aqueles lados do sertão. As duas filhas de Lena continuavam na sala de jantar jogando damas como era o seu hábito. A mãe de Lena cuidava do jantar ao lado da cozinheira da casa. Outra empregada varria o chão para tirar as folhas que entravam na chácara trazida pelo vento da chuva. Na sala de visitas, Nicanor conversa com Augusto sobre o tempo e em certo ponto perguntou:
--- O senhor é daqui mesmo? – perguntou Nicanor querendo assustar o forasteiro.
--- Não senhor. Sou da capital. Vim visitar um amigo. O carro em que eu estava achou de quebrar. O destino me trouxe até aqui onde tive oportunidade de encontrar a sua chácara. O meu carro está logo ali, em baixo. – respondeu Augusto sem cerimônia.
--- Ah. Bom. Essas invenções de hoje são sempre assim. Eu sou do tempo da charrete. – sorriu o velho Nicanor.
--- É verdade. Meu avô tinha uma charrete. Era um tempo maravilhoso. Nós íamos de um canto a outro e não quebrava. Tempo bom aquele. – respondeu Augusto.
--- E por que não compra uma charrete? – perguntou Nicanor.
--- Até que não era mal. Mas na cidade tem as suas limitações. É assim. – redargüiu Augusto a indagação do velho.
--- Bem. Isso é. Mas já vi na capital gente andando de charrete. E têm muitas. – disse Nicanor.
--- Tem. Isso tem. Mas eu moro em um apartamento. Então: e o cavalo, quem cuida? – indagou Augusto a sorrir querendo insinuar ao velho que para ele aquilo não prestava.
--- É verdade. É verdade. Mas não custa nada tentar. Se vier aqui de charrete, tem mais segurança. – respondeu o velho enciumado.
--- É verdade. É verdade. – respondeu o homem a sorrir.
O tempo estava clareando e Augusto teve que se despedir de Nicanor, pois o seu carro estava alheio e ele precisava de alguém que o consertasse. Quando se levantou para olhar o tempo, o velho lhe contrapôs.
--- Moço. Aqui você não encontra ninguém que conserte seu carro. A não ser tirar um pneu o colocar outro. O resto, não tem ninguém que conserte. – respondeu Nicanor.
--- É verdade. Mas eu conserto. A não ser uma peça quebrada. Então tenho que comprar outra. O resto, eu conserto. – proferiu Augusto.
--- Ah bom. Sendo assim eu posso até mandar o empregado da fazenda cuidar com o senhor. Se não se incomoda. – respondeu Nicanor.
--- Eu agradeço a ajuda que o senhor me oferece. Obrigado. Pode ser. – respondeu Augusto
O velho foi até o quintal e chamou um ajudante para que fosse socorrer o carro de seu Augusto que estava quebrado. O rapaz se prontificou em ajudar. Ao voltar à sala, Nicanor encontrou Lena a conversar com o homem. A mulher perfumosa, cheia de esmerado encanto se mostrou ao homem. Lena disse a Augusto com precisão se ele não pudesse consertar o seu automóvel, poderia vir para dormir na chácara, pois no dia seguinte havia feira naquela cidade e, com certeza um mecânico havia de aparecer. O homem agradeceu aquela modesta dádiva e comprometeu em ficar para não sofrer as agruras da tempestade. De certo modo atendendo a Lena, o homem resolveu ficar de vez e cuidar do veículo no dia seguinte. Foi uma noite de aprazível encanto, com Augusto mostrando sua desenvoltura em conversas e Lena apenas a ouvir o que ele estava a dizer. Seus três filhos, o pai e a mãe de Lena observavam o conversar de Augusto e em determinados instantes o sorrir da neta mais nova com as palavras ditas pelo nobre senhor. Com o tempo que passava, Nicanor convidou o senhor para assumir o seu quarto de hospedes onde ele poderia se abrigar sem medo da torrente chuva que continuava a cair. Naquelas curvas da vida, Augusto agradeceu ao esmero do dono da chácara e foi logo se agasalhar. Por toda noite chovia aos píncaros em toda a região. De manhã, logo cedo, Augusto estava acordado vendo se o tempo melhorara. Com certa precaução, o homem acertou com o velho Nicanor para ir a feira, em companhia de um serviçal tentar encontrar um mecânico.
De volta para o seu local da chácara, o homem agradeceu toda a hospitalidade recebida, pois o mecânico encontrara o defeito do seu automóvel e ele agora já teria condições de seguir viagem. Porém, conversa vai, conversa vem, Augusto se viu obrigado a passar o domingo na chácara onde pode observar todo amplo terreno onde o velho se ocupara em criar seu gado, o plantio de árvores, o cultivo de mandioca, milho, feijão entre outros produtos que Nicanor tinha em seu cercado. Para tanto, ele fez a caminhada no dorso de um cavalo, tendo por companhia em suas montarias o neto do velho e o competente Nicanor. Quando era por volta do meio dia, o velho resolveu voltar sob os olhares penetrantes de Lena sobre o jovem novo cavalheiro que naquela altura estava coberto do suor. Augusto queria apenas descansar um pouco da viagem que fizera por tal aprimorado recanto acolhedor.
--- Que tal achou da chácara? – perguntou Lena.
--- Muito linda. Estou quase morto de cansado. Suando demais por todos os poros. – respondeu Augusto.
--- Essa é a vida do campo. – comentou Nicanor.

segunda-feira, 22 de março de 2010

LUZ DO SOL - 62

- AONDE VAI A CHAMA -

- CONTO -

Naquele ano, Odete procurava arranjar sua bagagem, pois às nove horas da manhã o avião partiria e ela por mais cuidado que tivesse sempre havia algo que poderia esquecer. Isso era a única coisa que Odete queria levar para mostrar aos seus pais: um cavalo alado. Um negócio muito simples e de pouco valor. Porém, esse cavalo alado tinha para Odete um imenso valor, pois assim, com esse corcel, que ela teve de presente de seu pai, quando menina, se tornou em negócio que jamais esquecera. No ano em que voltava para a sua casa de campo, uma granja em um terreno imenso ela gostaria que o seu pai pudesse ver como guardara aquela sua antiga recordação de menina. Quando se formou em Administração de Empresas, Odete olhou com carinho em seu apartamento seu cavalinho estimado como se fosse a única coisa importante da vida. Todo feito em louça, com silhuetas bem ornamentadas, o corcel tinha em seu dorso as assas aladas que o faziam voar. E Odete até mesmo pensava:
--- Voar para aonde, cavalinho? – perguntava a mulher com um leve sorriso no rosto e os olhos cheios de ternura.
Em meio dessa afeição, Odete voltava a guardar o seu cavalo alado, sonhos de uma pura criança cujo tempo não apagara jamais. Em uma estante primorosa existente na sala de entrada, lá estava o cavalo alado como a contemplar a todos os que chegassem ao apartamento da bela e sensual mulher onde a idade não aplacava de modo algum os sonhos naturais de uma musa sempre jovem. Certa vez, alguém lhe dissera:
--- Por que você ainda não se casou? – voz de uma mulher.
--- Não pensei bem nisso ainda. Meus negócios são os estudos, o ensinar e, depois, dormir. – respondeu Odete em uma perfeita gargalhada.
Mesmo assim, Odete sentia forte atração por um jovem e garboso rapaz que ela preferia esquecer, pois ele já fora casado por uns tempos. Disso, ninguém sabia. Nem sua mais fiel amiga, pois no dizer de Odete, amigos não são amigos. Tal caso, ela sempre dizia quando a conversa se encaminhasse para tal termo. Na mesa do quarto da divina mulher havia uma porção de livros bem arrumados onde ela procurava ler com certa atenção a todos eles. Eram livros de autores da idade média. Se alguma pessoa lhe falasse de uma nova publicação sobre determinado assunto, Odete anotava em uma caderneta que a mulher sempre trazia consigo e punha de lado tal assunto.
--- Deixa pra lá. – era o que Odete sempre dizia.
Quando tal literatura estava no auge dos leitores aguçados, Odete esperava cessar para ver como é que ficava. Caso lhe desse na telha, ela voltava ao tema e em uma livraria pedia o livro para ver e assim, depois de olhar bem o seu conteúdo, ela duvidava dos acertos de tal publicação. Então não mais lhe interessava o tal assunto.
Por esse assunto Odete não fazia questão em ler alguma publicação que falasse sobre religião. Certa vez, em um colégio de Freiras, ela estava a procurar uma publicação que abordasse tal assunto. Nesse instante, uma Irmã lhe negou tal oportunidade ao lhe dizer que ela era criança por demais para ler tal assunto. Odete se aquietou e com pouco tempo depois ela pediu demissão dos estudos naquele Ginásio. O seu pai, nesse tempo, veio lhe perguntar por que Odete estava sentida com os ensinos do Colégio. Ela respondeu sem medo de errar:
--- As Freiras são umas burras! – respondeu a jovem com uma cara trancada.
Com isso, a jovem moça se tornou jovem mulher e se revolveu uma pessoa amarga com o ensino de religião, qual fosse à crença, não respeitando o ensino piedoso que se fazia como sendo obrigatório nos estabelecimentos de educação. Na sua sala de visita tinha uma frase feita em metal bem amplo onde se podia ler.
--- “Respeite-me, pois eu te Respeito”.
Tal pensamento era o de Odete. Porém, a frase ficava muda em cima da estante de livros onde todos podiam ver tão logo entrasse em seu apartamento. Em seu lar, poucas pessoas tinham acesso, pois a jovem mulher de apenas trinta anos queria ter toda a privacidade possível que se pudesse ansiar. No birô de entrada do prédio onde dormia um velho porteiro, havia instrução para que ele não fornecesse informação de que Odete estava em seu apartamento. Apenas algumas pessoas já bem afeiçoadas de Odete, poderiam ter o acesso desejado.
Certa, ao consultar a lista de atrações dos cinemas da cidade, um título lhe chamou melhor atenção. Estava programado para aquele dia o filme “Aonde Vai A Chama”. Tal título chamou a atenção de Odete. Sem ter nada para fazer, ela preferiu assistir ao espetáculo. Ela assistiu ao filme sem nada comentar. Nem ao menos que pudesse dizer se era bom ou ruim. Aquele era um sinal de atenção por parte de Odete. Atenção por qualquer episódio. Era noite de tempo nublado. Com isso, Odete pegou um taxi e voltou para o seu apartamento. Sobre o filme Odete nada quis comentar.
O tempo passou como todos os tempos passam. Certa vez, uma sua companheira de ensino, não se sabe por qual motivo, teceu comentário a respeito de tal aludido filme. A mulher elogiou por demais a atuação dos atores. Ao ser perguntado por sua companheira se tinha visto a cessão de cinema, Odete disse que sim, e nada mais. Por conseguinte a companheira de Odete não fez maiores comentários. E o assunto terminou nesse ponto. A jovem mulher Odete não costumava comentar sobre algo que gostasse ou não. Ficava sempre muda.
O relógio já estava marcando às sete horas da manhã quando Odete pegou um taxi para que a levasse até o aeroporto. Nesse, momento, em seu apartamento, o telefone soou com insistência. Quando terminou a chamada, o telefone desligou, ficando mudo. Ao compasse de espera, o telefone voltou a chamar novamente. Isso se deu por três vezes. Nesse momento, Odete já estava no aeroporto na fila de espera. Em pouco tempo, ela embarcou em uma aeronave que fazia vou regular para o local que Odete se encaminhava. Uma hora de vôo. Ao chegar no aeroporto, um moço estava a lhe esperar. Ela até estranhou. Porém, disse ao rapaz para que levasse a maleta onde estava o cavalo alado. O rapaz disse que sim e perguntou:
--- A senhora recebeu um telefonema? – perguntou o rapaz.
--- Não. Por quê? – indagou Odete.
--- Era de sua mãe. – respondeu o rapaz.
--- Ah bom. O que ela queria? – indagou Odete meio despreocupada procurando arranjar tudo em uma parte trazeira do taxi que a levaria a sua casa de campo.
--- Foi do seu pai. – redargüiu o rapaz.
--- Que é que tem meu pai? – inquiriu Odete assustada.
--- Ele morreu. – respondeu o rapaz.



domingo, 21 de março de 2010

LUZ DO SOL - 61

- AO LUAR -

- CONTO -

Corina estava completamente nua. A beleza do seu corpo enchia de perplexidade os demais corações. Ela era exuberante e plena como jamais alguém vira uma jovem igual tão cheia de encantos. No esmero do seu enlace, Corina delineava em hábil corpo de mulher menina a sedução esmerada e cheia de candura. Dalmo, o seu eterno amante sentia ciúmes a todo instante ao ver a sua airosa dama ao sabor do tempo como sendo um crepúsculo de sol ardente no inicio do luar. A insatisfação de Dalmo era o prazer de Corina cheia de doçura. Em outros tempos, Dalmo não teria ciúmes de qualquer outra amante que com ele conviesse na alcova do prazer. Porém, ao ver aquela infante despida, ele jamais teria sentido algo tão irradiante como estava a ver a meiga criatura. Por vezes, o homem queria se sentir o dono absoluto daquela dama, não importava o preço a pagar. Mesmo assim, Corina não tinha preço. A sedução encarnada no seu esplendor era o valor que cabia aos homens amantes do seu sexo.
Acalentando sublimes encantos, Corina cobria plena astucia aqueles que eram os seus amantes da esplendorosa semideusa. O valor de uma noite de ternura não havia preço para a musa. Deixando-se enlevar pelo encanto dos compassivos amantes, Corina dormia ao luar a plena luz das amadas estrelas. Era esse o preço da ingenuidade que a musa estabelecia para os seus notívagos enamorados. Ao sabor dos eternos encantos delirantes dos que a procuravam, a semideusa do alcoice em nada deprecava. Ao contrário da diva, o homem que era o seu amante, subia aos céus de tanta ira que ocultava em seu coração. Noites extenuantes eram aquelas em que Dalmo tinha que se aquietar enquanto a sua deusa ao sorriso de total deslumbrante amor, deixava ao sabor dos acasos o sofrer do seu amante.
Certa vez então, o homem amante, levantou dos seus míseros aposentos já por demais instantes de ódio e empurrou a porta da alcova nupcial onde estava Corina e, então não suportando o declínio da sua vida, golpeou a musa com empuxos certeiros e mortais de uma espátula onde a diva, debruçando a qualquer forma não aplacou a sanha do embrutecido amante. O homem que estava com Corina nos seus aposentos, vendo a fúria criminosa do amante, largou de tudo e correu pelo corredor alpendrado, apenas de cueca e segurando o lençol para encobrir outras partes, enveredou por entre as cadeiras e sofás até alcançar um local pleno e seguro. Aos gritos, a mulher acordou todo o ambiente, onde as damas dormiam ou acariciavam seus pares com paciência. Foi um extraordinário alarido que se ouviu por toda a parte. Após o desfecho fatal, onde não mais havia forças por parte da ninfa, o homem se levantou e saiu correndo com medo do que acabara de executar.
Nem por isso o tal elemento foi muito longe. No meio do caminho, a entrada do bordel, um segurança o atracou de forma viril e, aos desesperos do facínora, um tiro se ouviu espocar. O segurança disparou um tiro certeiro na mama de Dalmo que esse caiu aos estertores da morte. Acabara-se assim, uma contenda entre dois amantes ao custo da vida de cada um. Dalmo matou Corina e em seguida, um segurança do lupanar igualmente executou Dalmo. A morte de ambos os amantes levou o desassossego para todo o ambiente. Ninguém saberia dizer ao certo quem tivera a culpa. Todos sabiam que Corina era uma prostituta, mulher de aluguel. Todos. E Dalmo era o seu amante. No entanto, ele não se conformara com a ausência da mulher. O porquê do caso ninguém sabia dizer.
O tempo passou e o fato foi logo esquecido. Uma vez, ao se deitar na cama para negociar o sexo, uma nova meretriz foi tomada de surpresa com o vulto a passear pelo quarto. O homem que estava com a dama nada viu. Ela também não comentou. Apenas perguntou ao cavalheiro se vira algo dentro da alcova. O homem deu não como palavra final. Porém, ao fazer sexo com o seu parceiro, a nova dama avistou no espelho menor da cama, onde ficou seus pés, uma nuvem de forma branca que por alguns minutos tomou o vulto de uma mulher. E esse vulto sorriu para a nova prostituta e então se voltou para a porta, buscando a saída. A jovem ficou de olhos bem abertos para ver a sombra da mulher. O homem que estava com a jovem, era o único a fazer esforço para ter o sexo. A jovem ficou aturdida com o que acabara de ver na alcova de núpcias. De imediato, a ninfa se levantou da cama e saiu correndo, desesperada pedido por socorro. Mesmo assim, ninguém vira a dama que aparecera naquela alcova.
Mesmo assim, todos os que moravam no lupanar diziam ser a alma de Corina que continuava ali andando de alcova em alcova a procura do seu amante Dalmo. Esse, nunca pareceu pelos quartos de alcova. Vozes e gemido alguém ouviu de certa vez como sendo de alguém que estava morrendo. Mas o vulto ninguém viu. Apenas Corina continuava a passear pelas alcovas. Em noite de lua cheia, era bem mais fácil se ver Corina perambular pelos quartos do lupanar. Tempos depois, em um dia comum uma empreiteira demoliu os escombros do pardieiro que abrigou por vários anos aquele lupanar. Certa vez, um operário viu tal visagem se aproximar dele e com muito carinho lhe disse.
--- Esse canto, não. Esse canto ainda é meu. – disse a visagem
Após dizer isso, sumiu. Ouve certo murmúrio em torno do assunto e os trabalhos do edifício pararam. E nunca mais alguma pessoa colocou uma pedra no espaço que a alma falou ser dela. Ainda hoje está a construção paralisada, com tais comentários dizendo que ali é o terreno da alma. Até mesmo quem caminha pelo local da construção paralisada diz ter visto uma alma toda de branco, bela, muito bela, passeando para um lado e para o outro. Um motorista chegou a dar uma carona a uma bela mulher que ao chegar à chamada construção disse a ele.
--- Eu fico aqui. – e desapareceu.




sábado, 20 de março de 2010

LUZ DO SOL - 60

- CALMA NOITE -

- CONTO -
Naquela noite calma estava Amanda enciumada com seu amante, por isso mesmo, bebendo igual uma louca pensando no que poderia fazer quando Heitor chegasse para apenas dormir. A mulher ainda jovem tinha cerca de trinta anos e estava neste desamor há algum tempo desde que o seu amante se meteu com as damas da noite de outros bordeis. Na verdade, o que ela sentia era o desprazer por parte do seu homem. Os dois, no seu começo de vida, estiveram plenos de felicidade, onde a praia era o principal desfrutar do amor eterno. Porém tal fato já fazia anos. Amanda, como todas as outras mulheres que freqüentavam o bordel já bebia naqueles idos tempos. Depois veio um período de alegria onde os dois amantes eram puro amor sem nem mais beber como antes. Contudo, tal estágio da vida durou pouco. Notadamente Amanda trazia o seu copo de bebida às escondidas de Heitor para poder delibar quando o homem não estivesse em casa, um apartamento que tinha a frente para o mar, logo no recanto aprazível da cidade. Dos apartamentos vizinhos se ouvia o clamor da gente moradora a teimar sobre qualquer assunto no decorrer do dia ou da noite. Crianças aos berros, jovens em discussão, adultos em desespero. Todo isso levava a Amanda a se recolher de forma que deixasse de ouvir tais más criações dos vizinhos. Com o tempo passando, ela voltou novamente ao bordel onde tudo se ajeitava com um gole de uísque.
Em torno do bar havia os que a consideravam, pois sabiam que Amanda não era de sair com mais ninguém. Outros, porém, desconhecidos até, cortejavam a dama na tentativa de um pouco de amor fugaz. Em tais casos, Amanda dava de imediato o fora e ficava quieta em seu ninho de solidão. Quando estava já por meia noite, o sono lhe aplacava e Amanda findava por dormir, deixando o copo cair sobre o seu vestido. Com as vestes desabotoadas, ornamentos de ouro a lhe enfeitar os braços, relógios e anéis pouco importava para a soberana mulher que desejava apenas o seu homem. Na banqueta ao lado, ficavam as chaves do quarto de bordel e outros adornos que Amanda sempre deixava permanecer por todo o tempo que lhe soasse. No seu intimo quarto de bordel, de tudo Amanda incluía ao seu bem estar. Porém, nada do que se expunha continha alguma importância para a mulher. O homem que lhe fazia falta, esse estava perambulando por outros lupanares nos braços de mais alguém.
Ao dormir no salão do bar, a figura de Amanda deixava notar que a mulher já perdera todo o seu viço e seu homem talvez não a quisesse jamais, tal o motivo de estar tão desencantada de seu majestoso caráter que sempre teve. O seu luxuoso apartamento continuava fechado para a estranheza dos seus vizinhos. E ela não se importava com tal ocorrência. No bar do bordel por menos luxuoso que fosse ali era o seu lugar. Quando ainda era uma jovem bem moça, ela encontrou nos alcoices o seu verdadeiro e agradável lar, pois foi ali que ela teve as amizades mais sinceras que poderia conter. Com isso, Amanda encontrou também o seu amado Heitor. Eles viveram dias de gloria com festas regadas a caviar e uísque em seu apartamento a beira mar. Logo depois veio o declínio. Heitor se aproximou de outras mulheres, como era o seu jeito de ser e vagou para longe ao desprazer de sua amada.
Naquela noite cruel, Amanda agarrou no sono tendo sido levada para o seu quarto por uma camareira que fazia a vez de socorro da fêmea doida por causa do afeto perdido. Foi quando entrou em seu quarto daquele exuberante lupanar, que a camareira notou um movimento grosseiro por sob as cobertas do velho leito. Ali estavam Heitor e outra mulher a se agasalhar como seres perdidos em uma noite sem luar fazendo da alcova o seu bem estar de majestoso prazer. O homem foi tomado de surpresa com a entrada da camareira arrastando Amanda àquela hora da madrugada. Então, sem nenhum acanhamento, perguntou a mulher:
--- Que estás fazendo aqui dentro? – vociferou o homem.
--- Trazendo Amanda que estava a dormir na saleta do bar. – rebateu a mulher.
--- Não tem outro canto para levar? – indagou o homem inquieto e completamente despido procurando se arranjar de qualquer modo.
--- Esse é o quarto dela! – replicou a camareira um tanto desaforada.
--- Ora merda! Vou pra outro quarto. – articulou Heitor ao se levantar com uma das mulheres do lupanar.
--- Espere. O senhor vai por na cama a dona do quarto! – predisse a camareira já um tanto aborrecida.
--- EU? – indagou Heitor.
--- O senhor sim! Quem come paga! Unf !!! – reclamou a camareira agora desaforada.
Depois de tais altercações, Heitor pôs Amanda no leito já um tanto desarrumado por estar sendo usado por longas horas pelo amante da mulher que dormia a sono solto por conta da forte bebida que havia ingerido. Quase inteiro despido, enrolado apenas com o lençol da cama, Heitor fez de tudo para deixar Amanda a dormir. A outra dama da noite que esteve com ele até àquela hora, escapou bem que depressa. Ela não desejava ser aborrecida pela camareira. Envolta em uma toalha de felpo correu pelo corredor da casa até encontrar um quarto desocupado onde pudesse se agasalhar. Em poucos instantes, Heitor também chegou para continuar com os seus encantos que de antes fora interrompidos.
Logo pela manhã, por volta das nove horas, Amanda acordou de seu sono eterno e aos poucos foi tomando conhecimento do lugar em que estava posta a dormir. Ela olhou em volta e viu, entre outros objetos, a gravata de Heitor, um sinal de que ele esteve ali a certas horas da noite. De vagar, perambulando, cambaleando entre os moveis do ambiente, Amanda chegou até a porta do seu quarto de alcova, olhou em torno e não viu ninguém. Mesmo assim, caminhou tropeçando ao longo do corredor, procurando outro quarto onde pudesse estar à velha camareira e perguntar por Heitor. Em um dos últimos aposentos, ela abriu e viu aquela montanha de corpos desnudos a dormir a sono solto. Amanda abriu e fechou os olhos para entender o que estava vendo afinal. Por fim, notou a presença do seu bem amado homem que estava ali a dormir em companhia de outra dama. Ela resolveu sair quando notou uma espátula sob a lareira. Amanda teve uma idéia. Foi até a lareira, pegou a espátula e fincou no peito do seu amado homem. Este se levantou pela dor que lhe causara tal instrumento de corte e olhou em torno do ferimento que jorrava sangue aos borbotões. Heitor teve tempo apenas de soltar o grito e dizer em seguida:
--- Estou ferido de morte, Amanda. – proferiu Heitor.Depois caiu nos estertores da morte. Foi esse o fim do encantado amante de Amanda.


sexta-feira, 19 de março de 2010

LUZ DO SOL - 59

- NOVO AMANHECER -
- CONTO -

O domingo era um dia de descanso, lazer, praias e campos. Passavam das oito horas da manhã e Guacira estava toda arrumada com um vestido branco, decote amplo, cabelos curtos como sempre, olhos de amêndoas, nariz afilado, sobrancelhas arqueadas, boca de carmim, seios arqueados. Guacira não usava adornos em seu esplêndido corpo de mulher fatal. Nem mesmo um simples brinco. Ela era toda feita de extrema doçura. E se Deus lhe fez assim, era assim que ela se comportava com o seu vestido arredondado pouco mostrando as suas pernas alvas e belas. Como era um dia de domingo, nada restava a fazer do que ir à casa de seus pais. O seu pai era um velho fazendeiro que, apesar da idade, ainda assim cuidava do plantio das rosas com cuidado e esmero. No oitão da casa, em um alpendre, sempre estava sentada em uma espreguiçadeira à mãe de Guacira, cuidando do bordado de uns panos de prato. A morada era uma chácara perdida no sem fim de uma estrada que cruzava a rodovia que conduzia ao interior do Estado. Na chácara moravam os pais de Guacira em companhia de uma das irmãs da família de oito filhos. Guacira era a filha do meio, havendo dois mais velhos e outra, também mulher, que era casada de morava no exterior. A que estava na casa dos pais era a filha mais nova que já namorara e vivia só, levando a vida que Deus lhe deu. Na chácara, tinham ainda mais empregados, quase todos tomando conta do gado e dos cavalos, éguas e outros animais menores. Das galinhas, patos, gansos e até mesmo pombos existentes do amplo quintal da chácara, que cuidava era uma meninota, mocinha por assim dizer, filha de um casal que cuidava do leite do gado. Na invernada, o tempo fechava e os morros existentes bem para trás do casarão agüentavam os estrondos do trovão e os açoites do relampear. A mãe de Guacira, nesse tempo, não saia de dentro do casarão. O velho pai ficava sozinho a contemplar a zoada do trovão e o descer do aguaceiro que formava um rio pelo lado esquerdo da casa em que ele morava.
Ao se perguntar se o velho não queria ir morar na cidade, ele respondia que:
--- Não. Aqui é muito melhor. Na cidade só tem desconforto, - respondia o pai de Guacira, resmungando por fim.
Porém, no tempo do verão, quando a seca esturricava tudo, o velho voltava a dizer que a vida da capital era bem melhor. Era assim que se vivia no interior, no meio do mato, terra distante, bem distante mesmo. E naquele domingo, Guacira, já viúva e que não mais desejava casar, apesar de sua pouca idade de vida, cerca de trinta anos, viajou para o interior. Arrumou-se toda, pegou a bolsa, a chave do carro, examinou os pneus, deu partida e embarcou na estada sem fim. Em sua cabeça, os pensamentos vãos de como deveria chegar sem ter nada para levar de presente. Por isso, logo de saída estacionou seu carro em um supermercado e comprou algumas lembranças para os seus velhos pais além de uma gargantilha para a sua irmã mais nova. De posse de tais presentes, Guacira continuou o seu percurso anotando o velocímetro para ver se chegava bem antes das dez horas, com certeza. O trafego estava tranqüilo na rodovia àquela hora da manha de domingo. Um ou outro veículo que cruzava o seu carro, buzinando sem necessidade. Guacira trancara os vidros das portas do seu automóvel, para evitar a entrada de algum inseto forasteiro, próprio do mato que voava de um lado para outro se enfiando nos caros que costumavam viajar com seus vidros de proteção das portas completamente abertos. Bem mais adiante, na rodovia, uma ambulância e dois carros da Rodoviária Federal. Guacira notou que ali havia algo muito serio, pois a rodovia de volta também estava interrompida. A mulher trafegou com vagar, beirando a estrada para logo após a Guarda Federal mandar para o seu veículo.
Tão logo a mulher parou vieram os meninos de estrada oferecendo guloseima para comprar e ela não quis. Apenas perguntou a um dos meninos o que estava havendo no meio da estrada, pois não podia seguir.
--- Acidente! – respondeu o menino.
--- Saiu gente ferida? – perguntou Guacira.
--- Tem dois mortos e quatro feridos. Foi batida em dois carros. – respondeu o garoto.
Então, Guacira destrancou a porta do seu auto e rumou para ter uma conversa mais de perto com a Guarda Federal. Essas estavam completamente cheia de serviço, com o parar dos autos que vinham e deslocando os motoristas para um lado da pista enquanto outros Guardas faziam o mesmo serviço pelo outro lado da rodovia. Depois dos cumprimentos cordiais, a mulher perguntou:
--- Como foi? – indagou Guacira.
--- Acidente com dois carros. – disse o guarda aperreado em por em ordem o trânsito de veiculo no local, apitando a todo instante como sua pose de guarda.
Sem medo de olhar de perto, Guacira foi até mais próximo da ambulância onde os maqueiros colocavam uma das vitimas em seu interior e buscavam outra vítima para poder sair no local imediatamente. Os demais feridos já tinham sido transferidos para o hospital da cidade próxima e o monte de carro estava espalhado pela rodovia onde não se distinguia nem mesmo a aparência dos veículos. Com certa precaução a mulher verificou o estado dos automóveis, levando um bom tempo para tal. Depois de um bom período, a Guarda Federal começou a desobstruir o trafego na rodovia sendo a vez de Guacira a se dirigir com o seu automóvel ao seu destino. Ela ainda olhou o monte de ferragem retorcida e fumegante no chão em meio de um numero impressionante de gente moradora no vilarejo existente no lugar. Sem mais nada a fazer, Guacira seguiu viagem delirando que um novo amanhecer para aquela gente morta no acidente não deixara de ser um velho roteiro em suas viagens pelo nefando interior do sertão. E não seria aquele o único acidente que haveria de ter numa manhã de domingo. Outros então teriam que vir para o desconforto dos familiares das vitimas iguais aquelas que já nem podiam mais derramar lágrimas.

quinta-feira, 18 de março de 2010

LUZ DO SOL - 58

- PARA TODO O SEMPRE -

- CONTO -

Quando o relógio marcava ás sete horas da manhã, Adelaide já estava a caminho do trabalho, pois o seu transporte gastava cerca de uma hora para chegar ao seu destino. A brisa da manhã soprava leve como a pluma, deixando a jovem moça a sonhar acordada entre outros passageiros já suados e viajando em pé, de qualquer jeito. A moça pegara o ônibus em seu inicio de percurso, distante da cidade e tinha que caminhar por todo esse tempo entre alvoroços e choros de crianças que as suas mães costumavam levar logo cedo para, talvez, um consultório médico, pois daquele lado da cidade não havia hospitais, pronto-socorro ou mesmo médicos. Uma criança chorava ao desespero ao pé do ouvido de Adelaide que findou por perguntar a mãe do menor.
--- O que ele tem? – falou com suavidade a jovem Adelaide.
--- Dor de ouvido. – respondeu a mãe da criança de um ano.
--- Tadinho. O medico nunca olhou? – perguntou Adelaide.
--- Ele tem sempre isso. O medico receitou certa vez um remédio, mas eu perdi a receita. – disse a mulher quase chorando.
--- Pois vá hoje mesmo com o seu filho. – falou Adelaide.
--- É meu sobrinho. A mãe se largou no meio do mundo. Deixou a criança comigo. – respondeu a mulher.
--- Coitado. Ela deve ter arranjado um trabalho e não pode vir em casa. – respondeu Adelaide.
--- Eu sei qual foi o trabalho! Ela quer fazer o que não presta. – reclamou a tia do menino.
Acalentado a criança nos braços, fazendo sossego de todo modo, mesmo assim a criança não suportava tamanha dor de ouvido, chorando aos berros por todo o caminhar que fazia. Com o desespero do pequeno, Adelaide pediu, por favor, a criança para ela ter nos braços e de certo modo acalentar. A pobre tia deu a criança muito embora temesse que a moça levasse consigo aquele menino, como era costume fazer com muitas crianças que existiam na cidade.
No entanto, Adelaide fez o caso por compaixão. Ela já acalentara outros filhos de suas irmãs com tais sintomas de dor. Com certeza, o descuido da tia teria deixado a criança ao relento ou mesmo não tinha limpado os ouvidos daquele bebê após o banho, o mesmo qualquer outra coisa. Com poucos minutos, o menino parou de chorar e se pos a dormir no colo da doce e meiga Adelaide. Ela notou o quando a criança dormia em seu colo e logo chamou a atenção para a tia que a crianças estava cheia de gases, pois sentira o espocar em seu braço dos “tiros” que o bebê fazia a todo instante. E disse:
--- Ele está com gases. – falou Adelaide.
--- Toda vida tem isso. – reclamou a tia da criança.
--- É bom a senhora fazer um chá de cidreira quando for por para dormir. – falou a moça com ternura.
--- Eu já fiz. Uma vez. Ele até que melhorou. Mas tenho os meus e não sobra tempo para cuida dos filhos alheios. – reclamou a tia do bebê com o rosto retorcido.
--- Mas deve fazer. Não custa nada. É até bom para os seus filhos. – disse a moça com brandura e afeição.
--- É. Vou fazer. Mas agora tem o ouvido. Ele chora demais por causa dos ouvidos. A noite toda é assim. Aquela destramada da mãe nem quer saber do filho. – reclamou a mulher.
Com isso, Adelaide sorriu. E olhou para o bebê vendo se ele estava dormindo, com certeza. O ônibus corria célere como uma tempestade, abrindo caminho no meio do transito pesado feito no percurso já ao longe de onde Adelaide morava. Em meio ao tumulto de gente feito no interior o ônibus, Adelaide foi tomada de surpresa quando a mulher lhe perguntou:
--- A senhora me faz um favor? – perguntou a tia do bebê de modo baixo.
--- Pode dizer! – confirmou Adelaide.
--- Fique com esse pirralho. Eu já vi que ele se dá muito bem com a senhora. Fique. Faça essa bondade. Eu jê tenho demais. – falou a tia do bebê.
--- Eu não posso dona. Eu trabalho. O dia todo. A criança precisa de um médico. Não sou eu quem pode curar a criança. Tem remédios. Se não fosse isso, eu gostaria até mesmo de cuidar do bebê. Mas a questão é que eu não posso. – disse com calma Adelaide procurando se safar de tal situação constrangedora.
--- Tá bom. Deixa mesmo que eu fico com esse “entulho”. – respondeu a mulher um tanto mal criada.
O ônibus chegou na parada final onde as duas passageiras tiveram que saltar. Adelaide seguiu para o seu trabalho em sua repartição e a mulher tomou rumo desconhecido, talvez para consultar um médico. Adelaide lhe entregara o garoto ainda quando estava no ônibus e a mulher nem sequer agradeceu pelo prestimoso favor que a moça lhe fizera. Isso também não teve a menor importância para a jovem moça. Ela apenas rezou para que a criança tivesse um melhor cuidado do que estava tendo. Após um breve instante, Adelaide atravessou a rua e caminhou para a sua repartição onde tinha vários processos a examinar: transferências de alguns servidores, pedidos de aposentadorias de outros, atestado de saúde de alguns. Sempre o mesmo expediente de sempre. Ela a consultar o seu chefe ou mesmo fazer sem consultar, pois era costume seu de fazer o encaminhamento de tais processos.
Quando era quase na hora do meio-dia, um cidadão da repartição se aproximou de Adelaide, dizendo:
--- Dona Adelaide. Tem uma encomenda lá fora para a senhora. – disse o servidor público à moça.
--- Pra mim? Mande deixar aqui. – respondeu Adelaide como a cabeça ardendo de processos para despachar.
--- É bom a senhora ir ver. – replicou o servidor.
A moça levantou do seu canto no birô da sala e caminho acompanhado o servidor. Ao chegar ao seu destino, estava lá o pacote. E dentro dele, a criança. Da mulher, nem sinal. Havia entregado e desaparecido. Algo como se diz: um presente para todo o sempre. A jovem moça quase desmaiou com tal presente. A criança estava dormindo embrulhada em rolos de panos. No seu embrulho, um bilhete: “Para a senhora”.
--- Pra mim? – respondeu Adelaide.

quarta-feira, 17 de março de 2010

LUZ DO SOL - 57

- A DEUSA CAÍDA -
- CONTO -
Com o passar do tempo Hermógenes não sabia por que se lembrava tanto da deusa caída um dia a seus pés. Talvez tivesse sido por um acaso que levou a senhora do destino a se mostrar como uma sedutora mulher que somente indicava seu ser de terna redoma de amor perdido. Modesta no seu andar, porém quente no seu amar Luísa era quem todos a procuravam para satisfazer suas necessidades sensuais ou quase isso. Não raro, Luísa estava aos pés de Hermógenes, suave e sem preconceitos a pedir um pouquinho do seu verdadeiro amor. O rapaz não dava a importância devida aquele gesto que Luísa fazia, pois com outras deusas ele teria o mesmo gesto sedutor. Mesmo assim, a deusa não queria saber de outras mulheres. Apenas ela era o bastante. À noite, quando tudo era silencio nas ruas próximas, o bordel se enchia de gente, como moscas procuravam a luz difusa do abajur. Eram noites de inquietação para todas as damas da noite. A meia-luz que fazia o salão de baile enchia de prazer às notívagas damas que por todo o canto do luxuoso bordel queria um pouco de amor ao sabor de algum dinheiro em troca. Eram quase todas do mesmo jeito. No salão grená havia a executar boleros tão velhos como o tempo, tristes e adormecidos, embalando os sonhos de quem não teria sono, uma vitrola gigante a despejar seus ruídos sempre ao jeito de quem pedisse. Aquilo era o máximo do prazer estonteante para os seus freqüentadores. Nada além do que se ouvia, carecia de embrulhos do destino. E nesses recantos profanos estava Luísa aos pés de seu amante a desejar um pouco de amor, um sortilégio de prazer ou artimanhas de feitiços.
--- Você é o único amor de minha vida, querido. – dizia Luíza a seu amante.
--- Deixa de besteira. Vai trabalhar que é melhor vadia. – respondia Hermógenes.
--- Juro meu eterno amor. Juro por Deus. Somente você eu tenho em meu coração. – lacrimejava Luíza.
--- Levanta desse chão ou de espanco. – ameaçava Hermógenes.
Com essas palavras o home se levantava da poltrona já um tanto desajeitada, pois afundava no meio quando alguém se sentava. Ele caminhava até o balcão de serviços onde pedia mais uma dose de uísque. Em volta de si, estava à deusa derradeira a lhe olhar fiel, com a face plena de felicidade como nenhuma outra seria capaz de fazer tais artimanhas de desejos.
Hermógenes voltava ao seu antigo local onde tudo sempre começava com Luíza a seus pés a fazer-lhe carinhosas malícias de afetuosos desejos onde se esbanjava um amor incontido. O rapaz não queria Luíza por ter sido fácil de conseguir o seu amor. E desse modo, o amor era até demais, sem se mostrar a verdadeira razão. Ciúmes eram plenos como a marca da deusa de prender aquele coração rebelde. Ouvia-se chorar e gritar até para ter um pouco daquele acalanto sentido que o jovem mancebo não desejava manter para sempre. Quantas vezes Hermógenes a mandou embora ao contrário da deusa teimando em ficar. Era inútil para Hermógenes ampliar os seus desacertos para com aquela deusa. A jovem mulher sem amor ou qualquer carinho queria apenas ficar aos pés do seu amado e nobre homem. Quando a noite passava, as mulheres com seus parceiros entravam para dormir em um quarto de bordel. Eram quartos coloridos de adornos sutis, tendo uma luxuosa cama de casal com seus véus, um sofá bem conservado, tapetes coloridos pelo chão, um lavabo e em um canto detrás de uma segunda porta o aparelho sanitário para os doutores dos prazeres e da sedução usar quando precisassem. Enfeites pendurado por todos os recantos das paredes forradas de alcatifas. O tom avermelhado permeava todos os quartos do bordel. Com todos os seus requintes ornamentais, tinha ursinhos de pelúcia e adorno de fotos gigantes de mulheres exuberantes belas e eternamente nuas. Nesse ambiente puro divinal ou demoníaco, era o recanto do prazer dos enamorados.
A hora do repouso era chegada e as plenas deusas estavam já acompanhadas de seus amantes da noite. Apenas Luísa continuava a olhar de modo inquietante o seu amante e senhor para o qual não havia outro homem qualquer capaz de seduzi-la por inteiro. De moedas, ela não desejava ter. Queria apenas um pouco de afago quente que o homem poderia dar-lhe. O som do relógio Kuko que estava pendurado na mureta do bar, já indicava uma hora da manhã. Havia movimento por parte dos ébrios e de Luísa que se tornava um pouco incomoda para Hermógenes, jovem rapaz acostumado a manter seu costumeiro importuno amor às deusas dos acanhados quartos do bordel. Quando a madrugada rompeu, Luíza, embriagada por vinhos, uísques e vodkas adormecera por sobre o divã, pois o sono não lhe dava forças para continuar. A sua resistência chegara ao fim. O rapaz se viu livre daquele embaraço e deixou Luíza a dormir serena, pois sabia que no dia seguinte ela estaria livre de qualquer ressaca das bebidas, quando o dia já tornava por volta das onze horas.
Hermógenes saiu do local para dormir no quarto reservado a Luíza e ali caiu no sono também embriagador, pois o rapaz bebera assombrosas quantidades delinqüentes de doses de uísque naquela noite. No quarto do bordel, o jovem adormecera e nem sequer notou a presença de Luiza que chegara um tanto embriaga e procurou o homem que ela tanto amava.
--- Querido, estás acordado? – indagou a deusa.
A resposta não se deu. Hermógenes dormia a sono solto. A moça então procurou um local mais quente junto a ele para poder dormir também. Os seus seios mornos e descobertos atraiçoaram o nobre amante. Porém, era tarde da madrugada e ele nem sabia que a mulher, a seu lado enveredava por todo o seu amor fazendo com ele o que as musas orientais costumavam praticar. Naquele instante, Luisa em nada acreditava que o amor naufragado de nada adiantava. Ela cantava desentoada e baixa, palavras em desalinho como quem diz de que um presente delirante e belo tinha ganhado para a sua afeição, pois diante do universo, no céu de sua vida aquele amor surgiu. Os toques dos pratos no bar diziam que era à hora de todos dormirem, pois o ensejo do porvir era a marca inenarrável dos momentos de alegres desencantos. Um barco soou seu apito dizendo que estava partindo para o mar bravio. Uma locomotiva buzinava para mostrar que já estava chegando ao mercado onde se vendia de tudo. Balaieiros estavam acordados conversando com feirantes o que tinham a fazer naquele dia que se aproximava. A vida começava a tremer na rua e no quarto do bordel, as deusas dormiam serenas como se não houvesse rumo a tomar. Algum choro de criança se ouvia ao longe, baixinho quase não se notando. Um homem acabara de entrar no banheiro do bordel. Tudo enfim, era outro dia.

terça-feira, 16 de março de 2010

LUZ DO SOL - 56

- DALIA -
- CONTO -

Era o mês de março, tempo quente, quase não ventava por esses lados do norte, gente a trabalhar, autos cheios fazendo o percurso da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Às 6 horas da noite, o tumulto era ainda maior, pois na cidade havia apenas duas saídas para o trabalho e para casa. Depois das 8 horas da noite, era maior a tranqüilidade no andar, pois os veículos não eram tanto assim como nos horários de costume de segunda-feira ao sábado. O domingo era calmo. Não raro, havia maior movimento em direção às praias, pois nesses locais havia maior burburinho de gente, na sua maioria, bêbados quando chegava o anoitecer. E nessas ocasiões, estava em seu apartamento a jovem Dália, olhando o movimento de gente e de carros bem longe dos que passavam indo ou voltando. Em seu lugar de descanso, Dália tinha o seu gabinete de trabalho onde fazia os seus afazeres cotidianos ou mesmo as suas refeições, assistir televisão ou apenas dormir quando o sono chegasse, por volta das onze horas da noite. Desse modo, vivia a moça fazendo seus afazeres diários quando não estava a conversar com alguém ao celular onde Dália passava horas e mais horas trocando idéias, ouvindo o que os amigos tinham a dizer ou, ao menos, falando com os seus pais, irmãos e irmãs.
Quase sempre aparecia em seu apartamento o seu amigo Gabriel, jovem rapaz de seus trinta anos, solteiro, pois nunca casara até aquela data. Caso ele tivesse alguma namorada, não falava em tal coisa. E muito menos Dália perguntava a Gabriel a esse respeito. As visitas de Gabriel eram apenas de amizade quando ambos falavam de negócios passados no tempo em que eram estudantes na Universidade onde eles freqüentavam o mesmo curso e por isso trocavam idéia do que estava certo ou errado em um projeto de arquitetura. Às vezes, Gabriel aproveitava o tempo para dormir em um amplo quarto de vistas enquanto Dália caminhava para os seus aposentes. Por um certo motivo que Dália não queria dizer o seu apartamento era bem amplo, cobrindo um andar inteiro como os outros apartamentos do mesmo estilo existentes no prédio de vinte andares. Ela ocupava o décimo terceiro andar, pois havia gente que habitava os andares mais a cima do seu.
As cartas do correio ficavam com a portaria e Dália solicitava quando chegassem para remetê-las para ela, coisa que nem precisava, pois o porteiro do prédio já sabia o que fazer e quando havia correspondência para a moça, ele mesmo as entregava a domicílio, caso todo especial que o porteiro fazia apenas para a jovem, pois o caso dos outros tantos inquilinos, tais correspondências ficavam sempre guardadas no próprio balcão de recepções. Em plena e tranquila noite de estio, alguém tocou a campainha de apartamento e Dália já havia sido comunicada pelo interfone se podia receber uma pessoa que não fazia parte de seu clã.
--- Quem é? – perguntou Dália.
O porteiro respondeu de forma de certo modo rápida.
--- Pode subir. – disse Dalva.
Quanto à sineta tocou, Dália já estava pronta para receber a tal visita. Era um jovem, também amigo de Universidade que achara de visitar a jovem em uma noite acalorada de domingo. A televisão que esteve ligada até àquela hora, Dália desligou. Portanto estava serena para ouvir o tinha a dizer o seu amigo Enoch, homem que se casara há pouco tempo com uma jovem de sua mesma religião, o judaísmo. Depois dos abraços e cumprimentos de costume, Enoch levantou uma história nada bem interessante. Sua esposa estava sofrendo de uma chamada Doença de Degos, muito rara por sinal. Tal enfermidade durava, para o enfermo, cerca de três anos, quando muito, podendo ser de apenas de um ano. A enfermidade atingia a pele, olhos, sistema nervoso central, sistema digestivo, cardiovascular e respiratório. A enfermidade na mulher de Enoch já atingira o movimento das pernas o que lhe causava o desequilíbrio. Ele não sabia o que fazer, pois o médico desenganara a paciente, ainda jovem por sinal.
--- É pedir a Deus que a console. – disse Dália.
--- Mas de onde vem essa doença? – perguntou Enoch.
--- Confesso que não sei. Não tenho a menor idéia. E nunca ouvira falar em tal moléstia. Podes crer. – respondeu Dália.
O homem caiu num choro profundo sem nada mais poder fazer para salvar a sua bela mulher que, por causa da enfermidade, já perdera todo o encanto. Ele soube que o mal era antigo e que somente em 1941 foi diagnosticado para ciência e para os que apresentavam os sintomas, no caso, era esperar de um a três anos de sobrevivência. Na medicina, havia pouca resposta para a origem da enfermidade. Era tudo que ele sabia a respeito da Doença de Degos, nome estranho por sinal e invariavelmente letal. Sua origem, nem os médicos da cidade sabiam dizer como se comportava. A mulher de Enoch era judia também como ele e seu casamento foi dentro dos preceitos judeus conforme manda a sua religião. Ele conheceu sua esposa e logo depois se casaram pondo o contrato conforme diz a lei judaica. Viviam felizes até certo dia em que a mulher se queixou de umas dores abdominais e, daí, veio o repentino desequilíbrio total da moléstia que logo se chamou de Doença de Degos. Sensível ao padecer de sua mulher, Enoch apenas chorava sentado no divã do apartamento de Dália.
A moça se compadeceu de Enoch e lhe pediu que a sua fé fosse mais forte do qualquer outra ocorrência. Por isso, ele não deveria chorar tanto.
--- Sabe Dália. Não é a fé. É a perda que me faz doer. – reclamou Enoch.
--- Eu sei disso. Mas não podemos fazer milagres. Só Deus é milagroso. Ele é quem pode fazer. Se Deus quiser, Ele pode. – recitou a jovem mulher.
--- Ajude-me Dália. Ajude-me. – pediu chorando Enoch, colando a sua cabeça ao ombro da bela mulher.
--- Eu te ajudo em minhas preces. É tudo que eu posso fazer. – respondeu a jovem.
Na rua, os carros passavam em célere correria, vindo da região das praias para o repouso noturno. As aves noturnas procuravam fazer o seu ninho em cima de uma árvore que havia além no matagal. Crianças brincavam lá embaixo no parque do edifício. As televisões estavam ligadas para se ouvir a contento as noticias do dia nos apartamentos visinhos. Em um bar não muito longe, havia prosa de bebedores que gargalhavam a seu bem querer. O mar batia calmo ao longe na beira da praia, trazendo o sossego para os eternos enamorados. Tudo era de pura felicidade para os notívagos pensadores do acaso. Dália rumou para a sua cozinha onde faria um chá para Enoch. Nesse instante, a sineta bateu na porta anunciando outro visitante. Era Gabriel que chegara àquela hora. Quando Dália abriu a porta ouviu de Gabriel a expressão de alarme.
--- Cuidado!!! – gritou Gabriel.
A moça voltou o olhar e viu Enoch pulando para o vazio pela ampla janela do seu apartartamento naquele momento, como se estivesse inocentando de vez a alguma pessoa qualquer coisa o que cometera.
--- Enoch!!! – gritou Dália.